Thursday, 23 May 2013

Ameaças a grevistas denunciam debilidade do sistema democrático


Proibição de reunião pela Polícia  

Considera a sociedade civil, concretamente o Parlamento Juvenil (Salomão Muchanga) e a Comissão Nacional dos Direitos Humanos de Moçambique (Custódio Duma)
 
 A atitude policial de ter interditado nesta quarta-feira a realização, no Jardim Dona Berta, na cidade de Maputo, uma reunião dos médicos e outros profissionais da Saúde que estão em greve está a merecer críticas por parte de vários órgãos da sociedade civil.
O Parlamento Juvenil e a Comissão Nacional dos Direitos Humanos de Moçambique, através dos seus respetivos residentes, Salomão Muchanga e Custódio Duma respectivamente, que presenciaram a acção policial contra os grevistas, disseram que a atitude dos agentes mostra claramente a debilidade do sistema democrático e falta de respeito pelos direitos humanos em Moçambique.



António Frades, Canalmoz

Greve: Governo e médicos ensaiam aproximação


A greve no sector da Saúde entra hoje no seu quarto dia consecutivo, com o Governo e a Associação Médica de Moçambique (AMM) a ensaiar o retorno ao diálogo visando eliminar as diferenças por detrás da paralisação.
Segundo escreve o diário Notícias, o Ministério da Saúde enviou na última segunda-feira uma carta à AMM manifestando o desejo de retomar o diálogo interrompido a 16 de Maio último devido a divergências na forma como as conversações deviam decorrer.
Francelina Romão, porta-voz do MISAU, é citada por aquele jornal a dizer que a carta enviada à AMM manifestava preocupação pelo alegado facto de aquela agremiação nunca mais ter atendido aos convites anteriormente enviados com o mesmo propósito, situação que poderia ter permitido já o reinício do diálogo, visando encontrar-se uma saída para o diferendo entre as partes.
Em resposta datada de terça-feira, dia 21 de Maio corrente, a AMM reitera a sua disponibilidade de reiniciar o diálogo com o Governo, mas na condição de o mesmo envolver não só a classe médica como também “a Comissão de Profissionais de Saúde Unidos (PSU), e representantes do Ministério da Saúde ao mais alto nível e quem de direito por parte do Executivo moçambicano”.
A carta refere que nessas condições o diálogo poderá avançar prontamente com vista ao alcance de soluções concretas e retorno da harmonia social no sector da Saúde e na sociedade moçambicana.
Aliás, a participação dos PSU no diálogo constitui o principal mote da ruptura que se registou no diálogo de 16 de Maio último, já que o Governo se opõe à presença do grupo por falta de reconhecimento legal, enquanto a AMM coloca a presença destes como condição sine qua non para se avançar com as negociações.
Sobre esta exigência dos médicos, Francelina Romão reitera que a presença dos PSU no diálogo é uma questão de legalidade e de organização de um processo que envolve interesses numa instituição. Segundo a porta-voz do MISAU, à AMM foi explicado no último encontro que a base do diálogo com o Governo é o memorando de entendimento rubricado em Janeiro e que a participação de qualquer outro interlocutor carece da abertura de um novo canal para que não se misturem agendas e se faça confusão de objectivos.
A AMM reiterou, segundo o jornal Notícias, que a aceitação pelo Governo da participação dos Profissionais de Saúde Unidos no diálogo é fundamental para que o diálogo reinicie.


RM

Uma análise política da disputa sobre a “Lei Eleitoral”, entre a Frelimo e a Renamo

A partir da informação tornada pública, desde o dia 16 de Outubro de 2012, quando Afonso Dhlakama, passou a viver na sua antiga base militar de Gorongosa, tudo faz crer que o objecto de contenda entre o partido no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e o partido Resistência Nacional de Moçambique (Renamo) - que poderá precipitar o povo moçambicano numa nova guerra civil - seja a Lei eleitoral, julgada prejudicial pela oposição, por não garantir a paridade na representação na Comissão Nacional de Eleições (CNE). Para alguns moçambicanos, assim como para alguns observadores internacionais, tanto as exigências da Renamo, como a resistência da Frelimo em satisfazer tais exigências, podem parecer ridículas: Analisando a posição da Renamo, pode parecer estranho por ser só hoje, em vista da IV Legislatura, que essa pretende condicionar, de modo intransigente, a sua participação ao processo eleitoral a uma revisão da Lei eleitoral. Com a excepção só de alguns retoques insignificantes, a Lei eleitoral moçambicana foi sempre favorável ao partido no poder e a Renamo sempre queixou-se dela mas nunca adoptou nenhuma posição inegociável, como desta vez. Contudo, embora esta não seja a primeira vez em que, nas vésperas das eleições, Dhlakama ameaça não tomar parte no processo e depois, contrariamente ao dito, de facto participa, quando em Outubro de 2012 ele estabeleceu-se em Gorongosa, com cerca de 800 homens, os moçambicanos se aperceberam que, na sua contínua luta pelo poder, Dhlakama e a Renamo tinham mudado da estratégia e dos objectivos a alcançar. 
Julgando a contraposição a partir da resistência manifestada pela Frelimo em adoptar o princípio de paridade nos órgãos eleitorais, parece estranho que um partido que sempre se apresentou como o paladino da democracia moçambicana e, além disso, ostenta ter uma enorme base popular, manifeste dificuldades em abraçar um dos mais nobres princípios da democracia, ou seja, o princípio da transparência no processo eleitoral. Para encontrar uma resposta a estas interrogações convido-vos a analisar o processo histórico do nascimento e da democratização do Estado moçambicano. 
Desde a sua origem, o partido no governo fundou o próprio poder em três pilares principais: A força da mistificação da realidade, a administração de tipo neopatrimonial e a intimidação.
Este modo de empostar o poder político começa a delinear-se já com a fundação da Frente de Libertação de Moçambique, em 1962. Segundo a história oficial, a Frelimo nasce como uma necessidade sentida pelos moçambicanos, de unificar as forças dos três movimentos nacionalistas de carácter étnico-regional, anteriormente existentes – a União Democrática Nacional de Moçambique (UDENAMO), o Mozambique African National Union (MANU) e a União Nacional Africana de Moçambique Independente (UNAMI) – para fazer uma única fronte contra o regime colonial português. Este organismo (a Frelimo) que desde sempre se nos foi apresentado como símbolo de tão desejada unidade nacional, é, na verdade, um monumento histórico do desfecho que teve a luta pela hegemonia que contrapunha, de um lado, o presidente ganês Kwame Nkrumah e o tanzaniano Julius Nherere e, do outro lado, as elites dos três movimentos nacionalistas moçambicanos. 
O sonho de uma África unida, capaz de cancelar as feridas causadas pela parêntese da ocupação colonial e pelas fronteiras geométricas decididas na Conferência de Berlim em 1885, misturado com ambições hegemónicas, tinham levado a Nkrumah a idealizar a criação de uma federação de Estados Unidos de Africa e ele próprio seria o primeiro presidente. Daí que a sua política externa dos anos Sessenta era fundamentalmente concentrada na criação da consciência africana e por isso apoiava a luta dos povos que ainda estavam sob o domínio colonial. De facto, embora o UDENAMO tivesse sido fundado e tivesse a própria sede na Salisbúria, capital da então Rodésia do Sul, o seu financiamento provinha dos países comunistas da Europa Oriental, através do Gana de Nkrumah. Por sua vez, o presidente tanzaniano, Julius Nherere, conquanto não tivesse ambições hegemónicas em todo o subcontinente africano, nutria ambições hegemónicas em relação às regiões de Africa oriental e austral. Avantajado pela posição estratégica que o seu país ocupava, no caso de uma solução armada para a questão colonial portuguesa em Moçambique, Nherere conseguiu arrastar o UDENAMO da Salisbúria, e o UNAMI de Malawi, para o território tanzaniano e, juntamente com o MANU, que tinha já a sua sede na Tanzânia, fundar a Frelimo. A elite da Frelimo, como a conhecemos desde a assinatura dos Acordos de Lusaka em 1974 até hoje, é constituída por aqueles que tirando vantagens da luta entre as políticas externas de Nkrumah e de Nherere, e do processo da fusão (não de união) dos três pré-existentes movimentos nacionalistas, conquistaram a posição do domínio.
