Thursday, 7 August 2014

Um pequeno passo, mas crucial para a PAZ

Um pequeno passo, mas crucial para a PAZ



Beira (Canalmoz) – Foi muito ou pouco o alcançado no Centro de Conferências “Joaquim Chissano”?
Para o que estava em causa, só podemos dizer que os resultados são animadores, abrindo boas perspectivas para o restabelecimento da PAZ no país.
Não há acordos políticos sem consequências, e neste caso aos moçambicanos interessa qu...e as forças políticas aproveitem o momento e o acordo para cimentarem as práticas democráticas no país.
Viveram-se décadas de falsidade política e de demagogia deformadora, que teve como uma das consequências o agravamento dos conflitos que degeneram em guerra localizada, mas com um forte potencial de se tornar em mais uma guerra civil.
Os apologistas de soluções aparentes, cosméticas, inconsequentes, que estavam habituados a usufruírem vantagens que o “establishment” lhes garantia, não devem estar obviamente muitos satisfeitos com os avanços registados na mesa das negociações. Os supostos especialistas em resolução de conflitos e magos da diplomacia já não poderão dizer que a guerra, que era iminente, era orquestrada a partir do exterior. Os que defendiam que não havia possibilidade de eclosão de uma guerra também saíram com as contas erradas.
Moçambique amadureceu para uma realidade que se quer nova e renovadora.
Um sinuoso processo derrotou a tese dos “imperativos nacionais” erigidos como baluartes de uma política que se dispunha a sacrificar o interesse colectivo para benefício de um pequeno clube de “cidadãos especiais”.
Aquela baboseira incongruente de “obliterar a oposição” e criar um “Reich dos Mil Anos” em Moçambique saiu pela culatra aos seus mentores. Afinal também já se encontram em estado mais ou menos senil, esses apologistas. Moçambique saiu a ganhar na mesa de negociações, que antes se dizia que eram meras discussões.
Neste momento de afinação das máquinas políticas e de concerto de estratégias, não faltarão aproveitamentos à esquerda e à direita em volta do processo que levou ao consenso. Fique claro que existe um único vencedor, e este é o povo moçambicano, que conseguiu vencer teses separatistas, excludentes e antidemocráticas.
Moçambique pode outra vez redireccionar-se e descobrir vias apropriadas de governação.
Prevê-se uma campanha eleitoral muito renhida e definidora de uma maneira de estar diferente entre os partidos políticos e forças sociais. Nada está garantido para ninguém, e que as promessas ou manifestos eleitorais sejam apresentados aos moçambicanos de modo pacífico, inteligente e sério.
De uma maneira imperceptível mas firme e permanente, os moçambicanos foram-se educando informalmente e melhorando o seu entendimento político.
Hoje, podemos dizer com segurança que nada será igual na arena política e que os partidos políticos que não mostrarem resultados serão severamente punidos nas urnas. Hoje, podemos ter a esperança de que a PRM e a FIR serão colocadas no lugar legalmente previsto no dia das eleições. Hoje, podemos ter a esperança de que os blindados não serão utilizados para afastar votantes e amedrontar outros. Hoje, podemos dizer que estão reunidas as condições para a realização de um pleito eleitoral menos suspeito, livre de manipulação e passível de ser fiscalizado pelos partidos interessados.
Estes avanços são fruto de uma combinação de factores, e entre eles há que mencionar a pressão da sociedade civil moçambicana, na medida em que, de maneira exemplar, aprendeu que pode existir fora do ditame dos partidos políticos. A sua participação em paralelo com outros interessados, chancelarias internacionais e os partidos políticos nacionais elevou a fasquia política no país.
Enganou-se quem apregoava que a democracia é estrangeira em Moçambique e em África. Todo o processo político pós-AGP mostrou e mostra que, fora de um quadro democrático em consonância com uma efectiva separação dos poderes democráticos, desenvolve-se um ambiente propício a abusos dos direitos políticos e económicos dos moçambicanos.
Não é momento de lançar foguetes e fogo-de-artifício, pois foi dado unicamente um passo num processo que se apresenta complexo e sujeito a derrapagens.
O país precisa de aturado trabalho e de uma abertura nos debates estruturantes que devem ser feitos.
Há recursos humanos jovens e capacitados, há uma massa crítica de gente com ideias e conhecimentos dentro e fora do país, há políticos com experiência e traquejo para que o país e o seu Governo os escutem e tomem em consideração as suas opiniões e posições. Governar deve voltar a ser algo feito com brio, responsabilidade, patriotismo, entrega, abnegação e sentido de servir.
O nível de exigência subiu, e isso tanto para governantes como para governados, para partidos políticos e para organizações da sociedade civil.
A fechar um ciclo e a III República, teremos a mais concorrida campanha eleitoral.
Os moçambicanos, com a sua persistência e perspicácia, venceram mais uma batalha na sua luta permanente por uma sociedade mais justa e democrática.


(Noé Nhantumbo, Canalmoz)

Wednesday, 6 August 2014

Moçambicanos contestam medida dos “três mil randes” para entrar na Africa do Sul



Os moçambicanos que estão a viajar para o território sul-africano desde ontem estão a ser exigidos o mínimo de três mil randes, ou extrato bancário actualizado que tenha este valor. Neste momento (10h02), a população de Ressano Garcia colocou barricadas para impedir viaturas atravessar para Moçambique em protesto da medida
De acordo com vários moçambicanos que desde ontem tentam atravessar para África do Sul, através da fronteira de Ressano Garcia, está medida está a lhes criar transtornos uma vez foi de surpresa e está a provocar perdas para os que pagaram bilhetes de passagem para aquele território, com um valor abaixo do exigido pelas autoridades migratórias da terra do Rand.
“Eu estava a caminho de Komatipoort comprar carnes, mas o meu valor é de 2800 randes. Eles não aceitam. Afinal que humilhação é esta que estamos a passar? Porque continuamos a ser tratados desta maneira? O que dizem as nossas autoridades? Penso que o Governo de Moçambique deve em definitivo resolver isso ”, disse um cidadão em contacto com a FOLHA DE MAPUTO.
De recordar que esta não é primeira vez que as autoridade sul-africanas tomam medidas surpreendentes, sem aviso prévio. Uma das medidas que tentaram aplicar ainda este ano foi a de qualquer cidadão para passar nas suas fronteiras serem detentoras do passaporte biométrico, assunto que foi depois ultrapassado com a intervenção do Governo moçambicano.



Folha de Maputo

João Trindade considera “urgente” aprovação da lei de acesso à Informação

O projecto consta do rol de matérias a serem discutidas na presente sessão (a nona) que encerra a 12 de Agosto

O juiz jubilado do Tribunal Supremo e investigador do Centro de Estudos Sociais Aquino de Bragança (CESAB) considera que o acesso à informação não pode ser denegado pelos titulares dos órgãos da administração pública , sob pretexto da falta de lei regulamentar sobre a matéria. João Trindade reconhece, entretanto, a necessidade de um regulamento que clarifique, sobretudo, os aspectos procedimentais do exercício deste direito fundamental e da promoção da transparência, da prestação de contas e da boa governação. Para  Trindade, é urgente que a Lei de Acesso à Informação seja aprovada, pois a Constituição da República de Moçambique é suficientemente expressa no seu artigo 48, nº 1, ao estabelecer que “Todos os cidadãos têm direito à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa, bem como ao direito à informação”. 
Apesar da existência de um Anteprojecto de Lei sobre o Direito à Informação, e de uma contra-proposta vertida no Anteprojecto de Lei do Direito à Informação de autoria da IV Comissão da Assembleia da República (AR) – Comissão da Administração Pública, Poder Local e Comunicação Social –, a sua discussão e aprovação pelo Plenário da AR tem sido sistematicamente adiada, por razões nem sempre claras ou justificadas.
Trindade considera que se  deve “continuar a usar todos os meios legítimos para forçar as autoridades competentes à adopção da Lei do Acesso à Informação”, pois trata-se de um direito humano fundamental que deve ser efectivado a nível nacional por meio de legislação abrangente. O interlocutor defende um direito baseado no princípio da máxima divulgação, estabelecendo a presunção de que toda informação é acessível e sujeita somente a um sistema estrito de excepções. “Para efectivar o direito à informação na prática, não basta exigir que os órgãos públicos atendam a pedidos de informação. O acesso efectivo para muitas pessoas depende de que esses órgãos publiquem e divulguem, efectivamente, de modo voluntário e pró-activo, sem necessidade de requisição, categorias-chave de informação, mesmo na ausência de um pedido”, defendeu.
O juiz jubilado do Supremo fez estas declarações no Acampamento Internacional de Direitos Humanos, Cidadania e Acesso à Informação, que decorreu recentemente  no município de Boane, organizado pelo Centro de Estudos e Promoção de Cidadania, Direitos Humanos e Meio Ambiente (CODD) e o Governance Development Institutee (GDI), em parceria com a Íbis, no no âmbito do Programa AGIR (Acções para uma Governação inclusiva e Responsável).




