Sunday, 13 May 2018

Moçambique. Início de uma nova era sem Afonso Dhlakama

Ossufo Momade, líder interino da Renamo
RICARDO FRANCO/LUSA

Os ventos trazem mudança em Moçambique. A morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama parece ter unido o partido, que deposita agora todas as esperanças no seu líder interino, o general Ossufo Momade

“Afonso Dhlakama já não se encontra, fisicamente, entre nós.” A frase é do Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, e foi proferida como uma sentença condenatória contra os incrédulos durante as cerimónias fúnebres realizadas na cidade da Beira, no centro do país. Se mesmo com este anúncio do chefe de Estado moçambicano ainda havia quem continuasse sem acreditar, as dúvidas foram definitivamente dissipadas quando finalmente foram depositados na sua última morada os restos mortais de Afonso Dhlakama, na sua terra natal, em Mangunde, distrito de Chibabava, província de Sofala.
Contrariamente ao que se vaticinava sobre a possibilidade de cisão da Renamo, alguns membros deste partido, sejam da ala militar como da ala civil, afirmam que a morte do seu líder parece tê-los unido. “Quando se anunciou a morte do Presidente, pensei que era o fim da Renamo, mas hoje, após o enterro, tenho outra forma de pensar. Estamos mais unidos. A sua morte obriga-nos a estarmos mais unidos”, disse um moçambicano que preferiu não ser citado. Esta perceção é comungada até pela ala militar da Renamo: “São momentos como estes que nos devem tornar ainda mais bravos, fortes, cada vez mais coesos”.
O apelo à união surge de todos os cantos, veiculado pelos meios de comunicação tradicionais e pelas redes sociais. O espetro da possível cisão parece não preocupar o partido. O foco da Renamo é agora dar continuidade aos projetos deixados pelo seu líder, entre os quais a conquista da paz através da negociação dos pacotes de descentralização. Aliás, este foi também o apelo feito pelo Presidente da República, como forma de “assumir o espírito e a obra do seu líder e se honrar a sua memória, em palavras e atos". "Honraremos a sua memória, se soubermos concluir, de forma responsável e célere, o diálogo político que agora se centra sobretudo no processo de descentralização, no desarmamento, desmobilização e reintegração”, afirmou Filipe Nyusi.
É por isso que dois dias após a morte do seu líder, a comissão política da Renamo se reuniu para eleger Ossufo Momade como o seu coordenador interino. Fontes internas da Renamo referem que Ossufo Momade será confirmado presidente no congresso, uma vez que “reúne consenso dentro da Renamo”. Momade era a segunda figura mais importante na hierarquia militar da Renamo, depois de Afonso Dhlakama.
De acordo com as mesmas fontes, o general Ossufo Momade foi durante a guerra a terceira figura mais importante nessa hierarquia, logo depois de Afonso Dhlakama e Mateus Ngonhamo. Este último, após o fim da guerra civil, foi indicado para ocupar o cargo de Chefe Adjunto do Estado-Maior General das Forças Armadas e de Defesa de Moçambique unificadas. Atualmente, está na reserva. Com Ngonhamo nas Forças Armadas, Momade tornou-se na segunda figura militar da Renamo.

Carta ao Presidente da República

Fontes militares da Renamo confidenciaram ao Expresso que redigiram e enviaram uma carta ao Presidente da República com sete pontos, dois dos quais mais urgentes e sensíveis. Primeiro, informaram e aconselharam o Presidente da República a não tentar usar a força para os desarmar, e que este processo só deverá ser fechado quando for alcançado o acordo de paz. Segundo, apelaram a que não fossem bloqueadas as vias e viaturas que transportam bens de primeira necessidade para os militares.
A mesma fonte esclareceu que, após a morte do líder da Renamo, o secretariado do partido enviou viaturas com mantimentos para os seus homens estacionados em Santugira, na Serra de Gorongosa. Aliás, a questão da logística alimentar é apontada como um dos fatores bastante sensíveis que Dhlakama controlava através dos seus negócios.

Quem é Momade, o homem certo para suceder a Dhlakama?

Momade é natural da Ilha de Moçambique, na província de Nampula, o maior círculo eleitoral do país, fortemente dominado pela Renamo. É de etnia macua e de religião muçulmana, que predominam no norte de Moçambique, incluindo parte da Zambézia, representando cerca de 30% e 20% da população moçambicana, respetivamente. Estes fatores tornam Momade o homem certo para suceder a Dhlakama.
Até à sua eleição, Momade ocupava o cargo de chefe de Departamento de Defesa e Segurança da Renamo.
Durante a guerra, abriu e liderou a frente norte de Moçambique. Tal como Afonso Dhlakama, Momade já esteve nas forças armadas lideradas pela FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), onde chegou a ser designado comissário político e militar. Comandou um dos batalhões do Exército de Moçambique antes de ser capturado pelos guerrilheiros da Resistência Nacional de Moçambique (RNM, hoje Renamo), em dezembro de 1978. E nunca mais voltou, ou seja, filiou-se ao movimento.
Tenente-general, atualmente na reserva, Momade ingressou na política após os acordos de paz de Roma, em 1992, tendo sido deputado pela Renamo e mais tarde secretário-geral do partido, antes de ser nomeado chefe do Departamento de Defesa em 2012.



