Thursday, 17 March 2016

O Muito Verdadeiro vice-ministro

 
 Camarada vice-ministro.
Veríssimo significa Muito Verdadeiro. Veríssimo é também um nome respeitável.
O que não pode ser veríssimo é a surpreendente declaração à TEVÊÉME da sua homonomia vice-ministro afirmando em total desconexão que a sua equipa de pesquisa “não encontrou evidências que provam alegados abusos dos direitos humanos por parte das forças de defesa e segurança em Kapesi”.
E porque os nomes espelham o que somos, o Muito Verdadeiro Veríssimo, talvez consciente de que tapa o sol com a peneira, acabou dando mão à palmatória, ao admitir a possibilidade de reavaliar a sua pesquisa.
Ora, é aqui que o vice-ministro prova ter sido menos verdadeiro. É aqui que admite implicitamente haver uma margem de erro abismal nos resultados da sua pesquisa.
A admissão de se proceder a reavaliação é só sintomático de uma falta de método na pesquisa do meu amigo Muito Verdadeiro. Até prova em contrário, o seu resultado não é de fiar. Não nos fornece a margem de erro, nem afirma os procedimentos seguidos no apuramento de tal conclusão.
O Muito Verdadeiro vice-ministro, ao pronunciar-se nos termos em que se pronunciou sobre a conclusão da pesquisa, não só põe em dúvidas a capacidade da sua equipa, como também a idoneidade dos resultados, que, mesmo que certos, não conferem plausibilidade, pelo grau de hesitação com que o difunde.
Algo parece ter querido deixar claro que os resultados do relatório foram uma encomenda, uma encenação mal interpretada, que expõe o Muito Verdadeiro amigo vice-ministro ao ridículo. A mim, que bem o conheço, meteu-me dó ver o Muito Verdadeiro paradoxalmente enganando a si próprio, com todos os dentes da boca, que não achou evidências que não queria achar. Fazendo textualmente coro com o governador de Tete, outro infelizardo que há poucos dias apareceu na STV fazendo “pronunciamentos” forçosos, de deixar a uma criança corada – não é preciso ser tão claro para corar.
O que a mim me deixou encabulado, não é só o ridículo como o Muito Verdadeiro saiu TEVÊÉME, como o titubeante resultado a que chega, demonstrando estar tão inseguro como demonstrando propensão a manipulação, que hoje em dia, desculpa-me a frontalidade, se tornou o carácter e o requisito básico para nomeação dos dirigentes ao nível do nosso Estado.
Tirando o facto de que deu para matar saudades assisti-lo na TV, vendo o Muito Verdadeiro amigo a falar não deixou dúvidas de que, se pudéssemos sujeitá-lo a um detector de mentira, veríamos o aparelho ridicularizá-lo, e à equipa que comandou.
De um momento para o outro, têm sido os nossos dirigentes apanhados desprevenidamente a tentar proceder a arranjos que os levam a perder compostura que não lhes fica bem, pelo respeito que merecem, pelo cargo nobre que representam, muito caros à imagem do nosso país. Parece estarmos a lidar com dirigentes rascas em cada tentativa “desconseguida” de tapar o sol com a peneira.
Parece-me querermos reincidir que a estupidificação tornou-se um critério básico e legível a nomeação dos membros do Governo e responsáveis do Estado, desde o nível inferior até ao escalão mais alto.
De um momento para a outro, quer me parecer que somos forçados a nos conformar com as afirmações de dirigentes deste Estado, de tão espantosas, tão caricatas e ridículas, que podem indignar os cães, os gatos, as cobras, os pássaros, e menos a eles próprios, o que é uma pura desgraça de um país pobre como o nosso.
Um aviso à navegação: era de todo urgente que, no lugar de se inventarem escapatórias ou eufemismos tendentes a agradar aos chefes, que os dirigentes do Estado relevem que em primeiro lugar há que prestar leais serviços ao povo e à Pátria Amada. Auguro que, na reavaliação da sua pesquisa, o Muito Verdadeiro amigo se cuide de fazê-lo de forma imparcial, o que influiria na percepção sobre o que realmente falhou neste novo ciclo de guerra entre as arquirrivais Frelimo e Renamo, que a nós que sofremos as mazelas dos dois, muito cansam ao povo sofredor pisoteado como se de capim se tratasse.




(Adelino Timóteo, Canalmoz)

Wednesday, 16 March 2016

Mediador da Sant´Egídio em Moçambique para apelar ao diálogo pela paz



Um dos principais mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992 em Moçambique, Mario Raffaeli, da Comunidade de Sant´Egídio, reuniu-se hoje em Maputo com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, para a busca da estabilidade política e militar no país.
No final do encontro, o conselheiro do Presidente moçambicano para os assuntos diplomáticos, Manuel Mazuze, disse aos jornalistas que Mário Raffaeli exortou Filipe Nyusi a encontrar caminhos para uma estabilidade duradoura em Moçambique.
"É um grande amigo de Moçambique, ele esteve empenhado no processo que conduziu à assinatura do Acordo Geral de Paz (em 1992) e sendo assim, ele veio nesta missão para falar com as partes com o objectivo de encontrar formas de os moçambicanos poderem falar e resolver a questão da paz", afirmou Mazuze.
A relação com Moçambique, prosseguiu Mazuze, faz com que Raffaeli, que também já ocupou cargos no Governo italiano, se sinta encorajado a ajudar na remoção de obstáculos à paz.
"Qualquer situação que configure alguma perturbação à paz que ele próprio ajudou conquistar, é natural que ele se sinta na obrigação de ajudar para que as partes conversem", declarou o assessor do Presidente moçambicano para os Assuntos Diplomáticos.
Mário Raffaeli poderá encontrar-se igualmente com o líder da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido de oposição, Afonso Dhlakama, cujo movimento está envolvido em confrontos com as forças de defesa e segurança moçambicanas no centro do país e é acusado pelo Governo de atacar veículos militares e civis em alguns troços da principal estrada do país na região.
Mário Raffaeli foi coordenador dos mediadores do Acordo Geral de Paz, que, em 1992, encerrou 16 anos de guerra civil em Moçambique, opondo o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e a guerrilha da Renamo.
O agravamento da crise política e militar levou o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, a dirigir uma carta convite ao líder da Renamo para a retoma do diálogo, mas Afonso Dhlakama condicionou as conversações à presença da mediação do Governo da África do Sul, Igreja Católica e União Europeia.
A Renamo ameaça tomar o poder, a partir de Março, em seis províncias onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014.



"Houve abusos muito sérios" no centro de Moçambique


 
Alice Mabota, Presidente da Liga dos Direitos Humanos em Moçambique


O governo moçambicano desmentiu alegados abusos cometidos pelo exército na província de Tete, no centro do país. Esta foi a posição da comissão criada pelo conselho de ministros moçambicano que se deslocou a Tete para investigar os abusos praticados pelas Forças de Defesa e Segurança moçambicanas.
O governo exige provas sobre o relatórios da ONG Human Rights Watch que confirma alegadas violações. Várias organizações de Defesa dos Direitos Humanos têm vindo a criticar o governo, nomeadamente, a presidente da liga de direitos humanos em Moçambique, Alice Mabota, para quem é necessária fazer alguma coisa uma vez que existem provas de que há abusos de direitos humanos em Tete.

