Tuesday, 25 October 2016

FMI reitera necessidade de uma auditoria externa forense à dívida pública








Representante do Fundo interveio no Fórum Público sobre os Desafios Macroeconómicos do país

Falando, hoje, em Maputo, durante o Fórum Público sobre os Desafios Macroeconómicos do país,o novo representante do Fundo Monetário Internacional em Moçambique, Ari Aisen, reiterou que é bastante fundamental uma auditoria externa independente à dívida pública nacional para restaurar a confiança dos doadores e investidores, peças essenciais para o fim da crise económica.
O FMI considera que ao restaurar a confiança, o país estará livre das pressões actuais caracterizadas por cortes na despesa pública. 


Tempestade causa quatro mortos em Maputo


Maputo, 25 out (Lusa) - Pelo menos quatro pessoas morreram e 14 ficaram feridas na sequência de uma tempestade na noite de segunda-feira em Maputo, informou hoje Serviço Nacional de Salvação Pública.
De acordo com o porta-voz do Serviço Nacional de Salvação Pública, Leonildo Pelembe, quatro pessoas morreram na sequência da queda de uma árvore sobre um transporte semicolectivo de passageiros que circula na avenida marginal durante a tempestade.
"Estes são os dados preliminares que temos, estamos no terreno para a recolha de mais dados", referiu o porta-voz, em conferência de imprensa, acrescentando que, além de 14 feridos, que resultaram de dois acidentes de viação, a tempestade causou avultados danos materiais.
Leonildo Pelembe adiantou que os 14 feridos receberam assistência médica e o Serviço Nacional de Salvação Pública mantém-se atento à evolução do quadro clínico dos pacientes.
Além de vítimas mortais e dos danos materiais, acrescentou o porta-voz, a tempestade da segunda-feira causou um naufrágio na zona do clube naval, também na capital moçambicana, sem causar vítimas.
"Intensificámos agora a nossa prontidão e estamos preparados para assistir as pessoas", declarou.
A forte tempestade da segunda-feira surpreendeu os munícipes de Maputo na hora de ponta, após o Instituto Nacional de Meteorologia ter previsto a ocorrência de chuvas fracas para cidade.
Várias infraestruturas, entre casas, postes e painéis de publicidade foram atingidas, principalmente nas zonas suburbanas, onde muitas vezes a qualidade das construções e do sistema de saneamento é deficiente.

Sobrevivente russo de Mbuzini dá novos dados sobre morte de Samora Machel

Samora Machel
Investigador moçambicano revela documentos divulgados pelo Departamento de Estado americano.

O único sobrevivente da tripulação soviética do avião em que morreu o Presidente moçambicano Samora Machel refutou a tese de que alguém tivesse sabotado o avião como alegou recentemente o general Jacinto Veloso. O mecânico de bordo Vladimir Novessolov negou também alegações do então ministro da Segurança, Sérgio Vieira, segundo as quais estavam proibidos os voos nocturnos do avião presidencial e que o voo nocturno foi feito por ordem do malogrado Presidente. Vladimir Novessolov sobreviveu ao acidente e foi levado para um hospital em Pretória, de onde as autoridades soviéticas o levaram sem permitir que ele tivesse contacto com a comissão de inquérito criada posteriormente. As declarações de Novessolov foram feitas ao escritor e investigador moçambicano João Cabrita, que anteriormente publicou um livro sobre a morte de Samora Machel. Em conversa com a VOA, Cabrita diz ter agora em sua posse documentos do Departamento de Estado que desmentem que os Estados Unidos e a Grã Bretanha se tivessem recusado a participar nas investigações. O antigo governante moçambicano Sérgio Vieira afirmou anteriormente que a “única interpretação diplomática” dessa recusa era que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estavam cientes de que se tinha tratado de um acto de terrorismo de Estado desde o início. Contudo, entre os vários documentos que João Cabrita obteve consta um do Secretário de Estado a informar que os Estados Unidos estão dispostos a enviar um perito para ajudar os governos de Moçambique, Rússia e África do Sul nas investigações. “A questão que se levanta é que sendo o Sr. Sérgio Vieira membro da Comissão Nacional de Inquérito e na altura ministro da Segurança será que ele não tinha conhecimento destas diligências do Governo dos Estados Unidos?”, interrogou João Cabrita, que recordou que Moçambique se retirou da Comissão de Inquérito sul africana, em que participou um americano e um britânico, depois da União Soviética dizer que não iria participar. “Moçambique estava disposto a participar porque já havia pedido à Africa do Sul que indicasse uma firma de advogados que pudesse participar nessa fase de inquirição mas acabou também de se retirar por decisão do Bureau Político da Frelimo,” disse Cabrita. No que diz respeito às alegações de Jacinto Veloso, aquele investigador disse que o general tinha afirmado que a União Soviética era responsável pelo acidente de Mbuzini porque “Samora Machel era um homem a abater” devido às suas recentes aberturas ao Ocidente. “O major general jacinto Veloso diz que um agente de um país de leste teria entrado no Tupolev quando este estava estacionado em Mbala no norte da Zâmbia e sabotado os instrumentos”, lembrou João Cabrita, que diz ter colocado a questão ao mecânico Vladimir Novessolov que "garantiu que ninguém terá entrado no avião, quer na secção de passageiros quer na cabine de pilotagem”.

Monday, 24 October 2016

ONU condena uso de “medidas drásticas” para resolver crise política em Moçambique


A coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique condenou hoje o uso das armas e de "medidas drásticas" para resolver a crise política que o país atravessa e apontou a paz como "condição indispensável" para o desenvolvimento. 


"Condenamos todo e qualquer uso de armas e medidas drásticas para resolver este conflito, é preciso percebermos que as armas não agregam valor ", disse à imprensa Márcia Freitas de Castro, à margem da celebração em Maputo dos 71 anos da Organização das Nações Unidas (ONU).
Márcia Freitas de Castro considerou que o país "atravessa um período complexo" e disse que o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido de oposição, precisam de garantir que haja confiança nas negociações como única opção para o rápido alcance de um acordo.
Para a coordenadora da ONU, a abertura para dialogar manifestada constantemente por ambas partes é "um bom sinal", no entanto, observou, "o calar das armas é urgente e indispensável".
"É possível ter um processo negocial sem armas", frisou, acrescentando que Moçambique é signatário de vários acordos internacionais para a protecção direitos humanos e é necessário que estes compromissos sejam respeitados.
Por seu turno, o ministro moçambicano da Terra Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, falando durante a cerimónia, disse que o Governo moçambicano tem estado a fazer tudo para que a paz seja restituída.
"A nossa intenção é que a paz seja duradoira", afirmou, acrescentando que a solução para a crise política que opõe as forças do Governo e da Renamo passa também pelo envolvimento de todos os moçambicanos neste processo.
"Queremos uma paz com pilares fortes", reiterou o governante, observando que os moçambicanos precisam de "curar as suas feriadas" e encontrar o caminho para a reconciliação.
O maior partido de oposição exige governar em seis províncias onde reivindica vitória eleitoral nas eleições gerais de 2014, acusando a Frelimo de ter cometido fraude no escrutínio.
A região centro e Norte do país tem sido palco de confrontos entre o braço armado do principal partido de oposição e as Forças de Defesa e Segurança e denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.
As autoridades acusam a Renamo de uma série de emboscadas nas estradas e ataques em localidades do centro e Norte de Moçambique, atingindo postos policiais e também assaltos a instalações civis, como centros de saúde ou alvos económicos.
A Renamo, por sua vez, acusa as Forças de Defesa e Segurança de investidas militares contra posições do partido.
Apesar dos casos de violência, o Governo moçambicano e a Renamo voltaram ao diálogo em Maputo, na presença de mediadores internacionais.