O País

Tuesday, 5 August 2014

- GOVERNO E RENAMO AVANÇAM PARA ASSINATURA DO DOCUMENTO FINAL SOBRE AS FDS

Maputo, 05 Ago (AIM) - As delegações do governo e da Renamo, maior partido da oposição, em Moçambique, alcançaram hoje consensos sobre o segundo ponto da agenda do diálogo político relacionado com as Forças de Defesa e Segurança (FDS), faltando assim a assinatura do documento final sobre esta matéria.
As decisões alcançadas hoje, durante a 69/a ronda do diálogo, deverão ser encaminhadas, para conhecimento, a liderança das partes, sendo, do lado do Governo, o Presidente moçambicano, Armando Guebuza, e da Renamo, o seu líder, Afonso Dhlakama.
Embora as partes não tenham revelado quem são as figuras que irão assinar tal documento, espera-se que o mesmo seja rubricado a este nível.
Este consenso é alcançado um dia depois de o governo ter solicitado revisitar o ponto cinco dos termos de referência relacionado com a colocação dos subcomandos que deverão estar nas províncias centrais de Sofala e Tete, na nortenha de Nampula, e na de Inhambane, no sul do país.
As partes já tinham, segunda-feira, alcançado consensos em relação ao documento base que incorpora os princípios gerais do processo e todas as garantias, tidos como bases de sustentabilidade para a implementação dos pontos cujos consensos já foram alcançados.
As delegações não especificaram quais as decisões concretas que foram tomadas, prometendo faze - lo ‘em tempo oportuno’.
Falando a imprensa no final do encontro, o chefe adjunto da delegação do governo e ministro dos transportes e comunicações, Gabriel Muthisse, disse que as partes visualizaram passos subsequentes que não condicionarão o processo de pacificação total ou cessação das hostilidades.
O primeiro passo relaciona-se com a assinatura dos documentos consensualizados de modo a que tenham o seu efeito no terreno”, disse Muthisse.
Muthisse acrescentou que vai se preparar o projecto de lei de amnistia para acções criminosas que tenham ocorrido durantes os meses de instabilidade no país. O respectivo projecto de lei, segundo a fonte, deverá ser submetido urgentemente a Assembleia da República (AR), o parlamento moçambicano.
Se queremos que este assunto seja discutido urgentemente, devemos também submete-lo a AR com urgência, pelo facto de a magna casa ter o seu programa de trabalho.”
Outro passo avançado por Muthisse está relacionado com o encontro entre o Presidente Guebuza e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama. “Isso implica trabalhar na logística e todos passos necessários para que o líder possa sair das matas”, disse Muthisse, acrescentando que a calendarização das acções dos observadores internacionais deverá ser feita no período das eleições e pós-eleições.
Muthisse acredita que com este consenso o país voltará a ter uma estabilidade, criando assim a possibilidade de todos os actores políticos participarem nas eleições de 15 de Outubro próximo, com destaque para o líder da Renamo.
Por seu turno, o chefe da delegação da Renamo e deputado pelo mesmo partido na AR, Saimone Macuiana, disse que a sua delegação está comprometida e interessada em garantir a cessação urgente das hostilidades
Segundo Macuaiana, o acordo de cessação das hostilidades deve ser cumprido na íntegra para garantir que os moçambicanos se sintam mais seguros do que nunca.



(AIM)

Sismo atinge África do Sul e é sentido em Moçambique

Um terramoto, de magnitude 5,3 na escala de Richter, foi registado as 12h22 desta terça-feira na África do Sul, com epicentro na cidade mineira de Orkney, a 180 quilómetros a sudoeste de Joanesburgo. Há registo de uma vítima mortal. Durante vários segundos o abalo foi também sentido na zona urbana da capital de Moçambique.
Testemunhas relataram que as mesas começaram a tremer, candeeiros abanaram e até os computadores tremiam em vários edifícios de escritórios da zona baixa da cidade de Maputo que acabaram por ser evacuados.
Os funcionários do Ministério da Educação, no bairro da Polana, também abandonaram os seus postos de trabalho devido aos receios provocados pelo tremor de terra.
Há relatos de cidadãos que sentiram o abalo em vários prédios localizados no bairro Central, na capital moçambicana.

Um morto na África do Sul
Segundo o Instituto Geológico norte-americano (USGS), o epicentro do sismo foi localizado na região mineira de Orkney, a 10 quilómetros de profundidade.
O correspondente do @Verdade, na África do Sul, relata que estava na redacção da rádio SABC quando sentiu o computador e a mesa tremerem e parecia que o edifico ia cair. Ele e os colegas abandonaram o edifício.
Vários outros edifícios na capital financeira da África do Sul também "balançaram" e os danos materiais ainda estão a ser avaliados. Várias testemunhas relataram que "os edifícios pareciam instável e janelas estavam a partir-se".
Há registo de uma vítima mortal, na região de Orkney. A vítima tinha 31 anos de idade e terá perdido a vida na sequência da queda de uma parede numa antiga mina.
Funcionários das empresas mineiras na região - AngloGold Ashanti, Harmony Gold, Gold Fields e Sibanye Gold - disseram ter sentido os tremores nas suas sedes, mas até então não haviam recebido relatos de qualquer incidente nas suas minas.
A área em torno de Johanesburgo não é normalmente propensa à actividade sísmica, mas é lar de algumas das mais profundas minas de ouro do mundo.
Médias sul africanos reportam que o sismo foi também sentido com intensidade nas regiões do KwaZulu-Natal, North West e cidade do Cabo.
O pior sismo que a África do Sul registou ocorreu em 1969 na pequena cidade de Tulbach, perto da Cidade do Cabo, e teve uma magnitude de 6,5 na escala de Richter. O sismo deixou a cidade em ruínas e fez 11 mortos.
O terramoto também foi sentido no Botwana e no Zimbabwe. O terremoto foi o maior da região da África Austral desde um tremor de magnitude 7,0 no Zimbábwe, em 2006.



A Verdade

“Memorando de Entendimento” e “Mecanismos de Garantias”, a fórmula para ter Dhlakama em campanha eleitoral

As partes chegaram a acordo na totalidade sobre o documento “Mecanismos de Garantias”. À última hora, o Governo pediu para ir reexaminar o ponto número cinco, referente ao organigrama do comando central e à distribuição dos subcomandos regionais da missão dos observadores internacionais, matérias sobre as quais já tinha havido acordo.
 
