Tuesday, 22 September 2015

Paz, economia, poucos filhos e força de trabalho escolarizada são os principais desafios para Moçambique

“Estamos a viver um contexto bastante conturbado desde o início desta década, que se agravou a partir de 2012, e é um contexto conturbado tanto do ponto de vista de economia, da sociedade mas também num contexto bastante conturbado em termos políticos”, a afirmação é de Luís de Brito e foi feita no lançamento do sexto livro, pelo Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), de reflexão e debate sobre o presente e futuro de Moçambique. A publicação revela um novo (e também antigo) desafio tão importante como a paz e a economia: os moçambicanos precisam de reduzir o número de filhos que têm e o Governo deve investir mais em melhor educação e saúde de qualidade sob pena de o crescimento económico que o país regista continuar a não ter impacto na redução da pobreza.
Somos mais de 25 milhões e não paramos de crescer, projecta-se que em 2040 seremos cerca de 50 milhões de moçambicanos. Um dos problemas que temos é que metade desta população tem menos de 15 anos ou mais de 64 anos de idade. Por outras palavras, é uma população que não trabalha, depende da outra metade para a sua sobrevivência. Para agravar o drama nem todos os moçambicanos que estão em idade activa têm um emprego seguro e decente, em parte porque são pouco escolarizados, 86 porcento ou não têm nenhum nível de instrução ou têm apenas o nível primário; portanto não ganham o suficiente para as suas necessidades pessoais e ainda têm de sustentar filhos e parentes. O Estado, através das instituições sociais, só consegue prover assistência a 15 porcento da população da terceira idade.
“Isso que dizer que se nós pudéssemos pôr todas as pessoas que estão na idade de trabalhar a trabalhar elas teriam que trabalhar para si e mais um pessoa. Nestas condições é muito difícil criar poupança, e não se criando poupança é muito difícil criamos desenvolvimento”, explicou o investigador e director do Centro de Pesquisa em População e Saúde (CEPSA), Carlos Arnaldo, durante o lançamento do livro “Desafios para Moçambique 2015”, na passada sexta-feira (18), em Maputo.
No livro, Carlos Arnaldo, que é doutorado em Demografia e mestre em Estudos de População, reflecte sobre a relação entre a dinâmica demográfica e o desenvolvimento económico que define como sendo o dividendo demográfico. “O conceito é novo mas existe desde a década 70 só que com outra denominação”.

“Um das questões fundamentais para que nós possamos ter dividendo demográfico é que nós temos que ter a transição demográfica e essa transição é que vai provocar mudança na estrutura etária da população e essa estrutura só altera quando nós reduzimos o nível de fecundidade, e no caso de Moçambique nós estamos a reduzir a mortalidade mas não estamos a mexer no número de nascimentos”, clarificou o académico que também mencionou as estatísticas oficiais que indicam que a esperança de vida ao nascer em Moçambique aumentou em cerca de 67 porcento, passando de 35 anos, em 1950, para 51 anos, em 2007; por outro lado, a taxa de mortalidade reduziu de 231 óbitos por mil nascimentos, em 1950, para 64 por mil em 2011.



Investir na educação e saúde com enfoque nas mulheres e crianças

Carlos Arnaldo deixou claro que o objectivo não é reduzir a população, mas antes “reduzir o peso da população jovem e da população dependente”, aumentando o peso da população em idade de trabalhar, entre os 15 e 64 anos de idade, e que pode contribuir activamente para a economia.
Moçambique está entre os dez países no mundo onde o número de filhos tem maior contribuição no crescimento populacional, e a média é de seis filhos. A isso deve-se o facto de 64 porcento das mulheres ainda serem analfabetas, deve-se também ao início precoce da sua actividade sexual que origina os casamentos precoces. Segundo o académico, o nosso país tem uma política de população que “não tem nenhuma medida concreta para a redução da fecundidade” e o uso de métodos de planeamento familiar é muito baixo.

O director do Centro de Pesquisa em População e Saúde não tem dúvidas de que “esta é a altura exacta para nós agirmos”. Moçambique tem potencial para beneficiar do primeiro dividendo demográfico nos próximos 20 anos mas para isso é preciso investir continuamente na educação e na saúde das pessoas, com enfoque nas mulheres e crianças. Caso contrário, em vez tirar partido de uma abundante mão-de-obra “vamos ter o pesadelo demográfico”.



300 mil empregos por ano não vai baixar a taxa de desemprego

De acordo com dados das Nações Unidas de 2013, o nosso país possuía 12,3 milhões de cidadãos em idade de trabalhar e em 2040 serão cerca de 30 milhões os moçambicanos em idade activa, daí resultando a necessidade de cerca de 300 mil postos de trabalho para absorver a demanda de novos empregos o que, a ser conseguido, como se propõe o Plano Quinquenal do Governo do Presidente Filipe Nyusi, “não vai baixar a taxa de desemprego, vai mantê-la”, explicou o académico da Universidade Eduardo Mondlane que no entanto deixa o aviso: “É preciso termos uma força de trabalho formada e capacitada para poder contribuir da melhor forma na economia”.
capa do livro













De acordo com o censo de 2007, cerca de 40 porcento da população em idade activa não tinham nenhum nível de ensino e apenas 15 porcento tinham um nível acima do primário, que na sua maioria se limita à formação secundária. De acordo com o artigo Carlos Arnaldo, e inserido no livro “Desafios para Moçambique 2015”, para que o nosso país consiga dividendos demográficos “a constituição de uma força de trabalho com formação relevante constitui, indubitavelmente, um dos mais sérios desafios”, que, contudo, não terminam aí.
“Na eventualidade de a futura força de trabalho moçambicana ter acesso a formação académica e a preparação profissional relevante e com qualidade, ela irá exercer uma pressão transcendental sobre a capacidade dos recursos da economia em absorvê-la no mercado laboral. O ritmo do aumento da demanda de postos laborais poderá superar largamente a oferta se se mantiverem inalteradas as características estruturais da economia moçambicana”, concluiu o Carlos Arnaldo.
Sobre as características da nossa economia que tem crescido 7 a 8 porcento mas não tem contribuído para a redução da pobreza e nem gerado empregos nos sectores determinantes e dinâmicos desse crescimento, importa ler um outro artigo inserido nesta publicação, da autoria de Carlos Nuno Castel-Branco, que compara a economia moçambicana a uma bolha “sem sustentabilidade para servir de plataforma de desenvolvimento a médio e longo prazo” e conclui, entre outras matérias, que “a economia precisa de uma nova abordagem que modifique as prioridades na alocação de recursos, trave o endividamento, a especulação e a dependência de expansão não sustentável, intensifique a mobilização interna de recursos, aposte na diversificação da base produtiva, na substituição de importações, no alargamento das opções de emprego produtivo com rendimentos reais decentes, na redução dos custos de reprodução social da força de trabalho e na elevação da sua qualidade de vida pela oferta de alimentos e outros bens e serviços básicos baratos, amplamente disponíveis e variados”.




