Monday, 9 March 2015

“Regime da Frelimo será julgado”

    
Afonso Dhlakama
O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, disse ontem, na província da Zambézia, que o regime da Frelimo será julgado pelas futuras gerações, por violar os princípios básicos da democracia no país.
Afonso Dhlakama falava em Mangue, no distrito de Milange, à margem da digressão que tem feito pelo  para promover a ideia da criação das regiões autónomas.
“Os nossos netos irão investigar quando é que entrou o multipartidarismo e vão descobrir quem são os verdadeiros ladrões”, perspectivou Dhlakama.



O País

Xiconhocas da semana

Armando Guebuza
 
 
Existe alguma categoria superior à de xico para que possamos condecorar o excelentíssimo antigo Chefe de Estado, Armando Guebuza? Este compatriota ofereceu um terreno paradisíaco a Paulo Scaroni, antigo administrador- -delegado da gigante italiana ENI, no Bilene (Gaza), a zona turística onde Guebuza também tem uma luxuosa casa de férias. O terreno é oferecido a Paolo Scaroni com a possibilidade de um DUAT (Direito de Uso e Aproveitamento de Terra) válido por 40 anos. Mas, Guebuza teve a tamanha coragem e estupidez de tomar tal atitude ou será que ele não estava no seu juízo perfeito? Que exemplo está a dar aos seus concidadãos um ex-Presidente Presidente da República que atribui benefícios desta natureza a um indivíduo praticamente estranho no território moçambicano? A gula deste antigo Alto Magistrado da Nação não tem limites e o seu comportamento já nos permite ter a ideia das falcatruas que andou a cometer quando era Presidente
.


A Verdade

VERGONHA PARA MOÇAMBIQUE INTEIRO


O ex-diretor da Polícia de Investigação Criminal (PIC), António Frangoulis disse sábado à imprensa, falando a margem da marcha realizada para repudiar o assassinato do professor Catedrático da UEM e que "penso há todas as condições para se chegar aos autores, se imperar a boa vontade. Mas, tal como estamos habituados - e a sensação não é só minha, é de milhões de moçambicanos -, nada vai acontecer. Se acontecer, melhor ainda, vai ser a primeira vez".
"Nem parecemos um Povo que já deu passos gigantescos desde a Constituição de 1990 para cá", referiu António Frangoulis, ex-deputado da Frelimo e candidato não eleito pelo MDM nas últimas legislativas.
"Lamentavelmente o senhor Calado e a sua turma decidiram que tinham de calar", comentou sábado António Muchanga, porta-voz da Renamo, no início da marcha em memória de Cistac, acrescentando que esta "é uma manifestação necessária e que dignifica o Povo moçambicano".
Por seu turno, o chefe da bancada do MDM na AR sublinhou que "ninguém se deve calar" e que esperava ver "toda esta dor e tristeza transformada numa fonte de energia e todos continuem a sua luta".
"O assassínio do professor Cistac é a pior vergonha que nós podemos ter como moçambicanos", disse João Pereira, igualmente professor de Ciência Política da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), sublinhando que a acção da última terça-feira revelou uma “cultura de  intolerância política muito forte” em Moçambique e que “já estávamos num momento crítico, agora, com este acontecimento, a situação agravou-se".
O Presidente "Filipe Nyusi tentou criar uma abertura para o diálogo, que não existia. Criou um certo balão de oxigénio, mas,
neste momento, esse balão evaporou e estão criadas condições para uma instabilidade muito mais forte", afirmou João Pereira.
De acordo com João Pereira, "teremos menos de três meses para resolver, de uma vez por todas, a tensão política no país. O
problema é complexo, o líder da Renamo diz agora que já nem precisa submeter a proposta ao parlamento. O que isto representa
para o processo da estabilidade política e económica do país?", questionou o politólogo, apelando aos actores da política
moçambicana para que coloquem os interesses do Povo acima dos partidários pois, o assassínio de Cistac "significa matar a capacidade crítica da sociedade e, ao matar essa capacidade, infelizmente, matase também o desenvolvimento do próprio país"
IVONE SOARES
"Depois de terem matado [o jornalista] Carlos Cardoso, em 2000, pensávamos que tínhamos ultrapassado as barreiras contra a liberdade de expressão e de imprensa", disse Ivone Soares, chefe da Bancada da Renamo na Assembleia da República(AR), acrescentando que 15 anos mais tarde, "existem ainda pessoas que acham que matando se silenciam as vozes que lutam e clamam pela justiça."
 UEM
Para Eduardo Chiziane, um dos docentes que trabalhou com Gillles Cistac em vida, no seu improviso afirmou que “nós estamos entristecido e sentimonos órfãos intelectuais” .Chiziane observou ainda que pela simplicidade, construiu sua casa no subúrbio e era um grande apreciador de rock, que representa liberdade. Tinha dentro de si alguma coisa como uma criança pura, um homem que tinha apegfo pela crítica e rigor.
Era uma pessoa de trato fácil, simples, sorridente, generosa e vulgar”
Por seu turno, o Presidente do Núcleo dos Estudantes da Faculdade de Dureito da Universidade Eduardo Mondlane(UEM), Absalão Romão prometeu que “daremos continuidade a obra de Professor Gilles Cistac. Continuaremos a luta pela liberdade dos cidadãos
e convidou as pessoas para “apoiar este desiderato e este designo”.

PARLAMENTO JUVENIL
Segundo Salomão Muchanga, Presidente do Parlamento Juvenil,”a liberdade é o cérebro de todas as sociedades que se pretendem
democráticas, o fim prioritário e meio principal do desenvolvimento”.
LDH
A Presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos disse na sua intervenção no último sábado na marcha em memória do Professor Gilles Cistac que “depois de o constitucionalista e académico, Gilles Cistac, ter dito publicamente que as exigências da RENAMO de formação dzas regiões ou províncias autónomas, bem formuladas, têm enquadrameto legal à luz da Constituição
moçambicana começaram a circular nas redes sociais e nos órgãos de informação controlados pelo regime vários textos acusando o académico de incitar a violência e divisão do País, para além de distorcer o direito por defender que a nossa Constituição abre espaço para a existência de regiões ou províncias autónomas”.
Conforme Maria Alice Mabota, “Cistac é barbaramente assassinado num momento em que se preparava para apresentar uma queixa junto da Procuradoria Geral da República contra os seus detractores no Facebook” e citando o Cistac, “admito que as pessoas discordem das minhas ideias, do meu pensamento ou das minhas opiniões. Porém, não aceito que as pessoas independentemente da relação que tenham commigo, apareçam publicamente a distorcer as minhas ideias com o objectivo de confundir as opinião pública”, fim da citação.
Neste contexto, de acordo com Alice Mabota, “não descarta a hipótese de o assassinato de Gilles Cistac ter uma ligação com o seu posicionamento recente considerando uma aafronta a um certo interesse político reistente ao diálogo” e “se sim, é uma acção criminal que atenta violentamente à liberdade de opinião e de expressão e, de todas as formas condenável”.
Em suma, “tais sectores ortodoxos quererão com este acto nojecto e selvagem, pôr em causa a algumas expectativas em torno do novo Presidente da República”e com efeito, “está posta a prova a nova governação de Filipe Nyusi que deverá desde já, mostrar vontade e coragem suficientes para eliminar todos os focos de violação dos Direitos Humanos que ainda se manifestam no nosso País”.

