Saturday, 31 December 2016

Passagem ...


Deslocados moçambicanos passam festas apenas com feijão e farinha de milho










Campo de deslocados de Vanduzi, Manica, Moçambique





Vítimas do conflito militar enfrentam incertezas em 2017 e só querem regressar às suas casas.

Milhares de moçambicanos deslocados de guerra não conseguiram um “prato de comida adequado” no Natal, como é tradicional em comunidades de Manica, no centro do país, e muitos vão repetir as festas de transição de 2016 para 2017, com feijão e farinha de milho, o único donativo do Governo.Entre lamentações do conflito armado os ter tornado mais pobres, por perdas de bens e riquezas durante as fugas para zonas mais seguras, os deslocados se desesperam com a falta de condições para prover uma festa adequada, no meio de incertezas do retorno a vida em 2017.“Quero que a situação político-militar fique resolvida na totalidade”, precisou Wilson Bande, deslocado nas tendas de Vanduzi, que se emociona ao lembrar da abundância de comida no antigo lar em Chiuala, enquanto espera um prato de xima (farinha de milho), única refeição do dia intercalado por mangas verdes.Cerca de seis mil pessoas estão em centenas de tendas distribuídas pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INCG), em cinco centros de acomodação nos distritos de Gondola, Vanduzi, Guro, Mossurize e Báruè.Elas fugiram da violência militar provocada pelo conflito que opõe as forças governamentais e o braço armado do principal partido da oposição, Renamo.

Paz e regresso à casa
“Em 2017 queremos ficar livres. Não mais passar as festas como estamos a atravessar agora, tínhamos farturas nos nossos lares estragados pelo conflito”, disse à VOA outra deslocada, Fátima Saide, junto com seis membros da família que foram forçados a se deslocarem de Ncondedzi.Com uma trouxa de mangas acabadas de apanhar numa floresta, Joaquim Inácio, deslocado há vários meses no centro de acomodação de Vanduzi, juntamente com 11 membros da família, insiste que se fosse alcançada uma pacificação do país “retornava rápido” para voltar a viver, considerando o aglomerado nas tendas uma “pobreza sofrida”.Almeida Teixeira, delegado provincial do INGC (Instituto Nacional de Gestão de Calamidades) em Manica, assegurou que o Governo providenciou alimento aos deslocados no mês de Dezembro, para as festividades, e vários donativos têm chegado para o mantimento de Janeiro.A região centro do país tem sido palco de emboscadas a alvos civis e militares que as autoridades atribuem ao braço armado da Renamo, partido que exige governar em seis províncias onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014.As forças do Governo e da oposição têm-se envolvido em confrontos, enquanto representantes das duas partes, sob mediação internacional, iniciaram um processo negocial em Maputo, sem qualquer resultado.
Trégua violada
O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, anunciou na terça-feira, 27, uma trégua de uma semana como "gesto de boa vontade" e que termina a 4 de Janeiro, mas a Renamo denunciou a violação da trégua com o assassinato ontem de um dirigente do partido em Nampula.O porta-voz da Renamo António Muchanga confirmou à VOA que José Naitela, chefe de relações exteriores do partido naquela província do norte de Moçambique, foi assassinado por desconhecidos com 10 tiros no bairro de Namutequeliua.Muchanga desconfia que tenha sido "uma acção dos esquadrões da morte que procuram eliminar membros do seu partido", mas declinou comentar se o facto irá afectar ou não a trégua, remetendo o assunto para uma análise do partido.



VOA

Uma das coisas que mais prejudica Moçambique é ter mantido o ministro Adriano Maleiane, afirma o professor António Francisco