Verdade

Monday, 21 September 2015

PGR pretende criar lei do silêncio em Moçambique e recorre da absolvição de Carlos Castel-Branco e Fernando Mbanze











A Procuradoria Geral da República(PGR) apresentou na sexta-feira (18) o seu recurso da sentença que absolveu, quarta-feira (16), Carlos Nuno Castel-Branco, do crime contra a Segurança do Estado moçambicano, e Fernando Mbanze, editor do jornal Mediafax, do crime de abuso da Liberdade de Imprensa por haver publicado uma carta escrita pelo académico em Novembro de 2013 onde criticava o então Presidente de Moçambique, Armando Emílio Guebuza.
Os advogados de Castel-Branco e Mbanze foram notificados da entrada do recurso à sentença proferida pelo Juiz João Guilherme, da 4ª secção do Tribunal Judicial do Distrito de Kampfumo, mas ainda desconhecem os termos do recurso apresentado pela PGR, em representação da acusação do Ministério Público.
A instauração do processo-crime data de Dezembro de 2013, obra do então Procurador-Geral da República, Augusto Paulino, mas o julgamento e este recurso já acontecem sob a direcção de Beatriz Buchili investida para o cargo pelo Presidente Guebuza, já no término do seu segundo mandato.
Do julgamento, que teve a sua primeira sessão a 31 de Agosto, os juízes João Guilherme, Amélia Fumo e Ernesto Miuquessene, concluíram que “o texto produzido e publicado pelo réu Carlos Nuno Castel-Branco, não obstante a linguagem escabrosa, áspera, contundente, azeda e severa que usa o articulista e o recurso frequente de caricatura linguística, comparação muitas vezes exageradas, traduz-se em simples texto de opinião sobre a actuação política do Presidente da República e do seu Governo o que, considerando o contexto político, económico e social em que o texto foi produzido e publicado por um lado, a qualidade o réu, um académico de intervenção marcadamente pública e notável no debate político sobre grandes questões de interesse nacional no campo da economia, por outro, mas também atendendo à qualidade de quem é no texto criticado, o Presidente da República e o seu Governo, torna o texto dentro dos limites da Liberdade de Expressão e de pensamento reconhecida aos cidadãos, porque nesse contexto a Liberdade de Expressão para a sobrevivência da Democracia deve ser mais ampla do que a protecção da imagem ora em consideração devidas a um órgão de soberania como é o Presidente da República ou qualquer outro, incluindo titulares dos próprios tribunais que têm o poder de decidir sobre os excessos no exercício dos direitos liberdade e garantias fundamentais”.












Na sessão de leitura da sentença o Juiz João Guilherme afirmou que o “réu Fernando Mbanze, como jornalista que é, apenas se limitou a publicá-lo tal como já era do domínio público, quer por via das redes sociais, quer por via da Imprensa. Ainda que fosse havido como criminoso o conteúdo do texto, só um julgamento temerário decidiria pela condenação do réu, uma vez que haveria razões de sobra para a Liberdade de Imprensa se sobrepor ao respeito devido à imagem e consideração do Presidente da República, assim justificando o princípio democrático que autoriza o debate de ideias. Verdade, porém, é que nunca esteve em causa o respeito devido ao Presidente da República, não à luz da lei porque o artigo em causa, sendo cáustico, deve reconhecer-se, não se salda em injúria, em calúnia ou em difamação no conceito rigoroso que a lei dá a estas figuras jurídicas.”
Ainda se desconhecendo os termos do recurso, importa recordar que além do Tribunal Judicial do Distrito de Kampfumo, na cidade de Maputo, não ter encontrado nenhum crime na carta escrita por Castel-Branco, postada na rede social Facebook, e posteriormente publicada pela Imprensa moçambicana, também esclareceu que, a existir crime algum, este estaria abrangido pela Lei da Amnistia de 12 de Agosto de 2014.
“A luta ainda não acabou”, afirmou o académico Carlos Nuno Castel-Branco, num breve contacto telefónico com o @Verdade a propósito deste recurso.




A Verdade

RENAMO informa Presidente moçambicano dos pontos da agenda do encontro

 

Sem divulgar quais temas serão discutidos, chefe da Renamo, Afonso Dhlakama, insiste na governação das províncias nas quais teria ganho as eleições e reforça que quer resolver divergências mesmo tendo sofrido um ataque.
Afonso Dhlakama disse que apesar da emboscada que visava matá-lo, segundo ele, não irá desistir dos seus esforços em busca da paz, democracia e desenvolvimento em Moçambique e que por isso resolveu aceitar uma conversa com o Chefe de Estado moçambicano. Ele repetiu que o ataque não vai desviar a sua luta pela inclusão em Moçambique.
O chefe do maior partido da oposição do país disse, numa conferência de imprensa, após ter visitado sete distritos da província de Manica, no centro de Moçambique, que já avançou oralmente os pontos da agenda a serem debatidos no encontro com o Presidente Filipe Nyusi.
Ele acrescentou que seus tópicos foram enviados ao Presidente pelo antigo Chefe de Estado de Moçambique, Joaquim Chissano, em um encontro efetuado à margem da cerimônia dos 20 anos da UCM (Universidade Católica de Moçambique), realizada na semana passada na cidade da Beira.
"Eu disse a Chissano que diga ao Presidente que estou disposto a conversar desde que haja uma agenda concreta que crie alternância governativa no país e não apenas apertar a mão dele para que ele convença a comunidade internacional de que há estabilidade no país, quando na realidade não há. Mas a coisa esta a evoluir bastante. Acredito que em breve poderemos anunciar algo", contou Dhlakama.