"Tudo o que negociámos, a FRELIMO pôs no lixo", diz Dhlakama à DW África

Afonso Dhlakama concedeu uma entrevista exclusiva à DW África. Nesta segunda e última parte, o líder da RENAMO afirma que não existe democracia em Moçambique e acusa a FRELIMO de roubar votos ao seu partido nas eleições.
 
Em Mocambique, há muito que se aguarda por um diálogo com vista ao alcance da paz. Mas passos concretos com esse rumo não existem até agora, apesar de intenções manifestadas publicamente. Recentemente o Presidente do país, Filipe Nyusi, voltou a convidar o líder da RENAMO para mais um encontro. Será que Afonso Dhlakama está disponível para um diálogo ao mais alto nível com Filipe Nyusi? Uma resposta que o líder do maior partido da oposição deu à DW África numa entrevista exclusiva a partir da Gorongosa.



Afonso Dhlakama (AD): O problema não é o diálogo. O problema é sabermos sobre o que dialogar, o que falar, saber como chegar a um compromisso. Porque a partir do Acordo Geral de Paz que foi apadrinhado pelas Nações Unidas e por todos os europeus que eram observadores em Roma, a FRELIMO pôs no lixo o Acordo Geral de Paz que significava a entrada do multipartidarismo em Moçambique.
As instituições do Estado passaram a pertencer à FRELIMO, como por exemplo, o exército, a polícia, serviços de informação do Estado, tribunais, a Procuradoria da República, o Conselho Constitucional… Estas instituições continuam a estar nas mãos do partido. Agora a pergunta é: Estou disposto a negociar, mas a negociar o quê?Porque a primeira coisa que eu posso fazer com o Nyusi é exigir, de facto, a implementação do Acordo Geral de Paz e os outros acordos que eu assinei com Guebuza em 2014 que até agora estão pendentes. Muitos dirigentes europeus pensam que se o Dhlakama e o Nyusi se encontrarem é uma solução. Mas não é. A solução passa pela aceitação por parte da FRELIMO da democracia efetiva pluralista, para que existam eleições livres e transparentes, Direitos Humanos, justiça e a separação das instituições do Estado porque elas não podem receber ordens do partido FRELIMO e atacar a oposição.


DW África: Entretanto, para que esses pontos sejam resolvidos, é necessário que as negociações entre as duas partes continuem a ter lugar, mas isso não está a acontecer. Como pretende então ultrapassar isso?


AD: Ninguém nega o diálogo. É evidente que o diálogo, mesmo dentro das nossas casas com a família, é necessário. Quem rejeita o diálogo não é bem visto. Tudo o que negociámos e já assinámos, a FRELIMO pôs no lixo. Agora, diríamos sim, estou disposto para negociar e obrigar a FRELIMO a aceitar a democracia em Moçambique porque o problema de tudo isto é a FRELIMO não querer a democracia. Quer continuar a estar no poder através do roubo dos votos e enganar os europeus de que existe democracia nesse país quando na realidade não há. É a isto que o Dhlakama não pode chamar de democracia. Terem dito que perdi as eleições... eu nunca perdi as eleições, sempre ganhei mas roubaram-me os votos.



DW África: E no caso dos mediadores? Já houve algum avanço para que seja ultrapassado o impasse nesse processo negocial? O Governo concordou com as vossas propostas? Em que pé está o assunto?



AD: Ainda há pouco tempo, aproximámos a igreja Católica e, em Moçambique, a igreja demonstou-se de facto disponível, tendo afirmado que estaria disposta a ajudar Moçambique se o Governo também se manifestasse disponível. Dirigi ainda uma carta ao Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, através da embaixada em Moçambique, e obtive uma resposta que dizia que a RENAMO deve entender-se, em primeiro lugar, com o Governo moçambicano.



DW África: E não vê nenhum problema pelo facto de o Presidente da África do Sul pertencer a um partido irmão da FRELIMO?



AD: Não, não. Nós temos coragem e eu conheço o Jacob Zuma. Quando queremos alcançar a paz, vamos esquecer os partidos, os irmãos da esquerda, de centro, direita, comunistas e tudo.
Hoje, a ideologia no mundo rege-se por interesses como a economia, a paz e o bem-estar. Conheço muito bem o Jacob Zuma que pertence ao Congresso Nacional Africano (ANC). Foi eleito e está a dirigir um país com mistura de etnias, problemas internos, entre outros. No entanto, o Zuma está consciente que o conflito em Moçambique pode afetar economicamente a África do Sul.
O Zuma não gostaria que houvesse um conflito em Moçambique, não está interessado. Acredito que ele pode ser um bom mediador.
Não se pode esquecer que a África do Sul, apesar de tudo, é uma potência económica da África austral, e todos conhecemos o peso que tem. Nem há comparação com a Zâmbia, Malawi ou a Namíbia.

Marco do correio, de Machado da Graça

Olá, Frederico
Como vai isso? A saúde e os negócios? Do meu lado tudo bem, felizmente.
Só que preocupado por estarmos no terrível mês de Março, mês durante o qual a Renamo diz que vai passar a governar as “suas” seis províncias e o Governo vai ter de pagar mais uma grossa fatia da dívida da EMATUM.
Em relação ao primeiro caso as minhas dúvidas são muitas. Mesmo que, pela força, seja possível Afonso Dhlakama ocupar os lugares de poder naquelas províncias, governar exige muitíssimo mais, nomeadamente dinheiro. E este está no Orçamento do Estado, gerido em Maputo. E sem ele qualquer tentativa de governo se esboroa e cai no descrédito.
Já o caso da EMATUM é bem diferente. Todos recordamos o antigo ministro das Finanças, o dr. Manuel Chang, a garantir, com total cara de pau, que o Estado não iria ter de pagar nem um centavo daquela dívida, pois ela era de uma empresa privada, a tal EMATUM. O facto de a tal empresa privada ser propriedade, na sua totalidade, de órgãos do Estado era uma subtileza a que se procurava dar pouca importância.
Só que hoje assistimos ao sucessor de Chang na pasta das Finanças a dizer que, haja dinheiro ou não, a dívida da EMATUM vai ser paga. E já ninguém esconde que vai ser paga com o dinheiro dos nossos impostos. Os barcos de pesca nem uma sardinha apanham, ali atracados todos, no cais de pesca, a apodrecer.
E o espantoso, se é que alguma coisa ainda nos espanta hoje em dia, é que o dr. Chang continua a deputar na Assembleia da República e o sr. Armando Guebuza, patrão dele na altura, foi recentemente empossado para o Conselho de Estado. Cidadãos acima de qualquer suspeita...
Não me admiraria que viessemos a descobrir que a encomenda incluiu ainda submarinos de luxo para a nossa elite sobreviver, no fundo do mar, quando o nosso país afundar totalmente.
Pagos, é claro, com os impostos dos afogados.
Um abraço para ti do

Machado da Graça, Correio da manhã

Tuesday, 15 March 2016

"Até fim de março governaremos seis províncias moçambicanas", reafirma Dhlakama à DW África

Algures na Gorongosa, o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, concedeu uma entrevista exclusiva à DW África, onde reafirma que o seu partido vai governar nas províncias onde venceu as eleições e nega ataques a alvos civis.

