2. - Se uma coisa é a idade relativamente nova da nossa democracia outra coisa são os preceitos que caracterizam uma democracia. A democracia não tem de ter características diferentes consoante se esteja em África, em Moçambique, na Europa ou em qualquer outro continente. A partir da altura em que um membro do executivo de um país oferece favores ou crédito a um familiar seu, isso se torna em conflito insanável de interesses. Não é por acaso que por exemplo Hillary Clinton, tendo votado como senadora dos EUA sobre uma aumento salarial para o cargo de Secretário de Estado de seu país, não virá a beneficiar do mesmo aumento em caso de ela ser aceite pelo Congresso para ocupar aquela pasta no governo americano para o qual o presidente eleito Barack Obama a apontou. Se há busca e investigação profunda das possíveis ligações financeiras internacionais do marido em relação à futura posição da esposa no governo, isso faz-se para evitar que os interesses americanos possam estar em risco de sofrer influências de entidades estrangeiras. Pelas mesmas razões Luísa Diogo tem de ir andando, entanto que primeira-ministra. A democracia não se faz no abstracto nem com proclamações. É algo que tem de ser vivido e sentido pelos cidadãos. Ela, Luísa Diogo, em virtude de ter participado na decisão de atribuição de crédito com fundos do tesouro nacional a uma empresa em que o marido é um dos accionistas, perdeu a independência e a imparcialidade para agir como membro do executivo nacional. Esse é um facto indesmentível. Isso enquadra-se naquilo que a ética democrática não permite. Por essa razão, pelo formalismo que também deve existir em democracia, a senhora Luisa Diogo já deveria ter-se demitido do cargo e nunca renovado a sua posição. Pode ser difícil de engolir. Mas quando se prende um antigo ministro em nome de alegado desvio de fundos governamentais, como é o caso de Almerino Manhenje, não se pode deixar de tocar em outras situações não menos melindrosas. Todos devem ser responsabilizados pelas suas decisões menos apropriadas independentemente do estatuto e do tipo de relações que existam entre integrantes de uma mesma administração e os que têm desavenças com outras alas. É em momentos cruciais como este que se vê a desenvoltura ou o contrário de um Chefe de Estado. É nestas pequenas grandes coisas que se vê se ele age em conformidade com o interesse nacional ou se bem pelo contrário age a olhar só para o seu umbigo. Dois pesos e duas medidas!?... Ou será que o presidente não impõe a ética democrática ao caso da PM que fez favores com dinheiros públicos ao seu marido, beneficiando ela própria disso, ainda que indirectamente, pelo facto do próprio PR também ter, no que respeita a fundos públicos, os seus rabos de palha bem compridos? Porque não age o Presidente? Proclamar que se pretende fazer uma descolagem consequente na governação deste país e ultrapassar os constrangimentos de um passado menos transparente, requer que se aprofundem as acções e isso não se compadece com alianças estabelecidas através da distribuição de favores financeiros a uns e outros. E muito menos cadeia para uns e palácio para outros. Não fica bem a quem dirige… Quando o PR não consegue separar o trigo do joio quem paga é o País e seu Povo. A maré de corrupção em que o país está mergulhado tem as suas origens na permissividade, tolerância e compadrios para com procedimentos ilícitos. O exemplo veio de cima e espalhou-se pela plebe. O mau exemplo, reconheça-se. Deixou-se de actuar e de combater os crocodilos nas margens do rio quando estes eram pequenos ou ainda estavam no ovo. Agora os mesmos estão crescidos e no meio do rio a comer-nos. “A comerem o sangue fresco da manada”… Aquela avalanche de criação de empresas privadas à custa da privatização do parque industrial estatal está-se revelando fatal para o país. Não digo isto pela privatização em si. Falo destas privatizações a favor de quem não foi capaz de manter as empresas estatais e os empregos e foi o que se viu depois a gerirem já como proprietários: a mesma ou pior desgraça ainda. Tudo tem origem naqueles dias. Aqueles tempos em que a corrupção não possuía oficialmente rosto. O que se tolerou provavelmente em nome do empoderamento negro e não só, hoje constitui um cancro social autêntico para o país em que a maioria vítima disso também é negra – à parte os preconceitos, entendam-me por favor. Se o compromisso dos nossos políticos é salvar Moçambique e devolver a dignidade e auto-estima ao seu povo então eles precisam de encorajar comportamentos correspondentes. Há que cortar umbilicalmente com aquilo que efectivamente contraria o combate pelo desenvolvimento. E isso faz-se com actos inequívocos. O exemplo tem de vir de cima. E “a pureza e justeza da causa” tem de ter sustentação acima. O exemplo tem de vir de cima. A imagem de quem está em cima não pode estar beliscada… Sabemos que vai ser muito difícil cortar com alguém que em determinada altura foi prestável para a concretização de ambições de muitos nomes sonantes da praça. Mas um país faz-se com sacrifícios. Um Chefe de Estado tem a responsabilidade de induzir justiça e promover equidade para todos. O caso de Moçambique não pode ser diferente. Os vínculos que o PR tem para com o seu partido não podem impedi-lo de agir em defesa da causa nacional. Se for parcial só ele pode acreditar que é o presidente de todos os moçambicanos… Alterações de vulto se impõem. Para já o Executivo e o próprio actual chefe de Estado têm de mostrar-se à altura dos acontecimentos. O chefe de Estado tem de dar o exemplo e não deixar margem para que se pense que ele age diferentemente quando se trata de filhos, de enteados e dos outros. O momento é de atacar sem quartel toda uma série de factores e situações conhecidas. Se não há coerência ninguém pode acreditar em farsas. E os partidos políticos, se pretendem continuar a ser a vanguarda necessária para a realização das aspirações dos moçambicanos têm de ser capazes de superar comportamentos comprovadamente lesivos para a causa nacional e situar-se de maneira clara ao lado dos moçambicanos. Não tem havido mudança, nem as pessoas vão às urnas porque as moscas têm sido sempre as mesmas. Já basta de mediocridade e de mentir aos moçambicanos. Vamos experimentar outras coisas em 2009. Não acham?
(Noé Nhantumbo) – CANAL DE MOÇAMBIQUE – 29.12.2008