Foto de Adérito Caldeira


Dentre os membros do Governo de Filipe Nyusi que têm se esforçado em enganador o povo Adriano Maleiane destaca-se. O ministro da Economia e Finanças defendeu as injustificáveis Garantias Soberanas concedidas ilegalmente pelo seu antecessor e, entre outras mentiras, prometeu que os moçambicanos não pagariam as dívidas da Proindicus, EMATUM e MAM e chegou a afirmar que a empresa estatal não só estava a pescar como o atum era exportado e “sem aperceber-nos nestes restaurantes aqui nós comemos”. Confrontado esta semana pelo @Verdade sobre estas inverdades o ministro Maleiane declarou “eu não disse nada que não pudesse repetir hoje”. Para o professor de economia António Francisco o governante deveria ter sido demitido, “uma das coisas que mais prejudica Moçambique é ter mantido um ministro assim”.
Questionado pelo @Verdade sobre como se sentia após várias das suas declarações terem-se verificado não corresponderem a verdade o titular do Ministério da Economia e Finanças reafirmou, num encontro com jornalistas para balanço anual das actividades, que “O que eu disse e continuo a dizer é que os estudos de viabilidade que as empresas apresentaram indicavam que era tudo viável, a fazer fé nos estudos de viabilidade”.
Embora se tenha verificado que os estudos de viabilidade apresentados pelas empresas Proindicus, Empresa Moçambicana de Atum(EMATUM) e Mozambique Asset Managment(MAM) não tinham, nem têm viabilidade, e nem estão a conseguir honrar os seus compromissos com os bancos onde se endividaram Adriano Maleiane explicou que, “Os bancos (referindo-se ao Credit Suisse e VTB) que são de renome também olharam para esses estudos, de facto há estudos de viabilidade que até apontavam que seria possível amortizar praticamente em oito anos. Eu pessoalmente não fiz o estudo nem estive lá”.
Sobre o facto da EMATUM, que o ministro disse estar operacional e a pescar para o mercado nacional e internacional, nem sequer conseguir pescar e até no Plano Económico e Social para 2017 o Executivo não prever nenhuma pescaria da empresa estatal o governante declarou que “a EMATUM, tal como as outras duas empresas, sob o ponto de vista das finanças para justificar o que terá sido feito foi sempre nessa base dos estudos de viabilidade. Na altura quando eu fui ao Parlamento, e já tinha havido a reestruturação da dívida(da EMATUM), eu disse, reportando aquilo que a empresa havia dito, que dos 24 barcos estavam operacionais 13 ou outros barcos estavam ainda em processo de adaptação”.
Perante a insistência do @Verdade, Adriano Maleiane reconheceu que “naturalmente neste momento as três empresas estão a reanalisar os planos de negócio para se readaptar a nova realidade porque está claro que aqueles estudos de viabilidade que foram apresentados estão desajustados no tempo e nós estamos a aguardar para ver o que pode ser feito”.
Aliás o titular da Economia e Finanças, que durante a conferencia de imprensa esteve acompanhado por um dos assinantes do empréstimo da EMATUM, Henrique Álvaro Cepeda Gamito, entre outros altos membros do seu Ministério, deixou claro que “eu não disse nada que não pudesse repetir hoje. O que eu disse é que alguém disse que os barcos estavam a ser adaptados ninguém desmentiu isso”.
Adriano Maleiane como ministro perdeu o sentido da confiança
Entretanto o @Verdade pediu ao professor de economia e investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), António Francisco, uma avaliação sobre o ano do ministro Maleiane, e do seu Pelouro.
“Para mim foi o Ministério que o Presidente Nyusi tinha criado que eu acho que era de ruptura com aquela visão de Plano, é o primeiro Ministério desde a independência que aparece com da Economia e Finanças, sem a ideia da planificação socialista. Eu encarei isso como passar-se a encarar a Economia e Finanças de uma forma mais de mercado, embora o estado continue a ser o motor da economia”, começou por constatar o académico moçambicano.
“No nosso caso o que acontece é que o socialismo não acabou, a terra continua a ser controlada pelo Estado, os recursos financeiros, existem as empresas estatais, a centralidade da intervenção mantém-se. E depois pelas políticas de salário, emprego, migração, taxa de câmbio cria-se uma situação não de economia de mercado mas sim de uma economia intervencionada em que os mercados são os nossos parceiros. Uma economia que é gerida desta maneira não está a desenvolver a sua base privada de funcionamento e eu achei que (o novo Ministério da Economia e Finanças) poderia vir a ter essa orientação, de lhe dar mais funcionalidade”, explicou o investigador do IESE.
Na óptica do professor António Francisco, “O azar disto é que havia todo este processo de endividamento e euforia financeira que vinha na sequência na aposta nos recursos minerais e energéticos e entretanto o ministro foi apanhado neste turbilhão e ficou a gerir basicamente as dívidas ocultas. Logo no primeiro ano teve que lidar com a EMATUM e, quando acaba de renegociar saltam-lhe as outras todas! Eu penso que a partir daí ele como ministro perdeu o sentido da confiança. Uma das coisas que mais prejudica Moçambique é ter mantido um ministro assim”.
“Porque um ministro que toma uma postura daquelas está ali para quê, para não queimar outro ou para manter um objectivo que ficou visto que era bater o pé e manter a tal firmeza de que aquelas dívidas foram virtuosas. Então começou a orquestrar-se aquela narrativa, eu acho que isso é lamentável porque do ponto de vista daquilo que poderia ser para o Governo salvar a imagem não optaram pela renúncia das dívidas, se são assumidas pelo Governo são para ser pagas, obviamente que eles tinham a intenção de as assumir à custa dos outros mecanismos porque não mostram que aquilo fosse viável”, lamentou Francisco.
“Houve uma tentativa de dar um salto da dependência da ajuda para a dependência dos recursos naturais”
Para o economista ficou evidente que a intenção do Governo de Filipe Nyusi era assumir e legalizar as dívidas da Proindicus, EMATUM e MAM e começar a amortiza-las através do “circuito de recurso à poupança externa por via ou do investimento(directo), ou pelos doadores, ou pelos créditos que vinham e fazer essas engenharias. O círculo foi rompido exactamente porque a coisa foi feita de uma forma completamente inapropriada”.
“O Banco de Moçambique ficou completamente incapacitado, eles tinham mantido equilíbrio cambial favorável basicamente para a importação e o círculo foi rompido porque o investimento quebrou, as divisas deixam de vir, a guerra manteve-se, os raptos mantiveram-se, o quadro que essa aposta de crescer com a poupança dos outros quebrou”, constatou o académico.
Por outro lado, segundo António Francisco, “ficou evidente que a aposta não é investir na economia nacional porque as taxas de câmbio não são favoráveis para produzir frango, arroz, para produzir nada. São favoráveis para produzir aqueles produtos que são lucrativos no mercado internacional, isso é loucura”.
Mas o académico da Universidade Eduardo Mondlane julga que existe um lado positivo. “Só não vejo isto totalmente mal porque a alternativa seria pior do que isto, que seria voltar a um regime samoriano, tu vais cometendo erros mas estás-te a integrar no processo. Houve uma tentativa de dar um salto da dependência da ajuda para a dependência dos recursos naturais convencidos que os íamos usar para capitalizarmo-nos e para vender o futuro, mas claramente não controlamos e fizeram logo esse conjunto de asneiras”.
“Ao fim de 30 anos o País não se capitalizou em função do apoio que recebeu para hoje por exemplo estar em condições de libertar-se do Fundo Monetário (Internacional). O grande problema é que não nos tornamos capazes de aumentar a capacidade de endividamento, a capacidade de merecer confiança. Reconhecendo o erro poderíamos sair disto mas não está fácil porque a nível do poder político, administrativo e legislativo mostra-se incapaz de lidar com a situação”, concluiu o professor António Francisco.