 
DW

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Sunday, 20 September 2015

Povo moçambicano deve exigir explicações sobre persistente tensão política, diz reitor da Universidade Católica

O reitor da Universidade Católica de Moçambique (UCM), Alberto Ferreira, defendeu, em entrevista à agência Lusa, que os moçambicanos precisam reagir à instabilidade do país e exigir explicações aos principais actores sobre a persistente tensão política.
"Os moçambicanos não têm nenhuma ideia do que está a acontecer. E não há reacção por parte dos moçambicanos, para dizer, ‘por favor nós somos cidadãos deste país e vocês [Governo e Renamo] estão a discutir os problemas que têm a ver com as nossas vidas, digam-nos lá do que estão a falar e porque é que não se chega a nenhuma conclusão'", disse Alberto Ferreira.
Considerando que o nível de cidadania e de conhecimento dos direitos é crucial, Alberto Ferreira acusou o Governo e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido da oposição, de negarem informação aos moçambicanos sobre o que está por trás das repetidas derrapagem do diálogo politico e os avanços e recuos na aproximação entre as partes.
"Faltando isso, ficamos cá só à espera que se chegue ao consenso de que vale a pena resolver o problema de casa por meios pacíficos, ou então não vale a pena e vai eclodir de novo uma guerra civil", observou Alberto Ferreira, insistindo que a reação natural dos moçambicanos seria exigir explicações.
O reitor da UCM prefere não vaticinar o futuro de Moçambique, mas receia que a falta de aproximação das partes possa conduzir o país ao extremo, se uma das partes entender que não há mais espaço para diálogo e recorra às armas.
"Espero que haja um pouco de racionalidade daqueles que têm o poder na mão e os que têm o poder nas armas", disse Alberto Ferreira, lembrando que "as guerras trazem luto e sofrimento a pessoas indefesas".
O reitor disse que Moçambique experimentou vinte anos de paz, desde o fim do conflito civil, e depois mais um incidente de quase dois anos de guerra não declarada e agora o país vive "uma situação de tensão político-militar e não se sabe qual a situação real".
Para Alberto Ferreira, a classe académica moçambicana precisa ser interventiva, "até de inventar vias para reconciliação e pacificação" do país, assinalando que a UCM tem vindo a trabalhar na promoção das liberdades individuais e desenvolvimento, além da consolidação da paz.
"Se as universidades não fazem isso, fica uma brecha, e depois os académicos tornam-se pessoas obsoletas, que só sabem fazer academia porque deram aulas e apresentaram um livro, mas na prática não contribuíram tanto para a reconciliação", precisou.
A UCM assinalou na Segunda-feira 20 anos com uma conferência, na qual estiveram presentes o ex-Presidente moçambicano Joaquim Chissano e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, à semelhança do que aconteceu na sua fundação.
A universidade nasceu na Beira, segunda cidade moçambicana, três anos após o Acordo Geral de Paz, assinado em Roma a 4 de Outubro de 1992 por Chissano e Dhlakama, sob a mediação da organização católica Comunidade de Santo Egídio, e que terminou com 16 anos de guerra civil em Moçambique.
A UCM tem 20.680 alunos em nove faculdades e duas extensões, em sete províncias do país.O reitor moçambicano disse que, com a redução das assimetrias no acesso ao ensino superior e a introdução de cursos que respondem às necessidades do país, a UCM pretende criar um cidadão mais activo na luta pela justiça e democracia, "olhando para o esforço de Moçambique em ascender a um patamar considerável de afirmação dos direitos essenciais".





Líder da Renamo diz que encontro com PR moçambicano está próximo após mediação de Chissano

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, anunciou hoje para breve um encontro com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, após mediação do ex-chefe de Estado Joaquim Chissano, assegurando que os preparativos estão numa fase avançada.
"Não posso mentir, falei com [o ex-Presidente Joaquim] Chissano uns vinte minutos a sós, naquele dia 14, e eu disse ‘vai dizer [ao Presidente Filipe] Nyusi seriamente que estou disposto a conversar desde que haja uma agenda concreta, que cria alternância governativa no país'", afirmou, em conferência de imprensa, o líder da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido de oposição, reiterando a sua indisponibilidade para uma reunião que apenas sirva para "apertar a mão".
Afonso Dhlakama e Joaquim Chissano participaram na Segunda-feira numa conferência para assinalar os vinte anos da criação da Universidade Católica de Moçambique, à semelhança do que aconteceu na sua fundação, tendo aproveitado a ocasião para se reunirem a sós para discutir a instabilidade política e militar que se vive no país.
"A coisa esta a evoluir bastante e dentro em breve algo poderemos anunciar [datas e agenda]", declarou Afonso Dhlakama, na conferência de imprensa de balanço da sua visita de dez dias à província de Manica, centro de Moçambique, que hoje terminou.
O líder da Renamo voltou a referir-se ao ataque que sofreu há uma semana nesta província, atribuindo-o a "irmãos da [Unidade de] Intervenção Rápida e das Forças de Armadas de Defesa de Moçambique, e manteve o propósito de criar uma polícia própria do seu partido, referindo que o recrutamento vai começar em breve.
Dhlakama e Nyusi encontraram-se duas vezes no início do ano para discutir a crise política em Moçambique, após as eleições gerais de Outubro de 2014, cujos resultados a Renamo não reconhece, exigindo a governação nas províncias onde reclama vitória, sob ameaça de tomar o poder pela força.
Desde então várias vezes foi anunciada a proximidade do encontro entre as partes, que, no entanto, nunca se realizou.
Filipe Nyusi tem dirigido repetidos convites a Dhlakama para os dois líderes se reunirem, mas o presidente da Renamo recusou, alegando a falta de uma agenda concreta e que não tencionava mudar de opinião até ao integral cumprimento dos acordos de paz já existentes,
Nas últimas semanas, a Renamo anunciou a criação de unidades militares na província da Zambézia e também uma polícia do partido.
Na reacção ao ataque de há uma semana contra Dhlakama e sua comitiva, o secretário-geral da Renamo, Manuel Bissopo, ameaçou na Quinta-feira vingança e acusou o chefe de Estado de ter dado ordens para um alegado atentado.


Saturday, 19 September 2015

Savimbizar pode ser o prenúncio da sudanização?




Cinismo, hipocrisia são condimentos para a guerra.