 
Maputo (Canalmoz) – As delegações do Governo e da Renamo envolvidas nas negociações políticas no Centro de Conferências “Joaquim Chissano” em Maputo, terminaram na segunda-feira, no decurso da 68a ronda, a elaboração do documento “Memorando de Entendimento” e chegaram a acordo sobre os “Mecanismos de Garantias”.
Ainda na segunda-feira, as partes iniciaram a revisão dos “Termos de Referências”, sobre os quais já tinha havido acordo. O Governo pediu para reflectir sobre alguns aspectos que constam no referido documento sobre a missão dos observadores militares internacionais.
O chefe da delegação governamental, Gabriel Muthisse, disse em conferência de imprensa no final da sessão que as partes chegaram a acordo por completo sobre os documentos dos princípios gerais e dos mecanismos de garantias.
“Os ‘Mecanismos de Garantias’ foram completamente ‘consensualizados’. Iniciámos a revisão dos ‘Termos de Referência’ da missão de observadores internacionais, que tinham sido anteriormente ‘consensualizados’”, afirmou.
“Atingimos um nível de acomodação a 100 por cento. Mesmo o nível de entendimento na revisão dos ‘Termos de Referência’ é bom entre as partes”, acrescentou.
Gabriel Muthisse considerou que a 68a ronda (que terminou cerca das 16 horas) foi uma sessão positiva. “Durante a revisão, o Governo pediu para reflectir sobre alguns aspectos de operacionalização dos ‘Termos de Referência’”, explicou, sem indicar de quanto tempo o Governo vai precisar para essa reflexão.
“São questões difíceis para colocar prazos. Pode ser que, na próxima ronda, cheguemos e em cinco minutos ultrapassemos. Podem transitar para uma ou duas rondas, isso depende”, afirmou.
Segundo o que disse o ministro, a conclusão da elaboração do “Memorando de Entendimento” e a concordância sobre os “Mecanismos de Garantias” abre perspectivas para que haja “uma campanha eleitoral com a participação de todos os candidatos aprovados”.
Acrescentou que os “Mecanismos de Garantias”, que determinam que tudo o que foi concordado vai ser cumprido pelas partes, satisfazem tanto o Governo como a Renamo, uma vez que criam confiança mútua.
Gabriel Muthisse disse que o Governo está confiante em que a Renamo está a negociar de boa-fé, avaliando aquilo que era a desconfiança entre as partes no começo do processo negocial e os consensos que estão a ser alcançados de forma cordial nos últimos dias.
Questionado se haveria necessidade de intervenção, neste processo, dos outros órgãos, como a Assembleia da República, o governante moçambicano respondeu que “um e outro aspecto podem requerer a intervenção da Assembleia da República, e, se for o caso, isso poderá acontecer ainda durante esta legislatura”.
“Mas o resto, ou muitos pontos ‘consensualizados’, está em conformidade com o quadro jurídico nacional, e pensamos que não vai precisar de alguma alteração constitucional para acomodar as mesmas”, explicou.
Renamo encorajada
Por sua vez, o chefe da delegação da Renamo, o deputado Saimone Macuiana disse a jornalistas: “Queremos dizer ao povo moçambicano e à comunidade internacional que, em definitivo, o ‘Memorando de Entendimento’ já foi elaborado, os princípios gerais e os ‘Mecanismos de Garantias’ ‘consensualizados’”.
“Faltam alguns aspectos dos ‘Termos de Referência’, que o Governo pediu para reavaliar”, disse Macuiana.
A Renamo diz que o Governo pediu para ir reflectir sobre uma matéria que já tinha sido concordada entre as partes. Trata-se do ponto número 5 dos “Termos de Referência”, sobre o organigrama do comando central e a divisão dos subcomandos regionais da missão dos observadores militares internacionais.
Segundo já estava concordado, o comando central da missão dos observadores militares internacionais seria dirigido por um brigadeiro do Botswana, coadjuvado por um coronel italiano. Quanto aos subcomandos regionais, Nampula estaria sob o comando de um coronel português; Sofala, de um coronel britânico; Tete, de um coronel do Quénia; e Inhambane, de um coronel do Botswana.
Quanto a questões específicas
Nos consensos alcançados entre as partes, as questões específicas referentes ao acantonamento, desmobilização e integração, tanto nas Forças de Defesa e Segurança como social e economicamente, ficaram dependentes de peritos militares com apoio dos observadores internacionais.
A uma pergunta do “Canalmoz” sobre o número de homens que a Renamo apresentou para serem desmobilizados e integrados, tal como o Governo exigia, o ministro dos Transportes e Comunicações, Gabriel Muthisse disse que tal depende de peritos militares indicados pelas partes, que vão estabelecer os calendários e os cronogramas, apoiados pelos observadores militares internacionais.
Em princípio, as partes poderão retomar as negociações ainda esta semana, não havendo ainda data marcada, uma vez que tudo vai depender da agenda do Governo.




(Bernardo Álvaro,  Canalmoz)

Governo e Renamo regressam esta terça-feira ao CCJC para "fechar" termos de referências

As delegações do governo e da Renamo regressam, esta terça-feira, ao Centro de Conferencias Joaquim Chissano, pelas 14 horas, para revisitar os termos de referência relativos a presença de observadores internacionais cuja missão consistirá na monitoria da implementação de todas as garantias alcançadas na mesa do diálogo visando restaurar a paz em Moçambique.
O pedido nesse sentido foi feito ontem na ronda 68ª do diálogo. No corpo do documento, o governo sentia a necessidade de revisitar o ponto cinco relacionado com a colocação dos subcomandos.
Gabriel Muthisse, chefe adjunto da delegação do governo e Ministro dos Transportes e Comunicações, disse ontem que a revisitação visava apenas tratar alguns aspectos operacionais.
Espera-se que no diálogo político de hoje se encerre por completo todos os termos relativos a missão dos observadores internacionais no sessar fogo e na desmilitarização da Renamo.



Folha de Maputo

Monday, 4 August 2014

Diálogo Político: Governo pede tempo para pensar sobre os termos de referência e adia acordo final

Mais uma ronda do diálogo político entre o Governo moçambicano e a Renamo terminou, esta segunda-feira (04), em Maputo, sem acordo definitivo entre as partes, em virtude de o Executivo precisar de mais tempo para rever os pontos que dizem respeito ao comando central e aos subcomandos da missão de observação internacional, constantes dos termos de referências, e reflectir sobre os mesmos.
 “O facto de não termos concluído os termos de referência deve-se ao pedido do Governo para revisitar o número cinco daquele documento, sobre a organograma do comando central da missão de observação internacional que estará em Maputo e, também, dos subcomandos de Sofala, Nampula, Tete e Inhambane”, informou o chefe da delegação da Renamo, Saimone Macuiane no fim da 68a ronda do diálogo político.
À luz dos consensos que as partes tiveram nas rondas passadas, a missão de observação internacional terá um comando central em Maputo a ser chefiado por um brigadeiro de Botswana, o qual será auxiliado pela Itália e pelo Zimbabwe. Terá ainda subcomandos nas províncias de Inhambane também dirigido pelo Botswana, o de Sofala será dirigido pela Grã-Bretanha, o de Nampula pelo Portugal e o de Tete por Quénia.
De resto, esta matéria já havia sido consensualizada, porém, hoje, o Executivo solicitou mais algum tempo para aprofundar a sua análise, facto que acabou ditando o adiamento, mais uma vez, do acordo definitivo entre as partes.
 
Avanços
No entanto, na ronda desta segunda-feira, as duas delegações anunciaram a conclusão, em 100 porcento, dos documentos sobre os princípios gerais que vão nortear o acordo final e os princípios de garantias que ambas as partes irão cumprir o que for acordado.
“Eu posso dizer que em relação aos princípios gerais e em relação a garantias estamos a 100 porcento. Atingimos um nível de acomodação e de compromisso de 100 porcento”, revelou o subchefe da delegação do Governo, Gabriel Muthisse, garantindo em seguida que os documentos já consensualizados estão redigidos de maneira que satisfaz as duas partes.
Após alcançar um consenso em relação aos documentos, as delegações iniciaram a análise dos termos de referências à luz dos últimos entendimentos. De acordo com Muthisse, os mesmos foi também alcançado um consenso quase na totalidade, havendo aspectos de detalhe operacional que o Governo entende que ainda deve ser aprofundado.
“Estamos convencidos de que a Renamo também vai aproveitar esse tempo para continuar a reflectir de modo que nas próximas sessões possamos, definitivamente, possamos terminar o documento relativo aos termos de referência dos observadores internacionais que vão monitorar a cessão das hostilidades”, considerou Muthisse, acrescentando que o ponto qua ainda falta poderá ser “fechado nas próximas sessões”.
No entanto, Saimone Macuiane disse que o memorando de entendimento sobre as garantias já foi elaborado. “Nos dividimos o nosso trabalho em fase. Discutimos o documento base que constitui o documento que chamamos de memorando de entendimento. Esse documento foi concluído. Também discutimos os mecanismos de garantia e estão também concluídos”, esclareceu.
 
 
Segurança de Dhlakama garantida
O subchefe da delegação governamental revelou que a segurança do presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, quando sair das matas ou da parte incerta “está acautelada nos princípios gerais já acordados no diálogo político”.
“Os peritos militares do Governo e da Renamo vão encontrar as melhores maneiras para que esse compromisso assumido em ternos gerais tenha eficácia do ponto de vista operacional”, afiançou.