ROSEMELE CISTAC.
A filha de Gilles Cistac pediu aos estudantes da Faculdade de Direito que como homenagem ao pai que “continuem Maputo.com a força e trabalho. Mostrem mesmo o que o meu Pai vos ensinou”, umm pedido feito no final da marcha em homenagem ao Cistac que teve lugar no último sábado em Maputo.
FONTE: Vertical

É O FEITIÇO QUE SE VOLTA CONTRA OS FEITICEIROS E OS OPÕE UNS CONTRA OS OUTROS

 
O subterfúgio que consiste em desviar a opinião pública do debate dos problemas re...ais que dificultam a convivência pacífica dos moçambicanos, recorrendo à atribuição da paternidade das reivindicações dos partidos de oposição à “mão externa invisível” – que até bem pouco tempo era uma característica singular do Coronel Sérgio Vieira – está a ganhar terreno no seio do partido Frelimo e dos seus exponentes académicos.
A seguir às acusações de ingratidão pela hospitalidade e de conspiração contra a soberania nacional, feitas ao Professor Gilles Cistac, pelo secretário para a mobilização e propaganda e porta-voz do partido Frelimo, Damião José, autores “anónimos”, sobejamente conhecidos, começaram a infestar as redes sociais com mensagens que atribuem a paternidade das reivindicações de Afonso Dhlakama e da Renamo ao Embaixador dos Estados Unidos de América (EUA), Douglas Griffths, em conivência com as diplomacias alemã, britânica, italiana, francesa e portuguesa.
Antecipando a proposta de Anteprojeto de Lei sobre as Regiões (ou Províncias) Autónomas, a ser apresentada pela Renamo na Assembleia da República (AR) – conforme o acordado no histórico encontro entre o Presidente da República, Filipe Nyusi, e o líder da Renamo - os propagandistas ao serviço do partido no governo, em vez de animar o debate sobre a pertinência ou impertinência das tais reivindicações, mostram-se preocupados em desacreditar a Renamo e Afonso Dhlakama, apresentando-os como “cavalos de troia” dos interesses económicos dos americanos e dos europeus.
Agindo desde modo, revelam-se propagandistas da segunda classe. Ainda não descobriram que, para não soar absurda, a construção duma mentira deve conter uma certa dose de verdade. Esta propaganda nem sequer qualifica para ser considerada uma mentira porque é absurda. Basta notar que, contrariamente aos princípios básicos da ética política vigentes na União Europeia (UE) e nos EUA, em todos os cinco pleitos eleitorais realizados na história da democracia moçambicana, as Missões de Observação Eleitoral (MOE) daquelas potências ocidentais foram repetidamente constrangidos a declarar que as eleições tinham sido justas e transparentes, e que as irregularidades não tinham determinado o resultado final, tudo isso porque precisavam de tutelar os próprios interesses económicos garantidos, não pelas leis moçambicanas, mas pela continuidade da governação da Frelimo.
Julgando a partir deste posicionamento, pode-se concluir que enquanto a prioridade da política externa dos países ocidentais, em Moçambique (e em muitos outros países do continente africano), continuar a priorizar o controlo privilegiado das reservas de matéria prima para o aprovisionamento das próprias indústrias e, tal garantia depender, não das leis mas dos acordos celebrados com a elite do partido no poder, com as empresas controladas pela elite ou pelos membros das suas famílias, é improvável que um diplomata ocidental possa conceber qualquer projecto ou lobbying capaz de potenciar o capital político dos partidos da oposição.
A UE e os EUA precisam da Renamo e dos restantes partidos de oposição só para garantir a regularidade da realização da farsa teatral das eleições. Mas quando chega o momento das negociações e conjugações do capital monetário ocidental com o capital político local, em vista das concessões e apropriações dos jazigos de rubi, das areias pesadas, de carvão mineral ou do grande negocio de gás natural, ou das terras aráveis, a oposição, a Renamo em particular, e o resto dos moçambicanos, não servem para nada e nem devem ser informados de todos os contornos dos acordos celebrados. Os únicos que servem são os vértices do partido no poder. De facto, a expropriação de cerca de 1,5 milhões de hectares, a cerca de 4,5 milhões de camponeses, no corredor de Nacala, feita a favor das empresas portuguesas como o Grupo Amorim, a Rio Forte, a Miguel Pais de Amaral, não foi concordada com a Renamo e os parceiros beneficiários (a Mozaco, a Agro Alfa, o Moza Banco, o Banco Único, a AgroMoz, o Corredor Agrom, etc.) são empresas controladas, não pelos membros da Renamo, mas pelo presidente e outros altos dirigentes do partido Frelimo, ou pelos membros das suas famílias.
O mesmo se pode dizer do escandaloso negocio sobre EMATUM que o governo francês não precisou da Renamo para obtê-lo e, se se considera que esta empresa foi avalizada positivamente pelo Estado moçambicano um crédito internacional de 850 milhões de Euros, sem sede, sem direcção e sem infraestruturas, torna-se evidente que o único garante da dívida contraída, quer nos EUA como na UE, é a continuidade do governo da Frelimo.