Lázaro Mabunda, Expresso

Friday, 11 May 2018

Um nome gravado a letras de ouro


AFONSO MACACHO MARCETA DHLAKAMA

Somente um paspalho pode pensar que a morte de Afonso Macacho Marceta Dhlakama constitui vitória. Simbolicamente, para todos nós, constituiu uma grande perda para o povo moçambicano, digam o que disserem os caluniadores da heroicidade.
A nação moçambicana, como reza uma parte do trecho do Hino Nacional, foi construída pedra a pedra por homens excepcionais, incarnados na unidade nacional. O caminho percorrido foi longo e com obstáculos assustadores, mas estes foram ultrapassados, graças à força inquebrantável, à dedicação a toda a prova e ao patriotismo sem limites dos nossos heróis e de pessoas comuns que souberam resistir e nunca viraram a cara à luta. Moçambique de hoje foi-nos legado pelos nossos heróis, à custa de sacrifícios sem medida. Só uma geração heróica podia ter força para enfrentar tantas adversidades e tantos inimigos. Até os deuses pareciam estar loucos, ao permitirem o holocausto de todo um povo.
Os melhores filhos de Moçambique sacrificaram as suas vidas no altar da liberdade e na luta pela dignidade. São os nossos heróis e os nossos mártires. Hoje e depois de tantas incertezas temos um horizonte. Um futuro que, apesar de nalguns momentos parecer hipotecado por dívidas e quejandos, ele se vai cimentando cada vez mais. A democracia, ainda que ténue, serve de exemplo. Para aqui chegarmos foi preciso derrubar as barreiras impostas pelo monopartidarismo. Houve necessidade de golpes de coragem e abnegação, para a edificação de uma nova nação.
Hoje, e repisando as adversidades vigentes, podemos dizer que temos um país abençoado, temos os nossos heróis que conseguiram transformar o inferno do monopartidarismo no paraíso da democracia e da liberdade. Ontem fomos politicamente vilipendiados. Hoje somos cidadãos de corpo inteiro, e temos o respeito do mundo, daí que o mundo nos deve um contributo inestimável na construção da democracia. Foram os nossos heróis em toda a conjuntura nacional que deram sentido à defesa dos direitos humanos em Moçambique.

No dia 3 de Maio passado morreu um HOMEM que se enquadra perfeitamente neste perfil, apesar dos seus restos mortais, à semelhança de outros tantos heróis anónimos (?), não poderem residir no mausoléu da Praça dos Heróis.
Hoje é um dia especial para os moçambicanos que beijam a democracia. Mais do que um dia qualquer, estamos curvados a homenagear e a nos despedirmos para todo o sempre do construtor da Paz e da democracia. Hoje vão ou foram a enterrar os restos mortais de um combatente pela liberdade, daí que sem qualquer sombra de dúvida, dívida ou pecado, devemos manifestar o orgulho de termos dado ao mundo um ser humano especial que garantiu uma dimensão de heroísmo à Humanidade.
Hoje é dia especial porque vai a enterrar em Mangunde um HOMEM que derrubou todas as vicissitudes, contribuiu na conservação da soberania nacional e na integridade da pátria.
O mundo devia acompanhar-nos neste dia que serve de reflexão, respeitando um nome que vai estar gravado a letras de ouro nos anais da (r)evolução moçambicana: Afonso Macacho Marceta Dhlakama.


EDITORIAL, ZAMBEZE – 10.05.2018, no Moçambique para todos

Thursday, 10 May 2018

A última morada do general Afonso





Chibabava (Canalmoz) - Quando eram 11 horas e 15 minutos desta quinta-feira, um cemitério familiar do regulado de Mangunde, a alguns metros da residência do régulo Mangunde (pai de Afonso Dhlakama) recebeu um distinto inquilino: Afonso Macacho Marceta Dhlakama, o líder da Renamo. É o fim da grande epopeia de um homem de origem humilde. Foi a enterrar na mesma humildade: entre arbustos!

Wednesday, 9 May 2018

Embaixadora: “Portugal sente a morte de Dhlakama com consternação”

Portugal "sente a morte de Dhlakama com consternação", referiu hoje a embaixadora portuguesa em Moçambique, Maria Amélia Paiva.
Embaixadora: “Portugal sente a morte de Dhlakama com consternação”
"É muita consternação pelo falecimento prematuro de um líder histórico e incontornável na história recente de Moçambique", referiu aos jornalistas, no final das cerimónias fúnebres de Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), realizadas hoje na cidade da Beira, centro de Moçambique.
"Estamos todos muito esperançados, que, como foi afirmado hoje ao longo das intervenções neste serviço religioso, seja possível construir a paz efectiva e duradoura, honrando a memória e os contributos do presidente da Renamo", referiu.
Apesar de haver ainda um caminho a percorrer e análises divergentes sobre o impacto da morte de Dhlakama, Maria Amélia Paiva mostrou-se confiante.
"Eu acho que opiniões que divergem são normais em democracia. Agora o objectivo comum e a forma de se chegar lá [à paz] tem de ser através do diálogo e de uma verdadeira reconciliação nacional, que permita dar ao povo moçambicano o desenvolvimento que ele anseia e precisa para que seja um país onde há espaço para todos darem o seu contributo", concluiu.




( Lusa )

Governo queria impedir membros da Renamo e Daviz Simango de intervirem no velório de Dhlakama

 
Beira (Canalmoz) - A comissão governamental que está a organizar o velório de Afonso Dhlakama fez um programa onde quem devia intervir era apenas um membro da Renamo para alegadamente evitar mensagens que pudessem embaraçar Filipe Nyusi e o partido Frelimo.
Daviz Simango que é presidente do município onde o velório vai ter lugar, havia sido colocado de fora e a Renamo recebeu informação de que apenas um membro da Renamo devia intervir.
Só que quando a equipa de Daviz Simango quis saber o que se estava a passar, a comissão governamental liderada pelo ministro da justiça Isac Chande mentiu, dizendo que quem havia proposto o afastamento do presidente do município da Beira era a própria Renamo. Mas acontece que o represente da Renamo acabava de chegar e tratou logo de desmentir, informando que tal decisão era do Governo que fez o programa e que até havia dado espaço aos partidos extraparalemtares.
Encurralados, os integrantes da comissão Governo tiveram, à última hora, de colocar Daviz Simango e mais intervenientes da Renamo. (Redacção, na Beira)

Saturday, 5 May 2018

Ossufo Momade indicado coordenador interino da Renamo

Ossufo Momade indicado coordenador interino da Renamo
A Renamo escolheu o general Ossufo Momade para coordenar a Comissão Política Nacional do partido até a realização do congresso, evento ainda sem data marcada.
Ossufo Momade, ex-deputado e antigo secretário-geral da Renamo, garantiu dar seguimento ao processo em curso de negociação para a paz. “Vamos dar honra e dignidade ao trabalho que ele iniciou”
Por outro lado, o partido anunciou que as cerimónias fúnebres oficiais do seu líder, que faleceu na passada quinta-feira, terão lugar no próximo dia 9, no campo do Ferroviário da Beira, a partir das 08h00, e indicou, tal como já tinha adiantado a família de Afonso Dhlakama, que a sepultura será em Mangunde no dia seguinte, pelas 14 horas, numa cerimónia restrita.