A Verdade

Não nos enganem outra vez

Depois de mais de 60 rondas marcadas por divergências e entendimentos em relação a um e outro assunto sobre o qual gira o diálogo político prestes a terminar, apercebemo-nos de uma mudança súbita do rumo dos acontecimentos no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano (CICJC). Tem sido realmente impressionante perceber que todo o teatro político que foi encenado ao longo das rondas negociais não tinha, no seu todo, razão de ser. Se houve motivo para tal, tudo foi à custa do martírio de inocentes. Teatro porque já está claro que o verdadeiro diálogo acontecia ou acontece fora do CICJC e longe dos nossos olhos. Já há um entendimento feito à revelia do povo e naquelas instalações só se vão cumprir formalidades.
Não é por acaso que, de repente, Afonso Dhlakama passou de homem bravo para manso e, mais do que nunca, está tão certo das datas sobre certos eventos inerentes ao diálogo, falando disso naturalmente e com firmeza. Armando Guebuza já se esquece de dizer que a paz depende apenas da sua contraparte e escolhe minuciosamente as palavras para se dirigir à Renamo. Os famigerados discursos incendiários apenas são notórios nas bocas daqueles que parecem ter sido erradamente educados para serem intolerantes à oposição.
O primeiro sinal de volte-face por parte dos intervenientes no processo de pacificação do país foi a moderação dos discursos, ao que se seguiu a redução da intensidade dos ataques nas zonas onde era comum ouvirem-se tiros todos os dias e as pessoas eram mutiladas ou mesmo mortas. Estamos todos comovidos com este novo ambiente. Orgulha-nos saber que estamos muito perto de selar um acordo supostamente inspirado na vontade de vivermos em paz e em harmonia. Trata-se de um entendimento que, por assim dizer, será o remédio para todos os nossos males físicos e morais e que nos permitirá perdoarmo-nos uns aos outros.
Entretanto, sabemos que toda a velocidade imprimida para se alcançar o tão aguardado acordo tem uma relação bastante forte com as eleições marcadas para Outubro, em especial com a campanha eleitoral que vai oficialmente iniciar dentro de dias. É de louvar que haja vontade de se criar condições para que os moçambicanos exerçam um dos seus direitos de cidadania num clima de tranquilidade e sem o eco de espingardas. Mas não nos enganem outra vez. Esperamos que desta vez haja realmente um pacto duradouro, diferente daquele de há 20 anos, que não passou de um mero documento cosmético que somente tinha importância para uma das partes.
E, agora, com o acordo à vista, que destino se vai dar ao Acordo Geral de Paz (AGP) ou parte do seu conteúdo abertamente refutado pela Renamo? Vai ser considerado caduco e reduzido a cinzas ou teremos dois documentos simultaneamente em uso? Que garantias teremos desse entendimento relativamente ao período posterior às eleições e o que vai ser daqueles que tiverem que se contentar com mais uma derrota?
Não nos enganem outra vez, porque depois de meses a fio a vivermos na incerteza e num ambiente que nos arrastava cada vez mais para uma guerra, já não temos espírito nem alma para aguentar tanta maldição daqueles que quando os seus interesses políticos colidem usam-nos como escudo ou como um meio de pressão. Não queremos um barril de pólvora como o AGP pareceu ser quando do nada foi evocado como uma das principais causas da origem do sofrimento dos moçambicanos, mas, sim, um acordo claro sujeito a direitos, deveres, garantias e responsabilidades entre as partes. Queremos um pacto que represente os interesses da Nação e dos partidos politicos.



Editorial, A Verdade

Rio Tinto deixa exploração de carvão e arrefece expectativas em Moçambique

A multinacional australiana anunciou recentemente a venda das suas minas de carvão a um consórcio indiano. Um balde de água fria nas expectativas dos moçambicanos que aumenta a incerteza nos grandes investimentos.
A Rio Tinto anunciou a venda da mina de carvão de Benga e outros projetos na província de Tete, centro de Moçambique, ao grupo indiano Coal Ventures Private Limited (ICVL). A multinacional australiana vendeu os seus ativos pelo equivalente a 37,3 milhões de euros, muito abaixo dos 2,7 mil milhões de euros a que comprou em 2011.

Em entrevista à DW África, Fernando Lima, jornalista e diretor do jornal moçambicano “Savana”, considera que a operação representa, por um lado, o fim de um “pesadelo” para a Rio Tinto e, por outro lado, “uma nota de realismo muito séria nas expectativas, quer do Governo de Moçambique, quer dos moçambicanos”.



DW África: Como se pode explicar esta decisão da Rio Tinto?



Fernando Lima (FL):
Há um problema que tem a ver especificamente com a Rio Tinto. A Rio Tinto fez uma compra que hoje, e mesmo há dois anos, quando o assunto foi analisado, se considera foi muito inflacionada, muito acima do preço. E, nas contas da Rio Tinto, esse ativo e essa venda foram altamente desvalorizados, na ordem dos 3.600 milhões de dólares. Portanto, significa que a sua venda por 50 milhões de dólares, embora seja chocante porque o projeto é muito mais valioso que isso, reflete sobretudo os problemas específicos da Rio Tinto Moçambique.



DW África: Na sua opinião, a decisão da Rio Tinto está relacionada com os elevados custos de exploração e transporte do carvão?

Mapa da exploração e transporte do carvão da província de Tete

FL: Sim, tem a ver com os custos de extração e de transporte. Com os atuais preços do carvão nos mercados internacionais e com os atuais custos de extração e transporte, torna-se muito difícil para a Rio Tinto conseguir lucros, a curto-médio prazo. Além disso, a operação da Rio Tinto era diariamente um prejuízo, para não dizer um pesadelo. Ou seja, ao vender [os seus ativos mas minas de carvão] por 50 milhões de dólares, a Rio Tinto viu-se livre de um pesadelo que era um prejuízo diário na sua operação em Moçambique.


DW África: A Vale está também a registar prejuízos. Poderá também seguir a mesma direção da Rio Tinto?


FL:
Devemos pensar que essa é uma das possibilidades. De qualquer forma, a Vale tem utilizado outra estratégia. Por um lado, tem vindo a fazer avisos à navegação, no sentido de dizer: a operação é incomportável nos atuais termos porque acumulámos prejuízos no primeiro trimestre, acumulámos prejuízos no segundo trimestre, queremos uma renogociação das atuais condições de exploração do carvão. Também há sinais de que a Vale gostaria de vender uma parte da sua operação em Moçambique a outros interessados. Fala-se que a Vale gostaria de partilhar cerca de 1/3 das suas ações em Moçambique com outra empresa ou consórcio. E a terceira questão é que a Vale pôs em marcha um projeto alternativo: uma outra linha férrea, a linha férrea de Nacala, por onde pensa exportar o grosso do carvão e que pensa que lhe vai baixar os custos.
De qualquer forma, a exportação por Nacala – e os cálculos já foram feitos – diminui cerca de 10 dólares por tonelada a operação que é feita neste momento via Sena. Por isso, é preciso que se alterem radicalmente algumas condições, nomeadamente os custos de operação. E, por outro lado, que nos mercados internacionais o preço do carvão coque (o carvão metalúrgico) aumente para tornar a operação mais rentável.


DW África: Neste momento, a que valor está a chegar o carvão ao porto da Beira e a que valor é que seria rentável?

Fernando Lima, jornalista e diretor do jornal Savana
FL: Segundo números da Vale, só a operação de transporte custa 55 dólares por tonelada. A Vale diz que gasta cerca de 35 dólares com outros custos, nomeadamente com a mina, explosivos, combustíveis e lubrificantes. O que significa aproximadamente 90 dólares a tonelada. Ora a Vale está a vender a tonelada de carvão na Beira a cerca de 100-105 dólares a tonelada para o mercado chinês. Isto significa que praticamente não sobra dinheiro nesta operação. Tudo o que seja preços abaixo dos 120-130 dólares por tonelada são operações com prejuízo. Ou seja, quando o comboio começa a rolar a partir da mina de Moatize já está a acumular prejuízo.
Neste momento, o preço [do carvão nos mecados internacionais] é 1/3 do que era há três anos atrás.


DW África: A resolução deste problema é uma questão de tempo, de espera que o preço do carvão coque volte a subir nos mercados internacionais? E há essa possibilidade?
O carvão segue de Tete, através da linha de Sena, até ao porto da Beira
FL: Em termos de literatura e de previsão de mercados, não há essa previsão. Há uma contração do mercado chinês, que é o grande comprador de carvão e, por outro lado, o mercado chinês é abastecido primordialmente com carvão a partir da Austrália. E tem custos muito mais baixos colocar o carvão australiano na China. Claro que o mercado indiano é o mercado natural para o carvão de Moçambique, uma vez que os custos de transporte são mais baixos. Daí a razão do interesse renovado de várias empresas indianas em explorar o carvão moçambicano. Por outro lado, uma parte dessas companhias indianas são grandes conglomerados empresariais que têm, dentro dos seus grupos económicos, companhias siderúrigicas, ou seja, exploram e consomem o carvão nas suas indústrias. O que permite, dentro de uma cadeia de valores dentro do mesmo grupo, rentabilizar custos.

DW África: A Rio Tinto, que é um gigante do carvão, acaba de se retirar e por outro lado entra este grupo indiano. A exploração do carvão não vai também causar prejuízos a este consórcio indiano?