E, para sacrificar o interesse nacional, construindo uma plataforma flutuante de gás natural liquefeito (LNG) no Rovuma, contra a óbvia necessidade de construí-la em terra, para favorecer a sua ligação com a economia moçambicana, o governo italiano e o grupo petrolífera ENI não precisaram de negociar com Afonso Dhlakama. Negociaram com o presidente do partido no poder e é a ele que, em gesto de reconhecimento pelos "serviços" prestados, cederam parte dos seus interesses nos novos blocos de petróleo.
O mau e empobrecedor vício de evitar debater questões pertinentes, privilegiando os sofismas está a tomar de assalto a nossa classe intelectual. Por conseguinte, alguns acadêmicos e analistas políticos acabam de lançar, por exemplo, uma nova cruzada que, ignorando as razões pelas quais o líder da Renamo percorre o País fazendo comícios, concentram as suas atenções na mera justificação do desdobramento dos quadros seniores da Frelimo pelas províncias, apresentando-o como exercício do direito da liberdade de expressão, à semelhança do que faz Afonso Dhlakama. Facto está que o périplo do líder da Renamo pelas províncias de Centro e Norte não tem como objetivo o exercício do direito de liberdade de expressão, é um protesto contra as irregularidades que caraterizaram as eleições de 15 de Outubro de 2014. Por uma questão de coerência intelectual é obrigatório partir deste dado, passando pelo encontro realizado entre o Presidente Nyusi e o líder da Renamo, para avaliar a legitimidade ou ilegitimidade do desdobramento dos quadros seniores da Frelimo pelas províncias, negando publicamente a “governação autónoma”, exigida pela Renamo.
Há três semanas atrás publiquei, neste mesmo espaço, ed. 290, de 04 de Fevereiro de 2015, um outro artigo no qual - contrariamente à propaganda pontificada pelos dirigentes do partido Frelimo e difundida pela imprensa controlada pelo mesmo partido - mostrava a falsidade e a hipocrisia das acusações que se fazem pesar sobre o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, segundo as quais as sua reivindicações atentam contra a Constituição da República de Moçambique e incitam a divisão do País. Observando que as reivindicações de Dhlakama não podiam, de forma alguma, incitar a divisão do País - porque ele foi já dividido pela desastrosa governação da Frelimo - mostrei também que a divisão real não era entre o Sul e o Centro-Norte mas entre os incluídos e os excluídos.
O objetivo do presente artigo é de salientar o erro de cálculo dos "feiticeiros", mostrando que o seu "feitiço" não só se volta contra eles mesmos, mas também os priva da capacidade de distinguir os amigos dos inimigos e torna-os semelhantes a dementes de armas em punho, decididos a disparar indiscriminadamente, atingindo, em primeiro lugar, os próprios aliados.
A epopeia das Eleições Gerais de 15 de Outubro de 2014, que parecia ter terminado com a atribuição da vitória (não confirmada pelos respectivos editais) ao partido Frelimo e o seu candidato, Felipe Nyusi, na verdade ainda não teve o seu desfecho. O fantasma de fraude eleitoral continua a atormentar o Presidente proclamado, Felipe Nyusi, e faz com que a sua prioridade seja a conquista da legitimação que não conseguiu obter das urnas. O vencedor real das eleições fraudulentas de 15 de Outubro não foi Nyusi. Foram todos aqueles que se desdobraram para forjar aquela vitória, contra a vontade explícita dos eleitores. Nyusi só viria a começar a sua batalha depois da sua tomada de posse.
Embora no primeiro momento parecesse que o interesse dos mentores da fraude coincidisse com os interesses de Nyusi, em breve tempo começou a manifestar-se o erro do cálculo: enquanto, para Nyusi, é imperativo negociar com as forças de oposição (é a condição sine qua non) para legitimar-se, a agenda dos que o colocaram na presidência da República é contrária a qualquer tipo de entendimento com a oposição ou de reforma de administração pública; ela privilegia o aniquilamento de todas as forças políticas de oposição e o controlo de tipo neopatrimonial das instituições públicas, para garantir a impune delapidação do erário público. Daí o desencontro (destinado a agravar-se) entre os caminhos percorridos por Nyusi e os percorridos pela CP do partido.
Tenho impressão que o erro foi de base: os “libertadores” da nossa “pátria amada” concentraram todas a suas energias e forças na libertação da nação e esqueceram-se de libertarem-se, eles mesmos, do jugo colonial. De facto, a economia colonial tinha sido pensada e estruturada em função da exploração da mão de obra e dos recursos existentes, para o enriquecimento da metrópole. Os libertadores de Moçambique esqueceram-se de se libertar desta lógica. Em parceria com os mesmos europeus e americanos que hoje os acusam de incitar Dhlakama a rebelião, adoptaram os mesmos esquemas da economia colonial, em função do próprio enriquecimento. É evidente, portanto, que não há nenhuma “mão externa” na questão política moçambicana. As mesmas razões que levaram os libertadores a combater o colonialismo português são as mesmas que levam os partidos de oposição a protestar contra a governação da Frelimo.