O País

Cerimónias fúnebres de Dhlakama marcadas para quinta-feira

Cerimónias fúnebres de Dhlakama marcadas para quinta-feira
As cerimónias fúnebres do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, estão marcadas para próxima quinta-feira, 10 de Maio.
Afonso Dhlakama será enterrado na sua terra natal, em Mangunde, distrito de Chibabava, no interior de Sofala. Segundo disse a família, o enterro será realizado num cemitério familiar em cerimónia restrita, obedecendo ao pedido feito por Dhlakama em vida.
Na quarta-feira, será realizada a cerimónia oficial de despedida, na cidade da Beira.

O líder da Renamo perdeu a vida na última quinta-feira, em Sofala, vítima de doença.


O Pa
ís

Friday, 4 May 2018

Conselho de Ministros decide realizar funeral oficial de Afonso Dhlakama

Conselho de Ministros decide realizar funeral oficial de Afonso Dhlakama



O Conselho de Ministros, na sua primeira sessão extraordinária, realizada esta noite, em Maputo, decidiu realizar o funeral oficial de Afonso Dhlakama.
A Porta-voz do Conselho de Ministros, Ana Comuana, informou, igualmente, que por causa da morte do líder da Renamo, o Presidente da República, Filipe Nyusi, decidiu adiar a visita a Noruega. De acordo com o informe desta noite, o Governo vai nomear uma comissão constituída por ministros  para junto da família de Afonso Dhlakama e do partido Renamo prestar apoio necessário. 



O Pais

Corpo de Dhlakama já na morgue do Hospital Central da Beira



Corpo de Dhlakama já na morgue do Hospital Central da Beira
Os restos mortais do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, que morreu nesta quinta-feira, chegaram ao Hospital Central da Beira, por volta das 04 horas desta sexta-feira, via terreste, vindos da região de Santungira no distrito de Gorongosa, onde ele residia desde finais de 2015 e de onde orientava o seu partido politica e militarmente.
Afonso Dhlakama morreu numa altura em que estava quase em fase conclusiva do diálogo para a reconciliação no país, com o Presidente da República, Filipe Nyusi.   O líder da Renamo andava com a saúde debilitada nos últimos meses, facto que contribuiu para a sua morte, apesar da tentativa de evacua-lo para uma assistência médica condigna fora das matas de Gorongosa.
Afonso Dhlakama nasceu em 1953 na região de Mangunde no distrito de Chibabava em Sofala  e foi um dos fundadores da Renamo em 1976, depois de ter desertado da Frelimo. Dhlakama tornou-se presidente da Renamo após a morte do primeiro líder, André Matsangaissa num combate na serra da Gorongosa.
Segundo informações, Dhlakama será sepultado na sua terra natal, em data ainda por anunciar.

O Pais

Presidente português lamenta morte de Dhlakama



Presidente português lamenta morte de Dhlakama
O Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, lamenta a morte de Afonso Dhlakama. Um comunicado publicado na página oficial da Presidência portuguesa refere que Marcelo Rebelo de Sousa enviou uma mensagem ao Presidente da República, Filipe Nyusi, na qual “expressa o seu pesar pelo falecimento do líder da Renamo, partido com assento na Assembleia da República de Moçambique, e interlocutor privilegiado nos caminhos do diálogo, da paz e da concórdia neste nosso País irmão”.
Marcelo Rebelo de Sousa expressou igualmente condolências à família de Afonso Dhlakama, com quem se pôde encontrar, em Maputo, anos atrás.
Afonso Dhlakama perdeu a vida nesta quinta-feira, quando ia a um tratamento médico, depois de ter tido uma crise diabética.


O Pais

Morte de líder da Renamo "deixa muitas incertezas"




Afonso Dhlakama, presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), morreu esta quinta-feira, aos 65 anos, vítima de doença.

A União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), maior partido na oposição angolana, lamentou hoje a morte de Afonso Dhlakama, presidente da Renamo, considerando-o "fator decisivo para mudanças políticas importantes" em Moçambique.
"Foi um homem que dedicou toda a sua vida para concretização de mudanças políticas importantes, ele foi o fator decisivo que trouxe à Moçambique o processo democrático", disse em declarações à Lusa, Alcides Sakala, porta-voz da UNITA.
Sublinhou que a morte de Dhlakama acontece numa altura em que decorre o "processo negocial e de aproximação entre a Renamo e a Frelimo para o alcance da estabilidade caminhava a bom ritmo".
O arcebispo da Beira, capital da província de Sofala, uma zona de forte influência da Renamo, no centro de Moçambique, Claudio Zuanna, descreveu Afonso Dhlakama como uma pessoa decidida e que acreditava no que fazia.
"O que guardo de algumas conversas que tivemos é de uma pessoa decidida, que acredita naquilo que faz, naquilo que diz, é aquilo que me vem à mente neste momento", afirmou Claudio Zuanna, em declarações ao canal privado STV.
A responsável da organização Human Rights Watch (HRW) para Moçambique considerou que a morte do líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Afonso Dhlakama, "deixa muitas incertezas" quanto ao processo de paz no país e na sucessão dentro do partido.
Em declarações à agência Lusa por telefone, Zenaida Machado considerou lamentável que a morte de Dhlakama tenha acontecido num "momento muito delicado do processo de paz em Moçambique", cujo teor das negociações "não é conhecido".
"A maior parte do conteúdo das discussões entre ele [Dhlakama] e o Presidente [Filipe] Nyusi não são conhecidas, apesar de a sociedade civil e a comunidade internacional terem insistido que este tipo de negociações deve envolver mais pessoas, portanto são duas pessoas a discutirem e neste momento uma delas já não está para contar a sua versão dos factos", disse a responsável.
De acordo com Zenaida Machado, com esta morte "fica também por esclarecer e por investigar" a "impunidade durante os conflitos armados", denunciada por organizações de defesa dos direitos humanos. "Apesar de terem sido relatados sérios abusos dos direitos humanos ainda ninguém, nem da parte do Governo, nem da parte da Renamo, foi levado à justiça por estes crimes", disse.
Para a responsável da HRW em Moçambique, outra preocupação é não "existir um plano de sucessão muito claro dentro da Renamo ou pelo menos um plano público ou conhecido dos moçambicanos", considerando que "fica uma incerteza no ambiente político de Moçambique".