Recordações de Mbuzini

 

2016 – Nós, os moçambicanos, manifestamos a nossa convicção de que a verdade sobre o bárbaro assassinato de Samora Machel será um dia conhecida pelos povos da região, do mundo e, muito em particular, pelo povo moçambicano, para quem o desfecho do dossier continua a ser uma prioridade nacional. – Primeiro-Ministro Carlos Agostinho do Rosário. (TVM)

2013 – O presidente da República, Armando Guebuza, renovou hoje o compromisso do governo de tudo fazer com vista a apurar as circunstâncias da morte, a 19 de Outubro de 1986, do fundador da nação moçambicana, Samora Machel. (Rádio Moçambique)

2012 – A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou ontem, em Maputo, que as autoridades nacionais participam nas novas investigações sobre a morte do primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Machel, bem como a existência de novos dados sobre o despenhamento do avião (Tupolev) que vitimou, a 19 de Outubro de 1986, o estadista e outros 33 acompanhantes nas colinas de Mbuzini, África do Sul. (Notícias)

2011 – Continuaremos empenhados para o esclarecimento das circunstâncias que determinaram a morte do Presidente Samora Machel” –Armando Guebuza. (AIM)

2010 – O Chefe de Estado moçambicano, Armando Guebuza, reafirmou que o dossiê relativo à investigação do acidente de Mbuzini não vai ser fechado enquanto não estiver esclarecido. (Rádio Moçambique)

2008 – A descoberta da verdade sobre a morte do Presidente Samora Moisés Machel foi e continua a ser uma prioridade da Nação Moçambicana diz comunicado da Presidência da República. (Notícias)

2006 – Armando Guebuza promete a verdade por detrás da morte de Samora Machel. (AIM)

2004 – Vice-Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, prometeu que a verdade sobre o desastre aéreo que em 1986 ceifou a vida do líder moçambicano, Samora Machel, seria descoberta. (Notícias)

2001 – Mas não desistiremos enquanto não tivermos resposta a perguntas quem foi realmente que matou o presidente Samora. – Primeiro-ministro Pascoal Mocumbi (Rádio Moçambique)

1999 – O Presidente Nelson Mandela disse que as investigações sobre o despenhamento do avião estão numa fase adiantada e que os responsáveis seriam punidos, independentemente do cargo que ocupam. (AIM)

1998 – O primeiro-ministro Pascoal Mocumbi disse que os ministérios do interior moçambicano e sul-africano continuam com as investigações para se determinar as circunstâncias exactas do desastre aéreo. (PANA)


João Cabrita, no Facebook

Aumenta número de deslocados que procuram segurança no centro de Moçambique






O número de deslocados que fogem do conflito político-militar em Manica, centro de Moçambique, em busca de abrigos seguros, aumentou largamente, nos últimos meses. 


O número de deslocados, que fogem do conflito político-militar em Manica, centro de Moçambique, em busca de abrigos seguros, aumentou largamente, nos últimos meses, disseram à Lusa os responsáveis dos centros de acomodação provisórios.
Cerca de seis mil pessoas estão alojadas em centenas de tendas distribuídas pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INCG) em quatro centros de acomodação nos distritos de Gondola, Vanduzi, Mossurize e Báruè, os dois últimos severamente atingidos pelo conflito que opõe as Forças de Defesa e Segurança (FDS) ao braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).

“Em duas semanas foi registada a entrada de 1.016 deslocados oriundos de 11 zonas, incluindo da província de Sofala”, disse à Lusa Rogério Abril, chefe dos pavilhões do recém-criado centro de acomodação de Vanduzi, uma zona abrangida pela coluna de viaturas de escolta militar obrigatório no troço da N7, entre as províncias de Manica e de Tete.

Os deslocados do novo centro de Vanduzi, implantado há duas semanas inicialmente com 125 famílias, são provenientes de Nhamatema, Punguè Sul, Chiuala, Honde, Guta, Mucombedzi, Pina, cruzamento de Macossa, Mossurize, Dombe e Chemba, zonas criticas e agora despovoadas, onde são frequentes relatos de confrontos entre as forças governamentais e o braço armado do principal partido da oposição.

Devido à insuficiência de tendas, prosseguiu Rogério Abril, duas ou mais famílias partilham o mesmo espaço de cerca de seis metros quadrados, e a fome complica ainda mais a equação da vida dos deslocados, que, na maioria, dizem ter perdido as suas casas por fogo posto durante as ações bélicas.

“Eu fugi da guerra, as matanças estavam demais”, descreveu Vailete Chiringa, uma deslocada em Vanduzi, que, com dez membros da sua família, deixou tudo para trás em Chiuala (distrito de Báruè) em busca de segurança, enquanto Grace Edson, divorciada e com seis filhos nas tendas de Mossurize, pede a “Deus que toque [o Presidente da República Filipe] Nyusi e [o líder da Renamo Afonso] Dhlakama”, porque, mais uma vez, ” sofrimento é demais”

.
Rostos pálidos e lábios brancos rasgados denunciam a pobreza e fome em milhares de deslocados, que apenas dependem da distribuição, que definem como “irregular”, de comida pelo INGC, a entidade que assiste os quatro centros de acomodação instalados na província de Manica.
Em apertados corredores entre as tendas, a falta de comida é denunciada por panelas de barro vazias e pelo fogo apagado na maior parte do tempo.

Quando existe, as famílias aglomeram-se em redor da panela onde é confecionado o feijão e a xima (farinha de milho), para a única refeição do dia.


“Fugi da guerra em Nhahala, por causa de ataques, mas aqui [no centro] falta comida. Disseram-nos para cortar estacas para erguer tendas em troca de comida, mas não estamos a receber nada” lamentou Fátima Saide, deslocada em Vanduzi, com sete filhos.
O responsável pelo centro de Mossurize, afirmou à Lusa que sente o sofrimento que estas pessoas têm atravessado, contando que o alastramento do conflito tem criado cada vez mais deslocados.

“Este povo precisa de comida, o apoio não tem sido suficiente”, disse Jaime Johane, adiantando que desde agosto mais 700 deslocados procuraram abrigo no centro, subindo para um total de cerca de 2.600 pessoas.

As famílias alojadas em Espungabera (Mossurize) são provenientes das localidades de Chiurairue, Chiquequete, Chirera e Dacata, uma zona de influência da Renamo e próxima da terra natal do líder do partido de oposição, Afonso Dhlakama.

Em Manica existem quatro centros de acomodação das vítimas da crise político-militar e da seca, ativados há mais de seis meses, sendo o de Mussurize o que alberga o maior número de vítimas, seguido de Vanduzi e Báruè e Gondola 115.

ANDRÉ CATUEIRA/LUSA, no Observador


Nota do José : sobre este assunto, acompanhe a reportagem da VOA aqui !