FL:
Vamos assistir a um corte dramático nos custos da operação. Toda a mão-de-obra que este consórcio vai utilizar na exploração não vai ter as mesmas condições que tinha agora na Rio Tinto. Os técnicos superiores não vão ter, de certeza, os salários que atualmente têm. Portanto, vai ter um grande impacto no emprego de mão-de-obra, quer qualificada, quer não qualificada. E todas as questões de higiene e segurança penso que vão ser mitigadas.


DW África: A crescente incerteza no sector de exploração do carvão está a alastrar-se a outros grandes projetos em Moçambique?
O carvão de coque ou metalúrgico é atualmente o principal produto de exportação de Moçambique

FL: Claro que isto tem impactos em todos os megaprojetos. Sempre se teve uma visão muito triunfalista sobre os megaprojetos. Sempre houve também alguma dificuldade, em termos recentes, de se fazer uma gestão correta das expectativas em relação aos megaprojetos. O que aconteceu com a Rio Tinto vai refrear esse discurso triunfalista, vai ser uma pressão sobre a opinião pública para as pessoas cairem na real e assumirem que os projetos de exploração dos recursos naturais têm um elemento de miragem muito grande. Portanto, digamos que a venda da rio Tinto introduz uma nota de realismo muito séria nas expectativas quer do Governo de Moçambique, quer dos moçambicanos que, muitas vezes, pensam que a riqueza está mesmo ali ao virar da esquina.
O problema da Rio Tinto é ainda mais relevante, porque agora há uma pressão em cima da mesa com o Governo de Moçambique que, até agora, dizia que isto era um problema das companhias e que, portanto, não iria mexer em políticas de benefícios e em políticas de isenção. Ora perante o que aconteceu com a Rio Tinto e a possibilidade de a Vale, de algum modo, fazer mudanças radicais na sua operação, há uma pressão acrescida sobre o Governo, nomeadamente em termos de matéria fiscal.


DW

Sunday, 3 August 2014

Terceiro partido moçambicano critica secretismo do acordo entre Governo e RENAMO

Chimoio, Moçambique, 02 ago (Lusa) - O presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), terceira força política moçambicana, criticou hoje em Chimoio, Manica, centro do país, o "secretismo" do acordo entre o Governo e a RENAMO para o fim das hostilidades militares.
O silêncio em torno do conteúdo do documento base, que inclui as garantias de implementação, para colocar fim à crise político-militar iniciada há mais de um ano, vai, segundo Daviz Simango, "criar zonas de penumbra" entre os moçambicanos, sobretudo os que nasceram após o Acordo de Paz, em 1992, alertando para o risco de "discriminação".
O Governo moçambicano e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), principal partido da oposição, alcançaram ao fim de mais de mais 60 rondas de diálogo em Maputo um consenso em torno do documento base sobre a composição das forças de defesa e segurança e desarmamento do partido de oposição, faltando o acordo sobre as garantias de implementação das medidas.


Lusa

Maputo, Cidade criminosa!



Para se sentir cidadão, o homem contemporâneo  precisa de dispor de infra-estruturas sociais que lhe garantam a dignidade, devendo, ao mesmo tempo, assegurar o equilíbrio no sistema ecológico. Estimado leitor, compreenda, a seguir, os sintomas que tornam a capital moçambicana, Maputo, numa cidade criminosa.
Em 2007, segundo as estatísticas oficiais, a cidade de Maputo possuía 1.094.315 de habitantes, sob a direcção do presidente do Conselho Municipal Eneas Comiche. De forma clara e pública, o sociólogo moçambicano, Carlos Serra, fez a seguinte denúncia: “O aquecimento global de que tanto se fala fez aumentar, na última década, alguns centímetros ao nível do mar”. E argumentou: “Há anos, antes de existir a barragem dos Pequenos Libombos, todas as semanas, a draga da capitania dragava o canal do porto de Maputo.
A barragem terá sido construída sem uma eventual análise do impacto no ambiente. Desde a sua edificação que não há dragagem, logo não há reposição das areias de aluvião do rio na baía.
Devido às suas correntes, o mar retira areias, quer da baía quer das margens que são a marginal”. Embora a sua carta-denúncia, emitida ao governante e por extensão ao Governo, tenha sido profundamente fundamentada, a sua mensagem – como, provavelmente, acontecerá com esta matéria – não foi acatada.
Mais do que expressão de algum tipo de nostalgia ou de saudosismo, constatar que, antigamente, “atrás da marginal existia um pântano de mangal costeiro onde, na maré cheia, o mar se espraiava” – e chamar a atenção para o problema que, devido à sua degradação, surgiria –, revela uma consciência ambientalista de que a maior parte dos moçambicanos ainda carece.
Entretanto, em contra-senso, ignorando-se que “o peso dos edifícios impede o lençol freático de trabalhar segundo as suas próprias regras, esse mangal/pântano foi ocupado, roubado ao mar” para dar lugar à criação de prédios. Porque “a duna costeira – formada por um ecossistema equilibrado de areias, plantas que a suportavam e árvores – rapidamente foi destruída pela intervenção humana”, naturalmente, como consequência, “deixa de haver ponto de quebra da força do mar”, gerando-se uma “incapacidade de infiltração da água na duna costeira”.
 

Primeira atrocidade ecológica

Embora o crime ambiental seja um conceito lato e, por isso, de difícil definição, muitas vezes, torna-se complicado ignorar uma sucessão de atrocidades ecológicas que (desde o tempo colonial até aos dias actuais) continuam a ocorrer no centro de Maputo, quase sempre, contra planos aprovados pelo Governo.
O primeiro acto que tornou Maputo nesta cidade criminosa, como testemunha o célebre arquitecto moçambicano, José Forjaz, sucedeu ao longo da década de 1960, “quando naquela região que pertencia à Administração de Marracuene, se permitiu a destruição do mangal com a construção do bairro do Triunfo.
Na altura, a Administração de Lourenço Marques, o antigo topónimo desta urbe, tinha negado autorizar a realização de construções naquele espaço”. Esse foi o primeiro erro ecológico (diga-se, grave), porque se violou o princípio da proteção das terras baixas e dos mangais.
No entanto, os homens não se redimiram da sua falha. Os seus desvios agravaram-se com o curso do tempo de tal sorte que, diz o arquitecto, “se gerou uma posição tacitamente aceite por todas as pessoas, sobretudo pelas autoridades administrativas, como natural”.
É que da forma como o assunto está a ser tratado, edificando-se empreendimentos económicos na frente marítima – muitas vezes sem se acautelar dos seus impactos ambientais – compreende-se que está a ser autorizada a destruição progressiva e intensiva do mangal. Embora haja, na referida região, um aglomerado de residências que historicamente se chamam Triunfo, tal bairro não existe.
“Esse nome tem a ver com o triunfo sobre a natureza. Pensa-se que nós triunfamos porque conseguimos colocar um assentamento humano numa área completamente inóspita, que é o mangal que ali há”, esclarece o jurista-ambientalista moçambicano, Carlos Serra, reiterando que o bairro chama-se Costa do Sol. Portanto, aquelas casas foram erguidas à custa de assentamentos de areia e da primeira perda da cobertura do mangal que exercia um papel muito importante no equilíbrio ecológico. Um crime ambiental.
A própria construção da Avenida Marginal demasiado próxima à linha praia-mar foi um erro, porque a circulação constante na praia produziu uma degradação imediata da vegetação que ali se tinha. “A perda da vegetação nativa – que ocorre desde o período colonial – conduziu à degradação das dunas, o que acelerou a erosão costeira, porque a vegetação autóctone exclui qualquer tipo de árvores que se possam recolocar”. Já naquela época, para corrigir os erros cometidos, plantou-se ao longo da marginal um conjunto de eucaliptos e casuarinas. O problema é que – de acordo com estudos especializados – essas espécies aceleram a erosão costeira.
Desta experiência, a praia da Costa do Sol, cujas terras estão completamente erodidas, é uma prova. Presentemente, decorre em Maputo o projecto da recuperação da orla marítima, uma iniciativa espectacular, que seria muito melhor se, desde logo, se reconstituíssem as dunas e, com elas, se introduzisse a vegetação nativa para retê-las.
O problema é que, com a edificação do Mercado do Peixe, parece que se vai cometer um novo erro. O ambientalista explica que “ainda que digam que o fizeram, nenhum estudo de impacto ambiental poderia concluir que existe viabilidade para se implantar um mercado na última zona dunar de que dispomos em Maputo”.