JN

Thursday, 3 May 2018

Morreu Afonso Dhlakama, líder da oposição de Moçambique

O desaparecimento do Presidente da Renamo abre um processo de luta pela sua sucessão. Dhlakama preparou alguém? Quem se prepara para avançar? O partido quer um civil ou um militar?
O político e ex-guerrilheiro moçambicano Afonso Dhlakama, líder da Renamo há quase 40 anos, morreu esta quinta-feira na sequência de uma crise diabética, confirmaram ao PÚBLICO duas fontes que acompanham de perto o processo de paz e a política de Moçambique. Dhlakama terá morrido a bordo de um helicóptero que o transportava para tratamento médico urgente.

"Há 40 anos que a Renamo é Dhlakama, Dhlakama, Dhlakama, Dhlakama. Vai ser um processo interno difícil e complicado", disse ao PÚBLICO um observador da política moçambicana que pediu para não ser identificado. Não é claro quem vai ser o seu sucessor no partido.
Um dos nomes apontados é o de Ivone Soares, sobrinha de Dhlakama e líder da bancada parlamentar da Renamo na Assembleia da República, em Maputo. Outro nome forte é Manuel Bissopo, secretátio-geral da Renamo. "Mas Moçambique não é uma monarquia e a Renamo tem estatutos muitos claros", alerta numa conversa com o PÚBLICO por telefone um político moçambicano. "Depois do luto, haverá um congresso e as bases é que vão eleger o novo líder."
São muitas as questões em aberto. Não se sabe se Dhlakama, estando doente há muito tempo, preparou um sucessor durante os últimos três anos na Gorongosa. "Será que Dhlakama preparou um general no mato?", pergunta o mesmo político moçambicano. Independentemente de o futuro líder vir a ser civil ou militar, homem ou mulher, é seguro dizer que "começa hoje uma nova era", diz outro analista político que estuda a política africana há anos.
Este será um processo praticamente inédito na história da Renamo, uma vez que, para além de Dhlakama, o partido só teve um outro líder: André Matsangaíssa foi comandante da Renamo entre 1975 e 1979. Após a sua morte, durante a guerra civil, de Matsangaíssa foi sucedido por Dhlakama, então com 29 anos.




ULTIMA HORA: MORREU AFONSO DHLAKAMA



Imagem: O Pais


Wednesday, 2 May 2018

Roubados sim, mas imbecilizados não!