Moçambique está mergulhado no seu segundo conflito armado desde o fim da guerra civil dos 16 anos. Na cidade, o diálogo entre o Governo da FRELIMO e a RENAMO há muito que foi interrompido, para dar lugar ao barulho das armas no interior do país.
Os moçambicanos andam desgastados com o sangue que se derrama e com a ausência de um sinal de paz no fundo do túnel. A DW África entrevistou em exclusivo o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, que deu a sua versão dos factos.

DW África: Qual é a preocupação da RENAMO neste momento?
Afonso Dhlakama (AD): A preocupação da RENAMO é a preocupação do povo, sobretudo o povo que tem vindo a votar na RENAMO e no seu líder. Para mantermos a democracia e para evitarmos o pior em Moçambique, porque o povo promete que, se a RENAMO não fizer algo, ele, sem liderança, pode sair à rua, prefere mesmo partir tudo e até morrer, e isso pode ser um caos para Moçambique, a prioridade da RENAMO, e que é do povo, é governarmos as seis províncias onde tivemos a maioria nas últimas eleições. Embora tenha havido fraude, resistimos muito, ficámos acima de todos os partidos. Governar com democracia e não dividir o país, como a FRELIMO alega, nem reivindicar a independência de cada província, mas governar pacificamente havendo alternância governativa ao nível local. Esta é a preocupação da RENAMO e minha neste momento.

DW África: A RENAMO tinha prometido governar a partir de 1 de março as províncias onde diz ter vencido nas eleições de 2015. Entrentanto isso não aconteceu até agora. Porquê?
AD: Não, a RENAMO não disse o dia. Disse que a partir do mês de março vai iniciar a sua governação. Hoje, segunda-feira (14.03.), ainda faltam dezasseis dias para terminar o mês. Vamos iniciar essa governação paulatinamente, vamos tomar conta de vários distritos de cada província e estabelecer as normas, as nossas administrações. Nós não dissemos que a partir de março vamos pegar nos paus e expulsar a FRELIMO, não. De facto, março é este mês, posso-lhe garantir que há-de ouvir antes do dia 31 deste mês que a RENAMO, nas províncias onde obteve a maioria, já tomou tantos distritos. Foi o que prometemos e não há nada que esteja fora do prazo.



DW África: Nos atuais confrontos, a maior parte das vítimas tem sido civis, segundo a imprensa, contrariamente ao confronto anterior em que a maioria eram soldados do exército. Esta situação deixa muitos cidadãos descontentes, o que em certa medida faz com que a RENAMO não seja tão bem vista como no anterior conflito. A RENAMO tem consciência dessa apreciação?
AD: Absolutamente não. Minha senhora, nasci e cresci em Moçambique, sou moçambicano e estive na FRELIMO antes de lutar pela democracia. O povo moçambicano sabe o que está a acontecer, mesmo a imprensa moçambicana sabe o que está a acontecer. Um e outro frelimista pode tentar transmitir uma imagem negativa. Vou dizer-lhe: este conflito reiniciou há um mês, provocado pela FRELIMO. Desde janeiro e fevereiro, a FRELIMO contratou norte-coreanos, treinou um esquadrão da morte em Maputo, e esse grupo foi espalhado pelas províncias do centro e norte. Segundo a FRELIMO, era para impedir a governação da RENAMO. E esses grupos andavam de carros de tração às quatro rodas, que durante a noite raptavam membros da RENAMO e até apoiantes. Faziam isso num distrito e, no dia seguinte, encontravam-se os corpos no mato. E os embaixadores europeus e africanos acreditados aqui sabem dessa situação. Então, o departamento da defesa da RENAMO tomou medidas, fez emboscadas entre o troço rio Save por onde entram do sul para o centro, fez outra emboscada entre o rio Save e Muxúnguè e colocou-se também entre Chimoio e Tete e entre Gorongosa e o rio Zambeze, em Caia, para intercetar esses grupos de raptores. De facto, muitos foram apanhados e a situação já está melhor.
Ora, nesta tomada de medidas, a FRELIMO criou colunas militares, obrigou os transportadores a serem escoltados, porque os militares da FRELIMO já não podiam passar com receio de serem atacados, conhecem a capacidade das forças da RENAMO. Então, as forças da FRELIMO, para fingirem, obrigaram os camiões e transportadores do sul a transportarem os soldados. Ora, neste processo dos militares da FRELIMO entrarem nos carros civis, então a RENAMO dispara contra carros militares. Calha que morre um e outro, e a FRELIMO manda os jornalistas dizerem que a RENAMO atacou civis. Sabe muito bem. A RENAMO sobrevive graças ao apoio da população. Se a RENAMO quisesse matar civis nas suas zonas [já o teria feito], vive com civis. Não era preciso ir escolher uma estrada para atacar os carros civis, porque eles circulam pelos distritos. A RENAMO fechou a logística das forças governamentais, mas a FRELIMO, para lançar propaganda, com vergonha por estar a sofrer baixas até hoje não consegue dizer que vinte, trinta ou quarenta (soldados) mancebos ou Forças de Intervenção Rápida morrem por dia, e falam da população. Não há população que esteja a morrer, mas um ou outro pode ser vítima dos tiros de um e outro lado. A situação que posso confirmar na província de Tete é o seguinte: Os confrontos fizeram com que grande parte [da população] em Nkondedzi, distrito de Moatize se refugiasse no Malawi. Mas também foi confirmado que as populações fugiram das atrocidades das forças governamentais.



DW África: Em relação a isso o Governo diz que não há refugiados de guerra, são familiares e apoiantes da RENAMO que estão no Malawi...
AD: Minha senhora, parece-me que rádios internacionais reportaram a situação há algumas semanas. Há uma agência das Nações Unidas credível, o ACNUR, que esteve no Malawi e viu refugiados moçambicanos lá, incluindo crianças, e disseram de boca cheia que fugiram das atrocidades das forças governamentais, porque, quando as forças da RENAMO entram em confronto com as forças governamentais, estas levam porrada e vingam-se. Queimam as casas acusando a população local de estar a apoiar a RENAMO. Aliás, essa é a política [da FRELIMO]. Há dois anos, aqui em Satundjira, em Maríngué, as populações ficaram sem casas. É o mesmo que aconteceu em Nkondedzi. A própria STV, que é o órgão privado daqui, esteve no Malawi, onde entrevistou pessoas. Esteve nas zonas abandonadas e confirmou [tudo]. A ser verdade, é propaganda do governador de Tete dizer que não são refugiados, mas familiares da RENAMO. Já são quase dez mil. Então, a ser assim são todos os dez mil familiares [dos membros] da RENAMO num lugar tão pequeno? Isto é propaganda antiga e que já não cola. São refugiados, só que a FRELIMO não quer aceitar que o Malawi lhes conceda o estatuto de refugiados, porque é uma pouca vergonha. O Malawi é um país tão pequeno, não tem comida para dar e por isso está a apelar. E agora o vice-ministro da Justiça ou algo semelhante, levou à TVM, a televisão estatal que faz propaganda para a FRELIMO, levou os chefes dinamizadores da cidade de Tete para as zonas em causa e instruiu-os previamente para dizerem que as populações fugiram das atrocidades das forças da RENAMO. Só que isto já não pega nada, porque todo o mundo sabe por que aquelas populações fugiram.
Mas, voltando atrás, não há muitos civis que estão a morrer. Foram três emboscadas: na zona do Zove, no troço entre o rio Save e Muxúnguè, a segunda emboscada na zona do Zonde, Catandica, no troço entre Chimoio e Tete, e a última emboscada foi no troço entre a vila da Gorongosa e a ponte sobre o rio Zambeze, em Caia. Portanto, na áera de Nhamapanza e Nhamajaja.