A política faz-se no concreto e os seus resultados poucas vezes coincidem com aquilo que os manuais de ciência política prescrevem.
Assiste-se a uma busca até certo ponto pueril de protagonismo em Moçambique.
Legiões de governantes, gente catalogada de intelectual, líderes religiosos, líderes políticos e pseudopolíticos aproveitam tudo o que seja oportunidade para aparecer e elevarem o seu estatuto.
O que é caricato e gravemente atentatório contra o direito do público de ser informado com isenção é o trabalho esmiuçado de desconstruir realidades e apresentar dados falseados da mesma. Quando o caldo estiver no chão, de nada valerão as análises ou comentários eivados de inverdades. Estaremos novamente na “estaca zero”.
A sede do lucro e das benesses do regime não deveriam cegar pessoas com responsabilidades inalienáveis.
Outro aspecto importante que não se pode esquecer é que a mentira, mesmo que seja oficial, tem prazo de validade muito curto.
 Quantas vezes não se assiste a canais televisivos e radiofónicos “vomitando” o que facilmente se descobre serem encomendas do regime do dia?
Exímios defensores do “status” e dependentes do mesmo para sobreviver e sobressair têm ao longo dos anos defendido fraudes eleitorais, e com recompensas, como se tem visto.
Alguns esquecem-se rapidamente do que aconteceu, mesmo que seja num passado recente.
Os que avançam com teses de que o ataque ocorrido em Chibata contra a comitiva em que seguia Afonso Dlahkama, líder da Renamo, foi obra da própria Renamo são declaradamente esquecidos ou amnésicos. Quem tenha sido o mentor da operação e quais tenham sido os objectivos a atingir deve ficar claro que as consequências são uma verdadeira incógnita.
Lembra-se alguém que uma comitiva de AMMD já foi atacada em Gaza?
Lembra-se alguém que comícios da oposição, Renamo e MDM, já foram inviabilizados?
Lembra-se alguém que a PRM na Munhava, Beira, já desbaratou um comício do MDM, pondo gente em debandada através do uso de gás lacrimogéneo, balas de borracha e bala reais?
Lembra-se alguém que membros da Renamo e do MDM já foram presos alegadamente por causa de ilícitos eleitorais?
Mas lembra-se alguém que membros da Frelimo apanhados em flagrante delito procurando “encher votos” nunca foram delitos ou levados à barra dos tribunais?
Não é preciso ser especialista em “cheiro de perfumes e oftalmologia” para descobrir que a cor da PRM é vermelha e com cheiro vermelho de “rosa”.
A relutância em integrar e manter os efectivos da Renamo na PRM e FADM obedece a uma agenda específica que se centra em controlar as forças de defesa e segurança e através destas garantir a manutenção do poder.
É a acção destas duas forças militarizadas que o demonstra acima de qualquer discurso ou proclamação de cunho constitucionalista ou legalista.
Ao longo dos anos, esta PRM tem-se caracterizado por proteger a Frelimo e atacar a oposição sempre que a manutenção do poder pela Frelimo esteja em causa ou em jogo.
Afirmar isto não é difamação, pois os factos acumulados o atestam e comprovam. Justificações dúbias, alegação de falta de provas abundam, mas, no fim, quem sai protegido é o partido no poder. Há uma grave dose de hipocrisia na actuação da PRM, e isso não acontece por acaso.
Quando compatriotas morreram asfixiados numa cela da PRM em Cabo Delgado, não houve nenhuma consequência para os que permitiram que aquilo fosse possível.
Este Moçambique tem tudo para dar certo, mas não se pode governar através de malandrices, banditismo oficial e posicionamentos criminosos.
Respeitar os outros para que sejamos respeitados é uma regra básica de convivência.
É bonito ver moçambicanos engajados na busca da paz por todos os meios ao seu dispor, mas é insensato procurar eliminar os outros como forma de deixar campo livre para implementação de qualquer que seja a agenda.
Não é sustentável supor que eliminando AMMD ou outro líder da oposição se consegue a estabilidade e a paz.
O que alguns analistas sugerem ser a opção mais viável para a paz, savimbização de AMMD, tem muito que se lhe diga.
Não há situações gémeas, e mesmo os gémeos são na verdade diferentes.
Os efeitos práticos, de imediato, podem ser a radicalização e o surgimento de uma oposição armada e retalhada. Isso, em si, proporcionaria a emergência de forças interessadas em ganhar protagonismo através da efectiva secessão.
“Sudanização” pode parecer um termo que não afecta Moçambique, mas é algo que aconteceu num país específico de África e pode voltar a acontecer em outro país concreto. É a forma como se resolvem os problemas políticos que dita os rumos que os países seguem.
Alguém falava, através de uma rede social, que havia profetas da violência politicamente motivada em Moçambique, mas eu diria que nem tanto assim.
O que existe são analistas arreigadamente defendendo a exclusão dos outros, como se os outros não fossem moçambicanos, com seus plenos direitos consagrados naquela Constituição tantas vezes esgrimida como sede de tudo o que se deve fazer no país.
Alguns movimentos ensaiados e concretizados discretamente podem ser aquilo que já deveria ter sido feito para aproximar as partes e discutir com seriedade e sem tabus os “dossiers” inconclusivos existentes.
JAC e AMMD têm muita coisa para dizer um ao outro. E se a Beira conseguir servir de palco para o relançamento do diálogo entre os ex-beligerantes só temos que saudar a iniciativa de convidá-los a participar no jubileu da UCM.
O avanço da agenda de paz precisa de mediadores de peso que tenham a confiança das partes, o que sinceramente não acontece com a maioria daqueles que deambulam no CCJC.
Urge relançar iniciativas de pacificação do país, o que passa pelo “recolher das armas” de modo efectivo e generalizado.
Pacificar tem de significar despartidarização das forças de defesa e segurança.
Pacificar reconciliando é o caminho a seguir.
Pacificar democratizando a política e a economia.
Pacificar separando efectivamente os poderes democráticos.
Pacificar é um acto patriótico sublime pois nele assentam valores e anseios de milhões de moçambicanos.
Urge tirar a iniciativa aos verdadeiros perturbadores da agenda de paz e de desenvolvimento em Moçambique.
Retirá-los da comunicação social pública seria um primeiro passo muito importante. Reformá-los compulsivamente é uma medida a considerar.
Revisitar os “dossiers” inconclusivos de 1992-1994 e adicionar os termos do Acordo de Cessação das Hostilidades assinado por AEG e AMMD podem ser uma boa base de partida para avançar e oferecer aos moçambicanos o que mais anseiam.
Não há moçambicanos superiores nem outros inferiores que deveriam ser sujeitos a imposição perpétua.
Honestidade e responsabilidade sejam o que move os líderes para que sejam verdadeiros líderes.

 
(Noé Nhantumbo)

CANALMOZ – 18 de Setembro de 2015

Friday, 18 September 2015

Investigador: Moçambique vive um contexto "bastante conturbado”

O director do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), Luís de Brito, defendeu hoje que o país vive um "contexto bastante conturbado", marcado pela situação dos dois principais partidos moçambicanos e um discurso vazio sobre paz.