Maputo está doente

Embora se dissemine que Maputo é uma cidade próspera, bela, limpa, segura e solidária – discurso constructo que faz com que os (demais) moçambicanos visualizem nesta uma espécie de Meca para a qual devem peregrinar todos os seus problemas – a verdade é que a nossa urbe-mãe padece de inúmeros problemas.
No ano 2007, tínhamos o já referido índice demográfico e um parque automóvel constituído por 240 mil carros. Segundo o Instituto Nacional de Transportes Terrestres, esse número duplicou. No final de 2013, em Maputo havia 408,618 viaturas que – como aconteceu em 2007 – nunca conseguem satisfazer as necessidades de transporte dos munícipes. Se por um lado, a densidade populacional tenha evoluído, por outro, a capacidade de resposta às suas demandas sociais regrediu.
No mesmo intervalo de tempo, também há um 5 de Fevereiro de 2008 em que populares se manifestaram contra a crise de transportes, na verdade, uma espécie de pretexto para se contestar o custo de vida que, há bastante tempo, se fazia sentir.
Pelos mesmos motivos, porém, desta vez, com impactos catastróficos – houve roubos, sabotagem e destruição de infra-estruturas sociais, incluindo o ferimento e mortes de civis vítimas de balas perdidas – fenómeno similar replicou-se entre 1 e 2 de Setembro de 2010. Em 2011, a Empresa dos Transportes Públicos de Maputo anunciou que, para fazer face ao problema dos transportes, precisava de adquirir mais 180 autocarros para adicioná-los à frota de 198 de que dispunha.
Por sua vez, a Federação Moçambicana dos Transportes Rodoviários necessitava de 1.500 autocarros com uma capacidade superior a 30 lugares para estancar o drama. Falou-se e escreveu-se bastante acerca desta realidade, mas nada foi resolvido. Muito recentemente, em 2013, mais uma crise – resultante do custo de vida e de alguma injustiça social – rebentou no seio de quem tem a missão de salvaguardar a vida humana.
Durante cerca de um mês, os médicos protagonizaram uma greve nacional cujo epicentro se verificou em Maputo. Eles reivindicavam a melhoria da situação salarial e das condições laborais, entre outros problemas. Acabaram por abortar a sua contestação.
Em resultado desta situação, neste segundo decénio do século XXI – em jeito de desafogo, afirma certo peão – “continuamos a ser uma cidade capital completamente desprovida de um sistema de transportes. Em consequência disso, a grande maioria dos cidadãos maputenses circula em condições desumanas”.
Todos estes tópicos de que, de forma esparsa, nos lembramos aqui, provavelmente, não são crimes ambientais no sentido jurídico da palavra, mas configuram a dimensão mais dura da realidade porque os seus efeitos se fazem sentir no homem, componente essencial do/no sistema ecológico.

Situação revoltante

No bairro suburbano de Hulene, onde se encontra a maior urna da imundície urbana, há moçambicanos que coabitam com o lixo em montão. Mas o problema da sujidade não é exclusivo das zonas suburbanas.
Como atesta uma pesquisa recente, realizada pela Associação Internacional de Voluntários Leigos, diariamente, a cidade de Maputo produz 1.100 toneladas de resíduos sólidos, 900 das quais são depositadas na lixeira de Hulene. Três mil toneladas de resíduos, produzidos anualmente, são compostas por material plástico. A má gestão desse tipo de lixo é um atentado grosseiro ao sistema ecológico, incluindo a vida humana.
O arquitecto José Forjaz é mais incisivo na sua análise à situação. Diz ele que “99,9 porcento dos nossos concidadãos não têm a noção clara do que é um território ecologicamente sustentável. Neste número incluo as autoridades administrativas, em geral”.
Por sua vez, Carlos Serra, o jurista-ambientalista, corrobora com essa sentença e argumenta que a inconsciência ambiental é generalizada e tem a ver com a dominante insensibilidade da nossa população em assuntos ecológicos.
Estas situações reforçam a crença de que, muitas vezes, estes crimes não se devem a algum tipo de instinto criminoso. Eles têm a ver com a ignorância existente em relação à cultura ecologista. É evidente que uma urbe que possuísse uma população mais esclarecida – e para isso era necessário que todo o povo moçambicano tivesse outro nível cultural que ainda não atingimos – haveria uma reacção popular mais forte. Talvez, poder-se-ia lutar contra estes desvios urbanísticos.
Por exemplo, a recente autorização para a construção de um banco no Parque dos Continuadores e a destruição parcial de um jardim, na Avenida 24 de Julho, para dar lugar à implantação de um edifício, não só atestam uma série de atentados contra os espaços verdes de Maputo, como também revelam a profunda ignorância de quem está na posição de tomada de decisão em relação à relevância de se manter o equilíbrio ecológico.
“Julgam que todos estes pequenos favores que fazem aos seus correligionários políticos não geram impactos ambientais. A verdade é que produzem consequências ecológicas muito graves. As gerações futuras vão pagar um preço muito alto pelo que está a acontecer agora”, alerta Forjaz.
Por isso, o que nós precisamos – com alguma urgência a nível do município – é de uma forte abordagem ambiental para a cidade. Ou seja, é importante que a componente ecológica seja considerada uma prioridade no desenvolvimento urbano. “O problema é que os políticos não entendem que quem defende o ambiente, automaticamente, oferece uma vida melhor à humanidade”.
Todos os dias, em Maputo, indivíduos de todas as idades disputam um assento nos “my love”, como se chamam as carrinhas de caixa aberta em que, neste Moçambique contemporâneo, agindo contra a própria vontade, forçados pela realidade, eles atentam contra a própria integridade física a fim de se deslocarem de e para qualquer ponto da cidade.
A mendicidade e a abundância de meninos de rua, além de homens e mulheres que – dado o custo de vida com que se debatem – se prostituem para garantirem a sua própria sobrevivência, são alguns fenómenos revoltantes que chocam com o nosso olhar socialmente indiferente. Toda esta loucura social, e mais alguma coisa, vista a olho nu, manifesta-se perante uma gritante incapacidade de resposta para controlar o trauma diário que causa à maioria dos (seus) habitantes em condição miserável.
Maputo não está a conseguir fazer jus ao discurso constructo com o qual as nossas administrações a vendem aos turistas, afinal – na verdade, como comenta o jornalista Alexandre Chaúque – a cidade era bela quando “não havia tantos carros a quererem passar todos de uma só vez. (…) Outra vergonha são os ‘chapas’ que circulam… sem obedecerem à conduta estabelecida pelo código de estrada”. E desabafa: “Fico com a impressão de que os ‘chapeiros’ mandam mais que o Presidente da República”. “Como compreender, por exemplo, que um semáforo activado não cumpra a sua função porque o cidadão não respeita o sinal, ou o desmantelamento do comércio na via pública sob o pretexto de saneamento, se tal comércio informal proporciona boa percentagem das receitas fiscais urbanas?”
Esta é a questão de Rafael Bernardo Mouzinho que, em Maputo, vê uma espécie de “praga de pessoas como de viaturas”. Diante de tudo isto, o antigo Primeiro-Ministro moçambicano, Aires Ali, rebela-se e defende que a cidade de Maputo “não se quer fora do verde que vivifica, não se quer longe da geografia do seu nascimento. Ela quer ser limpa, elegante, bela e cosmopolita”.
 

Paradoxos e incertezas

Conforme o discurso oficial, Maputo está a observar um processo de modernização. Os constantes edifícios que se erguem, diz-se, atestam essa transformação. Mas enquanto proliferam as iniciativas de criação de habitações – como, por exemplo, os projectos Intaka, Casa Jovem e a Vila Olímpica –, a capacidade socioeconómica para os jovens adquiri-los contrai-se. Por essa razão, a maior parte de nós os jovens tem sérias dificuldades para obter uma habitação digna.
O consultor Inácio Noa enfatiza que para a camada juvenil o problema de habitação é sentido duma forma clara e é explicado pela dificuldade no acesso à terra e pela falta de condições financeiras para construir moradias.
O crescimento demográfico (estima-se que em 2025 seremos 33.2 milhões de habitantes, 34.9 porcento dos quais viverão nas cidades) é também um assunto ecológico porque, além de implicar um aumento da pressão quanto ao emprego, à segurança alimentar e ao crescimento urbano acelerado, contribui para a degradação do ambiente e no crescimento do sector informal.
De todos os modos, é animador saber que o aumento da população urbana, como explica o economista moçambicano Prakash Ratilal, acrescenta novos desafios e oportunidades na criação de emprego, de transportes públicos, habitação, saneamento, salubridade, na produção e consumo de alimentos e na segurança dos cidadãos.
Outro factor tranquilizador ainda é que, se estas oportunidades se concretizarem, haverá impactos directos no crescimento económico. No entanto, em sentido contrário, a situação será desoladora: “A taxa aliada de crescimento da população poderá assim tornar-se uma séria ameaça de estabilidade social, económica e também política”.
Por essa razão, se construir edifícios novos é modernizar o país, esse pressuposto deve perpassar esta simples especulação desenfreada do solo urbano, para benefício de entidades privadas e administrativas, cujo objectivo primário, único e último é render muito dinheiro em pouco tempo, em prejuízo da ecologia.
A nossa experiência citadina mostra-nos que a disfunção do sistema de esgotos e saneamento do meio, os passeios diariamente maltratados e nunca repostos em ordem, atentando contra a circulação de qualquer mortal, a falta de um sistema de transportes públicos adequados, a invasão das viaturas – em resultado da insuficiência de parques de estacionamento – ao espaço do peão, a não disponibilização da energia eléctrica em quantidade e qualidade suficientes, a superprodução e a má gestão do lixo poluindo o ar, entre outras ocorrências com que todos nós nos confrontamos, nesta Maputo contemporânea, são factos que nos recusam o estatuto de capital de um país e de uma cidade moderna.
Precisamos de compreender que a modernidade tem a ver com a habilidade de se garantir a disponibilização e o funcionamento de todas as condições infra-estruturais suficientes para se manter a dignidade humana. A densificação da nossa cidade deve ser acompanhada de uma capacidade proporcional de infra-estruturas sociais.