DW África: Nessas emboscadas, pelo menos numa delas morreu o motorista de uma transportadora, foi uma emboscada contra um autocarro de passageiros...
AD: Não era de passageiros, minha irmã. Isto aconteceu em Vonde. Há uma semana, o machimbombo era da empresa Naji cheio de "fademos", Forças Armadas de Moçambique, que saíam de Chimoio para Tete. A Rádio Deutsche Welle pode usar as suas fontes, vai ter as provas. Eu não tenho que aldrabar e nem fazer propaganda. Então o motorista foi atingido, sei muito bem, foi num sábado às nove horas. Não havia nenhum elemento da população, morreram trinta e nove "fademos". Pode morrer um e outro elemento da população, não estamos a fazer a guerra santa, pode apanhar um, temos de dizer que sim. Agora dizer que a RENAMO está a atacar civis não, porque seria um problema sério, a RENAMO sobrevive graças ao apoio da população.

DW África: Também durante os primeiros confrontos, o assunto RENAMO era gerido pelo Ministério da Defesa, mas numa determinada altura passou para o Ministério do Interior. Quando há confrontos quem responde é a Polícia. Acha que esta é uma tentativa de minimizar o estatuto da RENAMO ou de transformar a RENAMO numa espécie de desordeiros ou simples marginais?
AD: Não. Quando entraram elementos da RENAMO depois do Acordo Geral de Paz, no tempo do Chissano, ele não gostou, assim como todos os estrategas da FRELIMO. Viram que as "fademos" (Forças Armadas de Moçambique) não iriam servir os interesses da FRELIMO. Ela criou [outro] exército como alternativa, a Polícia de Intervenção Rápida, agora FIR, Forças de Intervenção Rápida, controladas pelo Ministério do Interior. Este é um exército 100% [da FRELIMO], porque não há mistura com a RENAMO. É um exército constituído por antigos militares, que lutaram contra a RENAMO durante 16 anos, e os jovens que são incorporados no exército não pertencem a uma polícia qualquer. É um exército próprio porque as "fademos" têm muita desconfiança.
Embora os nossos homens não sejam generais e nem sejam considerados, a FRELIMO desconfia das "fademos", porque eles também não aceitam esse controle, e, quando são mobilizados, fogem, enquanto a FIR é controlada pelo Ministério do Interior e não é uma polícia. Esta FIR é um autêntico exército, com mais condições do que as "fademos". Têm carros de combate, armas pesadas, ganham bem e têm quartéis próprios. Há, às vezes, alguns generais das "fademos" a comandar na FIR. É o que está a acontecer. Não é para minimizar a RENAMO ou para a desprezar e atribuir à RENAMO um estatuto de bandidos. Não, pelo contrário. É que a FRELIMO sofreu baixas e as "fademos" são a alternativa à FIR. Mas, mesmo assim, a FIR também está a sofrer baixas. Atualmente, a FRELIMO não tem efetivos. Tentou lançar ofensivas na Zambézia, em Nampula e aqui perto da Gorongosa, mas colocámos todos eles fora de combate.






DW

1400 militares desertam das fileiras do exército moçambicano







 








Dados do Ministério dos Combatentes não apura motivos



Cerca de 1400 militares das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) desertaram das fileiras do exército, devido a motivos não revelados, indicam dados divulgados nesta segunda-feira pelo Ministério dos Combatentes, sem revelar o período exacto da ocorrência.
Os dados foram divulgados pelo Ministro deste pelouro, Eusébio Lambo, num encontro entre quadros superiores do seu ministério com o Presidente da República, Filipe Nyusi, num relatório referente ao balanço das actividades do ano passado.
Os números revelam que a província de Tete, um dos campos de batalha na actual onda de tensão político-militar, é a província com mais deserções.
Nesta província do Centro do país foi detectada a existência de “dois Batalhões com efectivo total de 1170 ex-militares tidos como desertores”, revelou o Ministro dos Combatentes.
Outro grupo considerável, composto por “220 ex-militares” fugiu dos quarteis na província de Sofala, estando refugiados no vizinho Malawi, segundo dados revelados no relatório do Ministério dirigido por Eusébio Lambo.
Não existem informações sobre as reais causas desta debandada nas fileiras do exército nacional.
Esta é a primeira vez na história recente do país, em que as autoridades vem a público divulgar números de deserções no seio das FADM, confirmando informações que vinham a público dados que ao nível de alguns círculos de opinião, vinham sendo avançadas, desde o início da tensão político-militar, há cerca de três anos.
Apesar de não haver estudos, nem informações oficiais sobre as causas desta debandada, facilmente se pode associar aos confrontos militares recorrentes entre as Forças de Defesa e Segurança (FDS) e homens armados da Renamo, circunscritos no centro do país, com destaque para as províncias de Sofala, Manica e Tete, precisamente, os locais onde as informações ontem divulgadas confirmam através dos números.