O vício aberrante que caracteriza o partido no poder, de mobilizar as ajudas internacionais e os recursos nacionais para incrementar o poder do controlo da classe dirigente e do partido, deixando os cidadãos na situação de pobreza e dependência absoluta, teve a sua origem já na fundação em si da Frente. As ajudas financeiras e materiais provenientes dos países da Europa oriental e aqueles que, no período sucessivo começaram a chegar dos Estados Unidos, quando Eduardo Mondlane e sua esposa transferiram-se para Tanzânia, eram administrados de forma patrimonial; beneficiando àqueles que manifestavam uma provada disposição de submeter-se à elite emergente, ou para comprar as almas daqueles que se mostravam indecisos a entrar no jogo dos interesses. 
Fortalecida pelo poder que tinha sobre as pessoas e sobre as ajudas provenientes dos vários países e organizações que tinham esposado a causa nacionalista dos moçambicanos, a elite da Frelimo introduziu o instrumento da intimidação que passou através de uma sistemática eliminação política e/o física de todos aqueles que não estavam dispostos a submeter-se ao autoritarismo da elite. A purga (descrita minuciosamente por Barnabé Lucas Ncomo, 2003, Edições Novafrica) que visava, em primeiro lugar, purificar o movimento de todos os elementos indesejados, e, em segundo lugar, abater todos os indivíduos e entidades políticas que representavam uma ameaça (real ou presumida) para os projectos totalitaristas da Frelimo, teve a sua fase crucial no período entre 1960 (ano da morte de Mondlane) e a independência. 
Os Acordos de Lusaka (assinados no dia 7 de Setembro de 1974), que deveriam ter assinalado o fim oficial das hostilidades entre o governo colonial português e a Frente de Libertação de Moçambique, transformaram-se num momento oficial da transferência da ocupação do território moçambicano da parte do governo português, para a elite da Frelimo. Para justificar a usurpação do direito de todos os moçambicanos de eleger os próprios governantes, e de ser eleitos para administrar o património comum, a Frelimo logo depois da assinatura dos Acordos de Lusaka, intensificou a perseguição dos desertores da guerra, de todos aqueles que no seio do movimento manifestavam tendências políticas contrárias à linha oficial, e de todos os expoentes civis que se organizavam em partidos de oposição para se apresentarem e pedir o voto do eleitorado. Criou-se em todo o País o clima de terror, e todas as estruturas sociais foram paralisadas. Os cidadãos começaram a ter medo até das próprias sombras, como se estas fossem capazes de informar às forças armadas aquilo que cada um deles pensava no seu silêncio. 
A viagem triunfal “do Rovuma ao Maputo”, realizado por presidente Samora Moisés Machel, antes da proclamação da independência, tinha um objectivo preciso: Escrever nas mentes dos moçambicanos a história de Moçambique, segundo a óptica do pensamento oficial da Frelimo e capaz de justificar os crimes cometidos pela elite política do partido; fortalecer o monopólio do poder e condenar para sempre as forças políticas banidas e aquelas que poderiam nascer no futuro. O fim das hostilidades entre o governo colonial e a Frelimo foi apresentado, não como associado à queda do Fascismo em Portugal, mas simplesmente como fruto da superioridade militar das Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM). Este modo de representar a força militar da Frelimo atingia “dois alvos com uma só pedra”: criar a imagem de um exército da Frelimo invencível e, paralisar qualquer tentação de rebelião. Os “reaccionários” foram apresentados, não como aqueles que tinham tendências políticas contrárias às do governo, mas como aqueles que eram contrários à proclamação da independência. 
A proclamação da independência, seguida pelo Decreto das nacionalizações, completou o processo que faria de Moçambique um feudo da classe dirigente da Frelimo: A concentração do poder político através do sistema de partido único e o uso do instrumento da intimidação representado pelos “campos de reeducação”, e a concentração do poder económico e dos meios de produção, atuada pelo instrumento das nacionalizações, colocaram os moçambicanos na posição indefesa e de total vulnerabilidade contra todo o tipo de abuso perpetrado pela máquina do governo. O pior dos prejuízos que o sistema neopatrimonial da Frelimo causou aos moçambicanos, mais do que privá-los dos meios de produção e da participação política, foi imprimir neles uma ideia mistificada do Estado e da relação existente entre um governo e um cidadão. O partido foi governando o País como se se tratasse de um património privado de um clube ou de uma associação e os cidadãos começaram a comportar-se como se fossem parte integrante do património do partido. 
Ainda na linha da mistificação, a Renamo foi apresentada, não como um grupo de descontentes que contestava as opções políticas do partido no governo, mas como agentes ao serviço dos governos segregacionistas de Rodésia e da África do Sul. Como se a falsificação da identidade da Renamo não bastasse, o partido no governo incutiu nos moçambicanos um sentimento de ódio e de repugnância em relação a tudo aquilo que se referia à Renamo. A dificuldade que alguns moçambicanos manifestam, ainda hoje, de respeitar as regras democráticas encontra a sua explicação no instrumento da mistificação utilizada pelo partido no poder por muitos anos, contra os seus adversários políticos. Os homens e as mulheres que hoje tomam parte nas brigadas de vandalização das sedes dos partidos de oposição, em Manjacaze, na Macia, em Muxúnguè, em Gondola, no Chimoio e em muitos outros lugares, representam parte de moçambicanos que ainda continua sob o efeito da propaganda mistificante do regime da Frelimo, segundo a qual a Renamo é um grupo de bandidos ao serviço dos interesses externos. Nessa perspectiva, quando esses moçambicanos ouvem falar de Dhlakama ou de Deviz Simango, não conseguem vê-los como moçambicanos insatisfeitos com o modo com que o País tem sido governado desde a independência, mas como traidores, reaccionários e vendedores da pátria, segundo a doutrina da Frelimo. Todavia, como diz o povo Macua, “a mentira tem pernas curtas”. O facto que o regime de Ian Smith e do Apartheid já não existem e a Renamo continua a ser uma “pedra no sapato da Frelimo” e, ao lado da Renamo continua a crescer o número de moçambicanos (inclusivo dentro do partido no governo) insatisfeitos com o modo com o qual a classe dirigente da Frelimo governa o País, é a “prova dos noves” que a Renamo, embora tenha sido utilizada pelos governos segregacionistas da região, ela nunca foi sua criatura. É tempo de retirar a máscara para mostrar a face verdadeira. Não se pode viver no engano eternamente. 
 