Crise económica em Moçambique tem repercussões na saúde





O Centro de Saúde da Machava, na periferia da cidade de Maputo, é exemplo dessa situação e os funcionários, ainda que em condições de anonimato, já lançam o alerta.
“Estamos sem combustível nas ambulâncias há dois dias. Não sabemos como proceder em caso de precisarmos transferir pacientes para outras unidades”, denunciou uma das funcionárias, em condição de anonimato.
Nas paredes daquela unidade sanitária, a nossa reportagem encontrou colado em letras garrafais, pedidos aos utentes do hospital, para ajudarem com a aquisição de energia eléctrica, que já começa a faltar por falta.
Os doentes internados também já começaram a sentir os efeitos da crise e aos seus familiares são solicitados a levarem refeições para o hospital.
“A senhora directora veio nos dizer que não há comida e devemos mandar trazer comida de casa”, revelou uma das pacientes internadas na enfermaria da Maternidade.
Desde a suspensão do apoio orçamental que os parceiros internacionais tinham prometido para o país, por conta das chamadas dívidas escondidas, Moçambique começou a sentir os efeitos da crise.
O Governo está a implementar medidas de austeridade que incluem cortes de subsídios e outras regalias que pode comprometer o pagamento de salários dos próximos meses.
“O que estamos a dizer é que temos de controlar o pagamento das horas extras, abonos e outras regalias porque se continuarmos a pagar sem controlo, podemos chegar ao fim do ano com problemas de pagar salários”, reconheceu Adriano Maleiane, Mmnistro da Economia e Finanças, em Declarações à imprensa
A gravidade da situação financeira continua a ser pouco falada e as autoridades esforçam-se a dar uma imagem de estar tudo controlado, contudo, ao nível de todas as instituições do Estado, há indicações claras de que a crise já é uma realidade.


VOA

TPI apela à África do Sul para reconsiderar a sua decisão

 
 
O Presidente da Assembleia dos Estados Partes do Estatuto de Roma, tratado fundador do Tribunal Penal Internacional (TPI), apelou sábado à África do Sul e ao Burundi para reconsiderarem as suas decisões de retirada daquela instância.
"Embora a opção de se retirar de um tratado decorra da soberania do Estado, lamento essas decisões e convido a África do Sul e o Burundi a reconsiderarem as suas posições", escreveu, num comunicado, Sidiki Kaba, também ministro da Justiça do Senegal.
O responsável teme que "este sinal perturbador abra o caminho a uma série de retiradas de Estados africanos do Estatuto de Roma, fragilizando assim o único tribunal penal internacional permanente encarregado de julgar o genocídio, os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade".
A África do Sul anunciou na última sexta-feira a sua retirada do TPI após a polémica causada pela sua recusa em deter no ano passado, aquando da sua visita ao país, o Presidente sudanês, Omar al-Bashir, alvo de um mandado de captura do TPI por crimes de guerra na região sudanesa do Darfur.
Pretória enviou uma carta com o pedido ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e a decisão deverá ter efeito dentro de um ano, de acordo com o Estatuto de Roma.
Quanto ao Burundi, o Presidente Pierre Nkurunziza promulgou na última terça-feira a lei para que o país saia do TPI.
Lembre-se que no final de Setembro foi anunciada a abertura de um inquérito da ONU sobre as violações dos direitos humanos no Burundi desde Abril de 2015.
A Namíbia e o Quénia também já levantaram a possibilidade de seguir o mesmo caminho.
Alguns governos africanos dizem que o TPI tem um preconceito pós-colonial contra os líderes da região.



Folha de Maputo

Sunday, 23 October 2016

Título regressa à Beira 35 anos depois

















Moçambola 2016


O Ferroviário da Beira entra na lista dos campeões nacionais de futebol, ao sagrar-se o mais novo detentor do troféu, mercê da sua vitória diante da União Desportiva de Songo, por uma bola sem resposta.
É o regresso da festa da conquista do título nacional à cidade da Beira, 35 anos depois do Têxtil de Púnguè ter conquistado o troféu, em 1981.
Ferroviário da Beira que perseguiu este título há sensivelmente quatro anos, quando se sagrou vice-campeão por duas ocasiões, nomeadamente, em 2012 e 2013, perdendo o título para o Maxaquene e Liga Desportiva de Maputo, respectivamente. E porque a direcção dos “locomotivas” queria chegar a este título, foi a Zâmbia buscar o técnico Wedson Nhyrenda para montar uma estrutura forte, tendo garantido a manutenção de grande parte dos seus jogadores para esta época, casos de Gildo e Maninho, e ainda Paito, Edson, Dayo, Willard, Jacob e Fabrice.
Da equipa que perdeu a final da Taça de Moçambique ano passado, o Ferroviário da Beira perdeu apenas quatro jogadores, nomeadamente, Mário, para a Liga Desportiva, Elísio e Mambucho, que foram ao Ferroviário de Maputo e Reinildo, que está no Benfica B, sem contundo perder o foco e a ambição de chegar ao título. Mesmo com a saída de Nhyrenda para treinar a selecção da Zâmbia e a chamada de Aleixo Fumo, a convicção do título esteve sempre patente e hoje a equipa conquista o seu primeiro título. Moniz é, sem dúvidas, o herói de Chiveve. E teve uma campanha bastante regular a formação campeã nacional, tendo conseguido até este momento 17 vitórias, 5 derrotas e 7 empates.
Mas as últimas quatro jornadas foram bastante importantes para esta conquista dos “locomotivas” de Chiveve, que venceram todos jogos e beneficiaram das derrotas da União Desportiva de Songo, em todas as quatro jornadas.

No final desta jornada, o Ferroviário da Beira soma 58 pontos, mais seis que a União Desportiva de Songo, que está na segunda posição. Chibuto e Liga Desportiva ocupam os lugares imediatos com 50 pontos cada um.



O País

Friday, 21 October 2016

Era Samora Machel o puritano?



Celebrou-se esta quarta-fei­ra, com toda a pompa e circunstância possíveis, os trinta anos de passamento físico de Samora Machel e mais de trinta membros da sua comitiva, que de regresso de Mbala, na Zâmbia, onde estiveram numa missão ful­cral para a paz na região, não mais voltariam para a pátria com vida e para o recesso dos seus lares.
Ficaram se pelas Colinas de Mbuzine e por consequência disso o país perdeu o funda­dor da nação moçambicana, aquele que proclamou na noi­te chuvosa de 25 de Junho de 1975, a nossa independência.
Hoje a figura de Samora Ma­chel é resgatada com uma elevada dose de roman­tismo, exaltando-se o seu purismo, para referenciar a crise (eu prefiro chamar au­sência) de valores instalada pelo status quo do liberalis­mo e da corrupção desenfre­ada.
É lugar comum ouvir dizer, gente mais velha e cheia de nostalgia “se Samorá fosse vivo, isto e mais aquilo não estaria a acontecer”.
Jovens inspirados nesses relatos orais e em vídeos no YouTube , cantam e exaltam esse homem.

Mas quem foi Samorá Ma­chel?

1- Foi o Homem que ficou com a namorada de Filipe Samuel Magaia, a Josina Muthemba, quando aquele foi “assassinado”. Também ficou com o cargo dele na chefia do Departamento de Segurança lá na luta.

2- Foi o Homem que ficou com o lugar de Eduardo Mondlane, naquilo que se chamou de “golpe palacia­no”, orquestrado pelo ser “criador mor” Marcelino dos Santos. Pelos estatutos da FRELIMO o Vice presidente, em caso da morte do líder da Frente, ascendia à vacatura e Uria Simango, foi “mafia­do” por aqueles dois, a vista como se sói dizer.

3- À testa do regime, numa imitação aos amigos “co­munistas” criou campos de reeducação, onde foram co­metidas barbaridades sem paralelo. Chancelou os fuzilamentos públicos (alguns se lembrarão do Gulamo Nabi) como aquele ocorrido ali na lixeira do Hulene.

Como qualquer mortal, era um homem passível de er­ros.