"Moçambique vive um contexto bastante conturbado, tanto do ponto de vista político, como do ponto de vista social e económico", disse Luís de Brito, falando hoje em Maputo, à margem do lançamento do livro "Desafios para Moçambique 2015", da autoria do IESE.
Num momento em que Moçambique vive sob ameaça de um conflito militar entre o exército e a maior força de oposição, Renamo, Luís de Brito disse que o principal desafio para o país é a manutenção da paz, alertando, no entanto, para a proliferação de um discurso vazio, fundado na ideia de que o bem-estar e a estabilidade dependem unicamente do "calar das almas".
"A paz só se constrói na base da inclusão social, política e económica", declarou o diretor do IESE e coordenador do grupo de investigação da obra hoje lançada.
Para Luís de Brito, a Frelimo, partido no poder há 40 anos, vive "um momento de crise", que se iniciou ainda sob liderança do ex-Presidente Armando Guebuza, a par de uma ascensão das forças de oposição com assento parlamentar, a Renamo e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM).
"O MDM beneficiou bastante da ausência da Renamo nas eleições autárquicas de 2013 e teve tempo para se afirmar como um grande partido, tendo atingido grandes resultados", afirmou o investigador, acrescentando que, embora tenha entrado para as eleições gerais de 2014 fragilizada, a Renamo, por sua vez, saiu revitalizada do escrutínio.
"Não é possível imaginarmos um partido que, mesmo com a fraude eleitoral, tem mais de um terço de votos em eleições a ser marginalizado e afastado do processo e poder políticos", afirmou Luís de Brito.
Enaltecendo a importância de o país adoptar uma política de descentralização, Luís de Brito entende que o projecto das autarquias autónomas da Renamo convida os moçambicanos a repensarem o modelo de governação actual, considerando que, no entanto, a proposta não pode ser uma imposição.
"A questão da descentralização neste país é absolutamente crucial", afirmou, acrescentando que é preciso que seja criado um ambiente sério para discussão da proposta, como forma de o país entrar realmente num processo construtivo.
No sábado, uma comitiva do líder da Renamo foi atacada em Chibata, junto do rio Boamalanga, quando regressava de um comício em Macossa e se encaminhava para Chimoio, capital de Manica, no centro.
Na quinta-feira, a Renamo acusou directamente o chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, de ter dado ordens para assassinar Afonso Dhlakama, imputando ao ministro da Defesa, Salvador Mtumuke, e ao chefe do Estado-Maior General, Graça Chongo, conivência no suposto plano.
Para Luís de Brito, o ataque à comitiva do líder da oposição é anormal e exige uma investigação séria, principalmente num contexto complexo como o que actualmente Moçambique vive.
"Este não pode ser um caso que a polícia diz que não encontrou os autores do ataque. É preciso que haja um esforço para descobrir os seus autores e resolver, de uma vez por todas, esse dilema", acrescentou, lembrando que estes problemas não são novos, mas estavam apenas escondidos desde 1992, ano da assinatura do Acordo Geral de Paz.
A maior força de oposição moçambicana exige a criação de autarquias provinciais em todo o país e quer governar as seis regiões onde reclama vitória eleitoral nas eleições de Outubro último em Moçambique, sob ameaça de tomar o poder à força.
Em 2013, o braço armado do principal partido de oposição bloqueou a única estrada que liga o centro ao norte do país, levando a confrontos entre as Forças de Defesa e Segurança e a Renamo durante 17 meses.

Os confrontos cessaram formalmente em 05 de Setembro do ano passado, com a assinatura do Acordo de Cessação das Hostilidades Militares entre Afonso Dhlakama e o então Presidente moçambicano, Armando Guebuza.