@VERDADE - 30.12.2016

2016 não foi apenas um ano, foi um exercício de sobrevivência

Indubitavelmente, o ano de 2016 – prestes a findar – foi bastante difícil para os moçambicanos, principalmente para o cidadão cuja vida é marcada por inúmeros e infindáveis sacrifícios. 2016 não foi apenas um ano, foi um momento de sofrimento para o povo, pois nunca antes os moçambicanos foram colhidos com notícias e situações bastante adversas.
Ao longo do ano de 2016, o povo foi surpreendido com as descobertas de novas dívidas ocultas, para além da EMATUM. Em 2016, Moçambique enfrentou a sua pior crise financeira, devido em grande medida aos corruptos que durante anos delapidaram os cofres públicos. Foi o ano de execuções de membros dos partidos da oposição e académicos, e a vergonhosa solidificação de sequestros e assassinatos de albinos e raptos de empresários.
Em 2016, os moçambicanos viram a sua existência transformar-se num exercício de sobrevivência para continuarem a sustentar a mordomia do Governo de turno, que a única coisa que soube fazer com mestria foi mentir até à náusea. Foi um ano de politiquices atrás de politiquices.
O custo de vida, que já era insuportável, piorou. Assistiu-se a subida galopante do preço do pão, ao agravamento sistemático dos bens de primeira necessidade e ao aumento do preço do combustível, não obstante o preço do barril esteja a cair no mercado internacional, sem mencionar as situações clamorosas de corrupção, como o caso da descoberta de pagamento de suborno a funcionários seniores da Linhas Áereas de Moçambique (LAM) pela empresa brasileira Embraer. Vimos o Governo da Frelimo e a Renamo a brincarem de negociações para pôr cobro ao conflito armado.
E o que fez o Governo de turno diante desta situação toda? Nada. Ou seja, o Governo moçambicano limitou-se a assobiar para os lados, numa clara demonstração de que a crise, a fome e outros problemas que apoquentaram os moçambicanos não lhe diz respeito, até porque tem todas as contas pagas com o suor do povo. Aliás, não se falou de austeridade ou outra qualquer medida com vista a aliviar a carestia de vida que tem vindo a deixar a população sem norte.
Ao invés de solução, foi encontrado um culpado para justificar a falta de políticas e acções claras. Foi encontrado um bode expiatório para justificar a incompetência mórbida e a tamanha falta de seriedade que caracteriza o Executivo moçambicano: a conjuntura internacional. Na verdade, isso não passa de uma desculpa de um Governo sem agenda cujo único sentido de economia é o esbanjamento desenfreado do erário.Portanto, é caso para dizer que 2016 é um ano para esquecer, pois o povo sentiu na pele a falta que faz ter um Governo de verdade.