O que a investigação do “Canal de Moçambique” apurou e divulgou para os estimados leitores, a semana passada, pode ser encarado em duas dimensões. Numa primeira dimensão, fixa-se no plano daquilo que já se sabia e que só não se dizia porque as evidências pareciam difíceis de apresentar, e, numa segunda dimensão, fixa-se na dimensão explicativa das voltas que Filipe Nyusi anda a dar no que diz respeito ao esclarecimento das dívidas ocultas.
Qualquer moçambicano de capacidade craniana ao nível mediano já se tinha percebido de que Nyusi foi importante no negócio, até porque era impensável que, nas suas funções de ministro de Defesa à data dos factos, todo este processo de Segurança (verdadeiro ou não) lhe tivesse passado ao lado. Estava claro que, se a nível técnico-operacional podia até imputar-se apenas aos “securocratas” dos Serviços Secretos chefiados pelo “Indivíduo A” (que até já veio a público assumir as suas responsabilidades, faltandoapenas coragem política das nossas instituições para deitar-lhe a mão), no entanto, a nível burocrático era impossível todo este enredo passar ao lado de Filipe Nyusi ou, então, do ex-ministro do Interior, Alberto Mondlane.
Para além de ter preparado todo o processo técnico do sistema integrado, Nyusi assinou papéis importantes, tais como, por exemplo, o próprio contrato de concessão em nome da República de Moçambique, como nos diz o relatório da “Kroll”. Seria ridículo que Nyusi aparecesse agora a dizer que foi coagido a assinar ou que assinou documentos com conteúdos de que não tinha conhecimento.
A sua pomposa declaração, na reunião partidária, de que há indícios criminais no processo das dívidas, fica agora explicada pelo seu papel em regime de “inside job”. Mas o que causa mais estranheza nisso não é só o facto de Filipe Nyusi sempre tentar apresentar este escândalo como coisa dos outros, mas falsear uma intenção de esclarecimento, que nunca teve, pois, de contrário, seria o mesmo queratos e baratas irem ao guiché de uma pulverizadora contratarem serviços de pulverização no seu domicílio.
E as últimas declarações em Londres, à margem da reunião da Commonwealth, são um aviso à navegação para, mais ou menos, aquilo que já havíamos dito na semana passada sobre a nova narrativa que se tenta servir ao povo moçambicano, que, dia após dia, vai sentindo na pele a irresponsabilidade de quem o governa, com a esperança de dias melhor cada vez mais reduzidas ao nível próximo de zero.
Filipe Nyisi inaugurou agora uma nova vaga de discurso sobre a dívida, segundo a qual o problema já nem sequer é interno e que, cá dentro, são todos “bons rapazes”, os tais “pobres ousados”, e que os malditos são os bancos e, por essa via, há lugar para partilha de responsabilidades. Mas essa teoria tem problemas sérios e, mais do que captar qualquer simpatia numa possível espiral de autovitimização, cria repulsa nos mais avisados e coloca em causa a seriedade de quem a elaborou, por, acima de tudo, revelar o grau de irresponsabilidade e improviso com que agora se pretende dar explições sobre o assunto.
Comecemos pelo mais simples. Que legitimidade tem Filipe Nyusi ou o Governo moçambicano de ir exigir responsabilização exterior se, cá dentro de fronteiras, é até proibido de falar de responsabilização? Mas, mais do que isso, a responsabilidade dos estrangeiros nesse processo está muito bem entregue às autoridades financeiras desses países. Esses estrangeiros agiram em nome dos seus negócios, que visam o lucro.
Arriscaram até onde puderam para ganhar a maior quantidade possível de dinheiro em juros e comissões. Não cabia a eles, em primeira instância, verificar o quadro legal moçambicano. É tarefa da República de Moçambique fazer cumprir as leis que criou, por parte dos moçambicanos e por parte dos estrangeiros que cá vêm ter.
Se os governantes moçambicanos não respeitam a lei moçambicana, e se as instituições moçambicanas que deviam fazer respeitar a lei actuam de forma cúmplice, por omissão, deixando campo aberto, não esperem que os bancos internacionais sejam eles aassumirem o papel da Procuradoria-Geral da República ou dos tribunais.
Exigir que os moçambicanos se indignem com os bancos é de uma falta de criatividade política que coloca todo um povo no mesmo nível de insuficiência intelectual. Não foram os bancos que juraram, perante a Constituição da República, respeitar as leis moçambicanas e fazê-las respeitar. Não foram os bancos que se comprometeram a defender Moçambique e os interesses dos moçambicanos. Em última análise, os bancos não estão obrigados a nada junto do povo moçambicano. O banco está tão-somente obrigado, nos seus procedimentos, a criar lucro para os seus accionistas. E dá-lhes muito jeito sempre que encontram uns dirigentezecos subdesenvolvidos ávidos de dinheiro fácil e a venderem garantias soberanas no mercado informal.
Essa de “pobre atrevido” é mesmo uma conversa para embalar os incautos. Há muito que estamos conversados sobre o facto de que não estamos perante uma operação de inocência, mas, sim, perante uma operação de agiotagem internacional caucionada pela nossa soberania, que foi reduzida a um instrumento financeiro de chantagem internacional. Apelar à comoção nacional para que olhemos os culpados de fora é absolutamente nulo. Os bancos são culpados perante os seus accionistas e não perante os moçambicanos.
Os culpados perante os moçambicanos são os que usaram da prerrogativa que tinham em representação do Estado e nos meteram nesta encruzilhada criminosa, transformando o país num motivo de chacota internacional. E o ex-ministro da Defesa Filipe Nyusi é um deles. É um dos responsáveis pela miséria que agora se abate sobre o povo. É um dos responsáveis pela descredibilização do país.
O apelo para a zanga contra os bancos e exigência de responsabilidade internacional é um convite à estupidez e à irresponsabilidade.
O que os moçambicanos devem compreender é que, primeiro, roubaram-nos e, agora, estão a convocar-nos para fazermos fila para nos serem atribuídos certificados de imbecilidade.
Isso é que não devemos aceitar. Fomos roubados, e que os ladrões sejam punidos! (Canal de Moçambique)


CANALMOZ – 02.05.2018, no Moçambique para todos

Friday, 27 April 2018

Sorrisos, apertos de mão e um pinheiro no nascimento de uma nova "era de paz"

Este encontro é o 3.º do género desde o fim da guerra da Coreia, que terminou com um armistício mas sem acordo de paz

O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, sentaram-se frente-a-frente numa mesa oval, cada um rodeado por dois assistentes, permitindo que o arranque das conversações fosse transmitido em direto pelas televisões.
A cimeira entre os líderes das duas Coreias teve início no lado sul da zona desmilitarizada que marca a fronteira no paralelo 38. Num momento cheio de simbolismo, Kim e Moon apertaram as mãos na fronteira, em frente à Casa da Paz em Panmunjon. Antes de atravessar para o lado sul-coreano da fronteira, Kim convidou Moon passar para o lado do Norte.
Curiosamente, segunda a BBC, esta não terá sido a primeira vez que o presidente sul-coreano pisa solo norte-coreano, uma vez que em 2004, quando era assistente do presidente Roh Moo-hyun, juntou-se à mãe numa visita a familiares no Norte, no âmbito do programa de reunião de famílias separadas pela guerra.
Entre uma primeira ronda de discussões e uma segunda, os dois líderes participaram numa cerimónia em que plantaram uma árvore, com Kim a falar numa "nova primavera" entre os dois países. "Espero que a nossa relação possa crescer tal como este pinheiro", afirmou o líder norte-coreano. Ao que Moon respondeu: "Sim, espero que isso aconteça".
"Uma história nova começa agora - no ponto de partida da história e de uma era de paz", escreveu o líder norte-coreano no livro de honra colocado nas instalações, no lado sul da fronteira, onde decorrem as conversações.
No arranque dos trabalhos, e segundo a Associated Press, Kim Jong-un disse a Moon Jae-in que não iria repetir o passado onde as duas partes se mostraram "incapazes de alcançar acordos".
Antes do início da cimeira, Kim Jong-un saudou o nascimento de uma nova era de paz.
Já o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, disse ao líder norte-coreano que espera da cimeira a conclusão de um "acordo audacioso"
"Espero que tenhamos discussões francas e que alcancemos um acordo audacioso a fim de oferecer ao conjunto do povo coreano e aos que querem a paz um grande presente", disse Moon, citado pela AFP.
Depois da tensão provocada pelo lançamento de mísseis e pelo sexto ensaio nuclear norte-coreano em 2017, poucos previam na altura uma aproximação tão rápida entre as duas Coreias. Mas depois de um discurso de ano novo mais conciliatório por parte de Kim, o ponto de viragem foram os Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, em fevereiro. Na cerimónia de abertura, os dois países desfilaram juntos sob a mesma bandeira.
Este encontro é o terceiro do género desde o fim da guerra da Coreia, que terminou em 1953. O primeiro teve lugar em 2000 entre o presidente sul-coreano Kim Dae-jung e o líder norte-coreano Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un, o segundo realizou-se em 2007 de novo com Kim Jong-il mas com Roh Moo-hyun do lado da Coreia do Sul.
Para maio está previsto um encontro entre Kim Jong-un e o presidente americano, Donald Trump. O local onde esta cimeira histórica irá decorrer ainda não foi divulgado.

