Sunday, 24 March 2019

É imperativo que exista um controlo cerrado sobre a ajuda canalizada por via do INGC em todas as suas fases

Vários cidadãos, instituições públicas e privadas nacionais e internacionais têm estado nos últimos dias a canalizar ajuda de diversas formas: valores monetários, bens alimentares não facilmente perecíveis e outros destinados às vítimas do ciclone IDAI na região centro de Moçambique, com particular ênfase para as províncias de Sofala (de longe a mais seve- ramente afectada por este desastre natural, quer pela perda de vidas humanas, destruição de infra-estruturas públicas e privadas e extensão), Manica e Zambézia. É de realçar que até ao momento ainda não se conhece a real dimensão dos danos causados pelo ciclone, estando as autoridades públicas a fazer a actualização constante das consequências ad- vindas do mesmo.
Nesse âmbito, tem surgido um clamor público que se vai generalizando e, amiúde, tem como denominador comum a desconfiança de que essa mesma ajuda possa não chegar às populações afectadas. Os motivos para tal estão relacionados com a falta de clareza no controle e gestão da ajuda por parte da entidade encarregada para o efeito, designa- damente o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC).

Leia o comunicado na íntegra

Thursday, 21 March 2019

Monday, 18 March 2019

Última Hora*Última Hora*Última Hora*Última Hora*


Um voo (de carga) com suprimentos humanitários do “Humanitarian Response Depot (UNHRD)” chegou ontem (domingo) à cidade da Beira com 22 toneladas de biscoitos, descritos como sendo “super-nutritivos”. A quantidade segundo o Programa das Nações Unidas para a Alimentação dá para assistir mais de 22 mil pessoas nos próximos três dias na região Centro. Quatro toneladas já foram despachadas na manhã desta segunda-feira para as zonas isoladas, em Nhamatanda. As Nações Unidas alugaram inclusive um helicóptero de transporte MI-8 para conduzir operações aéreas de emergência em locais remotos inacessíveis por estrada. O PMA também financiou 30 pilotos de barcos que foram mobilizados para transportar alimentos.

Canalmoz


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Número de mortos à passagem de ciclone por Moçambique sobe para 73

A cidade da Beira está parcialmente destruída, continua sem eletricidade e comunicações e está desde sábado isolada.

O número de mortes provocadas pela passagem do ciclone Idai pelo centro de Moçambique subiu para 73 e milhares precisam de ajuda humanitária, de acordo com o mais recente balanço das autoridades.
A prioridade "é resgatar as pessoas que estão por cima das árvores, por cima das casas" nas zonas alagadas que cobrem quase toda a região, disse este domingo Rita Almeida, dirigente do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), à televisão estatal.
Rita Almeida referiu que o socorro prestado pelo INGC e parceiros, como as agências das Nações Unidas, tem sido limitado devido à destruição das vias de acesso e falta de redes de comunicações.
"Vamos ter muita dificuldade em fazer movimentação da assistência", reconheceu.

As equipas montaram 28 centros de acolhimento na cidade da Beira e Dondo, as zonas mais afetadas, onde milhares de pessoas têm procurado abrigo e comida.
A reportagem do canal privado STV ouviu desalojados num centro de apoio que se queixam de fome devido à falta de alimentos, depois de terem perdido os campos de cultivo e de ficarem sem o que tinham armazenado em casa.
A contabilidade oficial do INGC registava este domingo 68 mortes na província de Sofala, cinco em Manica e centenas de feridos.
As autoridades alertam para o agravamento das cheias nos próximos dias devido à continuação de chuvas fortes, à saturação dos solos e às descargas de barragens.
A cidade da Beira, capital provincial de Sofala e uma das principais do país, está parcialmente destruída, continua sem eletricidade e comunicações e está desde sábado isolada por terra devido ao corte de vários troços da estrada nacional 6, alguns dos quais arrastados pelas correntes.
A via é a espinha dorsal do centro de Moçambique e liga o porto da Beira aos países do centro da África Austral, nomeadamente ao Zimbábue.
Toda a zona urbana tem sinais de destruição causada pelo vento e chuva forte e as forças de defesa e segurança tem estado a trabalhar na desobstrução de vias.

Lusa

Friday, 15 March 2019

IDAI perde força deixando 21 mortos, centenas de feridos e danos materiais "preocupantes"



Pelo menos 21 pessoas morreram e centenas ficaram feridas no rescaldo preliminar da passagem do Ciclone tropical IDAI pelas províncias de Sofala e Manica onde deixou "danos materiais muito preocupantes", de acordo com o Presidente da República, e inundações por toda a cidade da Beira.
As inundações registadas nos bairros de Alto Manga, Ndunda, Manga Mascarrenha, Vaz, Munhava, Macurrungo, Chipangara, Chaimite (Praia Nova), Maraza, Pioneiros, Matacuane, Mananga, Chota, Muhava, Esturo, Matador, Vila Massane, Maganza, Inhamizua, Chingussura, Nhaconjo, Pontagea e Macuti (na cidade da Beira), a queda de árvores e chapas de cobertura soltas pelos ventos fortes resultaram em 13 vítimas mortais enquanto outros seis cidadãos perderam a vida no distrito do Dondo.
"A parte mais difícil registou-se ao longo da noite (de quinta-feira, 14) e durou até a manhã (de sexta-feira, 15) e fez muitos estragos que ainda não fizemos o balanço, mas são muitas casas sem tecto" disse à Rádio Moçambique o Governador da província de Sofala, Alberto Mondlane.
Há também danos a assinalar no bloco operatório e em algumas enfermarias do Hospital Central da Beira que aumentaram a incapacidade da Unidade tratar dos centenas de feridos que ali estavam a acorrer com o amainar do Ciclone.
Em Manica o porta-voz do Governo provincial, Ronaldo Naico, relatou a existência de pelo menos duas vítimas mortais, menores de idade, atingidas por chapas de cobertura no distrito de Gondola e na cidade do Chimoio.
No distrito de Sussundenga uma outra criança ficou gravemente ferida devido a queda da parede da habitação onde se encontrava.
Pelo menos três centenas de feridos foram atendidos no Hospital provincial do Chimoio.
Entretanto o Instituto Nacional de Meteorologia actualizou que o Ciclone perdeu de força mas continuará a causar chuvas fortes a muito fortes (mais de150 milímetros em 24 horas), ventos com rajadas fortes até 70 quilómetros por hora e trovoadas severas nas províncias da Zambézia (distritos de Chinde, Luabo, Inhassuge, Morrumbala e Mopeia), Sofala (todos os distritos), Manica (todos os distritos), Tete (distritos de Changara, Mutarara, Doa, Marara, Cahora Bassa, Moatize, Chiuta e Cidade de Tete) e Inhambane (distritos de Govuro, Inhassoro, Vilankulo e Massinga).
Na manhã desta sexta-feira (15), antes de embarcar para o Reino de Eswatini, o Presidente Filipe Nyusi declarou que "os danos materiais verificados até ao momento são maiores e muito preocupantes, devido a problema de comunicação não é possível ainda estimar o tamanho dos danos causados".
As autoridades de emergência previram que pelo menos 80 mil famílias poderiam necessitar de assistência humanitária urgente devido a esta calamidade natural.
Com as vítimas mortais registadas nos dois últimos dias elevam-se para 87 o número de óbitos desde que a época de chuvas iniciou em Moçambique.
A Electricidade de Moçambique (EDM) revelou ao @Verdade que a sua sub-estação da Munhava foi desligada preventivamente após os ventos fortes danificarem vidros e cobertura e a água da chuva intensa ter inundado o local onde funcionam transformadores.
Fonte da Administração da EDM disse que equipas de Quelimane e de Maputo estão a caminho da Região Centro para apoiar o restabelecimento do fornecimento de energia. "Quando as linhas estão em tensão, havendo linhas caídas como aconteceu com várias, pode causar acidentes que podem ser fatais", explicou.
Entretanto durante a tarde as comunicações de voz fixa foi restabelecida pela empresa estatal Tmcel. As restantes comunicações móvel, dados e internet continuavam interrompidas desde a noite de quinta-feira (14).