Thursday, 17 September 2015

Visionários, patriotas apresentem-se à mesa

Nada é mais importante do que a PAZ
Não se trata e jamais será uma questão de que este tem mais razão do que aquele ou de aquele é o mais culpado.
A questão é quente, está quente. A situação está ficando cada dia mais sinistra.
Sente-se que a guerra paira no ar sem que ainda tenha sido declarada.
É tempo de reunir os nossos anciões e prestar atenção à sua sabedoria.
Não se pode viver refém de posições irredutíveis de alguns políticos.
É momento de serenarem-se os ânimos e aceitar que o sistema de imposições é contraproducente.
Moçambique é país dos moçambicanos e nesse sentido são estes que devem escolher e decidir sobre o seu destino comum.
Ninguém tem o direito de impor aos moçambicanos as suas agendas privadas, e a soberania duramente conquistada deve ser protegida dos “assaltantes” e dos promotores de guerras. Há gente que não concebe que a bandeira une-nos e que somos iguais perante a lei. Há gente que se supõe a lei em si ou que está acima de qualquer lei devido a estatutos que “só o diabo conhece”.
Os fundamentos da discórdia florescem quando os interlocutores se tratam com desconfiança e quando não existe honestidade básica. Quando alguém se sente superior ao outro resulta contraproducente discutir, debater, dialogar ou negociar. E essa parece ser a situação no Centro de Conferências “Joaquim Chissano”.
E tenhamos a frontalidade dizê-lo, quando a mediação se transforma em “insectos em metamorfose” tudo se torna mais difícil.
Há sinais concretos de que as partes não se entendem porque não conseguem ultrapassar os seus complexos.
Outra coisa é um edifício chamado Governo respirando ares monocromáticos e obediente a fórmulas de governação típicas de regimes não democráticos.
Os cenários que vivemos demonstram que a separação dos poderes democráticos continua uma miragem.
Quando o PR não tem poderes reais de governar, é ilusório pretender que uma reunião dele com o presidente da Renamo traga resultados desejáveis e ansiados pelos moçambicanos.
Precisa ser dito que o PR ainda está manietado pela Comissão Política da Frelimo e, pelos estatutos deste partido, as decisões do órgão são de carácter e cumprimento obrigatório.
As mensagens do PR são diferentes das mensagens emanadas da CP, que o seu porta-voz tem vindo a difundir.
Nesse sentido, a CP montada a dedo no Congresso de Pemba é que de facto governa o país. Ou, pelo menos, procura governar.
E quando se falava de que o poder bicéfalo terminaria com a elevação de FJN para presidente do partido Frelimo, isso não se confirma, porque a composição da CP dá conforto e espaço de manobra a AEG. São problemas de um partido colocando-se em confronto com os interesses da paz e da governabilidade do país.
Uma “velha guarda” que se bateu com as armas e conhecimentos que tinha contra o colonialismo não se consegue adaptar aos novos tempos.
A democracia é uma palavra que pronunciam mas que, ao mesmo tempo, parece que abominam. O que cederam em Roma foi no papel, mas, na prática, continuam segurando as rédeas em tudo o que é decisivo no país.
Como teremos uma República democrática e um verdadeiro Estado de Direito quando as chefias das Forças de Defesa e Segurança devem obediência à Comissão Política de um partido?
Como se pode falar de justiça para todos, se alguns são impunes, mesmo quando apanhados em flagrante cometendo crimes?
Dos ilícitos eleitorais apresentados e de conhecimento das autoridades competentes ainda não resultou nenhuma acusação. Que nome se dá a uma situação dessas?
Num golpe desenhado e executado por detentores do poder, a terra, que por lei pertence ao Estado, transformou-se em objecto de troca e, como se pode ler na imprensa nacional e internacional, milhares de hectares foram entregues a empresários europeus na constituição de “joint-ventures”. Estas e outras ilegalidades consubstanciam a existência de impunidade judicial.
Há um manifesto e claro sentido de propriedade privada no que tange aos recursos naturais. Os “libertadores”, no seu “direito de ficarem ricos”, tomam o que querem, e como isso só pode acontecer se dominarem os órgãos do Estado, resulta óbvio que não será de ânimo leve que abandonarão o seu controlo.
Sejamos francos e razoáveis, Moçambique tem “cidadãos de primeira e outros de segunda”, e os de primeira não estão permitindo que o país siga um curso democrático de respeito pleno pelos direitos políticos, económicos e humanos dos moçambicanos.
Antes, havia colonizadores e colonizados.
Entre os brancos, havia os de primeira e os de segunda. Após muitos anos em que se combateu através de “orientações” este tipo de situação, regista-se uma regressão.
Agentes activos de opinião a favor da diferença de estatuto entre moçambicanos lançam-se com vigor para a promoção de que existem moçambicanos de gema e outros que não o são. Os de “gema” enveredaram pelo colonialismo endógeno, e obviamente que se consideram superiores a todos os outros.
Como a antiga “coesão” reinante na Frelimo se corroeu ao longo dos anos, verificam-se ataques viscerais entre importantes membros deste partido que influenciam negativamente o estado de coisas no país. A Frelimo é um partido histórico com obrigações e responsabilidades inalienáveis. Mas o conservadorismo que se está apossando dela tem implicações notáveis na construção de um Moçambique mais democrático e desenvolvido.
A ofensiva de açambarcamento de posições e acções na economia está sendo feita contra os preceitos de boa-governação e democracia económica.
E quando isso é feito excluindo e negando os direitos da maioria dos moçambicanos, só pode dar confusão e despoletar crises.
É aqui que entra a necessidade de visionários e patriotas que se lancem com todo o seu vigor na defesa dos genuínos interesses dos moçambicanos.
Ninguém tem medo de ficar rico e ninguém tem a ilusão de que a riqueza se distribui como bolos em dia de festa.

Mas, enquanto persistir a ideia de que “somos especiais e com direitos especiais”, os caminhos para a paz e concórdia tardarão.



(Noé Nhantumbo)
 
CANALMOZ – 16 de Setembro de 2015
 
 
 
 

A Renamo vai se vingar do "atentado" contra Afonso Dlhakama, informou Manuel Bissopo

"Perante estas barbaridades que violam os princípios do Estado Democrático, consagrados na Constituição da República de Moçambique, a Renamo vem hoje dizer que vai reagir. Quero reafirmar categoricamente e em nome da máquina Administrativa da Renamo que iremos reagir, pois não se pode tolerar este tipo de terrorismo de Estado," começou por dizer Manuel Bissopo, Secretário Geral da Renamo, quando falava na manhã desta quinta-feira (17) na sede do partido numa conferência de imprensa na qual apontaram a Frelimo como responsável de um atentado que, disseram, visava acabar com a vida de Afonso Dlhakama.
Mais adiante, voltou a sublinhar que a Renamo vai usar o que estiver ao seu alcance para se vingar desta tentativa directa para assassinar o seu líder. Perante a insistência dos jornalistas que queriam saber como pretendia reagir, Bissopo disse que o seu partido não podia divulgar os planos estratégicos mas que não é segredo que a Renamo possui armas e homens armados.



Confidencial
 

Wednesday, 16 September 2015

Tribunal diz que académico moçambicano apenas fez crítica pública a Guebuza



Maputo, 16 set (Lusa) - O Tribunal Judicial do Distrito de Kampfumo, em Maputo, justificou hoje a absolvição do economista moçambicano Castel Branco e do jornalista Fernando Banze, com o direito à crítica pública na opinião que o académico escreveu sobre Armando Guebuza.
"A titulares de cargos públicos de destaque, como é o caso do Presidente da República, pela natureza das coisas, estão e devem continuar expostos, por conta do exercício do cargo, à crítica pública do comum dos cidadãos", refere o acórdão do tribunal, lido pelo juiz João Guilherme.
Sobre os titulares de cargos de órgãos públicos, o estado de direito privilegia a crítica pública, ainda que "avassaladora, cáustica, severa, acutilante, exagerada ou quase destrutiva", assinalou Guilherme.
No acórdão, o tribunal destaca ainda que a tolerância à crítica deve ter em conta o contexto político, económico e social em que a mesma é feita, como forma de não se cercear a liberdade de imprensa e de expressão, numa referência aos confrontos militares na altura em curso no centro do país e à onda de raptos.
O Tribunal Judicial do Distrito de Kampfumo sublinhou ainda que a opinião de Castel Branco deve ser compreendida no quadro do trabalho académico e dos posicionamentos cientificamente comprovados que ele vem assumindo em público, enquanto a reprodução da carta por Fernando Banze, editor do Mediafax, insere-se dentro da liberdade
O tribunal considerou improcedentes todas as alegações apresentadas pelo Ministério Público moçambicano, frisando que se baseiam em opiniões que o académico expôs no âmbito do exército da crítica pública, "apesar de severa e muitas vezes escabrosa"
"Este tribunal entende que a carta que esteve no cerne deste processo cabe na armadura do exercício da liberdade de expressão, que permite aos cidadãos expressarem opiniões sobre os seus governantes, ainda que seja uma opinião indelicada, apertada e incómoda", frisou João Guilherme.
Comentando a absolvição, Castel-Branco afirmou que a mesma representa o triunfo da democracia e da liberdade de expressão em Moçambique, frisando que continuará a expor as suas opiniões sobre o rumo que o país está a seguir.
"O país sai hoje mais livre do que ontem, a democracia moçambicana fica hoje mais sólida do que ontem, porque o desfecho deste processo foi uma grandíssima lição de democracia", disse, à imprensa, Castel-Branco.
Por seu turno, Fernando Banze considerou que a decisão representa "a absolvição da liberdade de expressão", defendendo que "estava em julgamento um direito fundamental".
"Estava em julgamento o direito a pensar diferente, com esta sentença, reafirmou-se a tese de que não estamos proibidos de expressar uma opinião diferente", disse Banze.
Na carta, Carlos Nuno Castel-Branco acusa Armando Guebuza de estar "fora do controlo" e de ter empurrado o país novamente para a guerra, numa alusão aos confrontos, na altura, entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido da oposição.
Para várias entidades moçambicanas e internacionais, o caso ultrapassava a esfera judicial e assumia contornos políticos, numa ameaça ao direito de opinião.