Jorge Rebelo, na despedida do seu Marechal de eleição es­creveu qualquer coisa como: “ ...pareceu-me ouvir pela cala­da da noite, o suspiro de alivio de alguns camaradas”.
Com todos estes cenários e já que perguntar não ofen­de: Era Samora Machel o pu­ritano?

Luis Nachote

CORREIO DA MANHÃ – 20.10.2016, no Moçambique para todos

Informação anual do Provedor de Justiça vs falta de condições


José Abudo volta a “chorar”e a Frelimo enxuga as lágrimas
- Oposição chumba o informe e pede a extinção da figura de Provedor de Justiça
Quarto informe, mesmas lamentações. José Abudo, Provedor de Justiça, foi ontem, à chamada casa do povo, apresentar o informe anual sobre o estado da justiça na administração pública moçambicana. O informe cobre o período compreendido entre Março de 2015 a Abril de 2016.
Tal como fez em anos anteriores, o homem que tem como função primária de defender e promover os direitos, liberdades, garantias e interesses legítimos dos cidadãos, voltou a queixar-se da “falta de meios, exiguidade de fundos, falta de instalações, recursos humanos e o facto de as suas recomendações serem deliberadamente desrespeitadas por várias instituições”.
Abudo acrescentou que os aspectos arrolados têm contribuído para que os trabalhos que esta instituição vem desenvolvendo não sejam visíveis na prática



MDM e Renamo “chumbam” e a Frelimo saúda e encoraja

Depois da apresentação do relatório em sede da sessão plenária, as opiniões foram divergentes, mas um denominador comum foi possível visualizar nas duas bancadas que perfazem a oposição na Assembleia da República.
As bancadas do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e da Renamo disseram, em coro, que o mesmo estava prenhe de “lamentações” que de acções concretas. Questionaram estas bancadas o facto de, em momento algum, o mesmo fazer menção ao facto de existirem esquadrões que executam membros de outras formações políticas, com particular destaque para os que pertencem aos partidos da oposição.
As críticas não pararam por aqui, chegando o deputado do MDM, Armando Artur, a sugerir a extinção da figura do Provedor de Justiça do ordenamento jurídico nacional e as verbas que são canalizadas para o seu funcionamento, fossem canalizadas para outros sectores prioritários. 
“Porquê manter um órgão cujas deliberações não são acatadas? Seria de bom tom que esses recursos fossem canalizados para os sectores prioritários”, disse Armando Artur. Por outro lado, a bancada parlamentar da Frelimo, como não deixaria de ser, voltou a saudar e a encorajar José Abudo a continuar com o trabalho que vem desenvolvendo.
Lutsé Rumeia foi o portador das mensagens de encorajamento, acrescentando que o informe espelha o estado da justiça na administração pública. 
Mais adiante, disse Rumeia que apesar dos inúmeros desafios com que se debate a provedoria, algum trabalho está sendo feito, pelo que ia no exacto momento o reconhecimento total.
“Saudamos o informe de provedor de justiça por ter feito uma radiografia do estado da justiça na administração da pública. Apesar dos desafios, há algum trabalho que está sendo feito” disse Rumeia.



( MediaFax )

"Samora Machel quis construir uma sociedade que espelhasse os valores do seu líder. E isto, deixou sequelas naquilo que Moçambique é hoje"

Cartas ao Presidente da República (28)

EUREKA por Laurindus Macuácua

Bom dia, Presidente. Como é que lhe corre este mês samoriano? Presumo que melhor do que muitos, a avaliar pelo seu discurso apaixonado, no dia 19 de Outubro. Seja como for, a verdade é que não se pode falar de política moçambicana hoje, sem que haja resquícios daquilo que foi a governação de Samora Machel.
Costumo distanciar-me de pessoas que olham para a figura de Samora Machel com alguma dose de romantismo. Talvez seja por isso que, a meu ver, o dia 19 de Outubro devia ser uma data de reconciliação com a nossa história.
Eu acho, Presidente, que há uma tentativa, por parte dos governantes, de imbecilizar permanentemente o povo.
Sempre que o País celebra alguma data qualquer, ou quando está em dificuldades, os governantes socorrem-se da figura de Samora Machel numa tentativa frustrada de explicar um erro que sabem, e muito bem, que tem outras explicações. Não nego a grandeza da figura de Samora Machel, só que julgo que ele teve muitas imperfeições, ou seja, fez muita maldade contida nas boas intenções.
Samora Machel quis construir uma sociedade que espelhasse os valores do seu líder. E isto, deixou sequelas naquilo que Moçambique é hoje. Posso, por assim dizer, que como pessoa provavelmente Samora não acreditava na sua própria imperfeição.
E por arrasto, o mesmo encontro nos governantes da Frelimo de hoje. Não sou contra os libertadores da pátria e muito menos contra a independência. Sou contra o que eles fizeram da independência.
E, honestamente, colocar ao centro uma figura autoritária que recusou todo o tipo de liberdade ao seu povo, é imbecilizar esse mesmo povo.
A Frelimo de hoje, infelizmente, ainda acredita nas suas ideias revolucionárias. Volvidos 41 anos desde a independência nacional, poucos são os governantes da Frelimo que acreditam em reforma. Na imperfeição do sistema.
Mesmo contra todos os males que assolam este País, a palavra de ordem é “A luta continua”.
Ao se julgar inquestionável, a Frelimo, mais do que nunca, está a pretender dizer que não acredita na reforma. Não acredita na sua imperfeição. Quem acredita na reforma tem um olhar introspectivo. Ou seja, é a partir da sua própria imperfeição que acredita que algo deve ser mudado.
Não é por acaso que temos esses diálogos políticos que a nada levam.
Foram mais de 100 rondas negociais no Centro de Conferências Joaquim Chissano, todavia, não levaram a nada.
Eu, honestamente, sou um pouco céptico quanto a um bom desfecho do actual diálogo político.
Quem vai ao diálogo (isto serve para a Renamo e a Frelimo) tem que estar disposto a fazer concessões. Tem que acreditar na sua imperfeição, para poder entender o outro. Esta Frelimo, e todos aqueles que a adulam, se parecem mais com fanáticos religiosos do que com pessoas sensatas.
Dirigentes da Frelimo, a boca cheia, disseram, no dia 19 de Outubro, que Samora era pela via negocial com a Renamo. Se até hoje a Frelimo segue os ensinamentos de Samora, porquê ainda estamos em guerra? O ceder a que me refiro, não falo de entregar as seis províncias onde a Renamo reivindica vitória. Falo de arranjar uma plataforma, um meio-termo para se calar as Kalashnikovs. É a isto que se chama sensatez.



DN – 21.10.2016, no Moçambique para todos

" Nao havera um acordo de paz em Moçambique até 2019" - Michel Cahen


Michel Cahen, um dos principais historiadores e politólogos sobre Moçambique, não vê solução para a crise política moçambicana até às próximas eleições legislativas, em 2019. Em entrevista ao Africamonitor.net em Lisboa, afirma que "mais dinheiro dado a regimes que não são democráticos vai encorajar esses regimes a ficar hegemónicos.

Para Cahen, a comunidade internacional “em geral ainda prefere a manutenção do poder da Frelimo”, ignorando sinais de degradação dentro do movimento, por considerar o partido "habituado" a gerir a relação com as grandes multinacionais, o que é "melhor para o capitalismo internacional". Apesar dos esforços de democratização da sociedade civil moçambicana “hoje em dia, na partilha internacional do poder, as condições não estão reunidas” para uma maior democratização, mesmo perante a Frelimo “completamente apodrecida, com alguns ligados ao tráfico de droga, com corrupção enorme.