A Verdade

Thursday, 29 December 2016

EUA, Reino Unido e Suíça investigam dívidas da Proindicus, EMATUM e MAM

A Comissão de Valores Mobiliários(acrónimo em inglês SEC) dos Estados Unidos da América(EUA) iniciou uma investigação em torno da venda dos títulos de dívida de Moçambique que estão relacionados com os empréstimos secretamente contraídos pelas empresas estatais Proindicus, EMATUM e MAM com Garantias do Estado que violam a Constituição moçambicana. Os reguladores financeiros do Reino Unido e da Suíça também desencadearam investigações semelhantes agora que se sabe que a pesca do atum nunca foi o objectivo principal dos empréstimos.
A SEC, de acordo com o Wall Street Journal, está a investigar aos contornos da venda de 850 milhões de dólares norte-americanos em títulos de dívida de Moçambique colocados nos mercados internacionais pelos bancos VTB da Rússia, BNP Paribas da França e o Credit Suisse da Suíça.
Após Moçambique ter proposto, em Outubro, a reestruturação da dívida pública, o regulador do mercado financeiro norte-americano contactou os detentores de títulos dessa dívida solicitando os prospetos e as comunicações entre os investidores e os bancos.
Diante da falta de vontade dos deputados do partido Frelimo na Assembleia da República em esconder as constatações da Comissão Parlamentar de Inquérito(CPI) à dívida pública e da lentidão das investigações da Procuradoria-Geral da República esta investigação da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA poderá aclarar o destino dado aos mais de 2 biliões de dólares norte-americanos em empréstimos contraídos entre 2013 e 2014 pelas empresas Proindicus, Empresa Moçambicana de Atum(EMATUM) e Mozambique Asset Managment(MAM).
É que o dinheiro só foi emprestado porque o Estado moçambicano, na altura dirigido por Armando Guebuza, deu Garantias Soberanas – que violaram a Constituição da República pois não foram aprovadas pela Assembleia da República – mas foi repassado directamente, numa operação financeira pouco transparente, pelos bancos russo e suíço para o grupo Privinvest do empresário libanês/francês Iskandar Safa que terá fornecido apenas barcos de pesca e lanchas de patrulha.
“Nós não podíamos vir dizer, nem para os bancos e nem para quem quer que fosse, que a pesca não era a parte principal”
Todavia António Carlos do Rosário, o funcionário dos Serviços de Informação e Segurança do Estado(SISE, a secreta moçambicana) que é o presidente do conselho de administração das três empresas estatais, declarou à CPI que o propósito dos empréstimo nunca foi a pesca de atum mas alegadamente a protecção da costa marítima moçambicana.
“É claro que para nós não podíamos vir dizer, nem para os bancos e nem para quem quer que fosse, que a pesca não era a parte principal, não era para nós, o objectivo inicial é complementar, aumentar e reforçar aquilo que nós queríamos, que não conseguimos via Proindicus. Foi preciso criar uma outra empresa do zero, sem passivo nenhum, mas com um estudo de viabilidade própria e que nós conseguíssemos convencer os bancos. E conseguimos! Foi a primeira operação de emissão de títulos na República de Moçambique no mercado de capitais, em Setembro de 2013”, declarou do Rosário sobre a emissão dos títulos de dívida ora em investigação.
Os mentores dos empréstimos não enganaram apenas ao povo moçambicano e ao Fundo Monetário Internacional, ludibriaram um considerável número de investidores europeus e norte-americanos que compraram os títulos da dívida pública de Moçambique sem terem sido informados que além dos 850 milhões de dólares os bancos VTB e Credit Suisse haviam emprestado mais de 1,1 bilião de dólares com Garantias Soberanas ilegais do Estado moçambicano.
Além dos barcos de pesca e das lanchas de patrulha terão sido adquiridos equipamentos militares, afinal as empresas Proindicus e MAM são tuteladas pelo Ministério da Defesa de Moçambique e, de acordo com o depoimento de António Carlos do Rosário à CPI, a primeira empresa estatal prestou serviços de segurança aos comboios da mineradora Vale Moçambique .