Inundamos a praia com lixo

No porto com o mesmo topónimo da cidade, nas proximidades da Fortaleza de Maputo, na Avenida 10 de Novembro, o impacto económico do mar é imediatamente exibido pela feira de mariscos ali estabelecida. Vendem-se produtos diversificados como, por exemplo, peixe na sua variada forma e tipo, camarão, lulas, caranguejos e ameijoas.Moçambicanos e moçambicanas de idades diferentes protagonizam esta actividade comercial a partir da qual não só se garante a subsistência diária das famílias, como também a estabilidade económica e a formação, em termos de ensino, dos seus filhos.
Um pouco depois do Shopping de Maputo, o maior centro comercial do país, sobretudo nas noites de Verão, ocorre uma feira gastronómica complementada com diversas bebidas alcoólicas.
Por se encontrar na referida avenida, os jovens, os seus principais utentes, chamam-na “Na 10”. Ali, mais uma vez, homens e mulheres de negócio instalam pequenos stands comerciais (móveis e imóveis) e preparam refeições para comerciar.
A Avenida 10 de Novembro é um verdadeiro espaço de diversão e lazer nocturno a céu aberto. Parqueiam-se viaturas, toca-se música a um volume ensurdecedor, diverte-se, durante toda a noite, criando-se uma espécie de submundo na cidade de todos nós em que quase tudo – incluindo actos que atentam contra o pudor e a postura municipal como, por exemplo, cenas de sexo – acontece ao relento.
Alcoolizados, alguns quase inconscientes, os utentes daquela zona de diversão desferem duros golpes e ofensas ambientais no mar, transformando-o numa espécie de urna em que depositam garrafas de cerveja e preservativos recém-utilizados. Vale a pena recordar-se de que, em 2013, o Governo moçambicano criou um regulamento que disciplina os moçambicanos em relação à absorção do álcool.
No entanto, apesar dos 2.5 milhões de pessoas que morrem por ano em sinistros originados por excesso do consumo de álcool, a constatar pela realidade, a boa intenção da regra soou mal aos ouvidos dos visados. Entretanto, se, como ilustram as fotografias, o lixo que se deposita na praia da Katembe – para onde vamos, a partir do centro da cidade – é naturalmente expelido na costa, pouco se pode dizer dos impactos que causa na saúde do mar e dos seres aquáticos.
O jurista-ambientalista Carlos Serra, a par dos seus colegas, também teve uma experiência lamentável na Avenida 10 de Novembro. Recorda-se ele de que, “muito recentemente, a fazer filmagens na cidade, encontrámos pessoas – as mesmas que cozinham e vendem refeições – que haviam pernoitado ali. Algumas estavam deitadas, junto das suas panelas e comidas, num lugar com um odor nauseabundo de vómitos, urina e lixo”.
Nas primeiras horas do dia, antes de os zeladores da limpeza fazerem a recolha da imundície resultante da diversão, sempre voluptuosa da noite anterior, é possível ver-se na estrada um monte de lixo constituído por garrafas partidas, restos de comida, material plástico como, por exemplo, copos e pratos descartáveis ao longo do troço onde se encontra o edifício em que, semanalmente, o Governo se reúne em Conselho de Ministros. Aqui não há respeito pelas autoridades.
 

O mar está a ‘comer’ a terra…

Vista daqui, praia da Katembe, a cidade de Maputo está a densificar-se com um monte de pedra e betão – em forma de edifícios. É como se na capital moçambicana, onde a quantidade de viaturas (quase) supera a de pessoas, não existisse nenhuma forma de vida. Mas aqui, onde nos encontramos, fica-se com a impressão de que reagindo aos crimes ambientais, o mar está a ‘comer’ a terra, ao mesmo tempo que, em sentido contrário, a terra, através das residências que se edificam na frente marítima estivesse a aproximar-se mais do mar.
O fenómeno é intrigante. Conforme afirmámos nos primeiros parágrafos desta matéria, por várias razões – mas definitivamente, por não existir uma tipificação penal, o que implicaria uma sanção e uma pena para o infractor – sob o ponto de vista jurídico, em Moçambique não existe nenhum tipo de crime ambiental.
E aqui, vale a pena, a explicação do jurista Carlos Serra: “Embora tenhamos todas estas infracções a acontecerem, juridicamente, neste momento não podemos falar de crimes ambientais porque um desvio só se torna criminoso quando uma lei penal o tipifica como tal, o que se considera uma ofensa grave em termos jurídicos, e estabelece-se uma pena”.
Em 2006, o Conselho de Ministros aprovou um regulamento – referente à proteção do ambiente marinho e costeiro – que, entre muitos aspectos, “os torna dignos de proteção especial, porque prevê uma proibição de se poluírem as praias, definindo, nesse sentido, uma infração e uma sanção”.
A postura municipal de Maputo antevê que, quando infringida, o ofensor incorre numa sanção de multa de 100 meticais. No entanto, se essa mesma infração for cometida na praia, a sanção agrava-se para 2 mil meticais.
O drama é que nada funciona, porque não existe nenhuma fiscalização. Além do mais, de uma forma geral, o nosso sistema de educação – formal e informal – nunca considerou as questões ambientais uma prioridade. “A educação ambiental está a ser considerada um apêndice, um complemento, e não algo prioritário que devia fazer parte do plano curricular”, lamenta Carlos Serra.
Relativamente à questão de a distância entre o mar e a terra-firme estar a tornar-se ínfima – o que significa que a praia pode estar a desaparecer – o arquitecto moçambicano, José Forjaz, atribui a responsabilidade às dinâmicas marinhas, um fenómeno global cujas causas, para si, ainda são desconhecidas.
“Não se tem a noção exacta do que está a acontecer. Trata-se de fenómenos imprevisíveis, mesmo para os mais altos níveis de conhecimento científico, porque são universais. Não são inerentes exclusivamente à costa moçambicana”. E não lhe faltam argumentos: “Há muitos locais no mundo onde a praia está a ser ‘comida’ e outros onde ela está a ser aumentada. Quando pequeno, eu costumava ir tomar banho na praia da Figueira da Foz, em Portugal, que era uma prainha de 50 metros. Agora possui 500. Mas há outra praia, no sul de Lisboa, que está a desaparecer. Portanto, estamos diante de fenómenos muito complexos que não podem ser atribuídos a uma má gestão urbana das zonas ribeirinhas”.
Carlos Serra generaliza a situação. Para si, em toda a faixa moçambicana está-se a verificar uma redução significativa da componente territorial, por causa da deslocação da linha praia-mar para o continente. Dada a grande familiaridade com que nos relacionamos como o local, em Maputo, a situação é assustadora.
“Tenho memórias desses fenómenos ao longo dos últimos 40 anos. Por exemplo, na Ilha da Xefina fala-se de um intervalo dentre 800 metros no mínimo até um quilómetro que perdemos na contracosta”. Em tudo isto, conforme José Forjaz, vezes há em que intervenções humanas agravam a situação, enquanto outras melhoram-na durante algum tempo, “porque contra o mar não há forças artificiais capazes de salvaguardar um status quo permanente”.
De uma ou de outra forma, em relação à Katembe, Carlos Serra assegura que “é possível, a não ser que coloquemos areia, ficarmos sem a praia. Portanto, estamos diante de um problema que só não vê quem não quer”.
 

