Desde as primeiras horas, informámos aqui neste espaço que,
apesar de andar a cantar aos quatro ventos “paz, paz e paz”, o Governo da
Frelimo é o maior inimigo da paz. Informámos aqui que toda a propaganda que
incluía o arregimentar de músicos e personalidades sobre a paz não passava de
um simulacro dos senhores da guerra que pretendiam branquear a imagem daquilo
que sempre foram.
A tomada de assalto da residência do presidente da Renamo,
Afonso Dhlakama, na manhã daquela sexta-feira, e todos os momentos subsequentes
serviram para provar que, de facto, a Frelimo havia accionado mesmo a “Operação
Savimbi”, como já havíamos referido.
Não há explicação racional possível para dar ao que se
passou nas Palmeiras na passada sexta-feira.
Essa justificação de que queriam recuperar as três armas não
passa de conversa de treta para boi dormir.
O que o Governo queria deu para o torto e mais uma vez
elevou Dhlakama e catapultou a simpatia popular por aquele homem. O que o
Governo queria, com o cerco à casa de Dhlakama, era encurralar o presidente da
Renamo, criar nervosismo nele e na sua guarda, obrigando-os a agirem sob emoção
e nervos e dispararem contra a Unidade de Intervenção Rápida, que estava do
lado de fora com armamento de todo o tipo, pronto para botar a baixo a casa de
Dhlakama e, mais importante, aniquilar a democracia e as liberdades.
Valeu a frieza de Dhlakama. General que é, apercebendo-se de
que o cerco estava apertado, decidiu jogar, e com sucesso, a cartada de mestre:
não ficar nervoso e não disparar um único tiro sequer.
Mesmo sem disparar, Dhlakama acabou por dar tiros certeiros
na falta de inteligência e no plano macabro do Governo da Frelimo.
Ali na Rua Vasco da Gama, ficou claro onde foi investido o
tal dinheiro que se diz ter ido para o plano de segurança da famigerada EMATUM.
Todos vimos as bazucas, as metralhadoras e os Land Cruisers,
tudo material novo, adquirido recentemente.
Ficou claro, ali, quem anda com planos de matar os outros.
Logo depois de entregar as armas, Dhlakama disse que o
comandante da UIR confirmou que, no dia 25 de Setembro, foram eles que o
quiseram assassinar. Ora, essa informação não foi desmentida. Ou seja, estamos
mesmo perante um Governo de assassinos. É o Governo que anda a assassinar
pessoas. É por isso mesmo que Gilles Cistac morreu, e até hoje não há
investigação.
O juiz Silica morreu, e até hoje não há culpados. Paulo
Machava morreu, e até hoje não há culpados. Orlando José morreu, e até hoje,
não há culpados. Siba-Siba Macuácua morreu, e até hoje não há culpados.
Mussa Inlamo, o ex-agente do SISE, morreu, e até hoje não há
culpados.
Os assassinos são os mesmos que tomaram de assalto a
residência de Dhlakama. Que raio de país é este? E que raio de Governo é este?
Em quem o povo vai confiar? Não é por acaso que os senhores
D. Dinis Sengulane, o professor Lourenço do Rosário, o reverendo Anastácio
Chembeze e o sheik Abibo foram apelidados de traidores e mafiosos pela
população na Beira. E, na nossa opinião, a atitude que estes senhores tiveram,
durante e depois do assalto à casa de Dhlakama, só veio dar razão à população.
Na nossa opinião, a primeira coisa que estes ilustres senhores deviam ter
feito, logo que chegaram ao local, ou quando já estavam a deixar o local do
assalto, era distanciar-se das atitudes do Governo, de pretender desarmar a
Renamo à força e em plena cidade e promover um banho de sangue.
Mas não. Nenhum dos mediadores se distanciou do monstruoso
espectáculo da Unidade de Intervenção Rápida dado na Beira, como se aquilo
fosse muito normal.
Provavelmente porque os seus familiares estão em Maputo e um
banho de sangue na Beira não era assunto deles. Temos a sensação de que os
senhores mediadores aprovaram o método irresponsável usado pelo Governo e pela
Polícia.
Os senhores mediadores devem uma explicação não só à Renamo,
mas a todo o povo que depositou a sua confiança, pensando erradamente que os
senhores são responsáveis. O vosso silêncio perante aquela atrocidade mostra
que não são dignos de confiança.
Aquela operação devia fazer corar de vergonha qualquer um.
Como é que pensam que é possível a reconciliação quando há
um grupo que se acha esperto e com credenciais para assassinar os outros?
Acham mesmo que Afonso Dhlakama confia, ou que qualquer outra
entidade ainda pode estabelecer confiança nesse tipo de gente?
Na nossa opinião, aquela operação não visava apenas desarmar
a guarda da Renamo, tal como alegam. Seria mais fácil convidar Afonso Dhlakama
para Maputo e confiscar as suas armas no aeroporto, assim que a sua guarda
despachasse as armas para o porão do avião. Não é preciso raciocinar muito para
fazer isso. Teriam um Dhlakama sem armas e num aeroporto, sem possibilidade de
fazer confusão, pois estaria desarmado.
Mas, como o objectivo não era esse, mas, sim, o de o
assassinar, preferiram encenar aquele espectáculo barato, ignorante e
irresponsável demonstrado na passada sexta-feira, ali no Palmeiras. O povo só
tem mesmo de agradecer a Afonso Dhlakama pela sua coragem, responsabilidade e
inteligência – que supera de longe todo o Governo junto – por se ter mantido
sereno e ter evitado um banho de sangue, com a inevitável perda de vida de
civis. Dhlakama deu uma lição de responsabilidade a este bando de sanguinários.
E os amigos deste bando de abutres irresponsáveis, a tal
chamada “comunidade internacional”, não tardou em emitir os seus comunicados de
cinismo, alegando preocupação em relação ao que se estava a passar na Beira.
Que ironia! Terão os senhores da “comunidade internacional”, principalmente os
da União Europeia, memória tão curta, ao ponto de se esquecerem que nos
impuseram estes bandidos depois das eleições de Outubro passado, quando todos
nós dizíamos que este bando não ganhou eleições? Não foi a União Europeia que
veio a público felicitar o golpe eleitoral? Agora estão preocupados com o quê?
Poupem-nos desse exercício de cinismo, que o povo já não é assim tão estúpido e
já descobriu qual é o vosso interesse nesta terra: as vossas multinacionais a
sugarem os nossos recursos. Se não nos podem respeitar, no mínimo fiquem
calados e continuem a empobrecer-nos, quer economicamente, quer no que diz
respeito à democracia e às liberdades fundamentais, mas calados.
Evitem emitir esses comunicados vazios, que todo o
moçambicano de bem já sabe de que lado vocês estão. O que nos falta amanhã,
isso já no próximo assalto à casa do presidente do maior partido da oposição,
ou mesmo à casa de Daviz Simango, é a UIR aparecer com fardamentos em que, nas
costas, esteja escrito “União Europeia”. Poupem-nos, que sabemos de que estirpe
vocês são.
Editorial do Canal de Moçambique / CanalMoz – 19.10.2015
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