“Para a próxima geração (em África), não sou muito otimista. As novas descobertas de petróleo e metais preciosos, em Moçambique e muitos outros países (...) só trouxeram mais corrupção, mais enriquecimento da elite, mais guerra civil, e isto não é nada bom para a democracia", afirmou Cahen.

O caso dos empréstimos de 2.000 milhões de dólares ocultados da comunidade internacional, canalizados a partir de 2012 para a EMATUM, Proindicus e MAM, todas empresas de segurança, demonstra, segundo Cahen, intenções políticas. “Significa que desde 2012, quando a 2ª Guerra estava só a começar, o Poder já tinha escolhido a via militar”. "O esforço de rearmamento começou naquele momento, não é de hoje em dia", afirmou ao 
Africamonitor.net.
Para Cahen, o PR Filipe Nyusi, à altura Ministro da Defesa no Governo de Armando Guebuza Guebuza, "obviamente sabia desses empréstimos”.

Relativamente à crise económica e financeira no país, o investigador não tem dúvidas de que foi provocada e fomentada principalmente com a maior centralização do poder no 2º mandato de Armando Guebuza, quando Ministros e o próprio PR excederam as suas competências". "Pensaram que o preço das matérias-primas se manteria elevado e fizeram empréstimos a empresas de segurança, mesmo sem fazer conhecer esses empréstimos à Assembleia Nacional como é constitucional.” Como o preço das matérias-primas baixou ficaram "completamente afogados”, resultando no corte de relações com o FMI.
Na luta política, Cahen prevê que "a longo prazo, o MDM pode ser um perigo muito forte para a Frelimo".
O MDM, de Davis Simango, surgiu após as eleições autárquicas de 2009, de uma cisão de dirigentes da RENAMO, mas que captou uma pequena parte do eleitorado e base social da FRELIMO. “Sendo um partido pacífico, pode enraizar-se nos bairros da cidade, nomeadamente nos bairros da classe média e da elite, a chamada cidade de cimento, em que há um eleitorado que muito dificilmente vai votar na RENAMO por razões históricas da guerra civil de 16 anos, mas que pode votar no MDM”, afirma.
Michel Cahen é Diretor de Investigação do Centro Nacional de Pesquisa Científica de França, Investigador associado na Escola de Altos Estudos Hispânicos e Ibéricos da Casa de Velasquez, em Madrid e Investigador convidado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

O investigador inaugurou na quarta-feira um ciclo anual de Conferências sobre assuntos Africanos, organizadas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com uma intervenção denominada “As guerras civis moçambicanas (1976-92, 2013-2014, 2015-?) numa perspectiva histórica.
A morte de Jeremias Pondeca, principal mediador da RENAMO nas conversações com o Governo, ou a ideia de que “há um sector de oposição ao Governo moçambicano que tem esquadrões da morte”, foram alguns dos temas abordados, sobre o conflito atual, aquele que para Michel Cahen é o da 3ª Guerra de Moçambique.


Carmelino Cassessa, Africa Monitor 

Thursday, 20 October 2016

Good gas and bad governance

Progress is being made towards the much-hyped gas production but it's a long and twisting road towards tangible benefits 

The massive economic growth rate of 24% which the International Monetary Fund predicted is no more. That was the Fund's figure for 2021, when gas production had been expected to begin. However, on 4 October, after its recent mission to Maputo, it revised that figure down to just 6.8%. 
Map Copyright © Africa Confidential 2016
Amid an unfavourable global environment and a severe economic crisis at home, Mozambique faces delays, disheartened foreign investors and a weakened bargaining position vis-à-vis the oil companies. Compounding these problems, the extraordinarily wasteful management of state finances by the Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) leaves many observers sceptical that the government will really ensure that the gas benefits are shared out among the population. Almost 55% of people live below the poverty line, a figure that has not changed for over ten years despite impressive economic growth. 
The overall picture darkened further at the beginning of this month when the well regarded Mineral Resources and Energy Minister, Pedro Couto, was removed under the influence, we hear, of the Frelimo old guard. 
Delays to major gas projects in the Rovuma Basin mean that gas production is now expected to start in 2023 at the earliest. Final investment decisions are overdue and projects have been losing momentum, with the US company Anadarko, which controls the Area 1 block, having largely decamped as it waits out the tough times. Yet while Anadarko is still to finalise its agreements with off-takers, Italy's ENI (Ente Nazionale Idrocarburi), which controls the Area 4 block, took an important step towards production on 4 October when it signed a 20-year sale-and-purchase deal with BP. It means ENI has secured customers for the gas produced by its Coral South Floating Liquefied Natural Gas (FLNG) facility – predicted to produce over 3.3 million tons of LNG a year – and can then make its final investment decision later this year. 
With oil and gas prices currently low, BP has also got a good deal but it could mean lower revenue for the government during the period of the agreement. Taking into account the costs which the companies are entitled to recover and the project-related debt repayments to be made by the cash-strapped state petroleum company, the Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, profits for the state will be negligible.
Revenue questions

Furthermore, ENI's FLNG project will inject little fresh investment overall into the heavily indebted country (AC Vol 57 No 10,
Secret security debts devastate economy). The FLNG is to be constructed abroad and the offshore facility, once operational, will have little impact on the local economy. Where government will see revenue is from profits and tax, which can be ploughed back into investment in development. These benefits will not be immediate, though. 
The biggest hope of making money from gas comes from the onshore LNG project managed by Anadarko. However, the company's activity has slowed considerably. After its country head, John Peffer, was relieved of his nine-year position in June, the company hired a new team to finalise sales of the gas, for which it has so far secured only non-binding agreements. John Bretz is now in charge.
During his visit to the USA from 14-17 September, President Filipe Nyusi tried to pressure Anadarko to start preliminary work on the onshore project, namely relocating the population of the Afungi Peninsula where the project is sited. This early work had been expected to bring in up to US$400 million, helping to relieve the severe shortage of foreign currency. Anadarko has, we hear, promised to begin the process but observers say it will start in the first quarter of 2017 at the earliest. The delay is due to disagreements, among other factors, between the government and the company over the LNG terminal, say sources close to the talks. The government wants to place a commercial port close to Anadarko's dockside facility in order to benefit from any ancillary spending by the oil company. The company objects because the presence of commercial vessels in the narrow channel that leads to the open sea would hinder the LNG operations. 
Minister Couto was not part of Nyusi's US delegation and was relieved of his post shortly after the visit. Some say he was 'too honest', for which he has a track record. His replacement, Leticia da Silva Klemens, has been greeted with disappointment. She is widely seen as lacking relevant experience and beholden to the interests around General Alberto Chipande and ex-President Armando Guebuza. The development is regarded as a victory for those in government who see themselves as entitled to personal benefits from the gas (AC Vol 57 No 6, Nyusi's resolve in doubt).