Residentes relatam mortes após passagem do ciclone Idai na Beira

Residentes no Bairro da Munhava, na cidade da Beira relataram hoje à Lusa haver vítimas mortais naquela zona devido à destruição causada pela passagem do ciclone Idai.
Residentes relatam mortes após passagem do ciclone Idai na Beira
"A minha casa caiu, a minha filha sofreu e estou no hospital. A filha duma vizinha morreu [quando] a casa caiu", relatou Miquelina Mugaua, moradora na Munhava, onde proliferam as habitações precárias.
Mateus Silvério, outro residente, disse à Lusa que "a situação é mais crítica no interior" do bairro.
"Tem uma criança que morreu e, próximo da maternidade da Munhava, um outro homem está lá morto", descreveu.
As entidades oficiais remetem para mais tarde um levantamento detalhado das ocorrências relacionadas com a tempestade.
O canal de televisão privado STV relatou ainda haver pelo menos uma morte com o desabamento de uma casa no distrito de Nhamatanda, a cerca de 100 quilómetros da capital provincial.
Na cidade, a chuva intensa e os ventos ciclónicos destruíram várias habitações e outras estruturas do bairro carenciado da Munhava, como um posto de saúde, onde a Lusa verificou haver várias pessoas a procurar atendimento, poucas horas depois do dia clarear.
Só pelas 08:00 é que o vento e a chuva diminuíram de intensidade.
A cidade da Beira é uma das principais de Moçambique, com cerca de meio milhão de habitantes e capital da província de Sofala, tendo ficado sem electricidade e sem comunicações devido ao ciclone.
Por toda a zona urbana há marcas de destruição, com edifícios sem telhado e muitos vidros partidos.
Há árvores, painéis publicitários e outras estruturas caídas nas estradas, impedindo a circulação.
Há residentes que tentam prestar assistência à população, circulando de bicicleta que, nalguns casos, substitui as ambulâncias para transportar feridos.
Pela cidade e bairros em redor veem-se residentes a deixar para trás casas precárias e a procurar refúgio em locais mais abrigados.
Equipas de socorro do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) e agências das Nações Unidas estão no terreno a avaliar a situação, referiu fonte oficial.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) anunciou que o ciclone está a enfraquecer desde que entrou em terra, proveniente do oceano Índico, ao princípio da noite de quinta-feira.
Para hoje prevê-se que continue a avançar em direcção a oeste com ventos de 140 a 160 quilómetros por hora, chuva e trovoadas intensas, que afectam sobretudo as províncias no seu percurso - Sofala, Manica -, mas também Zambézia, Inhambane e Tete.
Karin Mantente, representante do Programa Alimentar Mundial (PAM) no país, disse hoje à Lusa que há produtos alimentares e cinco helicópteros de diferentes entidades de socorro prontos a entrar em acção na região centro logo que haja condições meteorológicas para operarem.
Uma caravana com os diferentes membros das operações deverá circular hoje entre Caia e Beira para avaliar os danos e necessidades.
O ciclone só deverá dissipar-se sobre o Zimbábue, no sábado, de acordo com as previsões.
Esta é a segunda tempestade forte a assolar o centro e norte do país em pouco mais de uma semana.
Desde dia 06 de Março, pelo menos 15 pessoas morreram e mais de 103.000 foram afectadas pelas chuvas fortes e inundações no centro e norte de Moçambique, anunciou o Escritório das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários (OCHA).

Beira: as escuras, submersa e sem comunicaçoes


Quando ainda não há informação oficial sobre a passagem da depressão tropical Idai, na província de Sofala, mais concretamente na cidade da Beira, a única certeza são os estragos. Não há qualquer comunicação com a cidade. Primeiro foi um corte parcial no fornecimento de electricidade por volta das 19 horas e que se generalizou um pouco depois das 20 horas. Com a electricidade foi a comunicação de voz e dados um tempo depois das 21 horas. Quase a generalidade dos bairros periféricos está submersa. Uma repetição de um cenário de há sensivelmente um mês e meio.




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Thursday, 7 March 2019

Eleição de governadores é insuficiente para acabar com conflitos políticos no país




A eleição de governadores em Moçambique a partir deste ano, resultado de um acordo entre o Governo e oposição, será insuficiente para garantir a paz, se continuar a haver irregularidades nas eleições, disseram hoje analistas à Lusa.

