Wednesday 1 February 2017

Autoridades palestinianas exigem pedido de desculpa a Guterres


O secretário-geral da ONU provocou um incidente diplomático ao dizer que na origem do Monte do Templo esteve um templo judeu, o que é rigorosamente verdade, pois era aí que se erguia Templo de Salomão 





António Guterres está no centro de um grave incidente diplomático que fez as autoridades palestinianas virem a público exigir um pedido de desculpas ao secretário-geral das Nações Unidas. E isto porque Guterres fez uma declaração considerada muito polémica pelos palestinianos, ao considerar que o Monte do Templo ou Nobre Santuário — um dos locais religiosos mais disputados em Jerusalém — tem na sua origem um templo judeu. E assim é: aí se ergueu o Templo de Salomão e é aí que se situa o Muro das Lamentações, o segundo local religioso mais reverenciado pelos judeus pois trata-se de uma parede que é único vestígio que resta do antigo Templo de Herodes, erguido no mesmo local do primitivo Templo de Salomão, que foi destruído pelos babilónios.Para o ministro para os Assuntos de Jerusalém, da Autoridade Palestiniana, Guterres “negligenciou as resoluções da UNESCO, que dizem claramente que a Mesquita Al-Aqsa é uma herança islâmica”. Citado pela agência noticiosa chinesa, Xinhua, Adnan al-Husseini disse mesmo que as declarações de Guterres representam “uma violação para todas as regras humanas, diplomáticas e legais e uma violação da sua posição como secretário-geral” da ONU. A Autoridade Palestiniana exige, assim, que Guterres peça desculpa pelo que disse.E um conselheiro do presidente da Palestina Mahamoud Abbas veio acrescentar, através de um comunicado escrito, que as declarações de Guterres são um “golpe para a credibilidade da Nações Unidas como uma organização global que devia manter-se ao lado dos povos ocupados e contra o poder da ocupação”.
Parece que o novo secretário-geral das Nações Unidas tem falta de confiança e não compreende a sua posição”, diz ainda Majdalani, conselheiro de Abbas.
As declarações a que se referem estes altos representantes da Autoridade Palestiniana foram feitas em dois momentos diferentes. As primeiras, durante uma cerimónia em memória das vítimas do Holocausto, na sexta-feira passada nas Nações Unidas, em que António Guterres (pode ver no vídeo em baixo ao minuto 2:20 ou ler no discurso integral disponível no site das Nações Unidas) diz que “o Império Romano não só destruiu o templo em Jerusalém como fez judeus párias em muitos sentidos”
A referência às origens do templo foram agravadas, aos olhos palestinianos, posteriormente, quando Guterres deu uma entrevista à rádio pública de Israel, e disse ser “claro que o Templo, que foi destruído pelos Romanos, era um templo judeu”. E ainda acrescentou que “ninguém pode negar o facto de Jerusalém ser, hoje em dia, uma cidade sagrada para três religiões”. O secretário-geral das Nações Unidas referia-se ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo.O Monte do Templo ou Nobre Santuário é um local considerado sagrado por judeus e muçulmanos. Os primeiros reclamam ter acontecido naquele local o episódio relatado na Bíblia, conhecido por sacrifício de Isaac, e o local onde Salomão ergueu o seu templo. Os segundos situam ali uma das mais antigas mesquitas do mundo, bem como o momento da ascensão de Maomé ao paraíso e consideram-no o 3º lugar mais sagrado do islamismo. Ao referir apenas a sua história judaica, ainda que numa cerimónia específica em memória do Holocausto, Guterres tocou no nervo de um conflito secular.
Em outubro passado o conselho executivo da UNESCO (a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) aprovou uma resolução altamente controversa que foi descrita pela imprensa internacional como um corte dos laços judeus com o Monte do Templo, referindo-se sempre ao local pela terminologia em árabe (mesquita Al-Aqsa e Al-Haram Al-Sharif). O texto falava numa “Palestina ocupada” e defendia a salvaguarda da “herança cultural palestiniana e o caráter distintivo de Jerusalém Oriental”, isto para de alguma forma condenarem as restrições que as autoridades israelitas estavam a impor no acesso às mesquitas por parte de muçulmanos.
Apenas seis países (EUA, Reino Unido, Holanda, Lituânia, Alemanha e Estônia) votaram contra a resolução, que foi aprovada com 24 votos favoráveis e mais quatro abstenções. Essa resolução foi muito mal recebida por Israel, que era referido no textos como o “poder ocupante”, e o ministro da Educação israelita, Naftali Bennett, chegou mesmo a acusar a UNESCO, numa carta dirigida à sua diretora-geral Irina Bokova, de dar “apoio ao terrorismo islâmico”. O caso levou à suspensão da cooperação de Israel com a instituição. O então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon teve mesmo de vir publicamente deitar água na fervura, bem como Bokova, e ambos no sentido de considerar a importância do local sagrados para as três religiões monoteístas, judeus, cristãos e muçulmanos.


Observador

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