DN, com Lusa

Wednesday, 25 April 2018

Dívidas podem provocar "tsunami político interno" em Moçambique?

Economista João Mosca acredita que se o Governo aceder à responsabilização no caso das dívidas ocultas, a própria FRELIMO, no poder, pode ser "penalizada". Até porque o país está num momento pré-eleitoral, lembra.
default
João Mosca: "Se não há penalização, também a FRELIMO pode ser acusada"

Devem instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) retomar a ajuda a Moçambique, sem que se saiba claramente onde foram parar os dois mil milhões de dólares da chamada dívida oculta, tal como defendeu esta semana, em Londres, o Presidente Filipe Nyusi? Para o especialista moçambicano João Mosca, este é um processo político, não apenas relacionado com as dívidas ocultas, uma vez que o país realiza eleições gerais em 2019.
"É verdade que o facto de o FMI, como organização internacional, pedir responsabilidades internas pode parecer alguma interferência em assuntos políticos internos. Mas é isso que está a acontecer. Por enquanto, e veremos como é que isso evolui", responde em entrevista à DW.
O economista também critica o Governo moçambicano por estar a dirigir o processo de forma deficiente, uma vez que o Executivo não acede ao conjunto de condições apresentadas pelo FMI, entre as quais a responsabilização dos principais envolvidos na questão das dívidas ocultas.

Tais condições passam pela responsabilização, o que levará a Procuradoria Geral da República (PGR) a tomar medidas sobre as pessoas envolvidas. Isso irá atingir altos quadros e dirigentes do partido no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e do Estado moçambicano, acrescenta João Mosca. A PGR continua a investigar, mas no seu último comunicado remete o assunto para o Tribunal Administrativo como se o assunto fosse dessa natureza.


FRELIMO penalizada?


"A acontecer essa responsabilização - suponhamos que o Governo acede à responsabilização - isso pode provocar também um certo tsunami político interno, na medida em que supõe-se estão envolvidas altíssimas responsabilidades", lembra o economista, ligado às questões de desenvolvimento.
Além disso, recorda, "é preciso não esquecer que estamos num momento pré-eleitoral. Se há responsabilização - sabe-se quem são os atores que tiveram esse tipo de procedimentos negativos -, de alguma forma a própria FRELIMO fica penalizada".
Por outro lado, "se não há penalização, também a FRELIMO pode ser acusada e indiciada como estando a encobrir os elementos importantes, sabendo quem são", acrescenta. Nesse caso, diz, "politicamente e eleitoralmente, o partido no poder fica penalizado". O país está perante uma situação complexa e não é previsível qual será o ponto de partida para uma saída.
Nos próximos dias, a procuradora-geral da República, Beatriz Buchili, deverá revelar aos moçambicanos que o processo (nº 1/PGR/2015), relativo às dívidas ilegais das empresas ProIndicus, EMATUM e MAM, teve quase nenhum desenvolvimento desde o seu último informe à Assembleia da República (AR). De acordo com Beatriz Buchili, o relatório integral da auditoria da Kroll vai continuar no segredo da justiça, quiçá até depois das eleições gerais de 2019.

João Mosca pensa que não haverá novidades em relação a este processo  "porque o país não tem recursos " financeiros para aprofundar as investigações. "A Kroll continua a reclamar por falta de informação, o Governo não aclara as coisas, os principais países [parceiros] e também o próprio FMI estão muito dependentes do esclarecimento dessas questões. Estamos anuma situação que não se sabe quando e como poderá ser desbloqueada.", diz.




Negociações difíceis





Quanto à dívida, a solução depende, substancialmente, das relações com o FMI, que propôs condições ao Executivo para desbloquear a questão. Uma delas, diz João Mosca, é sobre o paradeiro do dinheiro. "As negociações não são fáceis", lembra. "O FMI sugere um conjunto de reformas no Estado, nas empresas públicas, que o Governo faz ou muito tarde ou muito parcialmente. E, portanto, não parece que o FMI esteja satisfeito não só com as próprias reformas sugeridas como também pelo processo de esclarecimento final e total da dívida."


A situação económica, financeira e social de Moçambique é complexa e as negociações para o esclarecimento e saneamento das dívidas ocultas privadas e do Estado continuam a ser pouco esclarecedoras.
João Mosca lembra que as negociações com os credores, nomeadamente em relação à dívida pública privada, não chegaram até agora a nenhuma conclusão. As taxas de juros estão muito altas, em torno dos 25%, o que significa que em menos de quatro anos as dívidas vão-se multiplicando por dois, sublinha.
"Quando chegar a 2027, otimisticamente pensando que haverá um mercado de gás, que os projetos de gás vão avançar conforme está programado - e temos dúvidas porque inicialmente era 2017, depois passou para 2023 e agora 2027 - é muito difícil estimar como estará o mercado internacional deste produto. Quando chegarmos a esse ano,  as principais receitas do gás já estão comprometidas para o pagamento da dívida", prevê o economista moçambicano.