Wednesday, 28 December 2016

Afonso Dhlakama assume belicismo e decreta cessar-fogo provisório em Moçambique

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, cessou as hostilidades militares por um período de sete dias em todo território moçambicano, a partir de 00h00 de terça-feira (27). A medida, segundo justificou, é consequência de uma conversa telefónica mantida há 48horas com o Presidente da República, Filipe Nyusi. Porém, para quem ouviu Dhlakama a insistir, ao longos dos últimos anos, que era vítima do regime, o seu anúncio pode ser interpretado não apenas como um volte-face, mas também como uma clara assunção de uma “postura belicista”, de quem controla a guerra e pode pará-la quando quiser. E ainda dá consistência à acusação que lhe atribuído pela Frelimo, de ser o cabecilha de um “grupo de bandidos armados”.
Certamente, nas hostes do partido no poder há quem afirme: “nós sempre dissemos ao povo que Dhlakama é o responsável pela guerra”.
O presidente do maior partido da oposição no país não é visto publicamente desde Outubro de 2015 e argumenta que se esconde por temer pela sua vida, pois está a ser caçado pelo Governo da Frelimo.
Ele sempre alegou que era vítima de emboscadas e ataques perpetrados pelas Forças de Defesa e Segurança (FDS) contra os seus guerrilheiros. “O Presidente da República manda atacar a região da Gorongosa, onde eu vivo”.
Recusando uma trégua com um adversário que presumivelmente lhe aponta as armas, por várias ocasiões, o líder da Renamo frisou que o cessar-fogo dependia da formação política no poder, que devia “mostrar interesse e boa-fé” por ser a parte que promove a guerra. “É o que eles têm feito aqui na Gorongosa”.
Todavia, numa mudança súbita de opinião, Dhlakama passou de vítima a senhor que controla a guerra e com poderes bastantes para pará-la quando achar conveniente. E foi o que fez. Numa clara contradições aos seus discursos afirmou:
“Anuncio a cessação das hostilidades militares a partir de zero hora de hoje, terça-feira, 27 de Dezembro de 2016. Em todo território moçambicano não haverá combate entre as Forças Armadas da Renamo e as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). E as Forças da Renamo ficarão nas suas bases. Poderão fazer patrulha numa área de três a quatro quilómetros por razões de segurança e, o Presidente da República, quero acreditar, que vai fazer o mesmo. As FADM e a FIR [ora UIR] também irão se manter nas suas posições”.
Por sua vez, o Comando-Geral da Polícia da República de Moçambique (PRM) disse, através do seu porta-voz Inácio Dina, que tomou conhecimento do armistício, “mas aquilo que é o papel da polícia continuará naturalmente. Continuaremos firmes".
Há dias, o líder da “Perdiz” disse ao Jornal “OPaís” que não falava com Filipe Nyusi havia um mês.
Contudo, na segunda-feira (26) quebrou o silêncio e teve “a iniciativa de ligar para o Presidente da República. Coloquei-lhe a possibilidade de oferecermos esta trégua provisória para os moçambicanos passarem as festas do ano novo em paz e ele concordou comigo. Irei dar ordem, aliás, já foram dadas ordem às nossas unidades em todas as províncias”.
“Posso garantir os nossos amigos, familiares de Maputo, Sofala, Cabo delgado e Zambézia que podem transitar à vontade nas vias e na Estrada Nacional número 1 (EN1) sem nenhum problema. Podem andar à vontade, até que a trégua termine”, afirmou Dhlakama em teleconferência a jornalistas, na sede da Renamo em Maputo. E questionou por que não, terminado o armistício, ele e o Chefe de Estado voltarem a falar.
A partir do seu esconderijo, supostamente em Gorongosa, o presidente da Renamo disse ao telefone que equaciona a possibilidade de a trégua prolongar-se por mais tempo para permitir que o diálogo político decora num ambiente sem tiros.
“Esta é a experiência que vamos ter. E, se tudo correr bem, poderemos prolongar por mais dias. Agora, o papel da mediação internacional vai continuar. A trégua não substitui as negociações. Ao contrário, a trégua é um sinal para que as pessoas percebam que há possibilidades de acabar com a guerra. Qualquer ataque que surgir, quer nas estradas, quer nas posições, não é a Renamo. A mediação vai continuar depois das festas. Todos poderão regressar à mesa do diálogo e desenhar o papel deles”.
Antes das declarações de Dhlakama, o Presidente da República disse em Nampula que o telefonema da sua contraparte “era simplesmente para desejar-se festas felizes, um ao outro e saber como as coisas estão, mas (...) esse tipo de contato tem que se explorar ao máximo. Ninguém deve morrer por causa de desencontros de ideias ou de posições, de diferenças entre as pessoas”.
Em Junho deste ano, Dhlakama disse, numa outra teleconferência a jornalistas, a partir da Gorongosa, que não era possível declarar um cessar-fogo antes de “tudo estar cozinhado (...) para evitar decepcionar o povo e a comunidade internacional. (...) Cessar-fogo significa o quê? Pararmos. Você para, alguém está escondido ali, você pensa que já está, paramos, alguém vai te capturar, vai te matar”.
Em Moçambique, a questão da guerra tem sido tratada de acordo com a vontade dos dois partidos (eternos) rivais desde o fim da década de 70. A troca de acusações e mimos estende-se ao Parlamento e gasta-se maior parte do tempo com discussões corriqueiras, ao povo enquanto, sobretudo do centro, é apontado o canhão.



A Verdade

Tuesday, 27 December 2016

Dhlakama e Nyusi acordam cessar fogo provisório até 04 de Janeiro de 2017


O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama acaba de anunciar há momentos a declaração da Cessação Provisória das Hostilidades Militares, com efeitos a partir da meia noite de hoje terça-feira. A declaração de cessar-fogo anunciado por Dhlakama, é provisória devendo durar até a próxima quarta-feira, 4 de Janeiro de 2016 e visa permitir às pessoas passarem uma quadra festiva em paz.
O líder da Renamo disse ter chegado a um entendimento com o Filipe Nyusi com quem manteve uma longa conversa telefónica na última segunda-feira, 26 de Dezembro e acrescentou que se o cessar-fogo for respeitado deverá ser prolongado.
"Quero anunciar aos moçambicanos e a comunidade internacional, que a partir da meia noite de hoje terça-feira, as forças da Renamo e da Frelimo decretam a cessação das hostilidades militares. As forças deverão manter-se nas suas posições, devendo contudo, por razões de segurança, serem permitidas fazer patrulhamento num raio de 3 a 4 quilómetros das posições onde se encontram" disse o líder da Renamo.