Um eleitor exerce o seu direito de voto para as eleições legislativas na Sociedade Recreativa de Fontanelas e Gouveia, São João das Lampas, em Sintra, 4 de outubro de 2015. Mais de 9,6 milhões de eleitores recenseados no território nacional e no estrangeiro são hoje chamados às urnas para escolher a constituição da Assembleia da República na próxima legislatura e de onde sairá o novo Governo.

"A legislação, tal como está, parece empurrar os problemas da paz, que residem nas eleições", disse à Lusa Adriano Nuvunga, académico e diretor executivo da Associação Desenvolvimento e Sociedade (ADS), numa altura em que está em consulta pública - até sexta-feira - um pacote legislativo para descentralização do poder.

A Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) aspira governar algumas das 11 províncias graças às novas leis, cuja descentralização progressiva, acordada como parte de um novo acordo de paz, prevê ainda a eleição de administradores nos 161 distritos a partir de 2024.

Governadores e administradores vão deixar de ser nomeados pelo poder central para passarem a ser quem encabeça a lista mais votada à respetiva assembleia (provincial ou distrital).

Mas as irregularidades verificadas nas eleições autárquicas de outubro de 2018 demonstram que os conflitos políticos e militares que o país tem registado derivam de fraudes eleitorais, que levam à contestação dos resultados, referiu Adriano Nuvunga à Lusa.

Como exemplo, apontou a deturpação dos resultados da segunda volta das eleições autárquicas de Marromeu, município do centro de Moçambique, em que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) venceu, mas sob contestação, que chegou até ao meio diplomático.

A embaixada dos Estados Unidos em Moçambique emitiu um comunicado a recomendar a revisão de "regras e procedimentos eleitorais" para aumentar "a transparência e legitimação" antes das eleições de 2019.

"Apressou-se a estruturação desta legislação sem uma adequada reflexão, mas sobretudo sem uma compreensão profunda dos problemas que emperram a paz em Moçambique", disse Nuvunga à Lusa.

Por sua vez, Ericino de Salema, jurista e diretor em Moçambique do Instituto Eleitoral para a Democracia Sustentável em África (EISA), considera também que a eleição de governadores e administradores por si só não afastará o risco de o país voltar a ter novos conflitos.

Salema entende que a proposta de lei depositada na Assembleia da República tem o potencial de criar uma descoordenação entre os governadores provinciais eleitos e o futuro Secretário do Estado, figura criada pelo novo pacote legal, devido à falta de clareza.

Se por um lado há descentralização de competências, por outro o poder central passa a nomear esta nova figura, que chama a si diversas competências.

"Os próprios órgãos descentralizados que não forem da mesma família política do governo central podem sentir-se frustrados e isso pode ser fonte de controvérsia e até de conflitos", afirmou.

Ericino de Salema defendeu que o processo de descentralização em curso deve evitar que órgãos não eleitos, como o Secretário do Estado, interfiram no exercício de poderes de órgãos eleitos.

O analista considera ainda que está por esclarecer "qual será o papel do governo central ao nível local do distrito e é importante que fique claro, tendo em conta que o Estado é unitário", disse o diretor do EISA em Moçambique.

Por seu turno, Paulo Comoana, docente e juiz-conselheiro do Tribunal Administrativo, desdramatizou à Lusa os receios em relação ao conflito entre órgãos do poder local e a autoridade central do Estado, defendendo que a Constituição "delimita claramente as competências".

A Assembleia da República de Moçambique vai discutir em data a definir, na sessão parlamentar que decorre até maio, um pacote legislativo para descentralização do poder.

Dele fazem parte as leis de funcionamento dos órgãos de governação descentralizada provincial, de organização e funcionamento das assembleias provinciais, de representação do Estado na província e de tutela do Estado sobre as entidades descentralizadas.

As propostas surgem no âmbito de entendimentos entre o presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o antigo líder da Resistência Nacional Moçambicana, Afonso Dlhakama, com vista à assinatura de um acordo de paz para o país.

LUSA – 05.03.2019

Wednesday, 27 February 2019

Decisão final sobre extradição de Manuel Chang caberá à justiça e não ao governo da África do Sul


A decisão final sobre para que país será extraditado Manuel Chang não é do Ministro da Justiça da África do Sul. É do tribunal, que pode ser supremo ou constitucional. O Centro de Integridade Pública descreve os passos que faltam até à decisão final de extradição de Manuel Chang.
Leia o comunicado na íntegra 


Sunday, 24 February 2019

Portas a cair e assentos "no ferro", os transportes em Moçambique

Uma viagem junto a portas que não fecham ou em assentos sem estofo, em que o ferro rasga a roupa, são recordações de passageiros de transportes coletivos relatadas à Lusa no centro de Moçambique.