Alfredo Manhiça, Canal de Moçambique

Moçambique: Atentado contra Cistac também apontado contra entendimentos Nyusi/Dhlakama.


 
Pesquisa e análise

1 . As reacções ao assassinato de Gilles Cistac por parte de embaixadas em Maputo destinaram-se a “confortar” o Governo e o Presidente, Filipe Nyusi, em particular, face a uma facção interna alegadamente implicada numa ocorrência interpretada como tendo visado prejudicar as suas políticas de entendimento com a Renamo.
As embaixadas dos EUA e França, assim como a representação da União Europeia, tomaram posição através de comunicados públicos – em geral de condenação e clamando por um apuramento de responsabilidades.
Registaram-se, porém, diligências mais discretas de outras embaixadas junto das autoridades, nomeadamente dos países nórdicos.
A reunião convocada pelo MNE, Oldemiro Baloi, com corpo diplomático, 04.Mar, foi por sua vez uma iniciativa ditada por previsões/ilações internas segundo as quais o atentado e suas repercussões poderiam embaraçar o Governo/comprometer a imagem do Presidente e gerar desconconfianças no êxito dos seus esforços de estabilização política.
A atitude das embaixadas também não foi estranha a um ambiente interno de condenação do sucedido. Entidades como o CIP (Centro de Integridade Pública), IESE, (Instituto de Estudos Económicos e Sociais), WLSA (Mulheres e Leis na África Austral), OMR (Observatório do Meio Rural), pronunciaram-se em relação ao caso.
2 . Gilles Cistac, era considerado uma figura-chave no processo político e jurídico aberto com o entendimento entre Filipe Nyusi e Afonso Dhlakama (AM 913), nos termos do qual a Renamo se obrigou a apresentar à Assembleia da República (AR) um ante-projecto tendente à criação de regiões ou províncias autónomas.
A saber:
- Era de parecer de que a actual constituição de Moçambique não impede a criação de regiões ou províncias autónomas; baseava-se em argumentação estritamente jurídicoconstitucional.
- A Renamo estaria a contar com o seu contributo técnico para a formulação do ante-projecto a submeter ao parlamento.
- O Presidente, Filipe Nyusi, também contaria com os seus préstimos para o aconselhar em relação a reformas constitucionais.
No seguimento dos seus pronunciamentos favoráveis à criação das regiões ou províncias autónomas, Gilles Cistac passou a ser objecto de críticas da parte de comentadores, assim como de ameaças nas redes sociais, algumas das quais de cunho rácico – umas e outras apresentando-o como ligado à Renamo (assessor jurídico).
A qualidade de “persona non grata” que adquiriu nos referidos meios da Frelimo e do regime, tinha antecedentes.
Algumas entrevistas e declarações de circunstância acerca das tensões políticas que o país conhece desde Out.2013, já tinham dado azo a reacções de desdém, agravadas pelo facto de ser visto como um “traidor”.
3 . Entre os rumores que circulam em meios políticos e liberais de Maputo acerca da autoria do crime e a que interesses o mesmo aproveitou, a mais insistente é que aponta para uma ala da Frelimo, vulgo radical, contrária a um diálogo em condições de igualdade com a Renamo e à criação das regiões ou províncias autónomas.
A referida ala é vulgarmente conotada com o ex-Presidente, Armando Emílio Guebuza (AEG). Em meios que o dão como inclinado a exercer de forma tranquila a actual faceta da sua vida política, líder da Frelimo (AM 918), considera-se “desajustada” a sua alegada implicação em acções de conspiração.
A má reputação de AEG parece provir, em parte, do G-40, um grupo informal de influência e pressão, com ele identificado. Tem acesso a grandes meios de comunicação social e a agremiações da sociedade civil. Secundou as críticas à ideia da criação das regiões autónomas, a que acrescentou desabonatórias insinuações acerca de Gilles Cistac.
Os animadores do G-40, jornalistas e professores, eram conselheiros de AEG como Presidente. Gilles Cistac, considerando-se alvo de acções de assassinato de carácter por parte dos comentadores do G-40, em especial Edson Macuácua e Gabriel Muthisse, chegou a apresentar queixa contra os mesmos na Procuradoria Geral da República.
A intensidade das especulações/rumores comprometendo a referida ala da Frelimo com o atentado que vitimou Gilles Cistac, gerou embaraços presentes em factos como um comunicado da Comissão Política do partido, repudiando as “acusações gravíssimas” ou comentários públicos de figuras do G-40 alvitrando outras hipóteses.
4 . A alegada ligação do atentado a interesses da ala radical Frelimo é vista como “excessivamente óbvia” – argumento duplamente invocado para a considerar tão improvável como provável. Em caso de improbabilidade, as alternativas apontadas consistem em implicar a Renamo ou o crime organizado.
O facto de ter sido um branco o autor dos disparos certeiros que provocaram a morte a Gilles Cistac é usado para admitir um de ambos os cenários. Para uma acção do interesse da Renamo, o branco seria um sul-africano (boer) contratado; no caso de se tratar de um ajuste de conta do crime organizado, seria um paquistanês ou libanês.
Decomposição breve de ambas as hipóteses, conforme as especulações:
- Gilles Cistac aproximou-se da Renamo em fins de 2014, na esteira do seu afastamento do regime e da Frelimo; recentemente a Renamo havia descoberto que o fizera movido por motivações ocultas.
- Gilles Cistac estaria a efectuar investigações destinadas a identificar agentes e objectivos dos raptos ocorridos no país.
5 . Gilles Cistac, francês de nascimento, chegou a Moçambique em 1993, como o estatuto de cooperante.
Trabalhou nos ministérios da Administração do Estado, Defesa Nacional e Turismo e também no Tribunal Administrativo e no grupo parlamentar da Frelimo na AR.
Em 2010, por proposta de AEG, foi-lhe atribuída a nacionalidade moçambicana.
O motivo aparente da sua clivagem com o regime, em 2014, foi uma recusa do Governo em propô-lo para o Tribunal Africano dos Direitos do Homem. A decisão terá sido baseada em argumentos relacionados com aspectos considerados controversos da vida e da personalidade de Gilles Cistac.




in Africa Monitor de 5/3/2015

Sunday, 8 March 2015

Líder parlamentar da Renamo sugere que Frelimo evite o pior em Moçambique



*** Serviços vídeo e áudio disponíveis em www.lusa.pt ***

Maputo, 07 mar (Lusa) - A líder parlamentar da Renamo, principal partido de oposição em Moçambique, sugeriu hoje à bancada maioritária da Frelimo na Assembleia da República que aprove o projeto da criação de regiões autónomas, como forma de evitar o pior no país.
"Essa é uma forma clara de evitar o pior", declarou à Lusa Ivone Soares, considerando que se a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) "quiser que em Moçambique haja realmente estabilidade, vai aprovar a proposta da Renamo [Resistência Nacional Moçambicana]".
O presidente do maior partido de oposição, Afonso Dhlakama, admitiu, num comício na semana passada no norte do país, abdicar da aprovação das regiões autónomas no parlamento e impô-las pela força, avisando que tem meios para o conseguir.
Dhlakama envolveu também "radicais da Frelimo" no assassínio do constitucionalista moçambicano de origem francesa Gilles Cistac, na terça-feira no centro de Maputo, e cujas posições jurídicas estavam a ser usadas pela Renamo na sua exigência de criação de regiões autónomas no centro e norte do país.
"O presidente da Renamo entende que, se a Frelimo continuar a intimidar o povo, assassinando pessoas de bem e que acham que pela via legal há cobertura legal para a Renamo criar regiões autónomas, podemos até ignorar a submissão do projeto na Assembleia da República e tomarmos o poder à força", afirmou hoje Ivone Soares, à margem de uma marcha em memória de Cistac e que acabou por ser interrompida por uma força policial de elite.
A líder parlamentar da Renamo ressalvou que o seu partido continua a trabalhar no projeto para se encontrar "uma solução pela via pacífica", não se comprometendo com uma data para a apresentação do documento na Assembleia, embora garanta que será em breve.
A Renamo contesta os resultados das eleições gerais de 15 de outubro, alegando que foram fraudulentos, e propõe-se governar, através da criação de regiões autónomas, nas províncias em que oficialmente ganhou.
O novo Presidente da República, Filipe Nyusi, avistou-se duas vezes com Dhlakama para discutir a proposta, convidando a Renamo a submetê-la ao parlamento, dominado pela Frelimo, que já sinalizou um provável chumbo do documento.
"Não podemos continuar a colocar as populações do centro e norte reféns das decisões políticas de meia dúzia de dirigentes da Frelimo que vivem no sul", defendeu hoje Ivone Soares, insistindo que "as instituições do Estado estão a trabalhar com pessoas não reconhecidas pelo povo, porque não foram legitimadas através do voto".
Segundo a líder da bancada da Renamo, "existe uma assimetria regional clara em Moçambique há 40 anos", em que "o centro e norte produzem e toda riqueza vem beneficiar meia dúzia de barrigudos do sul do país".
O homicídio de Cistac "acontece num momento sensível" e "agudizou o clima de tensão em moçambique", afirmou a deputada, e indica também que "o pensamento autónomo está ser acorrentado" e que "o crime domina a posição das instituições".
"Depois de terem matado [o jornalista] Carlos Cardoso, em 2000, pensávamos que tínhamos ultrapassado as barreiras contra a liberdade de expressão e de imprensa", assinalou Ivone Soares, que conclui, 15 anos mais tarde, "existirem ainda pessoas que acham que matando se silenciam as vozes que lutam e clamam pela justiça".