New players

Oil giant Exxon's purchase of a stake in ENI's Area 4 licence is an important development. Despite reaching a framework agreement this summer, there are still some points to be agreed, we hear from Ministry sources. Much uncertainty remains over this long-rumoured acquisition, with both Exxon and ENI remaining characteristically tight-lipped, but we understand the deal is effectively done. 
Rumours are rife about whether Exxon will also buy into Anadarko's Area 1 asset. Talks have taken place in Houston, Texas, site of Anadarko's headquarters, industry sources told Africa Confidential. Anadarko told the government during Nyusi's US visit that it was committed to staying but many are sceptical over whether it will be able to finance the project, especially with lenders wavering in the wake of the government's hidden debt scandal and the consequent economic damage. If Exxon takes a significant stake in ENI's Mozambique assets, that could have an impact on Anadarko's LNG project as ENI and Anadarko have been planning to work in partnership. A new partner may want to review the planning, resulting in further delays. 
The government gave its preliminary blessing to the sale of a stake in Area 4 to Exxon following the July visit by Exxon's Chief Executive Officer Rex Tillerson, when he met Nyusi in Maputo. There is much talk that Exxon will focus on ENI's onshore assets rather than the FLNG. To be able to split the block in this way, there would need to be a specific legal arrangement. Sources close to Exxon say that it wants to buy a stake in ENI East Africa, rather than the block the company leases, giving it greater flexibility. 
The capital gains tax that should arise from the Exxon-ENI deal is much anticipated, with figures as high as $1.3 billion circulating. The high figure presumes Exxon will buy both ENI and Anadarko's assets; $400 mn. looks more realistic. In 2013, when ENI sold a 20% stake in ENI East Africa to the China National Petroleum Corporation for $4.2 bn., the country received $400 mn. in taxes. Since then, the world price of gas has halved. 
Ironically, it was the promise of vast and easily obtainable riches from these large gas deposits that encouraged Guebuza's government to sanction the secret borrowing of $2 bn. for ill-planned, unrealistic projects. They have left the country saddled with additional debt equivalent to over 11% of gross domestic product. 
The conventional wisdom, which the IMF supports, has been that a country such as Mozambique should invest its gas revenue in projects that would help its economic development and provide immediate benefits to the population, rather than following the Norwegian model and saving up the profits. However, in a state so lacking in accountability and transparency, being told that billions of dollars will pour in and being given a green light to spend them has been a recipe for disaster. Political influence is key to commercial success in Mozambique and the government wanted to make sure it took its cut while it could. In doing so, it mortgaged the country at too high a price. Now it is realising that the gas will not be the golden ticket that it once imagined and its actions have set back the sector's development



Africa Confidential

Wednesday, 19 October 2016

Acidente de Mbuzini deveu-se a uma série de erros cometidos pela tripulação, João Cabrita




João Cabrita nasceu na Beira e, após a independência nacional, saiu do país, tendo vivido em Portugal, África do Sul e há mais de 30 anos vive na Suazilândia. Em 2005, aventurou-se na escrita, tendo lançado o livro “A Morte de Samora Machel”, que traz uma versão diferente da comum sobre a tragédia de Mbuzini

O que o levou a escrever sobre o assunto?
Este foi um acidente que se tornou num caso político e isso tornou o caso mais apaixonante e eu, por ter seguido todo aquele processo inicial da investigação, da polémica em torno do processo de investigação, nomeadamente, a forma como seriam extraídos os dados das caixas negras do avião e até a fase de elaboração do relatório, decidi que seria oportuno escrever sobre esse tema, uma vez que em Moçambique o tema nunca foi aprofundado. Falava-se sempre na questão de o acidente ter sido provocado por um aparelho falso, o chamado radiofarol“VOR” falso e falava-se também na implicação da África do Sul como causa fundamental deste acidente, mas não se aprofundava a questão dos factos desse acidente, factos esses apurados pelas três partes. Portanto, eu tive acesso ao relatório da comissão de inquérito sul-africana, que ao abrigo da Convenção de Chicago, que rege este tipo de acidentes, é o Estado de ocorrência do acidente que institui a comissão de inquérito e é esse Estado que publicou o relatório da Comissão de Inquérito. E tive acesso, também, ao Relatório Factual do Acidente, neste caso, foi um relatório unânime, assinado pelos três países e esse relatório, só por si, ilustra claramente o que se passou naquele voo do dia 19 de Outubro de 1986 e eu achei que esses pormenores, esses factos contidos no relatório, não eram de conhecimento geral em Moçambique.
E esses dois relatórios, o dos Factos e o da Comissão sul-africana de Inquérito, foram publicados um ano depois da tragédia de Mbuzini. Gostava que esclarecesse o que distingue um relatório do outro?