Os vícios dos Acordos Gerais de Paz e do processo de transição democrática
 
O percurso que fizemos até aqui, foi um esforço para perceber porquê é que um princípio muito compatível com o modelo democrático, como aquele de “paridade na representação na CNE, possa comprometer os Acordos Gerais de Paz (AGP) assinados em Roma entre os rebeldes da Renamo e o governo da Frelimo, e reconduzir os moçambicanos a uma nova guerra fratricida. Este percurso é necessário e indispensável porque, em conformidade com a nossa natureza de animais racionais, não nos contentamos de falar das coisas como elas se manifestam nos nossos olhos, queremos também saber as suas causas, se necessário, saber as causas das suas causas. 
Em Moçambique, a transição democrática foi aviada simultaneamente com as negociações de paz entre a Renamo e a Frelimo. Pode parecer estranho que a questão da Lei eleitoral não tenha sido discutido e concordada pelas partes interessadas já na mesa das negociações em Roma. Ora bem, isso não deve surpreender a ninguém. As negociações de paz e a introdução do modelo democrático no grande jogo político moçambicano foram também, em certos aspectos, uma outra mistificação da realidade. Desta vez, não só da parte do partido no governo, mas da parte da Frelimo e da Renamo que, ambos tinham em mente intenções de enganar o povo moçambicano e a comunidade internacional e enganar-se reciprocamente. 
Muito antes de 1989, o território moçambicano tinha já ficado dividido entre as cidades, controladas pelo exército governamental, e as regiões rurais, controladas pela Renamo. Nenhum dos dois tinha capacidade militar suficiente para resolver o impasse. Por isso, tanto para o governo, como para a Renamo, a solução negociada era a única alternativa disponível. 
Com a caída do Muro de Berlim em Novembro de 1989 – símbolo do fim da Guerra Fria – a prioridade da comunidade internacional que contava (EUA e EU), era encontrar uma solução negociada para a questão sul-africana e, para tal, o fim da guerra civil em Moçambique era um pré-requisito. Forçados a negociar pelas circunstâncias da ordem doméstica e as da ordem internacional, os beligerantes moçambicanos esperavam lograr na mesa das negociações aquilo que não tinha sido possível conquistar com a força das armas: o poder total e em todo o território. 
Embora Dhlakama tenha conseguido arrancar da boca da delegação do governo o reconhecimento do seu movimento armado como um interlocutor válido, o verdadeiro vitorioso na mesa das negociações foi a Frelimo de Joaquim Chissano. Contrariamente à agenda pacifista, sem vencedor nem vencido, que o líder da Renamo pensava fazer valer na mesa das negociações, a Frelimo obteve o reconhecimento, da parte de Dhlakama e da Renamo, do seu aparelho estatal, as suas leis e a sua organização, como tinha sido constituído desde a independência. As próprias negociações de paz e o processo em si de transição democrática – a formação e o registo dos partidos de oposição, a constituição das comissões eleitorais e a composição do primeiro parlamento democrático – foram regulados pelas normas da Constituição de 1990, aprovada unilateralmente pelo Parlamento da Frelimo. Os AGP permitiram igualmente que a Frelimo continuasse a controlar de modo absoluto os seus instrumentos mais eficazes da intimidação: o Ministério do interior e os Serviços de Segurança. A Comissão mista de segurança que foi criada no período entre a assinatura dos AGP e as primeiras eleições não tinha nenhuma função executiva e não foi prevista a integração dos elementos da Renamo no aparelho da segurança. Os AGP só conseguiram mudar o nome do Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP), para Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), mas as funções e a composição dos seus elementos continuaram a ser um instrumento de intimidação nas mãos da Frelimo. Não é por acaso que em 2012 o eis-presidente da República, Joaquim Chissano, tenha, descaradamente, declarado numa entrevista que, para desbloquear o impasse na qual se encontravam os mediadores e os negociadores, na mesa das negociações, os últimos três Protocolos dos AGP tinham sido concebido por ele, para depois fazê-los chegar a Dhlakama por mão dos mediadores, como se tivessem sido elaborados por eles. Não existe nada de estranho nesta declaração de Chissano: a maior parte (se não todos) os mediadores do processo de paz para Moçambique não eram políticos nem de carreira, nem de formação. E, provavelmente, mais do que criar bases credíveis do processo negocial, o interesse maior duma entidade como a Comunidade de Santo Egídio e o Estado italiano era de conquistar a fama internacional de serem os “solucionadores” de conflitos africanos, com instrumentos um tanto quanto atípicos. Não é por acaso que o Secretários geral das Nações Unidas, na altura Boutros Boutros-Ghali, classificou aquelas negociações de “insólitas”. 
Além das netas vantagens que a Frelimo teve no processo negocial de Paz com a Renamo, os dois partidos beligerantes “sequestraram” o processo de transição democrática. O processo que, para o bem em si mesmo da Democracia, devia ter envolvido todas as forças politicas e movimentos da sociedade civil que exprimem a diversidade do povo moçambicano, foi monopolizado pelos dois partidos envolvidos no processo negocial de paz. A Comissão mista criada pelas disposições dos AGP, que tinha a responsabilidade de monitorar o processo das primeiras eleições, além dos representantes da comunidade internacional, não integrou nenhuma outra força politica para além dos elementos indicados pelos dois partidos que tinham assinado os AGP. Aos outros partidos, se lhes foi reservado só a consultação (não vinculante) sobre o projecto da Lei eleitoral. Para evidenciar a preocupação que a Renamo e a Frelimo tinham de reduzir ao máximo a participação das outras forças políticas, o Protocolo III dos AGP estabelece um tecto de 5 a 20% dos votos expressos a nível nacional, para obter uma representação no Parlamento. Paradoxalmente, os únicos partidos que eram conhecidos a nível nacional, graças à guerra, eram só os dois, a Frelimo e a Renamo.
Eis a moral da legenda: Bocas a abondar de palavras magníficas, quer da parte da Renamo, quer da parte da Frelimo. Na verdade nenhum dos dois submeteu-se ao processo negocial de paz por amor à democracia. Para os dois partidos, cada um no seu segredo, a instauração da democracia era um instrumento estratégico. Movido pelo seu espírito pragmático e avantajado pelo conceituado conhecimento dos circuitos da diplomacia internacional, Chissano persuadiu o próprio partido a aceitar a introdução do modelo democrático guiado fundamentalmente por duas exigências: de um lado enganar os ocidentais, fazendo-os acreditar que a Frelimo se tinha convertido do autoritarismo do cunho maoista-soviético para abraçar o liberalismo democrático ocidental. E com esta táctica, a classe dirigente podia vender uma bonita imagem de si mesmo no âmbito internacional, e garantir-se a ajuda financeira dos países ocidentais. E, a nível interno, continuar a governar os moçambicanos com punho de ferro. E do outro lado, a introdução do modelo democrático era, para Chissano, o modo melhor para desarmar a Renamo, na presença das tele-câmaras dos canais televisivos de todo o mundo, e transferir Dhlakama para o campo de batalha político, onde, com a vantagem do controlo institucional, do controlo dos recursos económicos e a experiência de administração, a Frelimo tinha a certeza de vencer, e a Renamo estava destinada a sofrer uma derrota sem nenhuma possibilidade de apelo. Por sua vez, Dhlakama e a Renamo submeteram-se ao processo negocial como a melhor forma para desembaraçar-se duma situação de guerra que além de ser insustentável, já tinha perdido as suas motivações originárias. Iludido pelo controlo que tinha sobre as vastas regiões rurais do País, e pensando (erradamente, claro) que poderia manter tal controlo mesmo depois do cessar-fogo, Dhlakama esperava poder valer-se das primeiras eleições democráticas, para derrubar a Frelimo e ocupar a Ponta Vermelha. 
Para sermos coerentes com o actual primeiro-ministro que prefere que sejam os terceiros a provar a veracidade das acusações movidas contra alguns membros do seu governo, e não ele a provar a sua inocência, passemos a analisar o percurso do refluxo da democratização da sociedade moçambicana, actuado pelo partido no governo, nos anos sucessivos às primeiras eleições. Quando nas eleições gerais de 1999, Chissano venceu (sem convencer) com apenas 52, 3% dos votos, contra 47, 7 atribuídos a Dhlakama; e a Frelimo venceu com 53, 2% dos votos (correspondentes a 133 dos 250 lugares no Parlamento), contra 46, 8% (117 lugares no Parlamento) atribuídos á Renamo - União Eleitoral, os “camaradas”, sobretudo os mais radicais, acusaram Chissano de ser demasiado remissivo em relação às exigências da Renamo e de ter sido pouco incisivo nas dinâmicas necessárias para conservar e aumentar o controlo do poder. Graças a esta possível (mas “proibida”) vitória de Dhlakama, Moçambique subtraiu-se, até agora, da lista dos Estados africanos cujos presidentes democraticamente eleitos provocam a alteração da Constituição, no fim dos seus segundos mandatos, para procurar um terceiro mandato, ou uma continuidade sem limite. De facto, quando Chissano consultou aos “camaradas” se podia procurar o terceiro mandato, recebeu uma resposta negativa. Para a eleições de 2004, portanto, o Comité Central apresentou Armando Emílio Guebuza, reconhecido dentro e fora do partido pela sua radicalidade, intransigência e capacidade organizativa. 
Uma vez confirmado Secretário-geral do partido e candidato à presidência, Guebuza iniciou logo a percorrer o País para revitalizar (violando os princípios democrático) as células do partido e os secretários das aldeias e dos bairros. Uma vez no poder, Guebuza intensificou a partidarização do Estado, através da incorporação no partido dos empregados públicos, das campanhas da “presidência aberta” e a aliança do tipo feudal com os antigos régulos, que passaram a ser chamados “líderes comunitários”. 
Quando em 2009 os moçambicanos foram chamados, pela terceira vez, às urnas, para eleger no chefe do Estado e os membros do Parlamento nacional, todos – desde os funcionários públicos, passando pelos Magistrados, líderes comunitários, camponeses, comerciantes, ONGs, empresários, até aos vendedores informais – tinham já aprendido que em Moçambique não tinha espaço para quem não possuía o “cartão vermelho”. De facto, além do aparelho estatal, Guebuza também mobilizou igualmente as ONGs na campanha permanente a favor do partido. Os projectos realizados pelo financiamento das ONGs são, quase sempre, inaugurados pelo presidente ou pela sua esposa e, durante a cerimónia da inauguração, a obra é apresentada ao público come uma resposta do partido e do presidente Guebuza às necessidades das populações locais. 
 