Lusa

Daviz diz que violação de direitos humanos “satisfaz agendas particulares”

     
Direitos Humanos em Moçambique
O Movimento Democrático de Moçambique (MDM) celebrou o sexto aniversário e, na ocasião, Daviz Simango lançou um apelo à paz e à preservação dos direitos humanos.
Na opinião do líder político, os direitos humanos são sistematicamente violados em Moçambique para satisfazer agendas particulares.
“Os Direitos Humanos em Moçambique são sistematicamente violados para satisfazer as agendas dos particulares”, disse Simango.


O País

Saturday, 7 March 2015

Ex-diretor da polícia criminal moçambicana duvida que assassinos de Cistac sejam capturados



** Serviços vídeo e áudio disponíveis em www.lusa.pt ***

Maputo, 07 mar (Lusa) - O ex-diretor da Polícia de Investigação Criminal (PIC) moçambicana António Frangoulis disse hoje à Lusa duvidar que os autores do assassínio do constitucionalista Gilles Cistac sejam capturados, embora haja todas as condições para esclarecer o caso.
"Penso que há todas as condições para se chegar aos autores, se imperar a boa vontade. Mas, tal como estamos habituados - e a sensação não é só minha, é de milhões de moçambicanos -, nada vai acontecer. Se acontecer, melhor ainda, vai ser a primeira vez", declarou António Frangoulis, à margem de uma marcha realizada hoje em Maputo em memória do académico, assassinado na terça-feira por desconhecidos no centro da capital moçambicana.
O criminalista recebeu a notícia do homicídio do antigo colega na Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane com "dor e consternação", considerando que se tratou de "um golpe duro para democracia e para a civilização" e até uma "regressão" nos progressos alcançados nos direitos humanos e cívicos.
"Nem parecemos um povo que já deu passos gigantescos desde a Constituição de 1990 para cá", comentou António Frangoulis, ex-deputado da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, partido no poder) e candidato não eleito pelo MDM (Movimento Democrático de Moçambique, segunda maior força de oposição) nas últimas legislativas.
O constitucionalista moçambicano de origem francesa Gilles Cistac foi assassinado a tiro por desconhecidos na terça-feira no centro de Maputo.
O académico era um dos principais especialistas em assuntos constitucionais de Moçambique e, em várias ocasiões, manifestou opiniões jurídicas contrárias aos interesses do Governo e da Frelimo.
Em entrevistas recentes, Cistac considerou que não há impedimentos jurídicos à pretensão da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) de criar regiões autónomas no país, contrariando declarações opostas de quadros da Frelimo.
Na semana anterior ao assassínio, o académico anunciara que ia apresentar uma queixa contra um homem que se identificava no Facebook pelo pseudónimo de Calado Kalashnikov e que acusou Cistac de ser um espião francês e de ter obtido a nacionalidade moçambicana de forma fraudulenta.
"Lamentavelmente o senhor Calado e a sua turma decidiram que tinham de calar", comentou hoje António Muchanga, porta-voz da Renamo, no início da marcha em memória de Cistac, acrescentando que esta "é uma manifestação necessária e que dignifica o povo moçambicano".
"Ninguém se deve calar", disse por sua vez, no mesmo local, Lutero Simango, líder parlamentar do MDM, que espera ver "toda esta dor e tristeza transformada numa fonte de energia" e que "todos continuem a sua luta".
Não era visível hoje nenhum dirigente da Frelimo na marcha convocada pelo Núcleo de Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane e por organizações da sociedade civil, embora o partido no poder tenha condenado publicamente o crime e negado qualquer envolvimento, como fora sugerido pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, e por um semanário local.
Ao fim de mais de duas horas, a marcha de centenas de pessoas foi interrompida por uma força policial de elite, altamente armada e munida de equipamento antimotim, alegando falta de autorização para o percurso final da manifestação.

Lusa

FIR interrompe marcha em memória de Gilles Cistac

A marcha de protesto contra o assassínio do constitucionalista Gilles Cistac foi hoje interrompida em Maputo pela Força de Intervenção Rápida (FIR), alegando falta de autorização para o percurso final da manifestação.

A marcha foi travada a meio da manhã por cerca de 30 homens da FIR, altamente armados e munidos de equipamento anti-motim, que bloquearam a avenida Kenneth Kaunda, no centro da capital, quando centenas de pessoas se dirigiam para a praça da Paz, a poucos quilómetros do local.
Cerca das 10:30, os manifestantes começaram a dispersar e, apesar de palavras de revolta contra a presença de "um exército", não se registou nenhum episódio de violência.
"Não se aborreçam pela atitude arrogante do presidente do município, ele segue aquilo que o mandam fazer", declarou aos manifestantes, a curta distância do cordão policial, Alice Mabota, presidente da Liga dos Direitos Humanos, uma das organizações promotoras da marcha, acrescentando que "a liberdade vai triunfar, tal como o colonialismo foi derrotado".
Alegadamente, o Conselho Municipal de Maputo apenas autorizara o pedido da marcha apresentado pelo núcleo de estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, cujo percurso terminava nas instalações do estabelecimento de ensino, e negou a solicitação das organizações da sociedade civil e que terminava o evento na praça da Paz.
"É de lamentar que a polícia tenha sido mobilizada, fortemente armada, para atacar os manifestantes", disse à Lusa Ivone Soares, líder parlamentar da Renamo, uma das figuras políticas de oposição que respondeu à convocação da manifestação em memória do jurista.
"Sendo uma marcha pacífica e em nome das liberdades fundamentais, as autoridades deviam até juntar-se, mostrando sua indignação pelo recrudescimento da criminalidade em Moçambique", afirmou a dirigente política, concluindo que "a barreira da força especial acaba mostrando que não estão preocupadas com a liberdade de expressão".
Centenas de pessoas iniciaram às 7:45 uma marcha no centro de Maputo, em memória constitucionalista de origem francesa, no local onde o académico foi abatido na terça-feira a tiro por desconhecidos, num crime que assumiu dimensões políticas devido às suas posições jurídicas desfavoráveis ao partido no poder.
A marcha, promovida por organizações da sociedade civil e pelo núcleo de alunos da Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane, da qual Cistac era docente, foi encabeçada pela filha do constitucionalista e seguida por académicos, estudantes, membros do corpo diplomático e dirigentes da oposição, sob forte vigilância policial.
Os manifestantes traziam 't-shirts' pretas com as palavras "je suis Cistac" e gritavam "eu também tenho opinião", "quem será o próximo?" e "não tenho medo", dirigindo-se para a Faculdade de Direito, cujo muro exterior está coberto desde terça-feira com flores e cartazes em memória de Gilles Cistac.
"Podem matar quantas pessoas quiserem, Moçambique tem 25 milhões de habitantes e os intelectuais vão-se produzindo. Nunca vão calar a liberdade", declarou à Lusa a presidente da Liga dos Direitos Humanos, acreditando que "um dia vai haver justiça"
A Renamo implicou directamente "radicais da Frelimo" no homicídio de Cistac, mas o partido no poder já negou o envolvimento num crime que continua por esclarecer.
Na semana anterior ao assassínio, o académico anunciara que ia apresentar uma queixa contra um homem que se identificava no Facebook pelo pseudónimo de Calado Kalashnikov e que acusou Cistac de ser um espião francês e de ter obtido a nacionalidade moçambicana de forma fraudulenta.