"Às vezes, quando subimos para um carro com a cadeira estragada, descemos já com a capulana [tecido de vestidos tradicionais] rasgada" conta à Lusa Memory Marcos.
"As portas estão estragadas. A pessoa senta na porta e tem que sentar com cuidado, por ter medo de cair", refere.
A degradação do parque automóvel salta à vista, especialmente agora, em plena época das chuvas, que dificulta a circulação, com o desconforto e receios acerca da segurança das viaturas a encabeçarem as queixas dos utentes.
Os velhos e estafados "chapas" de 15 ou mais lugares - levam tantos clientes quantos caibam - ainda enchem as ruas que ligam os bairros de pó e barro à zona de cimento de Chimoio, capital de Manica, centro de Moçambique.
Ao compasso da chiadeira de amortecedores e chaparia já gasta, neste tipo de viatura que é a mais usada para transportar de pessoas em cada região, a insegurança dos passageiros começa por saltar à vista com os esqueléticos e rotos assentos onde já só resta ferro e napa.
Depois, a viatura ligeira de passageiros enche e a superlotação torna-se evidente.
Na hora de se fazerem à estrada, faltam piscas e às vezes nem os faróis acendem.
A degradação é idêntica à que se vive no resto do país e reflete o défice de investimento em infraestruturas e serviços naquele que continua a ser um dos países mais pobres do mundo.
As autoridades referem não haver registo de qualquer acidente de vulto com "chapas", mas muitos ferimentos, muitas vezes, nem são divulgados, refere Claudionor Marques, outro passageiro.
"Esta cadeira pode vir a aleijar-me, mas o motorista não se responsabiliza" diz à Lusa este passageiro, apertado, dentro de um "chapa", enquanto mostra ferros soltos num assento sem encosto, salientando que aquelas condições são um atentando à sua saúde.
Salomão Maputo, igualmente utente dos transportes coletivos, explica que, por falta de opções, sujeita-se a viajar naquelas condições, mas apelou aos proprietários para recondicionarem as viaturas.
"Chegamos ao fim das viagens com costelas estragadas" conta à Lusa Benedito Francisco, outro passageiro, considerando que a degradação de algumas viaturas é um sinal evidente de que já não têm condições para circular.
"Quando chegam a uma lomba, tudo levanta e até as tripas sofrem", descreve.
Com mais de 350 mil habitantes, Chimoio, que já ostentou o título de cidade mais limpa de Moçambique, enfrenta um problema de desordenamento territorial, além de acentuada degradação das estradas asfaltadas e terraplanadas, que dificultam as ligações entre bairros, a circulação de chapas e de outras viaturas.
Os condutores dos "chapas" justificam o estado das viaturas com a degradação das vias de acesso e dizem que as receitas só chegam para comprar algumas das peças necessárias para a manutenção das viaturas.
"Estamos a trabalhar para as peças. A receita tem servido somente para recompor o carro", no essencial, para o manter a circular, dizem à Lusa Jorge Tadeu e Micheke Vunduki, condutores.
O responsável pela Associação dos Transportadores de Passeiros de Manica (ATPM) diz que há um contínuo trabalho de sensibilização dos associados para melhorarem as condições dos "chapas".
"Andamos nas praças a sensibilizá-los para melhorarem as cadeiras e o interior das viaturas", explica Alfredo Canheze, presidente da ATPM.
O porta-voz do comando provincial da polícia de Manica, Mateus Mindu, reconhece os riscos associados à insegurança, mas deixa o problema ao cuidado dos condutores.
"Respeitem a lotação e moderem as velocidades, para evitar que haja derramamento de sangue na nossa urbe", conclui Mateus Mindu.


Lusa

Monday, 18 February 2019

O que há de errado com a Renamo?