( Canalmoz )

Monday, 26 December 2016

Entre cânticos e orações, crentes apelam à concórdia e ao perdão na Missa do Galo


















A paz não foi esquecida  
Foi por volta das 20h deste Sábado, que o arcebispo de Maputo, Dom Francisco Chimoio, chegou à Sé Catedral. Recebido por alguns crentes, o bispo cumpriu com as primeiras acções, antes mesmo de entrar na capela.
No meio de cânticos e dança, o bispo dirigiu-se ao altar. O menino Jesus também fazia parte da caravana.
A capela estava decorada com as cores do natal. O casamento entre o vermelho e branco tornava os assentos coloridos. Mas não só, a árvore de natal é outro símbolo que não podia faltar. E, de facto, não faltou.
Já de joelhos, os crentes clamaram pelo perdão e misericórdia. Afinal, os homens não são perfeitos.
A mensagem de perdão também esteve presente na família anglicana. Aliás, o bispo anglicano, Carlos Matsinhe, diz que se os moçambicanos escutassem Jesus Cristo o país não estaria em tensão.
Entretanto, mais do que a paz comum é necessário que cada um cultive uma paz interior.
Na manhã deste Domingo, vários fiéis juntaram-se à Igreja Presbiteriana para receber a comunhão e exaltar a mensagem de Jesus Cristo, que é o amor pelo próximo.
Dia de Natal é um festival religioso cristão comemorado anualmente a 25 de Dezembro. A data é o centro das festas de fim de ano e da temporada de férias, sendo, no cristianismo, o marco inicial do Ciclo do Natal, que dura 12 dias.



O País

Caminho para a sustentabilidade da dívida pública de Moçambique será longo - economista




O roteiro para levar a dívida pública de Moçambique a níveis sustentáveis será longo e está condicionado pela margem de manobra que a Frelimo, partido no poder, vai dar ao Governo, disse à Lusa o economista moçambicano António Francisco.
"O processo de tornar a dívida pública novamente sustentável poderá ser mais ou menos longo, melhor ou pior gerido, dependendo da forma como o partido Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] irá permitir que o seu Governo realize e implemente a terapia que é preciso realizar", afirmou António Francisco, pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) de Moçambique.
Para o académico, não é preciso ser bruxo ou feiticeiro para adivinhar e saber que o processo de sobre-endividamento em Moçambique tornou-se cíclico, com um histórico relativamente curto, comparativamente à maioria das economias desenvolvidas ou emergentes.
"Mas, ainda que curto, já é suficiente para permitir perceber a natureza cíclica do endividamento público insustentável", enfatizou António Francisco.
Apesar de reconhecer ironicamente que as chamadas dívidas ocultas, no valor de 1,4 mil milhões de dólares, reveladas em abril, são a "principal vedeta" dos encargos do Estado moçambicano, António Francisco considerou que constituem apenas uma parte de um todo mais amplo, quer em termos de dívida pública, em geral, quer de opção estratégica de crescimento económico.
"O que as dívidas ocultas fizeram foi antecipar a insustentabilidade da dívida pública moçambicana. Porque elas representam uma pesada ´overdose`, capaz de colocar a economia em coma", alertou.
Segundo António Francisco, o processo conducente à insustentabilidade da dívida já estava em curso e era percetível.
"E claro, como acontece geralmente, nestes casos, o Governo nega até não poder mais. O mesmo fez o FMI, ao fazer vista grossa ao progressivo endividamento, dando a impressão que estava tudo sob controlo", assinalou.
Apesar de reconhecer que o regresso da dívida de Moçambique para níveis sustentáveis será longo, António Francisco defende que, a curto-prazo ou até meados de 2017, o roteiro para esse objetivo estará definido.
"Infelizmente, tal roteiro tem sido traçado de forma assertiva pelo FMI e de forma muito defensiva, para não dizer contrariada, pelo Governo. Este está com muita pressa para ver se renegoceia a dívida, mas tal pressa só denuncia uma grande ansiedade em resolver mal o problema", referiu Francisco.
Após a revelação dos empréstimos secretamente avalizados pelo executivo moçambicano, entre 2013 e 2014, a dívida pública de Moçambique disparou para 11,6 mil milhões de dólares e dados oficiais apontam que o volume da dívida pública ver terminar o ano em curso nos 130% do Produto Interno Bruto (PIB).
O Ministério da Economia e Finanças já avisou que o país não tem dinheiro para pagar as próximas prestações das três empresas que beneficiaram secretamente dos avales do Governo e quer reestruturar os encargos com os credores.
O Governo pediu entretanto um novo programa de apoio ao FMI, que, à semelhança do grupo de doadores do orçamento do Estado, cortou o financiamento a Moçambique por causa do escândalo dos empréstimos ocultos.
O FMI e o Governo reataram negociações, enquanto decorre uma auditoria internacional independente às empresas beneficiadas pelos empréstimos, mas as regras do Fundo impedem ajuda financeira a países com uma trajetória insustentável de dívida, como é o caso de Moçambique.
Ao mesmo tempo, o executivo está a aplicar pesadas medidas de austeridade para conter a grave crise económica que se sente no país e os efeitos do conflito entre Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), cujas negociações de paz não tiveram resultados em 2016.