Monday, 14 March 2016

Governo auto-investiga e auto-iliba-se

 
Violação dos Direitos Humanos em Tete
Jornal “Domingo” destacado para fazer desinformação.
O Governo destacou, há dias, uma equipa de trabalho para a província de Tete, com o objectivo de apurar e dar a sua versão sobre os casos de violação dos Direitos Humanos reportados pelas organizações humanitárias, e cuja autoria é atribuída às Forças de Defesa e Segurança.
As organizações humanitárias reportaram que a vaga de refugiados moçambicanos que vão para o Malawi é causada pelas atrocidades das Forças de Defesa e Segurança, que violam os Direitos Humanos, matando, torturando e pilhando bens das populações. Como consequência da violação dos Direitos Humanos, cerca de 11.000 moçambicanos encontram-se refugiados no Malawi.
O Governo formou a sua equipa para “apurar os factos”. Só que a composição da tal comissão levantou suspeitas “a priori” sobre a seriedade do trabalho que seria feito.
A equipa do Governo era chefiada pelo vice-ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Joaquim Veríssimo, coadjuvado pelo vice-ministro da Defesa, Patrício José.
 E os resultados apresentados pela comissão de inquérito governamental são os que interessavam o Governo. O vice-ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Joaquim Veríssimo, veio a público informar não há violação de Direitos Humanos em Tete e que, contrariamente ao que conta a população que se refugiou no Malawi, não são as tropas governamentais que estão a incendiar as palhotas e a matar cidadãos que são confundidos com colaboradores da Renamo. Segundo Joaquim Veríssimo, se existe violação dos Direitos Humanos, essa violação está a ser praticada pela Renamo.
É uma narrativa que era previsível logo que a “comissão de inquérito” foi criada. Uma auto-investigação para ser juiz em causa própria. Recorde-se que a decisão de constituir esta equipa é tomada dias depois de o Governo central e o Governo de Tete terem apresentado informações contraditórias sobre a realidade daquele distrito, relacionada com os refugiados.
Por exemplo, o governador de Tete, Paulo Auade, negou a existência de refugiados moçambicanos no Malawi. Paulo Auade disse que são cidadãos malawianos, que, devido à seca, fazem-se passar por deslocados. Disse também que se trata de mulheres e filhos dos homens armados da Renamo.
Mais tarde, na sessão de informações do Governo na Assembleia da República, Paulo Auade foi desmentido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Oldemiro Balói, que confirmou a existência de moçambicanos no Malawi.


CANALMOZ – 14.03.2016 , citado mo Moçambique para todos

Sura, a bebida tradicional que sobrevive e se alimenta dos tiros no centro de Moçambique

*** André Catueira, da Agência Lusa ***


Muxúnguè, Moçambique, 12 mar (Lusa) - Nem a passagem de blindados ou sequer uma região reconvertida em zona de guerra, no centro de Moçambique, impedem dezenas de rapazes de agitar garrafas plásticas de litro e meio com sura, uma bebida tradicional alcoólica de palmeiras silvestres.
"Sura, vinte meticais [35 cêntimos de euro]", repete, gritando, Fonseca Djoco, 11 anos, enquanto percorre em passo de corrida as janelas de carros em marcha lenta na zona do rio Ripembe, na N1, no troço Save-Muxúnguè, província de Sofala, a zona mais atingida pelo conflito militar que voltou a flagelar o centro do país e sujeita a escoltas militares obrigatórias para viaturas civis.
"Vende-se sura", anuncia uma chapa à chegada ao rio Ripembe, cuja estrutura metálica da ponte só permite a passagem de uma viatura de cada vez, e que se segue a um pedaço de estrada esburacada, tornando vagarosa a marcha, uma circunstância má para quem viaja e excelente para os miúdos despacharem a sura.
Mas também um ensejo para ataques armados, tornando a ocasião insegura para todos, quando têm sido registadas emboscadas nas principais estradas do centro de Moçambique, atribuídas a homens da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), que exige governar nas seis províncias onde revindica vitoria eleitoral.
"Temos vendido muita sura. Até 40 ou 60 litros por dia. Motoristas e passageiros compram, e muitas vezes, vendemos também para os militares [estatais] quando estão de folga", explica à Lusa Tair Ricardo, 13 anos, com olhos fixos em dois recipientes vazios, que dantes levavam água mineral e que será "take away" da bebida tradicional.
Ladeados de militares governamentais, que têm uma posição no rio Ripembe, para impedir eventuais ataques de homens armados, os miúdos observam, porém, que o "bazar da sura" fica fantasma quando os tiros começam.
"Fugimos quando há tiros. Porque nós vendemos só durante a passagem quatro vezes por dia das colunas, e, às vezes, não vendemos porque há ataques" precisou Rebeca Saundene, a única rapariga que desafia um lugar no negócio.
A venda de sura no local é recente. Mas nem o reinício das confrontações nem a reativação das escoltas militares no troço Save-Muxúnguè conseguem parar a iniciativa, que sustenta, nesta época, dezenas de famílias da região.
"Os clientes já não param para comprar porque estão na escolta, só abrandam a marcha e nós vendemos a correr. Fazemos muita ginástica para vender e nem sempre conseguimos o necessário", descreve à Lusa Tair Ricardo.
O bazar da sura esta bem defronte a uma viatura queimada e já bem enferrujada, resultado do primeiro tiro dos ataques na N1, anterior crise entre 2013 e setembro de 2014.
O cenário de guerra permanece, pelas carcaças queimadas, forte presença de tropas do governo e ameaça de emboscadas da oposição, mas não distrai a busca pelos clientes pelos vendedores de sura.
As Forças de Defesa e Segurança reativaram há quase um mês as colunas de escoltas obrigatórias na N1, a principal estrada de Moçambique, no troço Save-Muxúnguè, e num segundo troço, Nhamapadza-Caia, para repelir os ataques de homens armados, após a ala militar da Renamo ter anunciado a pretensão de implantar controlos nas principais vias das províncias de Manica, Sofala, Tete e Zambézia.
Pelo menos três posições militares e acampamentos com blindados do exército foram montados no troço Save-Muxúnguè, sobretudo em Zove e Ripembe, onde nas últimas semanas foram metralhadas por três vezes as colunas escoltadas pelo exército.
Os novos ataques iniciaram-se a 11 de fevereiro, segundo a Polícia de Sofala, e, até ao fim do mês, foram registados 23 incidentes militares, com mortos e feridos, nesta provincial




Há esquadrões de morte para abater opositores, revela agente da Polícia da República de Moçambique





Uma das frentes mais activas do conflito político-militar, que decorre há vários meses em diversas regiões de Moçambique, acontece no distrito de Murrupula, na província de Nampula, norte de Moçambique, onde oficialmente um contingente da Polícia da República de Moçambique(PRM) foi enviado para a localidade de Naphuco para repor a ordem, alegadamente perturbada por homens armados da Renamo, e um agente terá sido raptado. Na verdade, um esquadrão de elite das forças governamentais foi enviado para o local.
“(...)fizemos uma defesa circular, em que todos parámos e concentramos o fogo. Mas sem esperar que aqueles podiam responder, porque nós fomos de madrugada. Quando responderam cada um correu à sua maneira e ele ficou”, relata um agente das forças especiais da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) da Polícia da República de Moçambique (PRM), que revela ainda ter realizado várias "missões" de eliminação de alvos previamente identificados pelos comandantes, uma das quais a 25 de Setembro de 2015, em Zimpinga (41 quilómetros a leste de Chimoio na Estrada Nacional Número 6, entre Gondola e a Missão de Amatongas ), onde a ordem era eliminar fisicamente Afonso Dhlakama, líder da Renamo. “Aquele velho (Dhlakama) não morre”, disse.
Leia a seguir um relato arrepiante, feito por quem diz ter participado e por isso testemunha. “Estamos cansados. Não ganhamos nada e estamos a sonhar com aquilo”, diz o agente. O referido agente, cuja identidade não revelamos, nasceu na cidade de Maputo em 1985.