Capas de semanarios moçambicanos


Mediador: Frelimo devia ter travado “ódio racista” contra Cistac

 

 O académico moçambicano Lourenço do Rosário, mediador do diálogo entre a Frelimo e a Renamo, considerou hoje que o partido no poder devia ter travado o "ódio racista" contra o constitucionalista Gilles Cistac, assassinado na terça-feira em Maputo.
"O meu partido, quando digo meu partido sabem a que partido me refiro, porque sou da Frelimo, devia ter parado com o ódio racista que se incentivou contra o professor Gilles Cistac", afirmou Rosário, reitor da Universidade A Politécnica, numa declaração que antecedeu a oração de sapiência de abertura do ano letivo neste estabelecimento.
O académico afirmou que há, moralmente, uma relação de causa-efeito entre os comentários negativos feitos por analistas políticos afetos à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e a morte do constitucionalista Gilles Cistac, de origem francesa, adiantando ainda que o jurista terá sido assassinado pelos seus posicionamentos públicos.
"Vimos os 'cachorros' a defender que algumas pessoas, curiosamente todas elas brancas, deviam ser expulsas do país ou mesmo eliminadas", disse Lourenço do Rosário.
Na opinião do académico, a morte de Gilles Cistac não foi engendrada ao mais alto nível do partido no poder, mas admitiu a possibilidade de um militante "mais zeloso" ter ordenado ou executado o assassínio.
"Não acredito que tenha havido uma reunião do partido que tenha programado isto, que um dirigente do meu partido tenha mandado matar o professor Gilles Cistac", afirmou Lourenço do Rosário.
O académico defendeu a necessidade de as universidades moçambicanas e a classe intelectual do país manifestarem a sua revolta contra o atentado, evocando a máxima "quem não se sente, não é filho de gente".
Lourenço do Rosário é um dos mediadores das negociações entre o Governo e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), desencadeadas em finais de 2013, para restaurar a estabilidade política no país.
Cistac foi assassinado a tiro na terça-feira de manhã por desconhecidos, à saída de um café no centro de Maputo.
O ministro do Interior moçambicano, Basílio Monteiro, disse hoje que a polícia moçambicana está a colaborar com a Polícia Internacional (Interpol) e com as polícias dos países da África Austral para a localização dos autores do homicídio do constitucionalista.
Gilles Cistac era um dos principais especialistas em assuntos constitucionais de Moçambique e, em várias ocasiões, manifestou opiniões jurídicas contrárias aos interesses do Governo e da Frelimo.
Em entrevistas recentes, Cistac considerou que não há impedimentos jurídicos à pretensão da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, principal partido da oposição) de criar regiões autónomas no país, contrariando declarações opostas de quadros da Frelimo.
Na semana passada, o académico anunciou que ia processar um homem que, através da rede social Facebook e com o pseudónimo Calado Kalashnikov, acusou Cistac de ser um espião francês que obteve a nacionalidade moçambicana de forma fraudulenta.
O Governo moçambicano considerou o atentado "um ato macabro" e espera que os autores sejam "exemplarmente punidos", enquanto o líder da Renamo disse que o académico foi vítima de "radicais da Frelimo" e o MDM (Movimento Democrático de Moçambique, terceira maior força política do país) declarou que se tratou de um assassínio por encomenda.
A Frelimo reagiu na quarta-feira negando envolvimento no crime e considerando que as "acusações gravíssimas" de que foi alvo são "manobras dilatórias" para prejudicar a governação e dividir o país.


 
 

Marcha em Maputo


Friday, 6 March 2015

Quando o assassino é o juiz!