Quando se aproxima a data de Outubro de 2019, fica claro que, pela per- cepção dos dados de análise disponíveis, o partido Renamo pode ter re- sultados históricos, e não seria ter excesso de expectativa acalentar a ideia de conquistar o poder nestas eleições. Mas o maior inimigo da Renamo é exactamente a última parte desta frase: o poder. Há uma pergunta simples e séria que deve ser feita: até que ponto está a Renamo interessada em conquistar e exercer o poder? E, se calhar, acrescentarmos mais uma pergunta: e como é que pensa tornar possível esse objectivo?
Já havíamos referido, aqui, neste mesmo espaço, desde os tempos de Afonso Dhlakama, que era mais politicamente evoluído, que a Renamo não pode, de ano em ano, investir contra a expectativa dos seus próprios eleitores, ou seja, é a própria Rena- mo a ser o empecilho para o seu próprio sucesso. Sempre que acreditamos que a Re- namo está suficientemente madura, é ela própria que trata de desmentir essa asserção e prefere continuar como eterno estagiário da política.
Nas eleições autárquicas mais recentes ficou amplamente provado que a Renamo ga- nhou na maioria dos municípios estratégicos. Mesmo com a fraude eleitoral consubs- tanciada com a falsificação de editais, a Renamo teve um número significativo de as- sentos nas respectivas Assembleias Municipais, o que, em teoria, uma coligação com os membros do Movimento Democrático de Moçambique dava para a Renamo controlar a Assembleia Municipal e infernizar a vida àqueles que ganharam na secretaria.
Mas vamos por partes. Como é que ficou o protesto da Renamo em relação à frau- de? Sabido que, por via das instituições, era impossível obter uma resposta isenta e íntegra das suas reclamações, colocaram-se possibilidades legais para a Renamo e o MDM protestarem com vigor e com resultados garantidos contra a fraude. Haviam sido avançadas duas propostas: a primeira, sendo a mais radical (em política, o radical é relativo) seria o boicote à tomada de posse e a não constituição dos órgãos autárqui- cos, o que forçaria uma nova eleição. A segunda, a mais leve e a mais demorada, seria tomar posse e reprovar os documentos considerados essenciais para a viabilização da governação, o que também levava ao mesmo resultado, o da dissolução da Assembleia e a marcação de novas eleições.
Estas hipóteses colocadas assim como foram parte de um pressuposto de que a Re- namo está interessada em três coisas: (1) contestar com notável vigor os resultados fraudulentos; (2) conquistar e exercer o poder e (3) impor respeito e a devida conside- ração como interveniente político relevante e sério não só aos seus oponentes mas tam- bém e, se calhar o mais importante, aos que têm depositado o seu voto nas suas ideias.
O que acontece que essas hipóteses ou premissas são apenas dos analistas. A Rena- mo não elabora sobre essas premissas. Tem outras premissas que até aqui são desco- nhecidas do grande público, e vai daí que as suas acções são exactamente para colocar aquele partido fora da rota da conquista e exercício do poder.
Vejamos por exemplo nos municípios como Matola, Rubaue, Monapo e Monapo onde a fraude foi clamorosa, com a famosa falsificação dos editais. Esperava-se uma acção mais concreta da Renamo e tudo indica que isso não passou das intenções das pessoas do bem que votaram na Renamo, e a Renamo não tinha qualquer agenda de protesto.
Veio a tomada de posse nesses municípios e, na primeira oportunidade, a Renamo demonstrou que não está minimamente interessada na agenda do poder. Na Matola, dois membros do MDM concordaram em votar na Renamo para colocar os seus can- didatos a dirigirem a mesa da Assembleia Municipal, mas foi a própria Renamo que foi votar na Frelimo. O mesmo sucedeu em Ribaué e Monapo. Foram os membros da Renamo que votaram naqueles que fizeram a fraude. Ora, prova maior da falta de seriedade e esquizofrenia política não podia haver.
Os amantes das teorias de desculpabilização poderão dizer que foram três ou quatro “gatos-pingados” que, num número de indisciplina e de luta contra a fome, decidiram vender a causa por um prato de lentilhas. Pois. Pode ser. Mas é dever da Renamo, en- quanto organização que aspira ser alternativa, ter, a esse nível, indivíduos que tenham o mínimo de discernimento sobre o que está em causa. Não estava em causa apenas uns votos banais, mas um manifesto de protesto contra a fraude que ficou reduzido a
umas ambições do nível de prato de comida. É responsabilidade da Renamo recrutar e fazer-se representar por homens e mulheres à altura dos desafios que a ela se colocam. Ignorar o que aconteceu nas Assembleias Municipais como se nada fosse é passar um certificado de incompetência não aos vendedores dos votos mas, acima de tudo, à Direcção da Renamo, pelo erro de escolha dos candidatos.
E se olharmos para as recentes eleições dentro da própria Renamo (temos o dever de saudar, aqui, o exemplo de democracia e transparência), há muitas questões que se podem levantar sobre com que argumentos a própria Renamo quer fazer face aos desa- fios que à frente se colocam. Sem querer retirar mérito aos novos eleitos para os órgãos sociais, é preciso questionar o que a Renamo pretende alcançar com as personalidades que colocou na linha da frente. Estrelismos à parte: preterir Ivone Soares, Venâncio Mondlane, Eduardo Namburete e o próprio Manuel de Araújo, entre outros quadros de inquestionável valia, é estranho. Como é que uma Comissão Política quer funcionar sem a líder parlamentar desse mesmo partido. E não é só o cargo que deve ser cha- mado como argumento. Mas as capacidades da própria líder parlamentar que são por demais notórias. Uma estratégia política que ignora Ivone Soares e outros quadros do seu quilate é questionável. Insistimos que não se trata aqui de retirar mérito aos novos eleitos, mas tão simplesmente um exercício de lógica parenta dos dados existentes. Não deixa de ser também notória a ostracização dos que apoiaram Elias Dhlakama nas eleições internas. Isso denota que o espírito democrático não reside na Renamo. Elias Dhlakama perdeu. Ossufo ganhou. Isso não quer dizer que Elias Dhlakama e seus apoiantes assinaram sua própria sentença de morte política, muito pelo contrário. É indicador de que há uma parte da Renamo que acredita nas ideias de Elias Dhlaka- ma e essas ideias e pessoas não podem ser ignoradas, porque perderam, sob o risco de criar duas Renamos, o que seria desastroso. Este é o momento de os vencedores e os vencidos juntarem-se numa única frente e trazer novas ideias e nova forma de fazer política. Não se pode perder tempo a gerir zangas de quem apoiou quem e quem votou em quem? Caça às bruxas é sinal de fraqueza. A não ser que a Renamo tenha uma outra estratégia oculta do público em que esses quadros que foram varridos são manifestamente inaptos.
É sintomático que sempre que o ecossistema político cria condições para a Renamo dar um salto qualitativo, é a própria a Renamo que investe tudo contra si mesma. Os eleitores da Matola, de Marromeu, de Monapo, de Moatize, de Tete, querem saber da Renamo o que é que se segue como acção política depois da fraude? A resposta que a Renamo tem é aliar-se à Frelimo e entregar de bandeja as mesas das Assembleias. Isso não cabe na cabeça de ninguém.
Com um Filipe Nyusi completamente à deriva a fazer contas à vida, se renova, ou não, a sua candidatura, e com os seus próprios correligionários a contestarem-no e ele próprio a ter que jogar a sua própria sobrevivência, a Renamo não consegue capitalizar isso a seu favor. Com o povo com ânsia de mudança a aceitar qualquer coisa que não seja o partido Frelimo, temos uma Renamo completamente alheia aos acontecimentos e a cometer os seculares erros.
Não deixou de ser patético e denotador de uma gritante falta de agenda, o facto de todo um porta-voz do partido Renamo ter convocado uma conferência de imprensa, para se distanciar de um deputado seu que foi à África do Sul assistir ao julgamento de um ex-ministro do actual Governo que é um dos responsáveis da actual miséria imposta aos moçambicanos. Qualquer partido sério devia ter um emissário para acompanhar esse julgamento ademais é necessário que esse partido participe no debate político de forma informada. Mas viu-se a Renamo a distanciar-se do tal deputado. Mesmo que tenha ido a título individual, não cabe à Renamo vir distanciar-se ou apoiar pela irrelevância da matéria neste momento do campeonato.
Em uma única palavra. Torna-se urgente que a Renamo faça uma introspecção séria sobre os ideais que defende e como pretende os defendê-los. Já não dá continuar a fingir e a empurrar as coisas com a barriga acreditando que tudo se resolve sozinho. A Renamo precisa de ter uma agenda em concreta para apresentar. De uma Frelimo esgotada já não se espera mais do que se vê. Mas parece catastrófico que a Renamo também esteja esgotada e sem ideias concretas.
de Moçambique.