Vida cada vez mais difícil

A crise da economia real, a vida dos cidadãos, continua a piorar, sublinha João Mosca. O custo de vida aumentou, o emprego diminuiu. Os salários sobem ao ritmo inferior ao da inflação. Segundo o especialista, há sentimento muito forte de perda da qualidade e de condições de vida, principalmente nas camadas da população mais pobres.
Para o especialista, trata-se igualmente de uma situação delicada, "porque em qualquer momento, situações de conflitualidade que existem pontualmente, sobretudo no meio rural, podem-se alargar às cidades, sobretudo á capital, o que seria muito grave". Por outro lado, refere, o Governo tem reforçado o exército com equipamentos militares: "Houve um acordo em que a Rússia vai fornecer equipamento militar. Estamos a ver aqui triangulações muito complexas".
Falando da situação política, nomeadamente das negociações de paz entre o Presidente Nyusi e Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), principal partido da oposição, o académico lembra que os principais aspetos do acordo entre as duas partes não estão estabelecidos ou definidos. Fala concretamente das questões relacionadas com o desarmamento militar, bem como do acomodamento das chefias militares e civis da RENAMO. "Dhlakama disse que nestas condições não vai entregar as armas", lembra.
"Talvez, se a RENAMO não ganha, muito dificilmente, como aconteceu antes, Dhlakama não vai aceitar a derrota, com ou sem razão. E, portanto, a possibilidade de retoma de uma certa conflitualidade militar é uma realidade. Porque os acordos não estão estabelecidos, os níveis de confiança não existem", explica.

O académico moçambicano falou à DW África, esta quinta-feira (20.04), à margem de um seminário universitário em estudos de desenvolvimento sobre África e a reconfiguração do capital, promovido pelo Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina do ISEG - Lisbon School of Economics and Management, da Universidade de Lisboa.


DW

Wednesday, 11 April 2018

Bispos moçambicanos condenam ataques à liberdade de expressão



O presidente da Comissão Episcopal de Justiça e Paz (CEJP), que congrega bispos católicos de Moçambique, considerou hoje nefastos para a democracia os atentados à liberdade de expressão no país.
Os ataques são "muito ruins para a democracia e impedem que as pessoas vivam livremente", afirmou o presidente da CEJP, Luiz Fernando Lisboa, em conferência de imprensa, em Maputo, para apresentação de um ciclo de debates sobre dinâmicas sociais.
Aquele responsável repudiou o rapto e agressão, no dia 27 de março, do jornalista e comentador Ericino de Salema, assinalando que nenhum cidadão deve sofrer represálias por exercer direitos e liberdades fundamentais.
"A conferência episcopal, como o país inteiro, repudia aquele ato bárbaro. Nenhuma pessoa pode ser torturada por pensar diferente", declarou Lisboa.
O presidente da CEJP sublinhou que as sociedades devem cultivar a diferença de opinião, diversidade que dá vitalidade à convivência social e à democracia.
"Nenhuma pessoa, nenhum partido, nenhum poder consegue unanimidade. O próprio Jesus não foi unânime. Ele incomodou no seu tempo, porque dizia a verdade e a verdade incomoda", acrescentou.
Ericino de Salema era comentador do programa "Pontos de Vista", espaço de comentário político do canal privado STV muito visto em Moçambique.
Apesar de a polícia afirmar que ainda está a investigar o crime e que não são conhecidas as motivações, organizações da sociedade civil associam o caso à violência perpetrada contra figuras que emitem posições críticas ao Governo e à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder.
Em 2015, o constitucionalista moçambicano de origem francesa Gilles Cistac foi mortalmente baleado na capital moçambicana e no ano seguinte o politólogo José Macuane sobreviveu após ter sido raptado e baleado numa altura em que também era comentador do "Pontos de Vista".
Nenhum dos crimes foi esclarecido pelas autoridades.


Lusa

Monday, 9 April 2018

A intolerância agudiza-se, em contramão com alguns discursos de ocasião.


Não é segredo para muitos que de há uns anos a esta parte quem pensar ou se expressar livremente, principalmente contra o sistema instalado (salvo alguns “críticos autorizados”), tem à espera um balázio ou pé-de-cabra, de tal sorte que tudo indica que uma indústria ou comércio de urnas funerárias e canadianas (vulgo muletas) tem tudo para dar certo por estas bandas.
Para agravar o cenário, basta acompanhar os mais recentes comentários públicos dos senhores dos (des)consensos, que cinicamente se tratam por “irmãos”.
Falando para os seus seguidores na Matola durante a mais recente sessão do Comité Central (23-25 de Março), o presidente do partido Frelimo e da República, Filipe Nyusi, afirmou não esperar que o seu contraparte, líder da Renamo, Afonso Dhlakama, venha com novas exigências.
Nyusi deu a entender que a descentralização e o desarmamento dos homens residuais da Renamo eram duas faces da mesma moeda.
Dhlakama, por seu turno, tem outro entendimento: esta semana foi citado por um semanário a afirmar que o seu “irmão” Nyusi estava equivocado ao associar a descentralização e o desarmamento dos homens da “perdiz”.
“Descentralizar é uma coisa e (o desarmamento e) a integração dos homens da Renamo é outra coisa”, teria dito Dhlakama, acrescentando mesmo que “o presidente Nyusi nunca me abordou oficialmente para me dizer que a descentralização é para trocar com o desarmamento (…) Eu acho que estava a fazer política, e compreende-se (…). Se calhar foi para contentar os camaradas nervosos com a derrota de Nampula, não sei. Mas cada um tem os seus problemas, e eu também tenho os meus”.
Estas palavras, acrescidas a um comentário de Dhlakama segundo o qual “a Renamo não vai retirar armas da sua segurança e entregar a um conjunto de pessoas que recebem ordens do partido Frelimo. Isso nunca vai acontecer, aliás, todo o mundo sabe (disso) desde 1994”, reflectem tudo, menos consensos sérios entre Nyusi e Dhlakama.
Isto tudo, associado aos atentados, raptos, torturas e mortes selectivas que se assistem na “Pátria Amada” apenas dão para concluir que o ambiente está simplesmente inquinado e que falar de consensos deve ser para fazer boi dormir, porque parece que os dois arquirrivais continuam vivamente motivados a aniquilar/decapitar a outra parte, apenas esperando o primeiro deslize.
Se há um desejo que gostaria de exprimir neste momento, é, sinceramente, de estar redondamente enganado, mas lá que a coisa está feia, bem me parece.