Ao abrigo da Convenção de Chicago, que também é conhecida como sendo a Convenção da ICAO, o Estado de ocorrência do acidente nomeia a comissão de inquérito e de acordo com a lei sul-africana da aviação, o Estado de ocorrência também nomeia uma equipa investigadora que vai ao terreno recolher todos os dados do acidente e é fundamental na elaboração desse inquérito o conteúdo das caixas negras. O relatório factual foi, portanto, compilado pelos investigadores de Moçambique, da União Soviética e da África do Sul. Foi um relatório unânime e que no final seria apresentado perante da comissão de Inquérito sul-africana. Ao abrigo da Convenção de Chicago, Moçambique, como país de registo da aeronave, tinha o direito de nomear observadores para estarem presentes durante a fase de inquirição propriamente dita; o mesmo direito aplicou-se à União Soviética, como país de fabrico da aeronave. Embora a Convenção de Chicago seja muito precisa nesse aspecto da nomeação de observadores, convém realçar que a Comissão de Inquérito sul-africana foi mais além dessa cláusula e conferiu ao Estado Moçambicano e à União Soviética o direito de não só nomearem observadores, como também apresentarem factos, de acarearem testemunhas perante essa comissão. Como é sabido, a União Soviética, no dia em que assinou o Relatório Factual, decidiu não participar nessa fase de inquirição; Moçambique, que inicialmente estava disposto a participar nessa fase de inquirição, acabou também por se retirar, posteriormente à decisão da União Soviética. De qualquer forma, a comissão de inquérito do país de ocorrência continuou com os trabalhos e publicou o relatório na versão preliminar, que foi enviado para Moçambique e para a União Soviética para que fizessem os comentários que achassem apropriados.
E este Relatório Factual visava trazer à superfície o que aconteceu, sob o ponto de vista prático, naquele voo…
Sim sim! Com recurso às caixas negras, uma das caixas negras é o gravador digital dos dados técnicos do voo. Com recurso a essa caixa negra reconstituiu-se toda a trajectória do voo, o comportamento do voo - o aspecto técnico. A outra caixa negra, que era o gravador da cabine de comando, permitiu extrair os últimos 30 minutos da conversa dentro da cabine e também outro elemento importante foi a gravação das comunicações entre a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo e o avião. Portanto, isso tudo foi integrado no Relatório Factual. Podemos considerar que isso, per si, dá uma importância maior a este relatório, até porque acabou por ser considerado no relatório da Comissão de Inquérito sul-africana. O que é que este Relatório Factual trouxe de relevante para o esclarecimento das causas do acidente de Mbuzini?
Tratando-se de um acidente eles foram detectar quais teriam sido as causas desse acidente e detectaram inúmeras falhas naquele dia, tanto no voo de partida de Maputo para Mbala, como de regresso de Mbala para Maputo. Entre as falhas que detectaram é que não foi feito o plano de voo de Mbala para Maputo – essa é uma questão obrigatória para qualquer voo. No voo de partida de Maputo para Mbala, o plano de voo foi feito cerca de 10 ou 15 minutos antes da hora de partida. Isso constitui uma violação do protocolo dos voos presidenciais em vigor na então República Popular de Moçambique, que dizia que o plano de voo de um voo presidencial devia ser feito com pelo menos 24 horas de antecedência pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Portanto, foi feito momentos antes da partida. No voo de regresso, que é importante, a primeira falha técnica que detectaram foi que o voo não tinha combustível regulamentar para aquele voo.
Em termos práticos significa que tinha combustível apenas para partir de Mbala para Maputo e não o suficiente para um trajecto de recurso, caso não fosse possível aterrar em Maputo?!
Exactamente isso. O regulamento da aviação civil diz que o avião tem de ter combustível para chegar ao aeroporto de destino e na eventualidade de surgir qualquer imprevisto, seja mau tempo ou motivos de segurança, o avião tem de ter combustível para desviar para o chamado aeroporto alternante e de acordo com o protocolo dos voos VIP em vigor na República Popular de Moçambique, a Beira era sempre o aeroporto alternante. O que a equipa investigadora constatou e a comissão de inquérito corroborou foi que o avião não dispunha de combustível suficiente para desviar para a Beira. Portanto, há uma expressão utilizada pelos investigadores de acidentes de viação que diz que “um acidente é sempre uma acumulação de erros”. O primeiro erro detectado aqui foi a questão do combustível, para além da falta do plano de voo e essa acumulação de erros, por vezes, tem um efeito de bola de neve e vão influenciar, como neste caso, a tripulação a cometer outro tipo de erros.
Outra questão que salta à vista é, se podemos considerar, uma negligência na comunicação entre o pessoal de cabine e a Torre de Controlo do Aeroporto de Maputo e até entre o pessoal de cabine, no momento em que já se fazia a descida por aproximação ao Aeroporto de Maputo. Estes elementos foram considerados importantes para o acidente?
As comunicações entre a Torre de Controlo de Maputo e o avião começaram por ser boas quando o avião entrou no espaço aéreo moçambicano, cerca das 21 horas de Moçambique. Eles forneceram indicações que deviam constar do plano de voo, como a hora de partida de Mbala e a previsão de chegada, o número de passageiros que levava a bordo e que a bordo ia o Número 1, que é o Presidente da República. A Torre de Controlo anotou e forneceu o Boletim Meteorológico ao avião, válido para aquela altura e também deu permissão para o avião iniciar a descida em direcção a Maputo, mas deixou claro: “desçam até aos 3 mil pés de altitude ou até quando tiverem as luzes da pista à vista”. Este é um procedimento normal, de rotina, faz parte das cartas de navegação. Portanto, decorreu tudo normal entre a Torre de Controlo e o avião, só mais tarde, quando surgiu uma complicação no momento da aproximação final é que houve uma certa dificuldade de compreensão entre ambas as partes sobre o que se passava naquele momento, nomeadamente, as dificuldades que a tripulação estava a ter para localizar a pista do aeroporto e que não foi bem entendido pela Torre de Controlo e isso gerou uma certa confusão. A dada altura a Torre de Controlo dá uma permissão para o avião aterrar numa pista que era oposta à aquele que tinha sido previamente planeada pelo comandante – queria fazer uma aterragem por aproximação directa à pista 23, que é a pista para quem, por exemplo, vem do Norte de Moçambique, é aquela que temos à nossa frente. E a dada altura a torre de controle dá autorização para o avião aterrar na pista cinco, portanto, do lado oposto e isso gera uma confusão e leva o comandante a perguntar “que pista é essa? Eu estou com a intenção de aterrar na pista 23.” - Está documentado também que oito minutos antes da hora prevista, o piloto faz um desvio do avião à direita, ao mesmo tempo que a tripulação recebia uma comunicação de um VOR, que é até aqui considerado um VOR falso. Esses elementos podem ter sido determinantes para que o avião saísse da rota do aeroporto de Maputo até despenhar-se em Mbuzini?
- As pessoas, às vezes, têm a ideia de que o avião é atraído por um VOR. O VOR existe, está lá, os pilotos, neste caso o comandante ou o co-piloto, sintonizam o VOR que pretendem seguir. Portanto, é por iniciativa dos pilotos que o avião segue em direcção ao VOR, não é que o avião seja atraído. E de facto essa volta prematura à direita foi oito minutos antes da hora prevista, o que levou o comandante a questionar a razão daquela volta, porque segundos antes o navegador tinha dito que “estamos a 100 km de Maputo”. Ora, a volta que o piloto tem de efectuar à direita, em direcção à pista, é feita à metade dessa distância, mais ou menos. E o navegador diz que “o VOR indica essa direcção”. Portanto, alguém dentro do avião sintonizou a frequência do VOR. É indiscutível que o avião se orientou por um VOR. Agora surge a questão do VOR falso, como acabou de referir. Isso é uma especulação porque não há indícios claros de que se tenha tratado de um VOR falso. A teoria do VOR falso avançado pela parte soviética é que era um VOR a transmitir na mesma frequência da estação VOR do aeroporto de Maputo, mas isso é uma pura especulação porque se o comandante do avião tivesse cumprido com os procedimentos regulamentares de uma descida, em que ele tem de fazer a reverificação das listas, nomeadamente, há uma lista que consta para a descida, há uma lista para a aproximação à pista, há uma lista para a aterragem, até ao momento em que o avião estaciona na placa da terminal. É todo um processo que tem que ser cumprido. O procedimento é feito em voz alta e fica gravado na caixa negra da cabine. O piloto pergunta, por exemplo, altímetro barométrico, pergunta receptor VOR número 1, número 2. O co-piloto que está sentado à direita do comandante olha para os instrumentos, verifica se aquela frequência é a pretendida para a aterragem no aeroporto de Maputo e diz em voz alta “verificado”. E mais: o co-piloto tem os auscultadores em sintonia com a estação VOR do aeroporto que regularmente está a transmitir o respectivo indicador.