Exigência da Renamo altera lógica de funcionamento de Moçambique -- Politólogo

O politólogo moçambicano João Pereira defendeu que Moçambique precisa de uma profunda reforma do sistema político, considerando que a descentralização, exigida pela oposição, altera toda a lógica do funcionamento do país.
"Não será uma emenda que vai resolver o problema da descentralização. Esta questão é muito mais profunda", disse à Lusa João Pereira, que reitera que enquanto não houver vontade política entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido de oposição, nas negociações de paz, a crise política e militar não será ultrapassada.
Para o académico, além de uma mudança radical, a descentralização, exigida pela oposição em Moçambique, implica uma reconfiguração de toda a lógica do funcionamento do país e, consequentemente, o processo precisaria de tempo, principalmente num Estado ainda em construção.
Além de tempo e vontade, para o professor de Ciência Política na Universidade Eduardo Mondlane, o debate sobre as mudanças políticas em Moçambique deviam ser mais alargados e não só nas posições das partes em conflito, na medida em que o problema diz respeito a todos os moçambicanos.
O académico entende que, além da lógica do sistema, a eleição de governadores provinciais em Moçambique altera a estrutura dos próprios partidos e, consequentemente, o modo de se fazer política no país, pelo que é imperioso que essas mudanças sejam acompanhadas por um debate sério e inclusivo.
"Esta mudança não tem impactos simplesmente políticos, é uma mudança a nível económico e social. É a alteração de um paradigma", destacou o analista, observando que para um partido como a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), que não tem um histórico de processos de descentralização, será "muito difícil" aceitar o novo modelo.
A bipolarização do processo negocial, na ótica do académico, revela que os interesses que estão em causa não são do povo moçambicano e, mesmo que haja consensos, num futuro próximo, o país voltará a ser ensombrado pelo mesmo problema.
"Este não é um problema destas duas partes apenas, é o problema de todo povo e, por isso, precisamos de um diálogo mais aberto", sublinhou João Pereira, reiterando que a solução da crise política no país não pode ser reduzida à acomodação das exigências do maior partido de oposição.
"Precisamos de um estudo sério e abrangente sobre a natureza das mudanças que queremos. A crise vai continuar, está claro que este processo é muito mais complexo", reiterou João Pereira, apontando a falta de confiança nas negociações entre as partes como um dos principais obstáculos para o fim da crise política e militar.
Moçambique atravessa uma crise política e militar, marcada por confrontos, no centro do país, entre o braço armado do principal partido de oposição e as Forças de Defesa e Segurança, além de denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.
A Renamo acusa a Frelimo de ter viciado as eleições de 2014, que deram vitória ao partido no poder há mais de 40 anos, e exige governar em seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.
As autoridades moçambicanas têm responsabilizado a Renamo por várias ataques a alvos civis e emboscadas nas principais estradas do centro do país, onde a circulação está condicionada a escoltas militares obrigatórias.
Apesar dos casos de violência, o Governo moçambicano e a Renamo voltaram às negociações em Maputo, mas não são conhecidos avanços para o fim do impasse político.


Saturday, 24 December 2016

BOAS FESTAS !

Eu nao vou comemorar este  Natal, por motivos pessoais,  mas aproveito esta ocasiao para desejar FELIZ NATAL!

Renamo rejeita ex-Presidente Chissano na mediação das negociações de paz

A Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) rejeitou hoje o ex-Presidente Joaquim Chissano como mediador das negociações de paz com o Governo por considerar que ele é parte do conflito.
"Com todo o respeito que temos para com o Presidente Chissano, em nome da abertura e da verdade, e como porta-voz do partido Renamo, tenho a dizer que muitos moçambicanos de bem acham que não é elegível para mediador deste conflito porque ele próprio é parte dele", afirmou António Muchanga, em conferência de imprensa em Maputo.
Segundo o porta-voz da Renamo, Joaquim Chissano "sabotou o cumprimento integral do Acordo Geral de Paz na letra e espírito" ao não integrar homens do maior partido de oposição na Polícia da República de Moçambique (PRM) e no Serviço de Informações e Segurança do Estado (SISE).
Foi no período em que Chissano era Presidente, prosseguiu, "que começou a marginalização dos comandantes da Renamo nas FADM [Forças Armadas de Defesa de Moçambique] e sobretudo em 2004", um ano antes de Armando Guebuza se ter tornado chefe de Estado.
"O Presidente Guebuza veio apenas continuar uma acção planificada e executada pelo Presidente Chissano na sua qualidade de comandante em chefe", observou.
Chissano, disse António Muchanga, "beneficiou das polémicas eleições de 1999, onde mais de 750 mil votos não foram requalificados", quando existia uma diferença de cerca de 200 mil votos entre ele e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama.
"Se tivessem requalificado todos os votos, o presidente Dhlakama era declarado vencedor daquelas eleições", declarou o porta-voz do partido de oposição, acusando ainda Chissano de ter criado "à revelia da Renamo em violação do Acordo Geral de Paz", a unidade especial da polícia Força de Intervenção Rápida (FIR).
"Esperamos que ele peça desculpas à Renamo e ao povo moçambicano", afirmou.
A emissora pública Rádio Moçambique noticiou que o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, manifestou na Quarta-feira disponibilidade para ajudar no processo de diálogo entre Governo e Renamo, caso fosse solicitado.
As negociações de paz pararam na semana passada sem acordo sobre o pacote de descentralização exigido pela Renamo para cessar a crise política e militar e os mediadores internacionais abandonaram Maputo, referindo que só regressarão se forem convocados pelas partes.
No seu discurso do Estado da Nação, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, disse que propôs à Renamo a criação de um grupo de trabalho especializado para debater a descentralização, "sem distinção política" nem a presença do actual grupo de mediadores para um acordo de paz com o maior partido de oposição.
O centro e norte de Moçambique estão a ser assolados pela violência militar, na sequência da recusa da Renamo em aceitar os resultados das eleições gerais de 2014, exigindo governar em seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.
Além do pacote de descentralização e da cessação dos confrontos, a agenda do processo negocial integra a despartidarização das Forças de Defesa e Segurança, incluindo na polícia e nos serviços de informação do Estado, e o desarmamento do braço armado da oposição e sua reintegração na vida civil.