 O que me impressiona em Moçambique não é capacidade do partido Frelimo em fazer mal às pessoas. Endenta-se aqui o mal como um circunscrito acto de torturar e até assassinar, que é a subdivisão máxima da maldade e o muro mais alto da estupidez humana. Não me impressiona e já nem assusta o facto de eu saber que a Frelimo assassina pessoas e depois envia condolências às famílias enlutadas. Não é isso que me impressiona. Nem tão pouco me causa mossa o facto de eu saber que a qualquer altura também posso ser vítima de uma encomenda de morte, com retoques disfarçantes do tipo atropelamento, bala perdida ou mesmo acidente de viação. Estas possibilidades não me assustam. Não me assusta a ideia de saber que estamos numa coutada em que o pensamento próprio paga-se com a vida própria. Isso também não me assusta. Tal como não me causa o mínimo desconforto o facto de eu saber que o que eles querem é que todos pensemos segundo a estupidificante lógica de rebanho, em que a directiva máxima é reproduzir e seguir. Tudo isso não me assusta.
Provavelmente o estimado leitor já esteja com os nervos à flor da pele perguntando a si mesmo: “Mas, afinal, qual é o acto susceptível de causar um valente susto a este fulano?”. Pois então lhe digo e apresento desde já as minhas indulgências pela provável decepção. O que me assusta, a mim, é a incomum capacidade que todos nós temos de nos esquecermos das coisas facilmente. Isso, sim, me causa o maior medo. Esta espécie de amnésia colectiva que nos tolda o discernimento e reduz os acontecimentos que vivemos a autênticos “take-aways”. Assusta-me o nosso esquecer colectivo. E é isso que os algozes usam para inspirar e anexar confiança aos seus próximos actos macabros. Esquecemo-nos facilmente, e para eles ainda bem, porque o esquecimento colectivo ou singular dá lugar à repetição de um acto passado como sendo novo, com o condão de suscitar uma reacção do passado, mas que, devido ao esquecimento, parece nova.
O refrão de exigência colectiva de justiça que estamos a ouvir desde a manhã de terça-feira – quando, já crivado de balas, o professor catedrático Gilles Cistac era contabilizado como coeficiente de um Estado dirigido por criminosos – é fruto dessa amnésia colectiva. E há uma pergunta básica que sustenta toda esta tese: “A quem estamos a pedir justiça?”. A resposta sincera a esta questão faz lembrar o período áureo da brutalidade feudal, tempo em que as mulheres violadas tinham de comparecer a uma tribuna de “justiça” e, para sua falta de sorte, encontravam lá o mesmo senhor que as violou, não na condição de acusado ou suspeito, mas na condição de juiz, que, curiosamente, tinha todas as provas de que a vítima era culpada.
A quem estamos nós a exigir justiça? Uma incursão à história das execuções promovidas por este mesmo regime mostra-nos que estamos num exercício amnésico de exigir algo que já exigimos e a entidades erradas. E, devido à amnésia, estamos a exigir hoje da mesma forma o que não nos foi dado no passado, quando exigimos de similar maneira. Quando foi assassinado Carlos Cardoso, exigimos justiça. Tecnicamente nada aconteceu, e damos graças ao tempo, que tem feito a sua própria justiça.
Assassinaram Siba-Siba Macuácua, exigimos justiça, e nada foi feito. Assassinaram Orlando José, exigimos justiça, e nada foi feito. Ou seja, estamos num acto circular, que não nos está a levar a lado algum senão para a morte de mais cidadãos que decidiram abraçar a integridade.
A amnésia colectiva está a levar-nos a exigir justiça numa situação em que o juiz é o assassino. Veja-se, por exemplo, que ontem a Polícia da República de Moçambique já tinha uma tese racista de que Cistac “foi baleado por um cidadão de raça branca”, quando testemunhas dizem que no carro não havia nenhum cidadão de raça branca. Só nas declarações de Arnaldo Chefo, o porta-voz da PRM, já é possível saber de que lado joga o juiz a quem estamos a exigir justiça. E como que a responder à evolução dos tempos, aqui já não é o sistema feudal de condenar à prisão. Na era moderna, quando o violador é juiz, condena-se a vítima não a uma pena de prisão, mas condena-se ao esquecimento, convocando para tal umas investigações que nunca mais terminam e, consequentemente, nunca produzem resultados. No “caso Cardoso”, houve uma investigação que foi conduzida até aos autores materiais, mas foi desviada exactamente quando a investigação estava com o braço esticado para bater à porta do autor político e moral do acto. No caso de Siba-Siba, a vítima foi condenada ao esquecimento. Orlando José também foi condenado ao esquecimento. O juiz é o assassino.
Dentro dos próximos dias, Cistac será também condenado ao esquecimento. O juiz é o mesmo. É o assassino de todos os outros. Mas, devido à amnésia, esquecemo-nos facilmente do carácter deste juiz a quem hoje suplicamos justiça. Estamos a exigir justiça com métodos e à entidade errada. No lugar de justiça, temos que exigir um novo juiz. Exigir um novo juiz é a mínima exigência de justiça que podemos fazer. Agora, como se exige um novo juiz, não sei lá muito bem. Mas a indignação colectiva e o cansaço de todos estes anos que andamos a aturar assassinos a serem juízes das desgraças que eles próprios causam pode ser um bom ponto de partida.



(Matias Guente, Canalmoz)

Thursday, 5 March 2015

Organizações moçambicanas exigem esclarecimento de assassínio de Gilles Cistac

 

Maputo, 05 mar (Lusa) - Quatro organizações da sociedade civil moçambicanas exigiram hoje integridade aos órgãos de justiça para que a morte do constitucionalista Gilles Cistac, ocorrido na terça-feira em Maputo, "não seja mais um assassínio sem esclarecimento".
"Aos órgãos da administração da justiça exigimos integridade no vosso trabalho para que este não seja mais um assassinato sem esclarecimento, engrossando a lista dos filhos nobres desta nação que morreram pelo seu país, sem que, até hoje, alguém tenha sido responsabilizado", declara um comunicado conjunto do Centro de Integridade Pública, Instituto de Estudos Sociais e Económicos, Mulher e Lei na África Austral e Observatório do Meio Rural.
Gilles Cistac, segundo as quatro organizações, "integra uma longa lista de filhos nobres deste país que foram assassinados porque comprometidos com o bem do seu país", assegurando que não vão desistir até que "os assassinos de Samora Machel, Carlos Cardoso, António Siba-Siba Macuácua, Dinis Silica, Gilles Cistac sejam encontrados e punidos".
"O assassinato do professor Gilles Cistac enquadra-se na velha estratégia de assassinar um para silenciar muitos. Não deixaremos que isso aconteça. A força de uma nação não se para com a cobardia das armas", afirma o comunicado.
As organizações recordam os ensinamentos do catedrático sobre o Estado de Direito em Moçambique e "o mais importante é de que as palavras, quando proferidas por homens livres e de pensamento racional, libertam", contra "aqueles que encontraram na cobardia das armas a força para silenciar o professor Gilles Cistac e, assim, ameaçar a todos os moçambicanos livres".
"Como cidadãos deste país que, organizados, trabalham pela defesa e promoção dos direitos humanos, queremos emitir a nossa mensagem de condenação e afirmação do nosso desprezo a este ato bárbaro, encomendado e praticado por homens sem honra nem escrúpulos, cobardes e sem coragem de enfrentar a sabedoria e a nobreza de homens livres", afirmam ainda as quatro organizações da sociedade civil.
O constitucionalista moçambicano de origem francesa Gilles Cistac foi assassinado a tiro na terça-feira de manhã por desconhecidos, à saída de um café no centro de Maputo.
Cistac foi transportado ainda com vida para o Hospital Central de Maputo, onde acabou por morrer cerca das 13:00 locais (11:00 em Lisboa).
A polícia disse na terça-feira que segue a pista de quatro suspeitos, três negros e um branco, e que foi este último quem abriu fogo contra Cistac.
Gilles Cistac era um dos principais especialistas em assuntos constitucionais de Moçambique e, em várias ocasiões, manifestou opiniões jurídicas contrárias aos interesses do Governo e da Frelimo.
Em entrevistas recentes, Cistac considerou que não há impedimentos jurídicos à pretensão da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, principal partido da oposição) de criar regiões autónomas no país, contrariando declarações opostas de quadros da Frelimo.
Na semana passada, o académico anunciou que ia processar um homem que, através da rede social Facebook e com o pseudónimo Calado Kalashnikov, acusou Cistac de ser um espião francês que obteve a nacionalidade moçambicana de forma fraudulenta.
O Governo moçambicano considerou o atentado "um ato macabro" e espera que os autores sejam "exemplarmente punidos", enquanto o líder da Renamo disse que o académico foi vítima de "radicais da Frelimo" e o MDM (Movimento Democrático de Moçambique, terceira maior força política do país) declarou que se tratou de um assassínio por encomenda.
A Frelimo reagiu na quarta-feira negando envolvimento no crime e considerando que as "acusações gravíssimas" de que foi alvo são "manobras dilatórias" para prejudicar a governação e dividir o país.