Refinaldo Chilengue, Correio da Manhã (Moçambique) – 09.04.2018

Thursday, 5 April 2018

Última Hora: O que aconteceu a Ericino de Salema no aeroporto internacional de Maputo?


Maputo (Canalmoz) - O jornalista e advogado Ericino de Salema teve de deixar Moçambique para continuar com os tratamentos fora do País. O voo estava marcado para esta manhã. No aeroporto internacional de Maputo, Salema estava acompanhado pela sua esposa, Neusa Ribeiro e um terceiro acompanhante que empurrava a carrinha de rodas, visto que Salema não pode andar, por causa das fracturas que sofreu em consequência da tortura a que foi submetido, depois de raptado.
Depois de ter feito o check in, o pessoal da MHS (empresa de apoio no aeroporto), informou que Ericino de Salema não podia usar o elevador para a sala de embarque porque o mesmo estava avariado, sendo que deviam usar as escadas, o que seria muito penoso para Ericino, até porque ainda sente dores, visto que a cirurgia teve lugar na passada sexta-feira. Então chegou-se ao entendimento de que Salema tinha de ir pelo lado do desembarque, acompanhado por uma funcionária da MHS.
Já na porta do desembarque, os vários agentes da PIC e da polícia de protecção que ali estavam informaram que quem devia passar por ali era apenas Ericino de Salema e os outros dois acompanhantes deviam volta, ignorando todas as explicações que lhes foram dadas pela funcionária da MHS. Isso criou alguma desconfiança nos acompanhantes, dado que actuação da polícia indiciava que os agentes queriam ficar sozinhos com Salema.
A embaixadora da Suécia que estava no aeroporto para se despedir de Salema é comunicada da situação e teve de intervir apresentando-se aos agentes. Depois da intervenção da embaixadora os agentes recuaram das suas intenções e aceitaram que Salema passasse com os dois acompanhantes e foi destacado um agente da polícia para os acompanhar.
Acontece que, já no posto da migração, estranhamente, o mesmo agente da polícia que havia sido destacado aparece com um cidadão e sem qualquer documento, vestido a civil e que se acredita que seja dos serviços secretos, a informar que haviam ordens contrárias e que Salema devia seguir sem o acompanhante. Entretanto Salema exigiu que a tal pessoa se identificasse no mínimo, mas não o fez. Nisso o acompanhante tirou uma fotografia da situação para ter o registo da confusão. Ali o caldo entornou-se. A Polícia recolheu o acompanhante para o posto policial do aeroporto e teve de ser a esposa do Salema a carregar as pastas e a empurrar a carrinha de rodas. E quando a informação começou a circular Salema foi liberado e embarcou. A polícia exigiu que o acompanhante apagasse as fotos do cenário. O acompanhante que estava retido no posto policial foi liberado quando eram 11:30. (Redacção)

Dhlakama diz que só entrega armas com oficiais da Renamo nas Forças de Defesa e Segurança

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, afirmou hoje que o principal partido da oposição moçambicana só vai entregar as armas da sua ala militar, quando os oficiais da organização forem integrados no comando das Forças de Defesa e Segurança.
"As armas da nossa segurança só sairão das mãos dos homens da Renamo para serem entregues a instituições credíveis e equilibradas do Estado", afirmou Afonso Dhlakama, em entrevista ao semanário Canal de Moçambique.
A credibilidade das Forças de Defesa e Segurança moçambicanas depende da entrada de oficiais da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) nos postos de comando, acrescentou.
"Essas armas que estão nas mãos dos guardas da Renamo serão entregues ao partido Frelimo, porque estaremos a dirigir em conjunto. Sem acontecer isso, essa história de armas é uma grande conversa, porque a Renamo não vai retirar armas da sua segurança e entregar a um conjunto de pessoas que recebem ordens do partido Frelimo", sublinhou Afonso Dhlakama.
O líder da Renamo reiterou que o seu partido defende que as Forças de Defesa e Segurança sejam dirigidas por oficiais indicados pelo principal partido da oposição e pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder, para deixarem de ser alegadamente partidárias.
"A ideia é simples: onde o chefe é da Frelimo, o 'vice' deve ser da Renamo e vice-versa", declarou.
Afonso Dhlakama rejeitou a posição da Frelimo de que a desmobilização e desintegração da chamada força residual da Renamo ou sua integração nas Forças de Defesa e Segurança decorra em paralelo com a descentralização administrativa do país.
"O que eu quero deixar claro é que nunca discutimos a troca de nada. O Presidente [da República, Filipe] Nyusi abordou oficialmente para dizer que a descentralização é para trocar com o desarmamento", afirmou.
Apesar de o Governo e a Renamo terem assinado o Acordo Geral de Paz (AGP) em 1992, que encerrou 16 anos de guerra civil, o principal partido da oposição mantém um contingente armado que já se envolveu em vários ciclos de violência com as forças governamentais, principalmente após eleições.


( Lusa )