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Julgando a partir da análise que até aqui fizemos, se poderia concluir que a dificuldade que a Renamo e a Frelimo encaram para chegar a um acordo sobre a Lei eleitoral, encontra a sua explicação na dificuldade, que desde sempre lhes caracterizou, de observar os princípios democráticos na sua generalidade. A Lei eleitoral é apenas uma das expressões do exercício da democracia. E onde o sistema democrático é invocado só para legitimar comportamentos autoritários e neopatrimoniais, a Lei eleitoral torna-se automaticamente objecto de contenda entre os interessados. 
Já vimos, precedentemente, que os instrumentos que deram o sucesso ao partido no poder, desde a sua fundação, e continuam a assegurar a sua perpetuidade no poder foram fundamentalmente três: a mistificação da realidade, o controlo neopatrimonial dos recursos económicos e das instituições administrativas, e a intimidação. O medo é um instrumento muito eficaz nas mãos de uma classe política que intende utilizar o poder político para fins pessoais. O medo desestabiliza os cidadãos; tira-lhes o poder de iniciativa e coloca-os na condição de “monadas” de Leibiniz, na qual não existe comunicação nem entre operários da mesma fábrica, nem entre moradores da mesma aldeia, nem entre professores da mesma universidade, nem entre os cristãos da mesma paróquia, nem entre os filhos da mesma mãe e nem entre o marido e a esposa. Ficam todos petrificados. Vivem na mesma cidade e vendem o mesmo tomate no mesmo mercado informal, mas cada um vive na sua solidão. Esta solidão oferece uma ilimitada margem de domínio e abuso da parte do poder político estabelecido porque a única relação existente é aquela entre a pesadíssima máquina institucional e cada um dos indivíduos na sua solidão. Este tipo de relação é comparável àquela que se estabelece entre a força de um tsunami e um pé isolado de caniço. 
Ora, segundo os estudiosos dos comportamentos humanos, o medo é a ausência de segurança. A presença de uma mãe dá segurança absoluta ao seu filho de idade menor, e por isso, quando uma criança dá falta da mãe, sobretudo em ambientes desconhecidos, entra em pânico. O medo é também uma sensação de vulnerabilidade; a sensação de estar exposto a um ou vários perigos que ameaçam o próprio bem estar ou a própria vida. 
Mas o poder do medo é exercitável só sobre aquelas pessoas que sofrem dum desconforto médio. O medo domina quem é vulnerável, tem a possibilidade de contrair uma determinada epidemia mortal. Quem já está efectivamente infectado, perde o medo e desenvolve o sentimento de zanga. Quem possui um bem e, todavia, existe uma ameaça real ou presumida de poder perder-lho, é geralmente dominado pelo sentimento de medo. Quem já possui a certeza de perder o bem que receia perder, desfazer-se do medo e começa a desenvolver a zanga. 
E, ainda segundo os estudiosos dos comportamentos humanos, a zanga, mais do que qualquer outra emoção, ajuda a unir as pessoas para agir. A zanga é essencialmente uma emoção que estimula as energias e as capacidades de iniciativa. O professor Brett Ford, da Universidade de Califórnia, afirma que a zanga estimula as pessoas a procurar uma gratificação. Na mesma linha, o professor Nicole Taush, da Universidade de St. Andrews, afirma que a zanga é um elemento de coesão dos movimentos sociais.
Se for verdade o que dizem os psicólogos, então o futuro de Moçambique é risonho. Quase todas as categorias sociais do povo moçambicano já têm a certeza que com este governo não têm futuro: Estão todas derrotadas! Esta “derrota” cria a zanga nos moçambicanos: Os camponeses e os habitantes das regiões rurais estão zangados com um governo que, num gesto de extrema insensibilidade em relação ao seu sofrimento, arranca-lhes sistematicamente as suas terras agrícolas – único meio da sua sobrevivência – para aluga-las às empresas agrícolas multinacionais ou às indústrias extractivas. O que está na base desta zanga é a consciência que eles têm do objectivo desta operação. Esta operação é o golpe final para eles. Sabem que esta venda tem em vista o enriquecimento ulterior da classe dirigente e não o melhoramento das suas vidas. Os camponeses sabem também que um dos incentivos oferecido pelo governo para encorajar as multinacionais a investir (em consórcio com a mesma classe dirigente) foi a promessa do fornecimento de mão-de-obra a baixo custo, sobretudo nos serviços não especializados. Portanto a presença das multinacionais representa também uma modalidade de exploração. 
O exército e a polícia estão zangados com um estado que lhes trata como cães de guarda de um patrão que devora sozinho toda a caça, inclusivo os ossos que, segundo a ordem natural das coisas, deveriam ser para eles. Os “chapeiros” estão zangados com um governo que, em vez de pagar convenientemente os seus oficiais da polícia, permite que cada um destes se sustente como pode à custa do seu sacrifício. Os vendedores (sobretudo as vendedeiras) dos mercados informais estão zangados com uma classe política que, vivendo do luxo, condenou a eles a viver eternamente do lixo. Mesmo aqueles moçambicanos, tais como os Magistrados e outros funcionários públicos que, por causa das vantagens que o sistema lhes reservava, guardaram o silêncio cúmplice durante muitos anos, estão actualmente zangados com um governo que, escondendo-se atrás das leis manipuladas e da burocracia, continua a cometer crimes contra os moçambicanos e quem responde diante de Deus e da própria consciência é o actor material do crime. 
Inclusivos os bispos de Moçambique estão zangados. O que justifica a zanga dos bispos é que, embora a missão fundamental da Igreja seja aquela de libertar o Homem da escravidão do pecado e da morte eterna, Ela (a Igreja) preocupa-se igualmente com todo o tipo de escravidão que possa desfigurar o Homem, em quanto imagem e semelhança de Deus. Esta foi a razão pela qual as Igrejas locais de América Latina e da Europa oriental (juntamente com os cristãos de todo o mundo) participaram diplomaticamente e activamente no desmantelamento do autoritarismo e da ditadura naqueles quadrantes geopolíticos. As relações entre o partido no governo e a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) foram sempre de tipo “punho de ferro”. O primeiro presidente de Moçambique independente chamou os bispos de Moçambique de “macacos”, o terceiro os chama “profetas de desgraças”. Mas a CEM deu um contributo muito significativo no processo dos AGP de Roma, que puseram fim à guerra civil dos 16 anos. Nas vésperas da assinatura dos AGP, a Igreja de Moçambique, através das suas Paróquias e agentes de pastoral, organizou campanhas de reconciliação entre os moçambicanos divididos pela guerra. Hoje, os bispos estão zangados com um chefe de Estado que para manter-se no poder e continuar a concentrar a riqueza do País nas próprias mãos, nas mãos dos membros da sua família e nas mão das pessoas do seu cerco, não se importaria de anular todos os esforços que culminaram com a assinatura dos AGP em 1992, e os sucessivos anos de paz e transição democrática. Nas duas últimas “Notas Pastorais” – Construir a democracia para preservar a paz (Agosto de 2012); Não à violência, não à guerra (Abril de 2013) – dirigidas às comunidades cristãs, aos homens e mulheres de boa vontade, e às autoridades civis, religiosas e politico-militares, os bispos manifestam de maneira explicita a própria zanga. Só faltou instruir os cristãos e os homens/mulheres de boa vontade sobre o comportamento a adoptar para instituir um governo capaz de oferecer uma estabilidade política no País. Mas uma atitude destas seria considerada “politically incorrect”, e por isso diplomaticamente não tolerável. De facto, os bispos, embora, por um lado, cada um deles goze de plenos direitos de cidadania no próprio país, por outro lado, representam, nas suas dioceses, a Igreja católica. A Igreja Católica goza das prerrogativas dos Estados soberanos. E o Vaticano tem relações diplomáticas com o governo de Moçambique. Por isso, uma posição mal calculada da parte da CEM pode deteriorar as relações entre o regime moçambicano e o Vaticano. Uma tale situação pode expor os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e os cristãos a abusos gratuitos e/ou repreensões. Todavia, nas duas Notas acima citadas, além de implorar os seus sacerdotes, religiosos e religiosas, para acompanhar o mais de perto possível o processo de consolidação da democracia, os bispos exortam os mesmos para que na sua actividade pastoral priorizem a formação dos cristãos, para o exercício da cidadania activa, ética e responsável. 
Por último, a própria Renamo que ficou prejudicada, ou que se encontrou na posição desprivilegiada durante o processo negocial, e por isso teve que “engolir sapos” durante todos os últimos 20 anos da experiência democrática, já está zangada com o partido no poder que a trata como se fosse uma organização constituída por imbecis. Capitalizando sobre o actual estado de ânimo da maior parte dos Moçambicanos, o comportamento da Renamo pode ser interpretado em dois modos: Se Dhlakama e os mais importantes expoentes da Renamo ainda continuam a pensar o grande jogo político segundo as antigas categorias, então, já que os últimos 20 anos demostraram a impossibilidade de substituir o autoritarismo e o neopatrimonialismo da Frelimo com o autoritarismo e o neopatrimonialismo da Renamo, através das eleições, a actual aposta seria destinada a forçar a Frelimo a partilhar o bolo da apropriação da riqueza e do poder político com o seu histórico adversário. Neste caso, o acordo consistiria fundamentalmente em integrar a Renamo no conjunto daqueles que ilegalmente e ilegitimamente acumulam em nome privado os bens que deveriam estar ao serviço de todos os moçambicanos. No caso a Renamo queira, efectivamente, promover as instituições e as regras democráticas, então, estaria a querer repropor-se como líder e catalisador da zanga operativa, renovando desse modo a sua posição de maior partido de oposição que, nos últimos anos, tem sido ameaçada pelo partido de Deviz Mbepo Simango, o Movimento Democrático de Moçambique. 
O que provavelmente o partido no poder ainda não percebeu é que a Renamo de hoje não é aquela de 20 anos atrás. A Renamo de 20 anos atrás era composta de uma classe dirigente maioritariamente “graduada” nas operações militares dos 16 anos de rebelião. A Renamo de hoje integra nas suas fileiras muitos quadros com diversificada formação jurídica e política. Para exigir a aplicação do princípio da paridade na representação na CNE, a Renamo recorre a uma interpretação autónoma e coerente da Constituição da República de Moçambique (CRM), aprovada pela maioria parlamentar da Frelimo. Segundo tale interpretação, a Renamo diz que, já que o nº 3 do artigo 135 da CRM não fixa nenhum critério particular para a composição da CNE, e remete a sua regulamentação à lei ordinária, não existe nenhum fundamento – nem constitucional, nem legal, nem doutrinária – para rejeitar a composição da CNE observando o princípio de paridade. Ora bem, tratando-se do “único” princípio (pelo menos na situação política actual de Moçambique) capaz de garantir a igualdade dos partidos políticos nos processos eleitorais, deveria também receber a aprovação no seio do partido no governo porque a aplicação deste princípio prova igualmente a “inocência” da Frelimo das “falsas” acusações de manipular a seu favor o processo eleitoral.
 