Editorial / Canal de Moçambique / CanalMoz / 13 de Fevereiro de 2019

Tribunal decreta prisão preventiva a Ndambi Guebuza

O Tribunal Judicial de Maputo decretou hoje a prisão preventiva a Ndambi Guebuza, um dos filhos do ex-Presidente Armando Guebuza, no âmbito da investigação às dívidas ocultas do Estado, disseram à Lusa fontes ligadas ao processo.
Tribunal decreta prisão preventiva a Ndambi Guebuza
O País
De um total de nove detidos desde quinta-feira pelas autoridades moçambicanas, esta é a segunda pessoa próxima do antigo chefe de Estado a ver decretada a prisão preventiva, depois de Inês Moiane, que foi secretária pessoal do antigo chefe de Estado.
Ndambi entende que a sua detenção tem motivações políticas, num ano eleitoral em que a Frelimo tem que apresentar resultados, refere a imprensa moçambicana, que cita o seu advogado, Alexandre Chivale.
"Se o objectivo é sacrificar a família Guebuza por causa das eleições, que eu [Ndambi Guebuza] seja o último da família a ser sacrificado", disse Chivale, citando as palavras do seu cliente durante o interrogatório.
Moçambique tem eleições gerais marcadas para 15 de Outubro.
Entre os nove detidos até hoje, apenas a Elias Moaine, sobrinho da secretária pessoal do antigo chefe de Estado, foi concedida a liberdade, mediante uma caução de um milhão de meticais (cerca de 14 mil euros).
Estão em prisão preventiva António do Rosário, administrador-delegado das três empresas públicas no centro do escândalo (Ematum, Proindicus e MAM); Gregório Leão, ex-director do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), a "secreta" moçambicana; Bruno Tandade, operativo daquele serviço de informações; Inês Moiane, secretária pessoal de Armando Guebuza - Presidente da República quando o Estado avalizou secretamente os empréstimos -, e Teófilo Nhangumele, alegado promotor junto de Moçambique da ideia de criar as empresas e contratar o financiamento.
Além destes cinco, detidos na quinta-feira, estão também em prisão preventiva Sérgio Namburete e Sidónio Sitoe, presos na sexta-feira no âmbito da investigação moçambicana aos empréstimos contraídos secretamente entre 2013 e 2014, durante o mandato presidencial de Guebuza, no valor de 2,2 mil milhões de dólares.
Estas são as primeiras detenções feitas pela justiça moçambicana após três anos e meio de investigação e aconteceram depois de a justiça norte-americana ter mandando prender Manuel Chang, antigo ministro das Finanças de Moçambique, detido a 29 de Dezembro quando viajava na África do Sul, onde aguarda por extradição - também disputada por Moçambique.
A acusação norte-americana contém correspondência e documentos que a levam a concluir que três empresas públicas moçambicanas de pesca e segurança marítima terão servido para um esquema de corrupção e branqueamento de capitais com vista ao enriquecimento de vários suspeitos, passando por contas bancárias dos EUA.
Fontes ligadas ao processo em Moçambique admitem que novas detenções aconteçam nos próximos dias, dentro da lista de 18 arguidos revelada pela justiça moçambicana em Janeiro, ao mesmo tempo que decorre a apreensão de vários bens.



Lusa 

Saturday, 16 February 2019

Detido filho do ex-presidente moçambicano Armando Guebuza

A investigação ao caso das dívidas ocultas do Estado moçambicano está na origem da detenção. Depois da secretária pessoal de Guebuza, segue-se o filho. O cerco ao ex-presidente está a apertar.




As autoridades de Moçambique detiveram esta sábado Ndambi Guebuza, filho do ex-presidente do país Armando Guebuza, no âmbito da investigação às dívidas ocultas do Estado, noticiaram as televisões moçambicanas.

O filho de Armando Guebuza é a segunda pessoa próxima do antigo chefe de Estado a ser detida desde quinta-feira, depois de Inês Moiane, que foi sua secretária pessoal.
A detenção de Ndambi foi noticiada ao fim do dia pelos telejornais da STV e TVM (televisão estatal), dois dos principais canais moçambicanos em sinal aberto.
Com este, sobe para nove o total de detidos em Moçambique no âmbito da investigação aos empréstimos contraídos secretamente entre 2013 e 2014, durante o mandato presidencial de Guebuza, no valor de 2,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,92 mil milhões de euros).
Estas nove detenções são as primeiras feitas pela justiça moçambicana após três anos e meio de investigação, e aconteceram depois de a justiça norte-americana ter mandando prender Manuel Chang, antigo ministro das Finanças de Moçambique, detido a 29 de dezembro quando viajava pela África do Sul, onde aguarda por extradição – também disputada por Moçambique.
A acusação norte-americana contém correspondência e documentos que a levam a concluir que três empresas públicas moçambicanas de pesca e segurança marítima terão servido para um esquema de corrupção e branqueamento de capitais, com vista ao enriquecimento de vários suspeitos, passando por contas bancárias dos EUA.
Fontes ligadas ao caso admitem que novas detenções aconteçam nos próximos dias, dentro da lista de 18 arguidos revelada pela justiça moçambicana em janeiro, ao mesmo tempo que decorre a apreensão de vários bens.
Desde a manhã de hoje que os oitos arguidos detidos na quinta e sexta-feira estão a ser ouvidos pelo Tribunal Judicial de Maputo que deverá definir o que se segue à detenção (nomeadamente, se haverá prisão preventiva) e dar a conhecer as acusações.


Lusa

Sunday, 3 February 2019

Por que é que Chagonga, Mhole e Gwambe não são heróis?