“Cumpri a tropa no Centro de Formação de Forças Especiais de Nacala Porto”, diz o agente. “Estava lá como Instrutor Auxiliar de Armamento e Tiro”. Cumprido o serviço militar, e depois de algum tempo em que trabalhou para uma empresa privada de segurança, foi incorporado nas fileiras da PRM. “Entrei para a polícia; fizeram uma seleção. Queriam aqueles que tinham sido militares e que tivessem feito o curso de armamento, para serem da Intervenção Rápida, mas estando na Presidência da República. Trabalhei na RP1 e na RP2”, diz ele. RP é a sigla para Residências Protocolares pertencentes à Presidência da República.




P – Qual é o seu percurso até chegar às Forças Especiais?
Agente – Fui militar das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). Comecei a minha formação militar na Catembe, na Escola de Fuzileiros Navais. Depois fiquei dois anos à procura de emprego, até ser incorporado na polícia. Aqueles que foram à tropa não podem ser cinzentinhos; têm que pertencer às forças especiais. Fui fazer outra formação de anti-motim, de controlo de multidões, no caso de greves. Essa formação anti-motim é uma especialidade, Força de Intervenção Rápida é outra. Intervenção Rápida é uma força tipo bombeiro, que aparece para resolver um problema e acabar. Então, porque é que levam os que foram à tropa? É Porque estes sabem disparar vários tipos de armas. Por exemplo, eu sei disparar cerca de 26 tipos de armas. Esses das esquadras só sabem disparar pistola e AKM. Por isso é que aqueles que estiveram na tropa não pode estar numa esquadra; têm de estar num quartel, então nós temos uma dupla função; operamos como militares e como polícias também.



P – Em que ramo da corporação está afecto?
Agente – Sou agente da Polícia, da Unidade de Intervenção Rápida. Estive a trabalhar na Presidência da República. Fiz curso de franco atirador. Vocês não sabem o que existe aqui, guerra existe só que nas cidades não há guerra.



P – Onde e desde quando é que há guerra?
Agente – Estava na escolta presidencial, mas fui destacado para Nampula porque precisavam de franco-atiradores lá para operar as armas pesadas que estão lá; canhões novos de fabrico russo ZU 23. Já existiam do mesmo tipo antigas, mas recentemente chegaram novas. Só na posição de Gorongosa, onde estive em 2012 e 2015, existiam pelo menos oito. Éramos uma força conjunta que estávamos lá a realizar tiros com Dragunov, essa é uma arma que usamos para procurar as pessoas indicadas e abater, porque temos tido esse trabalho.



P – Que trabalho é esse, com quem você realiza?
Agente – Somos mais ou menos um pelotão de 20 especiais. Quando começou aquele problema em Gorongosa, em 2011, fizemos uma reciclagem e a primeira missão foi em 2012. Nós vamos lá quando a situação não está nada bem. Primeiro, tem pessoas que avançam para lá e quando a situação não está nada bem chamam os atiradores de armas pesadas para chegar e destruir. Nós é que entramos lá e matamos aquele comandante que diziam que era anti-bala; aquele morreu com canhão em Muxúnguè.



P – Que outras missões em que você esteve envolvido?
Agente – Nós ficamos no quartel, mas eles nos chamam, e dizem vão para a província x. Saímos daqui de avião, e lá apanhamos viaturas dos comandos provinciais. O que me deixa revoltado é que o meu trabalho é combater a criminalidade, manter a ordem e tranquilidade públicas. A polícia não é para matar; é para apanhar a pessoa, isolar e entregar à justiça para ser ouvida e de lá darem seguimento. É o que nós entendemos. Mas aqui neste nosso país alguém pode chegar, dar ordens para entrar no carro, e nós só temos que cumprir ordens. Ninguém vai aparecer a dizer que não quero, porque há consequências. Vinham com a foto e diziam que “está aqui, vão mata-bichar e aí onde vão mata-bichar virá alguém, então aquele que vier, mesmo primeiro isolam o guarda-costas dele porque virá acompanhado”. Dão toda a informação que “este virá acompanhado, o nome não vamos vos dizer mas é esta pessoa na foto e deve ser abatido”.



P – Então, as missões não são só contra os homens armados da Renamo?
Agente – Em Maputo nunca usamos armas contra militares. Conforme eu disse, dão-nos a foto e depois são vão ouvir que um desconhecido foi encontrado morto na zona x, como se tivesse sido um assalto.



P – Quer dizer que também operam nas cidades?
Agente – Na cidade da Beira, mas onde trabalhei mais foi em Nampula. Em Nampula já seguimos um Nissan Navarra branco dupla cabine, com matrícula vermelha. Seguimo-lo desde o hotel, no centro da cidade, fomos via Cipal, um pouco depois da Faina, contornou para a estrada Nampula-Cuamba, e era ali mesmo que o queríamos. Passamos o mercado Waresta, fomos até antes de Namina, tem o distrito de Ribáuè, quando saímos de Rapale tem uma grande distância de mato. O nosso primeiro carro, um Prado preto, ultrapassou e atrás estava outro Prado, ele praticamente ficou no meio. Furámos o pneu de frente, ele perdeu a direcção e foi parar perto da linha férrea. Nós queríamos um que estava atrás, a mexer o telefone, um saiu e queria responder o fogo mas levou na cabeça. O responsável e o motorista também quando iam sair, atiramos mortalmente. Ficaram ali.”



P – Que outras missões de que se recorda?
Agente – Há bocado fomos a Manica, tivemos um trabalho, só que lá fomos à paisana. Recebemos a foto da pessoa que nos disseram que devia ser abatida. Nós não conhecemos bem as pessoas (a serem abatidas). Eles trazem e dizem “vão até à zona x, vai passar alguém”, dão nos a informação toda da pessoa (vestuário, carro), dizem para persegui-la até uma zona onde a polícia não estará lá.




P – Já realizou alguma missão contra Afonso Dhlakama?
Agente – Já, só que aquele também é drogado. Para o líder da Renamo, primeiro lhe tentamos no distrito de Moma, mas o falhamos. Em Manica agora, só que aquele senhor não morre.



P – Quer dizer que o vosso pelotão estava em Manica atrás de Afonso Dhlakama?
Agente – O trabalho ali foi assim; mandaram-nos para lá alguns dias antes. Fomos recebidos por um dirigente (nome omitido). Primeiro eles (o líder da Renamo e a comitiva) estavam num comício, a força da escolta que estava lá dava-nos informações. Quem organizou aquilo, quem nos estava a dar refeições, em que sítio nós dormimos em Manica, o responsável dizia, “que tal hoje não pode falhar nada”.



P – Mas falharam...
Agente – Não falhamos. Muitos morreram, mas aquele velho (Dhlakama) não morre, desapareceu. Ali tem montanhas, nós ficamos na parte alta, não podiam ir outros colegas lá em baixo porque senão podia haver fogo cruzado, naquilo de que o carro que passasse havia de levar, porque não estávamos com armas ligeiras; usamos armas próprias para estragar carros. Pusemos ali a mira, sabíamos que Dhlakama vinha, porque estavam no comício e de lá ligavam para o nosso comandante a avisar que daí a pouco tempo Dhlakama havia de passar, que já partiu, alimentem as armas, e posicionamo-nos com as metralhadoras, mas não sei como é que é possível um carro passar a poucos metros e não ser atingido. Vários morreram ali mas Dhlakama conseguiu sair. Ainda perseguimos mas eles responderam.