O resultado final da zanga operativa
 
O resultado construtivo que poderá emergir da zanga da maior parte dos moçambicanos é a mudança radical da lógica que, até aqui, é utilizada para estruturar o voto no momento das eleições. Fundamentalmente, os eleitores moçambicanos estruturam o próprio voto a partir de dois princípios: princípio regional, e o princípio do cálculo “racional”. Segundo o princípio regional, muitos moçambicanos originários do Norte, se sentem no dever de votar pela Renamo, pelo facto de serem originários do Norte, enquanto os do Sul tendem a votar pela Frelimo, pela razão idêntica, de serem originários do Sul. Os restantes moçambicanos eludem-se, calculando “racionalmente” que votar pela Frelimo seja útil porque tendo já acumulado muita riqueza, a classe dirigente deste partido está com maior disposição para empregar as futuras entradas estatais para o desenvolvimento do País. 
As duas estratégias estão erradas. E estão erradas, não só porque não são democráticas, mas sobretudo porque produzem efeitos contrários. Em primeiro ligar, ninguém recebe qualquer benefício do partido Frelimo por ser do Sul. A maioria esmagadora das populações do Sul de Moçambique vivem de switsakato (verdura sem temperos) desde a independência até hoje, e a Frelimo esteve sempre no poder. Aliás, precisamente porque nesta região o voto já está garantido pela filiação étnica-tribal, a Frelimo não faz nenhum esforço para conquistar a simpatia dos eleitores. Os que se beneficiam do poder neopatrimonial e clientelar da Frelimo são aqueles que (independentemente da sua origem) estão dispostos, sem o mínimo de escrúpulo, a sacrificar os seus compatriotas para servir os interesses do chefe. 
O princípio do cálculo “racional” é errado porque a experiência mostra que onde a concentração da riqueza é derivante do poder político, este último (o poder político) tende sempre a ser utilizado como instrumento para a concentração ulterior da riqueza e dos meios de produção, de modo que, tal concentração possa, por sua vez, garantir a perpetuidade do domínio político. Um governo fundado na base do “cabritismo”, na base do “cabritismo” será fundada a sua administração pública durante toda a sua existência. 
Os eleitores que agem, movidos pelo fenómeno de Zanga operativa, não estruturam o seu voto segundo nenhum dos dois princípios analisados. Pelo contrário, eles adoptam a lógica de “castigo-prémio” para estruturar o próprio voto. Neste tipo de lógica, a maioria parlamentar e o executivo que foram incapazes de actuar as políticas públicas satisfatórias durante os 5 anos do seu mandato (no caso da Frelimo serão 39 em 2014), são automaticamente punidos (castigados), privando-lhes do voto. O voto negado ao partido e ao chefe de Estado cessantes (os reprovados), e que será atribuído ao partido alternativo, tem um carácter estratégico. Por um lado, ele (o voto) incentiva o partido derrotado a renovar-se para poder apresentar-se novamente nas sucessivas eleições para pedir o voto dos eleitores. Por outro lado, o voto estratégico obriga o vencedor (o partido alternativo) a governar da melhor forma possível, para assegurar-se a preferência nas eleições sucessivas. 
O que faz da lógica de “castigo-prémio” a melhor das lógicas da estruturação do voto, num sistema democrático, é que quem sai a ganhar do grande jogo político, não são os políticos, mas os cidadãos. A lógica do “castigo-prémio” não olha para a língua ou origem étnica-tribal dos líderes políticos ou dos partidos a votar, olha só e só para as suas obras enquanto governantes, ou a alternativa política que eles propõem.
Alfredo Manhiça , Professor de Filosofia na Universidade Pontifícia Antonianum de Roma

Wednesday, 22 May 2013

Moçambique: Polícia impede concentração de pessoal médico

 
O presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, Custódio Duma, criticou a acção policial.


A polícia moçambicana repeliu uma tentativa de concentração dos profissionais de saúde que cumpriam o terceiro dia consecutivo da sua greve geral.
A concentração dos profissionais de saúde, estava prevista para as oito horas da manhã no Jardim Nangade, no centro de Maputo, mas a polícia antecipou-se cercando o local para impedir a concentração.
A acção de hoje foi mais um gesto do alto nível de intolerância que o governo revela para qualquer onda de manifestação ao nível nacional.
O presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, Custódio Duma, criticou a acção policial.
“Julgo que os cidadãos não devem ser impedidos de ficar num jardim, até porque os médicos não pretendiam fazer distúrbios ou danificar o próprio jardim” disse aquele activista dos direitos humanos.
Apesar das críticas, Duma apelou à ponderação da classe médica, por forma a não violarem os direitos dos cidadãos aos cuidados de saúde.
“Aqui estamos a falar de greve de profissionais que podem pôr em causa outros direitos fundamentais do cidadão, como o próprio direito à saúde, direito à vida, então sempre há uma necessidade de ponderar a forma como as reivindicações são feitas”, salientou a fonte.
O Ministério da Saúde agendou entretanto para amanhã mais um pronunciamento acerca da actual crise no sistema nacional de saúde.


Wiillam Mapote, VOA

Ban-Ki-Moon: “não basta a paz e a estabilidade para trazer riqueza”

“Que tipo de País Moçambique quer? Com certeza de Paz, de respeito pelos direitos humanos, um País com oportunidades iguais para todos, onde as vozes, as preocupações e as aspirações são ouvidas e atendidas, um Pais sem fome, com um futuro com igualdade, onde todos saem a se beneficiar” – Ban-Ki-Moon
 
“Constatámos que o País não está saudável, as assimetrias aumentam e a moral das pessoas baixou” – Graça Machel falando ao lado de Ban-Ki-Moon


Bernardo Álvaro, Canalmoz. Leia aqui.

Tuesday, 21 May 2013

Greve dos trabalhadores da saúde continua sem data para acabar

Para adensar o cenário, o governo, através do Ministério da Função Pública, veio hoje dizer que está fora de questão qualquer aumento salarial em 100%, tal como pretende a classe médica.


Segundo o governo, o país não está em condições de pagar os aumentos exigidos, pelo que os grevistas terão de se contentar com o que está a ser possível pagar. Enquanto isso, os hospitais públicos continuam a criar agonia para os utentes.
A Reportagem da Voz da América visitou algumas unidades sanitárias de Maputo e ouviu testemunhos de quem viu o serviço de saúde lhe faltar quando mais precisava.
"Cheguei aqui de manhã e me disseram para voltar daqui há cinco dias", disse Horténcia Macamo, utente do Hospital Geral José Macamo em Maputo.
Por sua vez, Eduarda Cipriano agonizava no Hospital Geral de Mavalane, foi a procura de cuidados médicos para a retirada de pontos de uma cesariana recentemente realizada e só foi atendida por solidariedade de algumas enfermeiras grevistas.
"Eu estava aqui caída. Estavam a me mandar para voltar em cinco dias, mas algumas das senhoras que estavam em greve acabaram sentindo pena de mim e vieram me atender", desabafou.
A Associação Médica fala de uma adesão de 90%, números que são negados pelas autoridades do Ministério da Saúde, que garantem que os hospitais estão a funcionar normalmente, apesar dos boicotes.
Com as partes a divergir nos números da adesão, o facto é que pelo menos até ao início desta tarde, as cinco unidades sanitárias que a Voz da América visitou, a falta de pessoal era mais do que evidente.
Amanhã a greve vai ao terceiro dia e os organizadores prometem alargá-la por mais tempo, caso até sexta-feira, data prevista para o fim, não haja nenhuma resposta favorável ao caderno reivindicativo.



William Mapote, VOA

Governo moçambicano considera insustentáveis exigências dos médicos grevistas

O Governo moçambicano realçou a existência de consenso sobre "a preservação da paz" nas negociações retomadas na segunda-feira com a Renamo, enquanto o principal partido da oposição preferiu insistir na transparência dos órgãos eleitorais do país.
As negociações entre o executivo moçambicano e a Renamo (Resistência Nacional de Moçambique) destinam-se a pôr termo à crise provocada pela ameaça do principal partido da oposição de boicotar as eleições municipais de novembro próximo e gerais (presidenciais e legislativas) de 2014.
O principal partido da oposição ameaça impedir a realização dos escrutínios, enquanto não for satisfeita a sua exigência de participar em igualdade numérica com a Frelimo, partido no poder, na Comissão Nacional de Eleições (CNE).
Em declarações aos jornalistas sobre as negociações, o chefe da delegação do Governo, José Pacheco, afirmou que as duas partes estão em consenso sobre a necessidade de preservar e aprofundar a paz no país.
"Desta ronda, importa destacar algumas linhas de força que começam a ser consenso. A primeira linha é a necessidade de dialogarmos para a preservação e consolidação da unidade nacional, a segunda linha é a preservação e aprofundamento da paz e democracia em Moçambique e que o princípio de diálogo deve ser objeto a nortear a nossa atividade", enfatizou José Pacheco.
O chefe da delegação governamental disse que a Renamo apresentou na atual ronda negocial dois documentos, um sobre os termos de referência em relação ao formato das negociações e outro sobre a posição do partido em relação à legislação eleitoral.
"Um segundo documento que a Renamo apresentou é, de facto, aquilo que poderíamos considerar que será o primeiro ponto efetivamente de diálogo que versa sobre as matérias do pacote eleitoral", disse José Pacheco, que ocupa a pasta de ministro da Agricultura.
Por seu turno, o chefe da delegação da Renamo, Saimone Macuiane, afirmou que o partido defendeu junto do Governo a exigência de que a CNE seja formada com base na paridade entre os três partidos com assento parlamentar.
"Entendemos que demos um passo importante para que, havendo vontade das partes, e também com o apoio da sociedade moçambicana, possamos encontrar um compromisso no que diz respeito aos princípios basilares que vão orientar eleições livres e transparentes", salientou Saimone Macuiane.
O debate da ronda negocial que se iniciou na segunda-feira marca a entrada para as questões de fundo do processo, depois de as duas partes terem ultrapassado o impasse que se vinha registando em relação a questões prévias colocadas pela Renamo.
Uma das questões prévias estava relacionada com a libertação de membros da Renamo detidos durante uma invasão da polícia a uma delegação do principal partido da oposição no centro do país, que foi ultrapassada depois de os militantes do partido terem sido libertados no fim de semana por falta de indícios criminais.
Além da revisão da legislação eleitoral, a Renamo exige a reintegração dos seus oficiais no exército, a despartidarização do Estado e a promoção de oportunidades de acesso aos rendimentos gerados pelos recursos naturais.