Os fundadores das organizações que deram origem à FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique, refiro-me ao Matias Mhole, Baptista Chagonga e delino Gwambe, merecem um lugar na história libertária de Moçambique, ao ousarem criar organizações para fazer frente ao colonialismo português.
Na época que o fizeram, mostram que não são cidadãos comuns, são homens que, cada um à sua maneira, queriam um Moçambique livre da colonização portuguesa.
A história de Moçambique não se pode cingir a tratar esses homens ousados como “desertores, traidores ou conspiradores”.
Temos de olhar para essa época fora da visão exclusivista da Frente de Libertação de Moçambique.
Aliás, até os combatentes da Renamo que desencadearam uma guerrilha de destruição maciça e sem precedentes, com milhões de mortos, são tratados como guerrilheiros de luta pela democracia. Por isso, julgo que é chegada a hora de rever a nossa história libertária.
Aqui e agora, não pretendo discutir se os guerrilheiros da Renamo merecem ou não esse tratamento, no entanto temos que ter a honestidade para assumir que seja feita a justiça aos homens e mulheres que no contexto da revolução foram tratados como “traidores”.
A história deve absolvê-los de forma digna e reconhecer o seu mérito.
Celebra-se, a 03 de Fevereiro de 2019, mais um aniversário dos Heróis Moçambicanos.
Trata-se de uma data congregadora, pois foi o dia em que Eduardo Chivambo Mondlane, presidente da Frente de Libertação de Moçambique, ao abrir uma encomenda que continha uma bomba, encontrou a morte, nos escritórios da Betty King, sua ex-secretária.
A história oficial atribui à PIDE (Polícia Secreta Portuguesa) a autoria da bomba, mas não existe uma confirmação oficial.
O que é importante saber como é que esta encomenda chegou ao presidente da FRELIMO e, sobretudo, porquê foi ele a abrir?
A encomenda bomba que vitimou o primeiro presidente da FRELIMO acontece seis meses depois do II Congresso que reelegeu Mondlane como presidente e Urias Simango como vice-presidente.
E foi numa altura em que se agudizavam as contradições internas da Frente de Libertação de Moçambique. Por exemplo, fala-se de Lázaro Kavandane, que era secretário provincial da FRELIMO, ter tentado forçar que o congresso da FRELIMO se realizasse em Tanzânia. Esta atitude pretendia impedir a prestação de contas, numa altura em que os lucros do trabalho de comercialização beneficiava a si e seus colaboradores.
Lázaro Kavandane abandonou a FRELIMO em 1961, depois da morte de Mondlane. Mas outros eventos importantes tiveram lugar em Março de 1968, designadamente um motim de estudantes seguido de abandono da maioria.
Depois das investigações, viria a atribuir-se a responsabilidade pela agitação ao padre católico Mateus Gwengere.
Em Maio de 1968, um grupo invadiu os escritórios da FRELIMO e assassinou Mateus Sansão Muthemba, como forma de exigir a libertação imediata de Cabo Delgado, o que nos leva a presumir que se trata do grupo de etnia Makonde.
Foi nesta sucessão dos acontecimentos que Eduardo Mondlane é assassinado. Mas estas clivagens internas não eram novas no seio da Frelimo. Na verdade, a união dos três movimentos parece que não foi pacífico.
Adelino Gwambe, um dos co-fundadores da FRELIMO, foi expulso do movimento, alegadamente por assumir “comportamentos pouco convenientes”. Seguidamente, criou o UDENAMO – MONOMOTAPA, mas as crispações internas levariam à criação do FUNIPAMO – Frente Unida Anti-Imperialista Africana de Moçambique.
Reza a história que o líder da UDENAMO organizou, em Novembro de 1964, em Lusaka, na Zâmbia, uma conferência que tinha por objectivo reagrupar os movimentos desavindo.
A direcção da FRELIMO não aderiu, mas o líder da UDENAMO voltou a tentar a reaproximação, em Maio de 1965, tendo tido, mais uma vez, a resposta negativa da FRELIMO.
Este facto viria a propiciar a emergência de uma organização nova, constituída pela nova UDENAMO, MANC (Mozambique African National Congress) e da nova MANU, que se juntam ao COREMO, tendo como sede Lusaka, na Zâmbia.
Mais uma vez, a união destes três movimentos ao COREMO volta a estar em causa. A eleição de Paulo Gumene para presidente e Amós Sumane para vice-presidente, na conferência de 1966, não conseguiu criar a serenidade necessária para se desenvolver o trabalho político-militar de forma tranquila.
Aliás, em 1968 verificaram-se deserções em massa, e alguns desertores foram aliar-se à FRELIMO. Em 1971, a união dos três mais a COREMO encontrava-se esvaziada política e militarmente.
Os factos que se sucederam à fundação da Frente de Libertação de Moçambique, a 25 de Junho de 1962, culminando com a morte do Dr. Eduardo Mondlane, deveriam levar o Estado a repensar sobre os seus Heróis Nacionais.
O facto de Matias Mhole ter fundado o MANU (União Maconde de Moçambique) em 1954, e de se ter reforçado em 1959 através da união das associações mutualistas; Baltazar Chagonga ter fundado em 1961 a UNAMI no Malawi; e Adelino Gwambe ter fundado a UDENAMO em Salisbúria, actual Harare, é suficiente para que estes políticos sejam chamados de Heróis Nacionais.