Os mediadores internacionais apontados pela Renamo são representantes indicados pela União Europeia, Igreja Católica e África do Sul, enquanto o Governo nomeou o ex-Presidente do Botsuana Quett Masire, pela Fundação Global Leadership (do ex-secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos Chester Crocker), a Fundação Faith, liderada pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o antigo Presidente da Tanzânia Jakaya Kikwete.





Friday, 23 December 2016

Renamo condiciona negociações de paz à continuação de mediadores internacionais


A Renamo condicionou hoje a continuação nas negociações de paz à permanência da equipa de mediação internacional, que na semana passada abandonou Maputo sem saber se regressará.

"Sem mediação internacional, a Renamo [Resistência Nacional Moçambicana] não vai indicar ninguém", afirmou à Lusa o porta-voz do maior partido de oposição, reagindo à proposta do Presidente da República, Filipe Nyusi, da criação de um grupo especializado para discutir um pacote de descentralização, sem a presença dos mediadores.
António Muchanga lamentou "esta atitude do Governo de tentar criar um grupo em que os mediadores não têm parte" e disse que a Renamo espera que o grupo dirigido pelo italiano Mario Raffaeli, mediador indicado pela União Europeia (UE), possa regressar a Maputo.
"Estamos à espera do Mario Raffaelli com a sua equipa para fecharmos o dossiê que junto começámos", declarou Muchanga, insistindo que "não se pode afastar pessoas de boa-fé" que as duas partes foram solicitar.
No seu discurso do estado da nação, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, disse que propôs à Renamo a criação de um grupo de trabalho especializado, "sem distinção política" nem a presença do actual grupo de mediadores para discutir o pacote de descentralização, um dos temas essenciais das negociações de paz.
Filipe Nyusi lamentou não ter sido ainda possível encontrar-se com o presidente da Renamo e manifestou disponibilidade para se encontrar com Afonso Dhlakama "em qualquer capital provincial do país".
Os trabalhos da comissão mista das delegações do Governo e da Renamo pararam na semana passada sem acordo sobre o pacote de descentralização exigido pela Renamo para cessar a crise política e militar em Moçambique e os mediadores abandonaram Maputo, referindo que só regressarão se forem convocados pelas partes.
Segundo António Muchanga, as duas partes estavam perto de um acordo, mas à última hora a delegação governamental recuou, adiando a possibilidade de ser declarado um cessar-fogo.
"Estávamos perto e a esta altura estaríamos a cantar outra coisa", afirmou o porta-voz da Renamo, acrescentando que um cessar-fogo podia ter já sido declarado há dois ou três dias.
"Mas por causa do recuo da Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique, partido no poder] não se conseguiu desenhar os princípios da descentralização, para serem depositados na assembleia, e que serviriam de garantia para a Renamo declarar-se disponível para um cessar-fogo", assinalou.
António Muchanaga disse ainda que as propostas das duas partes sobre o pacote de descentralização eram muito parecidas à que tinha sido apresentada pelos mediadores mas o processo parou quando já se discutiam pequenos pormenores.
"Quando chegou o momento para sentar e conciliar pequeninas coisas, de natureza de vírgulas, o Governo vem com um novo documento e diz que o outro estava sem efeito, morreu. O que estamos aqui a fazer? Há seriedade ou não", questionou.
O centro e Norte do país estão a ser assolados pela violência militar, na sequência da recusa da Renamo em aceitar os resultados das eleições gerais de 2014, exigindo governar em seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.
Além do pacote de descentralização e da cessação dos confrontos, a agenda do processo negocial integra a despartidarização das Forças de Defesa e Segurança, incluindo na polícia e nos serviços de informação do Estado, e o desarmamento do braço armado da oposição e sua reintegração na vida civil.
Os mediadores internacionais apontados pela Renamo são representantes indicados pela União Europeia, Igreja Católica e África do Sul, enquanto o Governo nomeou o ex-Presidente do Botsuana Quett Masire, pela Fundação Global Leadership (do ex-secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos Chester Crocker), a Fundação Faith, liderada pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o antigo Presidente da Tanzânia Jakaya Kikwete.