P – Quem é que deu as ordens para essas missões em que você participou?
Agente – Sabe, aqui em Moçambique tem pessoas que nunca são mencionadas, de quem nunca se fala. Quando há problemas, sempre fala a polícia, os militares, mas há uns que sempre ficam por detrás disso: SISE(Serviços de Informaçao e Segurança do Estado). São grandes, têm informação de tudo isto aqui.



P – Só actuaram em Nampula, Manica e Sofala?
Agente – Realizamos missões de porta-à-porta na província de Sofala, nos distritos de Caia, Marromeu e Gorongosa. Chegávamos, batíamos à porta, e aqueles que saiam eram mortos. Obtemos informação dos líderes comunitários; são eles que nos informam sobre a presença de homens da Renamo numa determinada região.




P – Onde é que foi a missão mais recente?
Agente – Eu fui chamado para Murrupula, em Nampula, em Janeiro de 2016. Porque conforme já disse, os líderes comunitários conseguem observar os movimentos nas aldeias, e verificar a chegada de pessoas ou grupos estranhos. Então, chamaram-nos para lá. Não permanecemos lá; ficamos num hotel, como civis, à espera de indicações para irmos trabalhar”.




P – Que tipo de trabalho foi esse?
Agente – Há uma base da Renamo numa aldeia, é uma coisa de 42 quilómetros depois da Estrada Nacional. Deixamos os carros para não provocar ruído. É uma zona onde não entram frequentemente carros; os únicos carros que vão para lá vão à procura de carvão e lenha. Nós fomos a pé. Mesmo agora que estou a falar tem lá forças pertencentes à 6ª Unidade da Intervenção Rápida, tentando resgatar um homem que desapareceu com a sua arma.



P – Está a falar de um vosso colega que desapareceu? Como é que desapareceu?
Agente – Nós fomos lá e identificamos uma base da Renamo. Fizemos uma defesa circular, em que todos paramos e concentramos o fogo, mas sem esperar que eles pudessem responder, já que era de madrugada. Quando responderam fogo cada um correu à sua maneira e ele ficou, tinha uma metralhadora PK de 475 munições (é uma metralhadora Kalashnikov russa vulgarmente conhecida por PK), tinha dois carregadores. Depois o Comandante ligou e disse que queria o esse elemento vivo ou morto, e com a sua arma.



P – Como é que vocês comunicam com os líderes comunitários?
Agente – Todos os líderes comunitários, nas províncias, trabalham com as forças governamentais; eles dão informação. Têm a missão de vigiar na aldeia, e informar sobre a presença de elementos da Renamo; quem são os responsáveis, quem são os delegados, etc. Então nós chegamos, batemos a porta e levamos a pessoa.



P – Então, está a dizer que os homens armados da Renamo vivem no meio das populações?
Agente – Eles (os homens armados da Renamo) vivem muito bem com a população, e a população não denuncia.



P – Esses homens armados da Renamo são jovens?
Agente – Dos que já capturamos nunca vi jovens. Aqueles jovens que aparecem a entregar-se como membros da Renamo são informadores. Muitos daqueles que se entregam estão a ser chantageados e agora estão a ter problemas para regularizar os documentos. Muitos nem são guerrilheiros.




P – Quantos homens armados da Renamo estavam em Murrupula?
Agente – Não sabemos quanto são, porque muitos não andam fardados, eles vivem com a população. Eles nunca foram a uma aldeia e começarem a disparar. A Força de Intervenção Rápida é que queima escolas, se não sabiam. Nós quando íamos atacar, quando entrávamos numa aldeia, começávamos a disparar de um lado para o outro, e todos fugiam. O comandante ligava e dizia que “os homens da Renamo fizeram isto aqui”, e logo vinham ordens superiores a dizer “destruam isso aí”.




P – Então, quando as populações fogem porque dizem estarem a ser atacadas pelas Forças Governamentais não estão mentir?
Agente – Não estão a mentir. Em Tete é que foi mais vergonhoso porque o comandante que estava lá em frente disse queimam lá essas palhotas, matem os cabritos, bois e outros animais.



P – Quem foi esse comandante?
Agente – O comandante é (nome omitido). Ele teve problemas de tráfico de drogas. Foi condenado mas não cumpriu a pena, foram lhe tirar quando começaram essas confusões e foi colocado como comandante em Nampula. Quando começou a instabilidade em Nampula foi-se instalar a Intervenção Rápida na rua dos Sem Medo, e foi aí que tudo começou. Aquele Dhlakama tem medo dele, e do (nome omitido), mais conhecido por Adolfo, foi comandante dos comandos, um desertor da Renamo. Quem anima cumprir missões com ele é o comandante (nome omitido), porque nas missões que ele comanda não morre ninguém. Agora, ir com o comandante (nome omitido) morre o próximo dele, porque aquele no mato não tira a mão do bolso e não é atingido pelas balas. O comandante (nome omitido) foi comandar em Nampula, então aqueles (Afonso Dhlakama e os seus homens) fugiram para a Gorongosa, ele foi atrás deles como comandante do batalhão independente de Gorongosa, até agora.



P – Então o comandante (nome omitido) está em Sofala ou em Tete?
Agente – Esse (nome omitido) está em Gorongosa, mas é chamado em todo o sítio onde há confusão, por isso mandaram-lhe para Tete. Fomos juntos para lá, entre Maio e Setembro.



P – Além do vosso pelotão existem outros que realizam essas missões?
Agente – Não é o único. Outros estão espalhados pelas províncias.



P – E existe armamento?
Agente – Têm carros blindados novos com canhões. Chegaram novos carros na brigada montada, foram buscar ao porto de madrugada já estão aí homens a serem formados. Há canhões ZU23, armas de precisão Dragunov, e metralhadoras Pecheneg , todas de fabrico russo.



P – Porque é que decidiu revelar-nos tudo o que tem feito?
Agente – Tenho filhos por criar, e aquele trabalho me está a criar perturbações mentais. Desde que esta confusão da Renamo começou as pessoas estão a morrer. Fui fazer outra formação anti-motim, de controlo de multidões, no caso de greves. Não é para isto que nós juramos. É por isso que alguns já foram expulsos, por se recusarem a cumprir certas missões. Por exemplo, somos chamados para uma formatura, e daqui para a aqui, nos dizem, “senhores, entram no carro, levem bazucas”. Bazucas não são para o controlo anti-motim. Para debelar um motim precisa-se de pressão de ar e gás lacrimogéneo. Agora, quando te dizem para levar roquetes isso é guerra, e para mim não faz sentido.