Adelino Buque, O Pais 

Thursday, 31 January 2019

O racismo do radicalismo anti-racista


Luther King lutou por uma sociedade em que as raças deixassem de segregar, tudo o contrário dos nossos Mamadous Bás que defendem uma política identitária, definida por raças "oprimidas" e "opressoras"
Há uns tempos que ando a pensar recolher um pouco de saliva para meter num tubinho e enviar para uma daquelas empresas que estudam o DNA e identificam as nossas origens. Tenho curiosidade de saber que percentagem de sangue judeu tenho (suspeito que quase todos em Portugal temos algum sangue judaico), assim como identificar a possível origem do meu tom de pele um pouco mais escuro (será árabe? Berbere? Indiano? Subsaariano?), se é que tem alguma para além da tez mais curtida das nossas Beiras. Mas tudo isto não passa disso mesmo: de curiosidade. Não ando à procura de nenhuma identidade, sobretudo não ando à procura de nenhuma identidade que esteja fixada nos meus genes, no meu tom de pele ou no facto de ter nascido com um cromossoma X e um cromossoma Y. Não quero sobretudo ser tido como alguém “racializado branco” por oposição a quem se tem por “racializado negro” e usa essa condição como arma política. Como Mamadou Ba.
Eu sei que a maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar do assessor parlamentar do Bloco de Esquerda até que este surgiu nas notícias como o dirigente do SOS Racismo que escrevia posts no Facebook sobre a “bosta da bófia”. Para esses todo o debate se centrou na semiótica daquela expressão, no dinheiro que ganhava como assessor e na suprema ironia de ter sido vítima de uma “grandolada” ao contrário, tristemente protagonizada por extremistas do PNR e que o levou a pedir proteção à dita “bófia”. Ou ainda na lamentável esterqueira das redes sociais, onde não faltaram grosserias, javardices, mesmo ameaças intoleráveis. Como eu próprio também já conheci esse tipo de ambiente, perdoem-me se não o valorizo em demasia.
O que me interessa é o que fica, e o que fica é o que já cá estava antes de tudo o que se passou depois dos incidentes no bairro Jamaica. E o que fica, e o que é mais perturbante, é aquilo a que me referi na última frase do meu texto da semana passada: “discursos como os de Mamadou Ba fazem mais racistas do que anti-racistas”. Por uma razão simples, que quero desenvolver hoje: porque são racistas.
Temos de recuar no tempo para compreender melhor o que está em causa.
E temos de recuar porque temos de regressar a Martin Luther King e ao seu famoso discurso I Have a Dream. Esse sonho era o da concretização da crença da nação americana, escrita na sua declaração de independência, mas nunca realmente materializada: “Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais.” Por isso ele depois acrescentava: “Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Eu tenho um sonho hoje.”
Mais de meio século passado não é isto precisamente que todos defendem? Não, não é, mesmo quando parece que é.
Antes de Martin Luther King, séculos a fio (milénios?), houve a preocupação de dividir a humanidade em raças. Preocupação quando não obsessão. Só que depois do movimento dos direitos civis, e também de tudo o que a ciência nos permitira saber sobre as diferenças entre os diferentes tipos humanos, o novo mantra passou a ser “há apenas uma raça, a raça humana”. Por isso quando, em 2003, o genoma humano foi finalmente descodificado, recordo-me de ter feito uma capa do Público com o título “O genoma não tem raça”, e ainda hoje me orgulho disso. Até porque de então para cá a evidência científica não tem deixado de se avolumar no sentido de considerar que não fez mesmo sentido o conceito de raça.
Contudo, nas universidades americanas, onde os sinais dos tempos surgem sempre primeiro, é hoje anátema defender a ideia de “há apenas uma raça, a raça humana”. A Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) chegou mesmo ao ponto de distribuir instruções ao seu pessoal proibindo essa expressão ou outras semelhantes.
O conceito de raça, a raça como referência identificadora, e tudo o que só posso considerar como políticas racistas, regressaram assim pela porta dos fundos e pela mão das chamadas “políticas identitárias”. Estas caracterizam-se por definir identidades “oprimidas” e identidades “opressoras”. De acordo com as novas doutrinas, a sociedade é fatiada de acordo ora com reais problemas, ora com modas culturais, ora com simples agendas políticas. Em certos meios fazer parte de uma identidade “oprimida” tem imediatas vantagens pois ganha-se o estatuto de vítima que é necessário resgatar, mesmo que se seja um privilegiado, ao mesmo tempo que passou a ser motivo desqualificativo quase universal ser homem, branco e heterossexual (não estou a brincar: a paranoia chegou ao ponto de recentemente uma reportagem da Sábado sobre uma conferência em Portugal de Jordan Peterson procurar desqualificar a assistência por esta ser constituída sobretudo por “homens brancos”, como se no nosso não vivessem sobretudo… brancos).
A divisão do mundo em “oprimidos” e “opressores”, “vítimas” e “carrascos”, estende-se aos descendentes, séculos e séculos passados, dos supostos actos de opressão, e qualquer resistência a um gesto de contrição é tido como uma manifestação de racismo. Foi assim que a visita de Marcelo Rebelo de Sousa a um antigo entreposto de escravos no Senegal, onde reconheceu a injustiça da escravatura, desencadeou uma polémica que teve por mote não apenas o Presidente, por este ainda “não ter descolonizado a sua mente”, como levou a um obsessivo exercício de torturar a história de demonstrar que Portugal foi a pior de todas as potências esclavagistas. Mais: o esforço para desconstruir a nossa memória colectiva dirigiu-se mesmo contra alguém que até esteve muito à frente do seu tempo na denúncia dos crimes do colonialismo, o Padre António Vieira. Principal animador da iniciativa? Mamadou Ba. Justificação? Porque ele entende que as minorias que vivem no nosso país não se reconhecem na história que lhe contamos, não se reconhecem nos nossos heróis, entendem que não fazem parte do nosso passado e, por isso, dizem-se excluídas.
Eu sei que não é fácil seguir os raciocínios que vão ligando estes pontos e levam da defesa dos “oprimidos” às politicas identitárias, das politicas identitárias à necessidade derrubar estátuas e rever memórias, e daqui passam ao discurso sobre a “racialização”, mas sei que num dia começamos por convencer a Conselho da Europa que temos livros escolares racistas (apesar de nenhum critério objectivo sustentar essa tese) e não tarda nada podemos estar a avaliar tons de pele ou a medir a grossura dos lábios para saber se alguém tem direito a um emprego, um ponto a que se chegou no Brasil no tempo do PT, numa extraordinária aplicação invertida de métodos utilizados na Alemanha nazi. Em nome de quê? De preencher as quotas destinadas às minorias e procurar satisfazer os seus discursos de vitimização.
Nas entrevistas que deu depois da polémica da “bosta da bófia” (como este), Mamadou Bá tornou-se muito mais cuidadoso, mediu as palavras e até pareceu moderado. Ou seja, foi político. Chegou a parecer que defendia a polícia e só criticava os seus excessos, o que só pode ser hipocrisia se nos recordarmos que ele foi um dos 162 subscritores (sim, foram só 162) da petição pública de 2016 intitulada “Da Celebração ao Combate” e que defendia, entre outras coisas, “o fim imediato das operações do CIR (Corpo de Intervenção Rápida) nos nossos bairros, como primeiro passo rumo à abolição total da PSP e GNR, e sua substituição por mecanismos de garantia da segurança colectiva, baseados nas comunidades”. Vale a pena repetir: “abolição total da PSP e GNR”. Ou seja, da “bófia”. Ou seja, da tal força policial a que agora pede proteção – uma proteção que espero sinceramente que esses homens lhe garantam.
Como não sou dos metem a cabeça na areia, sei que em Portugal há racismo como há em todas as sociedades humanas (o que daria uma interessantíssima discussão), mas há mais três coisas que sei e que são as que importa sublinhar hoje.
A primeira é que as políticas identitárias centradas na celebração do “oprimido” e na vitimização acentuam a segregação racial pois fazem da raça um critério central da vida social. Têm mesmo como consequência inevitável uma espécie de efeito boomerang já bem evidente nos Estados Unidos, onde nunca houve tantos brancos a considerarem que a branquitude é uma parte importante da sua identidade (são já 55% do total).
A segunda é que usar lentes que vêm racismo em todo o lado cria mais problemas do que resolve e tem pouca ou nenhuma adesão à realidade. Foi Mamadou Bá que fez dos incidentes do bairro Jamaica um caso de racismo, pois a comissão de moradores fez questão de dizer que o que lá se passou não teve nada a ver com racismo. Foram os activistas que mobilizou que vieram primeiro para o Terreiro do Paço e depois para a av. da Liberdade, onde não esteve praticamente ninguém do bairro, tal como na concentração em frente à câmara do Seixal só estariam uns cinco ou seis habitantes do Jamaica entre as duas centenas de manifestantes. Aquela não era a luta deles.
A terceira decorre das duas anteriores: os Mamadous Bás deste mundo têm tudo menos o sonho de Luther King de uma sociedade pós-racial, nas suas palavras inspiradas de “fazer chegar mais rápido o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção espiritual negra: Finalmente livres! Finalmente livres! Graças a Deus Todo Poderoso, somos livres, finalmente.”
Sim, porque “dar-se as mãos” não faz parte do seu programa. O seu programa é antes cobrar-nos uma factura, apresentando-se-nos como vítimas. É para isso que precisam do racismo identitário.



( José Manuel Fernandes , Observador )