 

Castel-Branco e Fernando Mbanze ilibados







O juiz acaba de ilibar os réus Carlos Nuno Castel-Branco acusado de atentado à segurança do Estado por ter publicado em finais de 2013 na sua página Facebook uma “Carta Aberta ao Presidente da República” e o jornalista Fernando Mbanze por ter veiculado a carta no jornal MediaFax. A explanação de Castel-Branco tecia duras críticas a acção governativa do presidente.
“Concluindo o texto do Carlos Nuno Castel-Branco publicado no Facebook não obstante uma linguagem cáustica, áspera e severa está dentro dos limites da liberdade de expressão”, sentenciou o juiz João Guilherme.“Viva a liberdade de expressão, viva a lucidez do juiz”, gritaram os presentes que tinham lotado a sala do Tribunal Kapfumo.



Veja abaixo os pontos altos da leitura da sentença.


“A liberdade de expressão deve ser mais ampla do que o simples exercício de defesa da imagem do Presidente da República”, disse o juiz
“Não preenche qualquer tipo legal de crime”, reitera o Juiz, insistindo que a carta deve ser considerada apenas “crítica”.
O Juiz João Guilherme desconstrói a tese acusatória sobre os réus e nas alegações finais afirma que houve, em algum caso, “crítica severa”, mas nada passível a uma “sanção judiciária”.
Neste instante, o juiz faz a leitura das alegações da defesa e de acusação, neste último caso do Ministério Público“Viva a liberdade de expressão no país, viva a lucidez do juiz”, gritam os presentes na sala do tribunal após a sentença que ilibou os réus.




Confidencial 

Dhlakama avisa que colaborou muito para paz e agora quer negociar coisas concretas







Acompanhado por cinco de­putados da Renamo, incluindo a chefe da bancada e o secre­tário-geral do partido, Afonso Dhlakama dispensou os seus “co­mandos” de boinas pretas e far­da verde e foi à UCM, numa rara aparição num evento público.
No programa, o líder da Rena­mo tinha de abordar a expansão do ensino superior, mas no pó­dio resvalou para a paz, seu tema preferido, para o bem e para o mal. E começou por reclamar que colaborou muito para a paz desde 1992.
“Isso pode ser confirmado pelo mais velho Presidente Chissano. Lembro muito bem que eu ia ao seu gabinete, que fica perto da minha residência, no bairro da Sommerchield. Podíamos con­versar das 09h00 até às 17h00 a sós. E conseguimos o que conse­guimos”, disse, numa interven­ção várias vezes interrompida por aplausos.

Tuesday, 15 September 2015

Frelimo apresenta várias versões para tentar desmentir ataque a Dhlakama



As diversas versões apresentadas dizem: é invenção; é mentira; foram os próprios homens que dispararam contra si; foi explosão de um pneu de uma das viaturas; os homens da Renamo entraram em pânico e começaram a disparar de um lado para outro.

O partido Frelimo veio a público, na tarde de segunda-feira, afirmar que não houve nenhum ataque contra o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, e que tudo quanto foi veiculado foi uma simulação do próprio Dhlakama.
“É uma mentira. É uma invenção da Renamo. Não houve nenhum ataque contra a caravana do líder da Renamo”, disse Damião José, secretário para a Área de Mobilização e Propaganda da Frelimo.
Em conferência de imprensa na sede nacional do seu partido, o porta-voz da Frelimo, Damião José, disse que o seu partido condena e repudia com veemência a postura de Afonso Dhlakama, que Damião José diz ser uma simulação.
Damião José desmentiu igualmente o testemunho de alguns jornalistas que acompanhavam a coluna de Dhlakama e as declarações do comandante provincial da PRM em Manica, Armando Mude, que disse ter tido a informação da existência de um tiroteio às 19.30 horas de sábado, um pouco depois do cruzamento de Tete, acrescentando tratar-se de uma caravana de homens armados, com um efectivo de cerca de 40 a 50 homens.
Ante a insistência da imprensa de que havia testemunhas, o propagandista da Frelimo acabou por admitir que pode ter havido disparos, argumentando que a própria caravana da Renamo é constituída por homens com armas.
“Porque é que não podem ser eles mesmos a disparar as suas próprias armas para simularem que houve um ataque?”, declarou aquele responsável da Frelimo.
Questionado sobre a base que sustenta essa tese, Damião José, embora tenha reconhecido não estar provado, preferiu, mesmo assim, recorrer à justificação de que são os acontecimentos no local e os depoimentos de alguns estudantes do Instituto Médio Agrário de Chimoio, localizado perto do local do incidente.
Segundo Damião José, tais depoimentos apontam para a provável explosão de um pneu de um dos carros da caravana do presidente da Renamo, e uma das viaturas foi colidir com um dos carros, e, a partir daí, por causa do susto ou de qualquer coisa, os seus próprios homens puseram-se em pânico e começaram a disparar de um lado para outro.
Numa declaração de quatro páginas, que durou 21 minutos de leitura, Damião José disse que a Frelimo distancia-se do que chamou “acusações difamatórias” contra si, segundo as quais orquestrou o assassinato ou qualquer atentado à integridade física do presidente da Renamo.
Acrescentou que tudo não passa de manobras dilatórias de simulação de ataque, que servem de pretexto para Afonso Dhlakama iníciar a guerra.
“Que fique claro, de uma vez por todas, para o senhor Dhlakama que a Frelimo não é um partido de malandros. A Frelimo não é uma organização criminosa como aquela liderada por um malandro, que cometeu diversos crimes”, afirmou Damião José.
Perante perguntas dos jornalistas, Damião José insistiu em dizer que o ataque foi uma invenção da própria Renamo e dos jornalistas que acompanhavam a caravana de Afonso Dhlakama.
“É uma invenção. Não houve nenhum ataque. No futuro, naturalmente o trabalho que está sendo feito vai trazer ao de cima o que é que aconteceu naquele preciso momento, mas, para tal, é preciso que a Renamo colabore com as autoridades”, declarou o porta-voz da Frelimo.
A Frelimo diz, por outro lado que a recusa da Renamo ao diálogo percebe-se e justifica-se quando Afonso Dhlakama “simula um ataque que nunca aconteceu, e depois, de forma precipitada, atribui a culpa às Forças de Defesa e Segurança e à Frelimo”.