Lusa

CIP insurge-se contra a gestão dos mega-projectos


“Governo mantém segredo dos contratos e perpetua País na pobreza”

Na semana em que Moçambique participa pela primeira vez na Conferência Global da Iniciativa de Transparência da Indústria Extractiva (EITI), como novo membro da organização, o Centro da Integridade Pública (CIP) insurgiu-se contra a manutenção da confidencialidade dos contratos entre as multinacionais e o Governo moçambicano, na exploração dos recursos. Em nota de Imprensa distribuída ontem, o CIP deplora que “o secretismo em torno dos contratos continua a garantir que as companhias multinacionais não paguem impostos justos ao País”.
“Moçambique é um dos países mais pobres do mundo (…). As receitas do Estado, vindas do carvão e de gás natural, poderiam tirar a maior parte dos moçambicanos da pobreza absoluta”, escreve o CIP numa nota assinada pelo director da organização que tem se batido pela transparência no País, Adriano Nuvunga.
“O Centro de Integridade Pública apela ao Governo de Moçambique que pare de negociar os contratos secretos com as companhias mineiras e do sector do petróleo”, refere o CIP.



Canalmoz

Governo e Renamo buscam aproximação

O GOVERNO e a Renamo deram ontem indicações de pretenderem ultrapassar as questões divergentes que continuam a emperrar o diálogo entre as partes, no quadro das conversações em curso, sobre as questões relativas à situação política, social e económica do país.
As duas partes retomaram ontem o diálogo, no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo, com a discussão das questões prévias que tinham sido colocadas pela delegação do maior partido da oposição e que foram respondidas, por escrito, pelo Executivo.
Trata-se da libertação incondicional de 15 membros da Renamo indiciados de crime contra a segurança do Estado, retirada dos efectivos da Polícia da República de Moçambique (PRM) posicionados em Satungira, Gorongosa, Província de Sofala, e na sede da Renamo em Nampula.
O chefe da delegação governamental, o ministro da agricultura, José Pacheco, reiterou a necessidade de se prosseguir com o diálogo para o aprofundamento das questões em discussão, tendo sempre presente a necessidade de se consolidar a unidade nacional e a preservação da paz.
Sobre a libertação dos membros da Renamo detidos em conexão com os acontecimentos de Muxúnguè, o governante sublinhou que o Governo não vai interferir no sistema de administração da justiça. Com relação aos efectivos da Polícia da República de Moçambique posicionados em Gorongosa, disse que a PRM está a desempenhar o seu papel de garantia da ordem e segurança públicas.
Reafirmou, no entanto, que as questões prévias não devem condicionar a continuidade do diálogo. Sobre a legislação eleitoral, um dos pontos da agenda propostos pelo partido liderado por Afonso Dhlakama, Pacheco indicou que cabe ao Governo analisar a sua aplicabilidade, sublinhando que há aspectos que ferem o quadro jurídico em vigor e mesmo o Acordo Geral de Paz (AGP) que, segundo afirmou, já prescreveu com a vigência da Constituição da República.
Contudo, o chefe da delegação governamental reiterou que o Governo está aberto à iniciativa de rever qualquer aspecto das leis em vigor no país.
O chefe da delegação da Renamo, Saimone Macuiana, reiterou a necessidade da observância das questões prévias por si colocadas, considerando, porém, que a ronda de diálogo ocorrida ontem foi um passo importante para o prosseguimento das conversações na próxima segunda-feira.


Notícias

Outra vez?


 O que nos leva a pensar que as nossas autoridades falam muito de diálogo quando alguém lhes aponta uma faca à garganta, mas voltam rapidamente à habitual arrogância logo que a ameaça se afasta. E, perante este silêncio, os médicos voltaram à única lingua que, aparentemente, o Governo ouve. Com todos os defeitos que essa linguagem tem em si.
Para já, neste caso, como noutros, nomeadamente as negociações Governo/Renamo, espero que pare esta fantochada de se finger um diálogo que, na verdade, o Governo não está disposto a encetar, confiando na força que tem a defendê-lo. Diálogo para para ingles ver. Ou, adaptado à nova realidade, diálogo para a comunidade internacional, e doadora, ver. E, tudo me leva a acreditar, nada mais do que isso…

Machado da Graça, Savana, 17/05/13

Vem aí o recenseamento eleitoral: que ninguém se deixe intimidar

Com o recenseamento eleitoral de raiz prestes a começar dentro de dias para se avançar para as eleições autárquicas já marcadas para 20 de Novembro do corrente ano, continuam as barbaridades do costume empreendidas pelos mesmos de sempre para desacreditar todo o processo, afastar das eleições o eleitorado e assim provocar abstenção como convém a quem ainda está no poder, como convém a quem quer que apenas votem aqueles que lhe são fiéis, se é que ainda os há.
Com os infames comportamentos de quem era de esperar mais educação e civismo mas apenas anda a engendrar burlas para constituir comissões eleitorais capazes de viciar os resultados das eleições, os moçambicanos, de um modo geral, estão agora mais claros que é preciso não vacilar um minuto e nem mesmo um segundo para se acabar com os motivos que fazem com que ande hoje tanta gente indignada com este regime, desde médicos, soldados, enfermeiros, polícias, professores, todo um role de funcionários públicos, desempregados, empresários…
De tanto acreditarem em trafulhas, depois de passarem por tantas desilusões, finalmente sente-se por todo o lado que os moçambicanos já começam a perceber que há urgência em pôr-se fim aos abusos e ao desgoverno a que os actuais dignitários do Estado deixaram chegar o País.
E todos sabemos que quando as coisas chegam a este estado há apenas três caminhos a seguir para se acabar com o que estamos todos a passar: ou a guerra, ou um golpe de Estado – qualquer uma delas a evitar a todo o custo – ou eleições em que todos participem decididamente para que a mudança aconteça de facto – caminho esse que recomendamos com a maior convicção para que a Constituição continue a ser a nossa bíblia como observou recentemente em entrevista ao Canal de Moçambique o ex-primeiro-ministro Pascoal Mocumbi.
Depois do caso Leopoldo da Costa que a direcção da ONP em devido tempo desmascarou, temos agora o mesmo tipo de burla a descer às comissões de eleições dos níveis provinciais, de cidade e distritais. Dos factos, falamos numa notícia desta edição em que o porta-voz da CNE nos esclarece que ainda não foi aprendida a lição ao nível mais alto, e a presidente da ONP/SNP volta a dar mostras de que está a seguir atentamente o desenrolar da mesma trafulhice que parecia ter acabado com a renúncia do camarada João Leopoldo da Costa à sua continuidade ilegal e ilegítima na CNE.
O mesmo “Reitor Burlão”, nas funções em que ainda está investido de presidente da CNE, pretende ignorar que as mesmas razões que o fizeram desistir da malandrice em que se envolveu, há muitos outros que a Organização Nacional de Professores também não propôs como candidatos para as comissões provinciais, de cidade e distritais, que a velha CNE está a empossar, fingindo ignorar a Direcção da ONP.
Mas se manobras semelhantes às que estamos a seguir antes faziam passar a ideia de que não vale a pena votar porque o resultado final acaba por ser manipulado, os resultados da Beira e Quelimane, e mesmo até o das intercalares de Inhambane conseguidos pela actual oposição, mostram que quando o eleitorado está determinado, o objectivo de mudança real pode ser atingido.
Todas as manobras com o maior empenho da CNE e STAE sempre permitiram realmente aldrabar resultados eleitorais.
Mas também porque a maioria das pessoas não foram votar e permitiram que os votos que elas não introduziram nas urnas fossem metidos pelos burlões do costume.
Todas as manobras do género desta que estamos a assistir, primeiro com João Leopoldo da Costa e agora ao nível das comissões de outros níveis, tudo isso assustava e assustou o eleitorado em eleições passadas. Mas é preciso compreender que os tempos agora são outros.
Todo o cidadão com capacidade eleitoral não deve deixar-se intimidar por estas habituais manobras e deve antes entender que elas mostram apenas o medo que os senhores que se encontram actualmente no poder têm de perder os seus privilégios.
E se têm medo é porque chegou a oportunidade dos indignados.
Por isso é preciso que ninguém se deixe intimidar.
É preciso que todo e qualquer cidadão nacional vá recensear-se e desde logo, desde logo que abram os postos de recenseamento. Ninguém deve deixar-se para os últimos dias.
Esta grande batalha por mais um passo pela consolidação da democracia que se começou a construir primeiro com a luta de libertação nacional, depois com a luta contra os novos opressores, e agora contra os burladores, extorquidores dos bens do Estado, corruptos instalados e demais vermes, é fundamental  para que no futuro ninguém mais possa ofender a liberdade, igualdade e fraternidade.
Estas eleições autárquicas e as próximas eleições gerais, entre as quais se incluem as regionais, parlamentares e presidenciais, são decisivas.