P – Também já participou em manifestações? Porque é que levam armas com balas verdadeiras?
Agente – Quando se vai a um sítio para se manter a ordem contra um motim só tinha que ser com gás lacrimogéneo e pressão de ar, mas leva-se Makarov, leva-se AKM para com o gás lacrimogéneo afugentar a multidão e fazer demonstração. Em todas as manifestações tem que se fazer demonstração, tem que cair pessoas para aquilo parar, é como temos feito. Para as pessoas saberem que a próxima bala pode ser para mim, é aquilo que nós chamamos de demonstração.



P – Quer dizer que há entre vós um sentimento generalizado de revolta?
Agente – Uma das razões é que estamos a fazer um trabalho que não corresponde com aquilo porque nós juramos e também porque não nos pagam horas extras, porque nós somos solicitados a altas horas da noite ou de madrugada. Estamos a fazer coisas que não são aquilo que a lei manda. Até aí os nossos chefes ... nós pensamos que eles recebem mas não nos dão.



P – Qual foi a sua primeira operação?
Agente – A minha primeira operação foi em Nampula, na Rua dos Sem Medo, naquele ataque à residência de Afonso Dhlakama, na Rua das Flores. Íamos lá com ordens do Comandante (nome omitido); ele era o Comandante Provincial. Ele agora foi substituído pelo (nome omitido).



P – Quantos são vocês no vosso grupo?
Agente – Estou num grupo separado porque tem um grupo normal da Intervenção Rápida, e tem o grupo de acções especiais, que é o meu grupo. No meu grupo somos cerca de 50.



P – E o vosso alvo são os homens armados da Renamo?
Agente – É o que pensávamos, mas mais tarde fomos ver que não só eram eles porque há certos dias que vinham com fotos para fazermos certos trabalhos, mas só que aqueles já não aparentavam ser homens da Renamo.




P – Em Nampula?
Agente – Nampula é o sítio onde havia mais problemas. Porque para acabar aquilo ali em Nampula teve que se fazer o trabalho de porta a porta. Porque os líderes comunitários tinham o seu papel de identificar as pessoas; quem é o líder, quem é o delegado da Renamo. Então a gente ia lá... sem o líder, o líder só dizia aos homens do reconhecimento e o reconhecimento não abate quem abate somos nós das operações especiais.




P – Os teus colegas também estão descontentes?
Agente – Lá há muito descontentamento. Só que ali não se pode fazer o que... no meio de muitos estar a murmurar porque ali há muita gente que quer subir na base do outro. Pode ir dar informação.. uma informação dali dentro vale muito. Então ali há muito risco. O dinheiro é pouco, mas o risco é grande. Nós temos todas as provas que podem implicar muitos comandantes, porque são eles que dão as ordens.




P – Não teme represálias?
Agente – Para eu tomar a decisão de falar sobre isto é porque eu acabava de cumprir uma missão. Acabava de fazer um trabalho que todos nós saímos a murmurar; saímos mesmo mal, lesados, fomos atirar nas pessoas e nós saímos lesados. Fomos atirar mesmo nas pessoas.




P – Que operação foi?
Agente – Tivemos um trabalho... primeiro fomos a Tete. Então vinha um D4D, nós estávamos num sítio ali. Saímos com uns carros Prados fomos até a um sítio numa sombra onde tomamos refrescos e sumos. Apareceu um agente do SISE e disse a foto é esta aqui; uma foto bem grande. Este aqui quando aparecer vocês hã de ver; o movimento só hão de ver. De facto, ninguém nos disse. Vimos ele a vir primeiro já guarda costas ele estava no meio, e notou-se que este estava protegido. Saímos com ele, seguimos. O nosso carro avançou primeiro, ficou um outro Prado porque eram quatro Prados; ficou um Prado atrás um outro adiantou. Quando ele vinha foi bloqueado. Primeiro atiramos contra o ADC. O ADC deu um tiro para o ar mas ele foi atingido mortalmente. Logo que ele fez aquilo o carro foi bater num arbusto, e ele (o alvo) quando tentou sair foi mesmo à queima roupa. Daí saímos e apanhamos o voo e voltamos para Maputo.
Outro dia já fomos a Nampula fardados. Nós não fazemos isto porque gostamos de guerra. Não ganhamos nada. Vale a pena eles, ganham porque quando a gente mata, eles rebocam gado nos camiões; por exemplo, o meu comandante, o carro que está a andar com ele, é por causa daquele gado que se levou lá em Gorongosa. Nós não levamos nada. E um comandante lá também foi bem chantageado porque o dia que fomos queimar, tivemos ordens de queimar motorizadas, aquelas todas motorizadas da Renamo, nós a incendiar ele levou isolou aquela mota foi andar com ela, até hoje está a andar com aquela mota, Badjadja, uma mota vermelha, sem matrícula até... Comandante (nome omitido).



P – Esta Unidade de Intervenção Rápida onde você está já participou em manifestações? Porque levam armas com balas de verdade?
Agente – Quando se vai num sítio para se manter a ordem de motim só tinha que ser com gás lacrimogéneo e pressão de ar, mas leva-se makarov, leva-se AKM para com o gás lacrimogéneo afugentar e fazer demonstração. Todas manifestações tem que se fazer demonstração, tem que cair pessoas para aquilo parar, é como temos feito. Para as pessoas saberem que a próxima bala pode ser para ti, é aquilo que nós chamamos de demonstração.



P – Pode revelar-nos uma situação de motim onde usaram balas reais?
Agente – No dia em que fomos roubar votos em Nampula, em 2014. Ali na escola de Belenenses, escola secundária 12 de Outubro, escola secundária de Nampula, fomos de voo com homens do SISE, homens encasacados. Tem reconhecimento que ficam de tranças, tipo marginais, foram atribuídos tarefas vocês vão para lá fazer confusão por que os da Renamo têm influência. Para nós conseguirmos sacudir aqueles primeiro tiveram que ir lá colegas à paisana, que tinham tranças e roupas rasgadas, foram formar bicha e instigar, «a Frelimo aqui tem que perder » diziam e quando outro queria responder então armava-se confusão, é muito fácil de agitar macua. Depois ligaram-nos e disseram venham lá. Aí foi a Intervenção Rápida numa de que é legítima defesa e está a ir manter a ordem. Gás lacrimogéneo e fumaça, aquilo ficava escuro, levávamos as urnas nos blindados e íamos entregar homens do SISE que preenchiam Frelimo, Frelimo... Enquanto lá na escola continuávamos a disparar. Depois os carros saiam e entravam no meio da confusão enquanto eles estavam ali a preencher. OMM aquelas senhoras são malandras, estavam lá no quartel da Intervenção Rápida em Nampula cheias a preencher Frelimo, Frelimo... houveram pessoas que se fizeram de corajosos e aí o comandante disse agora batem quatro para eles verem que a coisa é séria.



P – Ao longo deste período o Governo tem dito que não quer guerra e até quer dialogar com o partido Renamo para se alcançar a paz, acha que vão entender-se?
Agente – Sabe qual é o problema é que lá no Norte é onde há riqueza, Dhlakama foi roubado nos votos mas ganhou. Eu não entendo a política só cumpro missões, mas eles não vão deixar Dhlakama governar.







A Verdade, citando o Savana