 
Lusa

Um TPC para Buchili

Por Fernando Lima


Ainda não tinham passado 24 horas sobre as palavras bonitas da procuradora Buchili em torno do Estado de Direito, várias balas disparadas à queima-roupa questionavam, uma vez mais, a fragilidade das instituições moçambicanas, a democracia suis generis que temos. Um atentado a sangue frio, numa das ruas mais movimentadas de Maputo, pôs fim à vida do jurista Gilles Cistac, ele que teve a veleidade de argumentar em favor da constitucionalidade de uma hipotética gestão descentralizada do Estado moçambicano.
Enquanto a vida de Cistac se esvaía num bloco operatório do principal hospital público de Maputo, o novo Presidente da República, um potencial dano colateral deste bárbaro assassinato, através do seu porta-voz, pedia acção e eficácia à polícia na perseguição e captura dos autores do crime. Como estou convicto que neste crime há autores materiais e morais, gostaria de sugerir à procuradora Buchili um TPC elementar. Que chamasse com carácter de urgência à Procuradoria, os cidadãos Edson Macuácua e
Gabriel Muthisse, alegados mentores do grupo de choque que leva o nome de G-40, conotados com o assassinato de carácter de que foi vítima o professor Gilles Cistac nas últimas semanas.
Aliás, ele próprio declarou que denunciou à Procuradoria os ataques de que estava a ser alvo, dado o carácter sórdido e perverso de grande parte das calúnias contra si desferidas. Não se trata de responder à demonização de Cistac com a demonização do G-40. Mas é importante. Para efeitos de investigação criminal e para responder ao nexo de causalidade entre os ataques verbais (e por escrito) através dos media e o assassinato de que foi vítima. É preciso determinar as verdadeiras motivações para que ataques sistemáticos tivessem sido desencadeados nos últimos dois anos contra outras personalidades da vida moçambicana, incluindo figuras proa do movimento de libertação e do próprio regime.
Por menos evidências e sem sangue vertido, dois editores da nossa casa editorial foram chamados nos últimos meses à PGR (Procuradoria Geral da República) e ao permanente moribundo CSCS(Conselho Superior da Comunicação Social), para “darem explicações” sobre conteúdos editoriais inseridos nas nossas publicações. Buchili, que certamente leu o discurso de investidura do novo presidente, terá notado o ênfase colocado no princípio de que não deve haver cidadãos acima da lei. Ao chamar os dois referenciados cidadãos às instalações da PGR, prestaria um serviço importante à Democracia e ao Estado de Direito. E, como também fica bem nestas ocasiões e é da praxis do regime, estaria a cumprir com zelo as orientações do novo Presidente da República.

PS: Depois de escrever nesta mesma publicação, a 27.09.2002, o artigo “Um frango chamado Nyimpine” a propósito do assassinato de Carlos Cardoso, recebi, conjuntamente com os jornalistas Marcelo Mosse e Kok Nam, a oferta compulsiva de 343 galinhas e 3 cabritos. Não aceitámos a oferta e apresentámos queixa na polícia. Sem resultados, indicámos as matrículas das carrinhas que trouxeram os frangos e o endereço do aviário na Matola, na zona das “Quatro Cantinas”. Espero que não repitam a dose.

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MEDIAFAX, 04/03/15 


E

Mural de Marcelo Mosse, Facebook

Gilles Cistak: uma vítima da elite decadente

:
 
O crime contra Gilles Cistak não foi um acto isolado do odio rácico. Foi mais um ataque da elite decadente do nosso Estado contra todos aqueles que pensavam que Moçambique já estava a entrar para a puberdade da sua democracia. Foi um golpe contra todos os que, durante estes últimos anos, tem pensado o Estado de forma diferente daqueles que tentam impingir-nos o pensamento único, uma herança que o novo r...
egime parecia disposto a enterrar. Há dias, houve quem escrevesse que estávamos a sair da luz para o túnel. Eu pensava que aquele era um dito exagerado. Mas não!
O crime contra Cistak mostra que há quem nos queira mesmo la no fundo do túnel, formatados para não pensar, não falar nem dizer e, sobretudo, não interpretar a sociedade em que vivemos, desnudarmos os seus nos de estrangulamento; as suas mentiras embrulhadas em papel couché, como verdades para consumo obrigatório; formatados para, de olhos vendados, não vermos o sangue que verte de suas viaturas de luxo e pinta seu palacetes erguidos do nosso suor colectivo.
Mas, então, quem matou Cistak? Foi a elite decadente do nosso Estado, já disse. O móbil e’ o mesmo que levou Carlos Cardoso e Siba-Siba. Como aqueles dois mártires da moçambicanidade, Cistak foi assassinado porque ultrapassou a linha: ele desvendou as possibilidades da redução dos poderes de que essas elites gozam sobre o Estado, os quais incluem o saque e a partilha dos seus recursos para usufruto pessoal. Cardoso e Siba-Siba estavam também desvendando as identidades dos abutres, colocando seus poderes em risco, quando foram barbaramente assassinados. Cistak não inventou nada, apenas interpretou para todos o texto da nossa lei fundamental. O crime que lhe tirou a vida foi, por isso, e também, um crime do poder politico. Não foi um crime do odio rácico.



Marcelo Mosse, A Verdade

Para a Frelimo Gilles Cistac era ingrato

A Frelimo, partido no poder há quase 40 anos, considerava o constitucionalista moçambicano Gilles Cistac, assassinado na terça-feira (03) em Maputo, “ingrato e mal-agradecido” à “hospitalidade e ao acolhimento dos moçambicanos”, por ter declarado que à luz do número 04, do artigo 273 da Constituição, a Renamo pode criar “regiões autónomas” nas províncias que diz ter ganho nas últimas eleições gerais.
O sentimento de ódio e repúdio em relação aos pronunciamentos de Gilles Cistac, por parte do partido que dirige os destinos do país desde 1975, foi manifestado pelo seu porta-voz, Damião José, segundo consta da notícia da Folha de Maputo, a 19 de Fevereiro deste ano.
“Ele tem a consciência de que está a faltar à verdade (...) com a deliberada intenção de criar confusão nas pessoas em defesa de interesses que ele sabe que são alheios à vontade do povo moçambicano”, disse Damião José, referindo-se a Cistac, que fundamentou que aquela cláusula era suficiente para as pretensões da “Perdiz” e não havia necessidade de mexer a Lei-Mãe, tal como alguns analistas pró-regime defendem.
Na altura, o porta-voz da Frelimo perguntou: “Será que o académico Cistac se estivesse na Argélia ou na França teria a coragem de assumir a postura que tem estado a assumir, que é uma ofensa e desafio aberto à vontade do povo moçambicano?



A Verdade

Eu sou Cistac !

Eu sou Cistac!
 I am Cistac!
 Je suis Cistac!
Condolencias a familia do Professor Giles Cistac!
A luta continua, abaixo a intolerancia, o medo, a impunidade, o racismo e a xenofobia!