O processo começa com o recenseamento. Que ninguém se deixe intimidar. Que ninguém se deixe vender com capulanas, com chapeuzitos, com lenços de cabelo, com isqueiros, com brindes. A nossa dignidade nacional não pode ser deixada ao preço de amendoim.
Canal de Moçambique – 15.05.2013, no Moçambique para todos

Moçambique está no bom caminho - Ban Kim-moon


O secretário-geral das Nações Unidas defendeu hoje que Moçambique "está no bom caminho", durante uma mesa redonda em Maputo sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, na qual ouviu críticas à situação de direitos humanos no país.
Ban Ki-moon chegou hoje a Maputo para uma visita oficial de dois dias, a convite do governo moçambicano, antes de participar, em Adis Abeba, na comemoração dos 50 anos da União Africana.
"Moçambique está no caminho certo, e as Nações Unidas estão comprometidas em caminharem convosco, lado a lado, de mão dada", disse Ban ki-moon, num discurso lido perante centenas de pessoas no Centro de Conferências Joaquim Chissano.
"Por toda a a África, vemos crescimento. Economias estão a crescer. Liberdade e boa governação estão a crescer. A confiança está a crescer. Isto é o que eu vejo em Moçambique. Um país renascido, uma nação em movimento, um povo com confiança no futuro", disse o secretário-geral da ONU.
No seu discurso, Ban ki-moon alertou para o perigo das alterações climáticas, que, disse, estão a acontecer "mais depressa do que se previa", e recordou que Moçambique "é um dos países mais vulneráveis ao fenómeno".
Falando sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, Ban ki-moon reconheceu que a crise financeira internacional, nomeadamente na União Europeia, pode causar dificuldades.
"É importante que que não permitamos que dificuldades orçamentais desgastem" o processo, disse, concluindo: "continuaremos a batermo-nos para que os países alcancem 0,7 do objectivo da Assistência Oficial de Desenvolvimento", disse.
Na discussão que se seguiu, o secretário-geral da ONU ouviu representantes da sociedade civil afirmarem que, no campo de alguns direitos humanos, a situação está longe de ser perfeita.
"Moçambique é a o país (da África Austral) com a maior taxa de casamentos prematuros, cerca de 54 por cento", disse Albino Francisco, do Forum das Organizações dos Direitos das Crianças.
Em consequência, "milhares de crianças são, todos os anos, postas fora da escola e fora das suas famílias", disse Francisco, que denunciou ainda situações de trabalho infantil e de tráfico de menores.
Frida Gulamo, da Associação de Pessoas Vivendo com Deficiência, descreveu a "extrema pobreza" em que vive a maioria dos deficientes, "que não beneficiam de apoios médicos e não têm os mesmos direitos dos outros cidadãos" de Moçambique.
(RM/Lusa)

Sunday, 19 May 2013

IMBISA pede ajuda a feiticeiro


 Por Edwin Hounnou
Os Bispos da Reunião Inter-Regional da Africa Austral, IMBISA, que representa Moçambique, África do Sul, Angola, Botswana, Lesotho, Namíbia, São Tmé e Príncipe, Swazilândia e Zimbabwe, visitaram Maputo, há dias, para pedir ao Presidente Armando Guebuza ajuda para o Zimbabwe ter eleições justas, livres e transparentes, em Junho próximo, a fim de evitar a repetição dos acontecimentos de 2008, em que a ZANU, de Robert Mugabe, mesmo derrotada, encetou uma onda de violência contra MDC.
“Vimos falar consigo à busca de ajuda para garantir a realização de eleições harmonizadas pacíficas a ter lugar, este no ano, no Zimbabwe. Decidimos fazer este pedido a si e a outros líderes da SADC para evitar a reedição de 2008, quando foi desencadeada a violência sem precedentes, durante a segunda volta das eleições presidenciais”, rogaram os bispos. Como se pode pedir a lobo que lhe salve da violência de outro lobo, igualmente, enfurecido?
Os zimbabweanos não acreditam no regime de Mugabe nem nos seus órgãos eleitorais. Para a ZANU-PF continuar no poder, prendeu e torturou os líderes da oposição, Tsivangirai incluído. O que acontece no Zimbabwe, passa-se, também, em Moçambique. O partido no governo, no nosso país, usa, de forma recorrente, a Força de Intervenção Rápida para bater e prender elementos da oposição e infesta os órgão eleitorais, de base ao topo, de seus militantes.

Se Mugabe tinha a sua 5ª Brigada para fazer limpeza étnica e continuar a cavalgar o povo, Guebuza socorre-se da sua FIR para intimidar partidos da oposição e provocar abstenções massivas de eleitores das potenciais zonas da oposição pata, também, obter vitórias retumbantes, como eles costumam se vangloriar.
A exclusão de candidatos a presidente da República, nas eleições de 2009, e a interdição de particpar em vários círculos eleitorais, pelo MDM e Renamo, através de roubo de documentos essenciais das listas, não dignificam a democracia. A Renamo que se havia aliado à Frelimo na fraude contra o MDM, acordou também excluída de vários círculos. Guebuza está conotado com a intolerância política e exclusão económica por que o País passa. As oportunidades de negócios do Estado ficam com Guebuza e sua família.    

As boas práticas consultam-se à gente de bem. Tsivangirai foi sujeito a passar, na Ponta Vermelha, por um detector de metais enquanto a delegação da ZANU-PF foi recebida com honras de estado. É fácil concluir de que lado vai estar Guebuza, no caso do Zimbabwe. O IMBISA acabou de fazer um exercício diplomático inútil. O processo eleitoral do Zimbabwe vai provar de que Guebuza se posiciona. A violência, em Moçambique, contra a oposição é desenhada a partir da Frelimo de Guebuza.
Frelimo e seus agentes vandalizam, destroem e incendeiam as sedes de partidos da oposição não tem nada de bom para aconselhar aos outros. Guebuza não é bom conselheiro, ele só pode ensinar como fazer fraudes para permanecer no poder mesmo tendo visto um cartão vermelho.

Saturday, 18 May 2013

Governo recua e manda em liberdade parte dos homens da Renamo detidos em Muxúnguè

Há poucas horas para a terceira ronda do diálogo Governo-Renamo
 
 
- Dom Dinis Singulane, Bispo da Diocese dos Libombos da Igreja Anglicana e o Prof. Dr. Lourenço do Rosário, reitor da Universidade "A Politécnica" foram os facilitadores que permitiram a soltura, depois de uma reunião que mantiveram na quinta-feira com o Procurador-Geral da Republica, Augusto Raul Paulino 
 
 Vinte e quatro horas após divulgar nota onde afirmava rejeitar todas as pré-condições impostas pela Renamo para o início do diálogo,  o Governo moçambicano mandou soltar parte dos homens da Renamo que estavam encarcerados na cidade da Beira, detidos em Muxúnguè na sequência do assalto da FIR à delegação local da Renamo, no dia 03 de Abril de 2013. Esta era uma das condições impostas, aliás, a primeira.



Canalmoz, continue aqui.

Fracassados dois encontros com AMM: MISAU prepara-se para cenário de greve

O Ministério da Saúde disse ontem que está a criar condições para amortecer o impacto de uma eventual greve geral no sector a partir desta segunda-feira, conforme o pré-aviso lançado esta semana pela Associação Médica de Moçambique (AMM).
          