(Bernardo Álvaro)

 
 
 
CANALMOZ – 15 de Setembro de 2015
 
 
 
 
 
 
 
 


 

Monday, 14 September 2015

União Europeia pede investigação completa a ataque contra líder da oposição moçambicana




 A delegação da União Europeia em Maputo pediu hoje uma "investigação célere e completa" do ataque contra uma coluna em que seguia o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, considerando que o incidente prejudica os esforços de paz em Moçambique.
"O povo de Moçambique merece ser informado com total clareza sobre o ocorrido", defende um comunicado enviado à Lusa em nome dos chefes de missão da União Europeia acreditados no país, na sequência de um ataque, no sábado, na província de Manica, contra a caravana que transportava o presidente da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana).
Segundo a delegação da União Europeia, o ataque, de que Dhlakama saiu ileso, "prejudica os esforços para alcançar a paz e a estabilidade em Moçambique", lembrando que "o agravamento de tensões e da violência afeta não só a população e o desenvolvimento do país, como tem também impacto no comércio e investimento".
Os chefes de missão dos países da União Europeia "encorajam todas as partes à contenção e a encontrarem neste momento vias para a criação de um clima de confiança", prossegue o comunicado, que apela para o diálogo construtivo entre as partes, na base de que "as divergências de natureza política devem ser abordadas por meios pacíficos".
A declaração da Delegação da União Europeia segue-se a dois outros pronunciamentos de missões estrangeiras em Moçambique, com as embaixadas dos Estados Unidos e do Canadá em Maputo a condenaram também o ataque e apelando igualmente para a contenção das partes.
O ataque aconteceu em Chibata, junto do rio Boamalanga, quando a comitiva de Dhlakama regressava de um comício em Macossa e se encaminhava para Chimoio, capital de Manica.
A guarda da Renamo respondeu aos tiros e entrou no mato em perseguição dos atacantes, que jornalistas, militares da Renamo e o próprio Dhlakama no local identificaram como elementos da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) das forças de defesa e segurança moçambicanas.
Mais tarde, Dhlakama atribuiu à Frelimo a "emboscada planificada" de que foi alvo, afirmando que, para ele, é "como se não tivesse acontecido nada" e indicando que está disponível para o diálogo.
A polícia moçambicana negou o envolvimento no ataque e a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), partido no poder em Moçambique, considerou hoje que a emboscada foi uma "simulação" da Renamo, acusando o movimento de procurar "pretexto" para uma guerra.
Moçambique vive momentos de incerteza política, com o líder da Renamo a não reconhecer os resultados das últimas eleições gerais e a exigir a governação nas províncias onde reclama vitória, sob ameaça de tomar o poder pela força.
Nas últimas semanas, o diálogo de longo-prazo entre as duas partes foi rompido pelo líder da Renamo, que recusou um convite para discutir a situação política com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, até obter garantias de cumprimento dos entendimentos de paz já existentes.
Dhlakama recusa também desarmar os militares do seu partido e que se têm envolvido em confrontações com as forças de defesa e segurança moçambicanas, além de ter anunciado novos quartéis na província da Zambézia e a criação de uma polícia própria.

 

Estados Unidos preocupados com violência política em Moçambique

Os Estados Unidos manifestaram hoje preocupação com o ataque no Sábado a uma coluna transportando o líder da Renamo, maior partido de oposição em Moçambique, e condenam a violência para se alcançar fins políticos. 
"A embaixada dos Estados Unidos da América em Maputo manifesta a sua preocupação pelos relatos de um ataque armado na noite do dia 12 de Setembro contra a caravana do partido Renamo [Resistência Nacional Moçambicana)", segundo um comunicado enviado pela missão diplomática à Lusa, reiterando "a sua condenação ao uso da violência para o alcance de quaisquer propósitos políticos".
A embaixada norte-americana recebeu positivamente as declarações feitas pelo líder da Renamo, desencorajando a retaliação ao ataque de sábado, bem como as indicações dadas por autoridades policiais, no sentido de se averiguar o assunto.
"Encorajamos todos os actores do processo democrático moçambicano a procurarem soluções pacíficas através de um diálogo construtivo", finaliza o comunicado enviado à Lusa.
Uma caravana de automóveis em que seguia o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, foi atacada ao início da noite de sábado na província de Manica, centro de Moçambique, havendo pelo menos sete feridos, três da Renamo, um dos quais grave, e quatro presumíveis atacantes.
O ataque, testemunhado pela agência Lusa no local, aconteceu em Chibata, junto do rio Boamalanga, quando a comitiva de Dhlakama regressava de um comício em Macossa e se encaminhava para Chimoio, capital de Manica.
Em conferência de imprensa, Dhlakama atribui o ataque à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), embora sem saber ao certo quem abriu fogo contra a sua coluna e apesar de no local do incidente, à semelhança dos seus militares, ter imputado a emboscada à Unidade de Intervenção Rápida (UIR) e de jornalistas terem observado feridos com uniforme desta força de elite moçambicana.
Quase vinte minutos depois da emboscada, repelida a tiros pela guarda da Renamo, uma viatura da UIR, lotada de agentes desta força, passou no local, fazendo sinais de emergência, observou a Lusa.
Meia hora depois, uma ambulância cruzou também o local em direcção a Chimoio.
O comando da Polícia da República de Moçambique em Manica negou na passada noite o envolvimento da UIR no ataque à coluna da Renamo.
Para o presidente da Renamo, este incidente "é como se não tivesse acontecido nada", referindo que o diálogo com o Governo pode continuar e que não teme a morte.
Moçambique vive momentos de incerteza política, com o líder da Renamo a não reconhecer os resultados das últimas eleições gerais e a exigir a governação nas províncias onde reclama vitória, sob ameaça de tomar o poder pela força.



Lusa