Quando os investigadores foram fazer as escutas da gravação de cabine – uma das caixas negras – verificaram uma coisa muito simples: o comandante não cumpriu com esse regulamento obrigatório, de rotina, para qualquer voo, seja de dia ou de noite, faça sol ou chuva. Ele não verificou qual a frequência que estava seleccionada no receptor VOR do avião. O co-piloto, em vez de estar em sintonia com a estação VOR do aeroporto de Maputo para ouvir o indicador em código Morse, estava a escutar, desde as 21h00 até ao momento da colisão, às 21h25, hora de Moçambique, estava em sintonia com uma estação de rádio da União Soviética, através do rádio de alta frequência de bordo. Às 21h00 estava a transmitir noticiário, depois seguiu-se um programa musical. Tudo isso ficou gravado na caixa negra. Por isso é que eu digo que quando se fala da existência de um VOR falso, está-se a especular.
- Verdade, porém, é que há um VOR do aeroporto de Matsapa, na Suazilândia, que na altura tinha uma frequência próxima a do aeroporto de Maputo que foi sintonizado pela tribulação e que provavelmente tê-los-ia induzido a seguirem por uma rota diferente da do aeroporto de Maputo. Este elemento não configura o tal VOR falso?
- Essa é a opinião expressa pela comissão de inquérito sul-africana, também pela equipe investigadora sul-africana, quando eles detectaram a célebre frase “o VOR indica essa direcção”. Quando o investigador-chefe da parte sul-africana regressou à África do Sul, ele entregou a gravação e a transcrição e também a tradução aos laboratórios competentes da África do Sul para verificarem se estava tudo em condições. Foi nos laboratórios da África do Sul que se detectaram falhas na transcrição. Portanto, foi essa frase que eles detectaram e em conversa com as delegações dos três países, em discussões numa reunião, em Joanesburgo, em finais de Dezembro de 1986, a parte sul-africana disse “a última explicação que nós vemos para esta volta prematura à direita é que este voo sintonizou por engano ou então alguém, o piloto ou o co-piloto, por uma questão de orientação, sintonizou temporariamente a frequência do VOR de Matsapa para estabelecer a posição em que se encontrava” e como o sistema soviético da tripulação quem navega o avião é o navegador, quando foi seleccionada a frequência VOR no receptor, ou por engano, dada a proximidade das frequências entre Matsapa e Maputo (o VOR de Matsapa tem a frequência 112.3 MHz e o VOR de Maputo tem a frequência 112.7 MHz), portanto, a diferença decimal. Segundo a comissão de inquérito sul-africana os algarismos do alfabeto russo, o 3 e o 7, são muito semelhantes. Pode ser que devido à fraca iluminação dentro da cabine e também, devido ao facto de o receptor VOR não ser iluminado, que a pessoa que sintonizou a frequência ter feito o erro de seleccionar o decimal errado e o avião seguiu na direcção errada. Aqui, mais uma vez, a importância da verificação das listas que não foi feita. O navegador efectuou a manobra à direita – assim se prova porque o comandante perguntou “estamos a virar?”, quer dizer, ele virou sem a permissão do comandante.
- Há um outro momento bastante crítico, documentado no relatório da comissão de inquérito da África do Sul. É que durante a descida por aproximação, o pessoal de cabine estava envolvido numa conversa banal, em que até falava da divisão de Coca-cola e cerveja que traziam da Zâmbia… - Isso ficou gravado numa das caixas negras. Precisamente segundos depois do avião ter feito aquela volta prematura à direita, há uma fase de encomenda de bebidas para os tripulantes levarem para casa. Isso, numa fase crucial do voo, que exige que tudo que se discute dentro de uma cabine de voo seja apenas e somente, relacionado com os preparativos de uma descida, de uma aterragem. É o que na gíria da aviação é conhecido como “cabine estéril”.
Americanos não queriam colaborar nas investigações para não serem conotados
Logo após o acidente de Mbuzini, a África do Sul solicitou apoio da ICAO, da Inglaterra e dos Estados Unidos da América (EUA), através do departamento de investigação de acidentes de aviação. Entretanto, inicialmente, os EUA recusaram-se a fazer parte da investigação, tal como o fez a Inglaterra, o que abriu espaço para concluir-se que havia conspiração dos americanos.
- Qual é a explicação para essa decisão inicial dos EUA, mas que mais tarde viria mudar, ao integrarem a equipa de investigação?
- Tal como o disse na primeira edição do meu livro, eu interpretei a recusa dos Estados Unidos da América em prestar apoio/ajuda aos sul-africanos para fazer esta investigação, pelo facto de eles não quererem aparecer em público como estando a servir o regime do apartheid, que era um regime condenado, principalmente numa altura em que estava em marcha toda uma campanha a apontar o dedo à África do Sul como sendo o responsável deste acidente. - Mas figuras como Sérgio Vieira têm uma posição diferente dessa. No caso em particular, acredita na teoria de conspiração do Regime do Apartheid. Como analisa isso?
- A única leitura diplomática que o senhor Sérgio Vieira fez relacionada com essa posição dos Estados Unidos e da Inglaterra, em não prestar a colaboração pretendida pelos sul-africanos, é uma leitura precipitada. Como sabe, nos Estados Unidos existe uma Lei de Liberdade de Informação. Ao abrigo dessa lei e no âmbito dos preparativos para a segunda edição do meu livro, eu solicitei a divulgação de documentos do Departamento do Estado (norte-americano), cobrindo o período que vai de 20 de Outubro de 1986, portanto, o dia a seguir ao acidente, até Julho de 1987 que foi o mês que a comissão de inquérito divulgou o relatório final sobre o acidente. Da leitura que fiz desses documentos, posso concluir que o senhor Sérgio Vieira fez uma leitura precipitada. Não há nada nos documentos que indique uma conspiração dos Estados Unidos, como ele diz. Se bem que ele diga e frise que esse suposto envolvimento dos Estados Unidos e da Inglaterra no acidente de Mbuzini seja de forma indirecta. Isto é, segundo o senhor Sérgio Vieira, os Estados Unidos e até possivelmente a Inglaterra – ele não esclarece qual dos dois países fez isso – teria fornecido à África do Sul ou a Israel, o célebre aparelho que provocou o desvio do avião. Aqui há mais um caso de erro de palmatória, conhecido de qualquer investigador. O investigador tem de cumprir com uma regra fundamental, elementar, que é não permitir que a percepção que ele tem de uma determinada realidade interfira com os factos. O senhor Sérgio Vieira, antes de estar na posse dos factos já estava a tirar ilações precipitadas. A leitura diplomática que ele faz surgiu depois do embaixador americano, aqui em Maputo, e também o embaixador britânico, também em Maputo, terem abordado o Sr. Sérgio Vieira a informar que não estavam interessados em participar nas investigações. Segundo depreendo da leitura dos documentos, essa abordagem foi feita no dia 23 de Outubro de 1986. Acho extraordinário que o Senhor Sérgio Vieira, quatro dias depois do acidente, quando os factos do acidente, nomeadamente, os que estavam contidos nas caixas negras do avião, ainda não haviam, sequer, sido extraídos, nem sequer havia sido alcançado o acordo quanto à forma como seria feita a leitura dos dados dessas caixas negras. Ora, a leitura desses documentos fornece outra perspectiva sobre porque é que os Estados Unidos não quiseram inicialmente participar nessa investigação.
Mas no dia 25 de Outubro de 1986, a embaixada americana em Pretória enviou um telegrama ao Departamento de Estado a recomendar que os Estados Unidos deviam participar nas investigações já e imediatamente. E diz esse telegrama que “não devemos aguardar por mais tempo porque caso contrário a União Soviética irá viciar os dados do acidente e depois será difícil aos Estados Unidos provarem que não estão envolvidos neste caso”, porque este acidente, segundo o telegrama, “reúne todas as características de mais um caso de uma vítima do capitalismo e nós vamos ser acusados de ter provocado este acidente”. E, de facto, isso veio a acontecer. O jornal Notícias, em Maputo, publicou uma reportagem da agência de notícias Novosti em que abertamente implicava os Estados Unidos no acidente.
Face a essa recomendação feita pela Embaixada americana, em Pretória – que também tem o cuidado de dizer: “nós vamos participar nestas investigações não para servir os interesses da África do Sul, porque não devemos nada à África do Sul, mas para servir os nossos interesses” – num outro telegrama do dia 31 de Outubro, do Departamento do Estado, que decide iniciar diligências para uma participação nas investigações. O que é interessante é que um outro telegrama, do dia 19 de Novembro de 1986, portanto, já depois dos três países terem assinado o acordo, em Maputo, sobre a forma como seria feita a leitura das caixas negras, o secretário de Estado (norte-americano) envia um telegrama ao embaixador americano em Maputo, para informar o Governo moçambicano de que, em conformidade com um pedido formulado pelo Governo da República Popular de Moçambique, os Estados Unidos disponibilizam um investigador para participar nas investigações. E têm o cuidado de sempre realçar, aliás, é o aspecto dominante na posição dos americanos, que eles não querem aparecer como estando ao lado da África do Sul. Eles querem prestar ajuda aos três países.
Isto levanta uma questão: Será que o Sr. Sérgio Vieira, como membro da Comissão Nacional de Inquérito e membro do Governo da República Popular de Moçambique, à altura dos factos atrás referidos, não tinha conhecimento destas diligências do governo dos Estados Unidos? Eu também posso fazer uma leitura, se bem que não necessariamente diplomática: O Sr. Sérgio Vieira, ao omitir este ponto – eu chamaria a isto não uma omissão, mas uma ocultação de provas – o Sr. Sérgio Vieira pretende apenas dar consistência à tese do VOR falso que ele defende desde o princípio.


( O País )