Desentendimentos em torno do formato das negociações levaram ao fracasso de dois encontros entre as partes, convocadas para discutir as reivindicações apresentadas pela classe médica em carta datada de 13 de Maio corrente. 
O porta-voz do Ministério da Saúde, Francisco Cândido, diz que, apesar do fracasso dos encontros de quinta e sexta-feira últimas, o Governo continua aberto ao diálogo com a AMM, aguardando a todo o momento que a contraparte reconsidere a posição que está na origem do impasse.
Com efeito, segundo dados apurados pela nossa Reportagem, o primeiro encontro, que fora convocado para quinta-feira, acabou abortando já com as partes à mesa, uma vez que o Governo exigia que se retirassem da sala os elementos que se apresentavam como representantes da Comissão de Profissionais de Saúde Unidos (PSU). Como fundamento, o Governo alega que a PSU não só não tem legitimidade para representar os profissionais da Saúde como os pontos por ela suscitados configuram novas reivindicações à margem daquelas acordadas com a classe médica no memorando rubricado a 15 de Janeiro deste ano, na sequência da primeira greve no sector. 
Sobre esta situação, o Gabinete de Informação da AMM defende-se afirmando, em nota divulgada na tarde de ontem, que a PSU é parte legítima e competente para o diálogo, e que as reivindicações que apresenta estão alinhadas com aquilo que são as preocupações já apresentadas pela classe médica.
Segundo a fonte, a inclusão da PSU no diálogo foi decidida depois da greve de Janeiro, quando os profissionais da Saúde que não pertencem à classe médica se identificaram com a causa, ao mesmo tempo que sentiam alguma falta de vontade de endereçar as suas preocupações por parte da Associação Nacional dos Enfermeiros (ANEMO).
Curiosamente, no contacto com a nossa Reportagem, tanto o Ministério da Saúde como a AMM manifestaram-se abertos ao diálogo, embora uma das partes condicione o processo à retirada da PSU, enquanto a outra insiste em que sem a PSU representada não haverá diálogo.
“Não tendo havido os dois encontros o que estamos a fazer é prepararmo-nos para minimizar o impacto da eventual paralisação enquanto aguardamos que a contraparte reveja a sua posição para voltarmos à mesa, seja no sábado ou domingo…”, disse Francisco Cândido.
Enquanto isso, a Ordem dos Médicos de Moçambique considera que apesar de o Governo ter dado já alguns passos nesse sentido é necessário que outras medidas sejam adoptadas no sentido de proporcionar condições de trabalho e de vida dignos aos médicos e outros profissionais da Saúde.
Num comunicado distribuído à Imprensa, a Ordem apela à AMM e à PSU “a prosseguirem a justa luta pela melhoria das condições de vida, através de um diálogo construtivo com o Governo”, lembrando que, nos termos da Constituição da República, a lei limita o exercício do direito à greve naqueles serviços e actividades essenciais no interesse das necessidades inadiáveis e da segurança nacional.
Apela ainda a que, em caso da eclosão da greve, a classe médica assegure a continuidade dos cuidados terapêuticos necessários aos seus doentes bem como assistência a doentes urgentes e graves.

Friday, 17 May 2013

Governo rejeita todas pré-condições da Renamo


Atado primeiro nó no diálogo

Renamo já reagiu e reitera sua posição
O Governo moçambicano acaba de recusar todas as exigências prévias colocadas pela Renamo na primeira ronda das negociações, como condição para o seguimento do diálogo.


Bernardo Alvaro, Canalmoz. Leia aqui.

Boletim sobre o processo político em Moçambique

Abdul Carimo Sau ou Rabia Valgy prováveis presidentes da CNE
Os três membros da sociedade civil para a Comissão Nacional de Eleições (CNE) foram seleccionados pela Assembleia da República, AR, na quarta-feira. A CNE selecciona o seu próprio presidente dentre os três membros da sociedade civil, que provavelmente vão seleccionar Abdul Carimo Sau ou Rabia Valgy. Ambos encabeçaram, com o mesmo numero de votos, a escolha da AR.
A nova CNE terá 13 membros: 5 da Frelimo, 2 da Renamo, 1 do Movimento Democrático de Moçambique, MDM, um juiz, um procurador, e 3 membros da sociedade civil.
Os grupos da sociedade civil nomearam 29 candidatos para a CNE. Uma comissão ad hoc da AR   (5 da Frelimo e 1 do MDM) preparou uma lista de 14 finalistas e a Assembleia votou por seis (3 membros e 3 suplentes). A Renamo não participou na votação em que estiveram envolvidos 167 deputados da Frelimo e 8 do MDM.  Embora o voto fosse secreto, foi claro que a Frelimo deu instruções de voto aos membros do partido na AR. Os resultados foram:
Membros efectivos da CNE:
   Abdul Carimo Sau, 159 votos
   Rabia Valgy, 159 votos
   Paulo Cuinica, 155 votos
Suplentes
   Delfim de Deus, 154 votos
   Jeremias Timana, 153 votos
   Julio Cunela, 153 votos

Carimo Sau é Director Executivo do Observatório Eleitoral, a coligação de grupos da sociedade civil que tem vindo a fazer a monitoria mais consistente das eleições. A coligação inclui as principais denominações religiosas (Católicas, Protestantes e Muçulmanas) e ONGs como a Liga dos Direitos Humanos. Carimo Sau preside também ao Conselho Islâmico de Moçambique, CISLAMO. Foi proposto pelo Centro de Estudos de Democracia e Desenvolvimento, CEDE.
Rabia Valgy e Cuinica são ambos membros da CNE cessante. Valgy foi nomeada por um grupo não conhecido da sociedade civil chamado Associação Luta Contra a Pobreza. Cuinica tem trabalhado para a coligação da sociedade civil conhecida pelo G-20 e foi designado pelo Observatório Eleitoral.
Delfim de Deus foi proposto pela Ordem dos Advogados. Timana é também membro da CNE cessante e secretário-geral do Consilmo, a federação sindical mais pequena. Cunela foi proposto pelo Observatório Eleitoral e é reitor do Instituto Superior de Gestão, Comércio e Finanças.
A Frelimo rejeitou claramente a candidatura do juiz ex-membro do Conselho Constitucional João Carlos Trindade, que a AIM considerou ser “de longe o candidato mais qualificado”, assim como o proeminente jornalista Salomão Moyana.
Outros membros da CNE
Os cinco membros da Frelimo que são membros da CNE, são:
   António Chipanga, jurista, membro da CNE desde 2002.
   Rodrigues Timba, jurista e membro da CNE desde 2007.
   António Muacorica, um economista que foi membro de duas anteriores CNEs, em 1999 e 2002.      
   Abílio da Conceição Dirual, analista de sistemas.
   Eugénia Chimpene, jurista.
O MDM nomeou Bernabé Ncomo, historiógrafo e autor de um livro sobre Uria Simango, o pai do lider do MDM Deviz Simango.

Falta nomear quatro membros: um Juiz indicado pelo Conselho Superior da Magistratura Judicial e um Procurador indicado pelo Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público. A Renamo recusou nomear os 2 membros que lhe competem.
Leopoldo da Costa retira a sua candidatura.

A sociedade civil aparece na composição das Comissões Eleitorais para equilibrar este órgão e conferir ao mesmo alguma despartidarização e imparcialidade. Entretanto, diversas organizações da sociedade civil vieram a público denunciar aquilo a que chamaram de “excessiva interferência política” no processo de selecção dos membros da sociedade civil para as Comissão Eleitorais, com o propósito de colocar nos órgãos eleitorais individualidades ligadas ao partido Frelimo.
Ao nível da CNE, a polémica esteve em torno da candidatura de João Leopoldo da Costa, um membro da Frelimo, visto vestido a rigor com bandeiras deste partido algumas vezes, durante a sua participação em grandes reuniões do mesmo. Leopoldo da Costa concorria para a sua própria sucessão na direcção daquele órgão eleitoral, supostamente proposto pela Organização Nacional dos Professores (ONP).
Os líderes da ONP apareceram em público a refutar tais informações e alegaram falsificação de assinaturas por parte de alguns membros da agremiação, que também são membros activos da Frelimo.
Toda esta polémica não impediu que a Comissão Ad-Hoc da AR para selecção de membros da Sociedade Civil para a CNE, validasse a candidatura de Leopoldo da Costa. O argumento foi de que a candidatura dele enfermava de “irregularidades sanáveis”, tal como grande parte das candidaturas que receberam.
A Comissão Ad-hoc recebeu 29 candidaturas, das quais apenas 16 foram seleccionadas, incluíndo a de Leopoldo da Costa. Alguns candidatos da sociedade civil retiraram as suas candidaturas alegando falta de transparência e viciação no processo de selecção. No dia seguinte à validação da candidatura de Leopoldo da Costa e envio da lista dos candidatos à plenária, eis que ele decidiu retirar a sua candidatura.
Sem candidatos:
Renamo firme no seu posicionamento
A Renamo, o maior partido da oposição no país, desde o ano passado está a afirmar que não vai participar nas eleições autárquicas deste ano e nas gerais do próximo ano, e continua firme na sua posição.
Este partido, que deveria ter dois representantes na CNE, bem como nas comissões provinciais e distritais, não apresentou nenhum candidato.
No dia 10 de Abril tomaram posse, em todo o país, os membros das Comissões Provinciais de Eleições indicados pelos partidos políticos com assento no Parlamento, excluíndo da Renamo que, desde o ano passado vem anunciando boicote às eleições. O mesmo aconteceu ao nível das comissões distritais.
A “dura” posição da Renamo começou a fazer-se sentir no dia 27 de Março, quando a sua bancada parlamentar se recusou a eleger duas pessoas para integrar a CNE. Por causa disso, o parlamento acabou por eleger seis dos oito elementos a que tem direito. A Frelimo fez eleger cinco personalidades, nomeadamente, António Chipanga, Rodrigues Timba, António Muacoarica, Abílio Durai e Eugénia Chimpene; e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), segunda maior força partidária da oposição no país, avançou com o nome de Barnabé Ncomo.
A Renamo recusou-se a indicar um deputado para integrar a comissão ad-hoc criada em finais de Março para seleccionar membros da sociedade civil.
A Renamo diz que não há ambiente para a realização de eleições e constantemente tem estado a fazer ameaças de boicote as pleitos de 2013 e 2014.


Número EA 2 - 17 de Maio de 2013
Publicado por CIP, Centro de Integridade Pública, e AWEPA, Parlamentares Europeus para a Africa

Editor: Joseph Hanlon