Muito Lixo e perigo à espreita

Entre os restos de barcos que, há anos, se encontram nas águas da Katembe encardindo-as, o lixo que se deita a partir da Avenida 10 de Novembro e que é, naturalmente, expelido para a praia e os resíduos que cada cidadão, indelicadamente, deposita no mar, ficamos sem saber o que é menos grave.
A verdade é que a praia da Katembe está a ficar imunda. Por outro lado, os resíduos que se produzem a partir da Avenida 10 de Novembro são deslocados para um lugar inimaginável, a costa do Língamo. Naquele mangal existem toneladas de lixo plástico que chegam lá seguindo o efeito das marés e infiltram-se acumulando-se com tempo.
Neste momento é difícil definir, entre todos estes, o principal perigo grande e real, porque a praia da Costa do Sol, por exemplo, se debate com o problema da inquinação desde o tempo colonial. O progressivo inquinamento, por falta de tratamento dos esgotos e por não se restringir o descarregamento de afluentes nocivos industriais na baía, cria uma situação sanitariamente grave, sobretudo, quando as praias são muito usadas, como acontece no Verão.
José Forjaz classifica a inquinação marinha como um crime ambiental muito grave e preocupante, porque gera um “perigo iminente e profundo para centenas de milhares de banhistas”. Nesse sentido, refuta o facto de não haver nenhum programa – da parte do Governo – para consciencializar e prevenir as pessoas, pese embora se conheça a situação.
Enfim, até o músico e escritor moçambicano, Hortêncio Langa – que na década de 1990 criou a mais célebre ode à cidade de Maputo – tem imensas dificuldades em reconhecer a beleza da urbe. “Eu não visito nenhuma praia em Maputo, porque todas são superlotadas de banhistas e têm o problema do lixo e das águas sujas. As pessoas compram comidas e bebidas e – depois de consumi-las – atiram a sujidade ao mar. Não há nenhum trabalho de educação cívica. Por isso, a situação em que nos encontramos é terrível”.



A Verdade

Saturday, 2 August 2014

Afinal a bonança de recursos naturais é ilusão

Os sonhos de enriquecimento rápido esfumam-se



Beira (Canalmoz) – Pragmaticamente a Rio Tinto chutou a bola para destinos desconhecidos, colocando o guarda-redes moçambicano a “ver navios”.
Numa operação rocambolesca, pouco vista mesmo nos meandros da alta finança, duas empresas em dois momentos diferentes protagonizaram  actos que devem ser minuciosamente estudados, porque a sua repetição acarretará muitos prejuízos. Ou digamos ainda muitas desilusões. A Riversdale adquire uma concessão, declara o seu valor em reservas de carvão, e depois a grande Rio Tinto apressa-se e compra tal concessão. As mais-valias da operação, realizadas fora do escrutínio do Governo moçambicano, ficam depositadas bem longe de Maputo. Foram efectivamente biliões de dólares que fugiram de Moçambique. Quando se pensava que a Rio Tinto tinha intenção de radicar-se em Moçambique, eis que vende ao desbarato as suas concessões em solo moçambicano. Quem comprou por 4 biliões de dólares e vende a 50 milhões de dólares deve ter as suas razões. Seria que o carvão de Tete era, ou é, assim tão tóxico que se deve descartar rapidamente? Ou será que estamos perante factos de engenharia financeira que desconhecemos? Declarar uma cifra baixa para pagar pouco de impostos ao Governo moçambicano? Isso já foi feito em outros negócios, e quando se mexe com milhões de dólares é óbvio que os accionistas estejam dispostos a tudo para reduzir desembolsos.
Se tomarmos em conta que a febre de facilitar investimentos no sector mineiro trouxe consideráveis prejuízos ao país, não se deveria chorar muito.
O jogo da alta finança internacional tem a ver com objectivos concretos, muitas vezes ignorados e desconhecidos para Governos como o de Moçambique. O tipo e nível de concertação que se faz em Londres e em outras capitais diferem da concertação que fazem os Governos de países receptores de investimentos das multinacionais. Brilho e avidez nos olhos esfumam-se face a uma realidade surpreendente, ou tudo já estava acautelado? Será que o Governo e o Ministério dos Recursos Minerais de Moçambique estavam acompanhando as movimentações da Rio Tinto? Será que a aparente engenharia financeira lhes passou de lado, ou mais uma vez alguém encaixou uma mais-valia a coberto duma operação de todo escandalosa do ponto de vista financeiro?
Quando se defendia que Moçambique deveria preparar-se para entra num mundo de negócios altamente competitivo e complexo do ponto de vista tecnológico, a opção do Governo foi adoptar a venda de concessões sem olhar para mais nada.
Quando a VALE conseguir desfazer-se dos seus activos carboníferos em Moçambique, ainda estaremos à espera de que a fábrica de antirretrovirais prometida no quadro do negócio tenha produzido alguns comprimidos.
Dirão uns que fomos enganados… É mais verdade que entrámos num negócio às escuras e, se nos enganaram, foi porque aceitámos de mão beijada lamber rebuçados que não conhecíamos. O dinheiro fluindo para algumas contas bancárias, as viagens e o luxo de ocasião, acções ou outro tipo de contrapartidas privadas terão cegado os governantes moçambicanos? Os consultores externos do PR onde estão neste momento? Como é verão na Europa, devem ter-se recolhido para a Riviera francesa ou italiana em gozo de “merecidas férias”.
É o fim dum sonho? Não necessariamente. A valorização de reservas minerais é algo dinâmico e responde a questões de mercado muito concretas. Lição para aprender que nem tudo o que brilha é ouro.
Importa trazer muita mais transparência para negócios desta envergadura, e o Governo não pode actuar sem buscar consensos e autorização ao nível do Parlamento, para adjudicar e concessionar. Os centros de pensamento nacionais, os especialistas e peritos locais devem ter as suas opiniões escutadas e respeitadas aquando da tomada de decisões vinculativas.
Investir em tecnologias, no ensino de tecnologias, trazer professores e equipamento para o país, adquirir perícia na fiscalização e avaliação de reservas é vital para que não sejamos embrulhados, enganados, em próximos negócios.
O país deve explorar e beneficiar dos seus recursos, mas isso deve ser feito numa perspectiva que traga benefícios concretos para a maioria dos moçambicanos.
Enganou-se efectivamente quem pensava que poderia tirar benefícios em exclusivo do carvão de Tete.
Os “amigos” de Londres bateram com a porta e nem disseram adeus…
Alguma vez se terá que aprender é fundamental para desenvolver um país. Agora esfumam-se as projecções, e as estatísticas MF serão reformuladas.



(Noé Nhantumbo, Canalmoz)

Friday, 1 August 2014

Moçambique está no “Top-10” dos países mais pobres do mundo

Moçambique é o décimo país mais pobre do mundo, de acordo com o relatório sobre o Índice do Desenvolvimento Humano (IDH) publicado recentemente na capital moçambicana no qual ocupa a posição 178 de um total de 187 países analisados.
O documento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) evidencia que Moçambique continua mergulhado na pobreza, não obstante os discursos optimistas dos governantes. Na classificação global que tem Noruega no topo da lista, Moçambique registou uma subida de sete lugares na pontuação global, passando da 185ª posição para a 178ª. Ainda assim, mantém-se no fundo da escala, ou seja, encontra-se entre as 10 nações mais pobres do mundo, a seguir a países considerados “falhados” como é o caso da Guiné-Bissau.
Entre os avaliados, Moçambique está em melhor situação que a República Centro- Africana, o Chade, a Serra Leoa, a Eritreia, o Burquina Faso, o Burundi, a Guiné-Conacri, o Níger e a República Democrática de Congo.
A presente qualificação explica-se pelo facto de os níveis de escolaridade, a esperança de vida e a riqueza do país continuarem a ser baixos.
O estudo da PNUD aponta que o valor do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para o Moçambique subiu de 0.389, em 2012, para 0.393, em 2013. O IDH avalia o progresso do desenvolvimento humano a longo prazo, tendo como itens o acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente e saudável. Assim, são tidos em conta factores como a esperança média de vida, os anos de escolaridade de cada cidadão e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita expresso em dólares.
Nesta senda, a esperança de vida de um moçambicano é de 50 anos e a expectativa de permanecer na escola é de 9 anos. Na prática, os progressos que o país registou e que permitiram a sua subida na tabela classificativa são anulados quando se olha para a realidade em que vive a maioria dos moçambicanos e que o próprio relatório ilustra: sete em cada 100 crianças morrem antes de atingirem os cinco anos de vida, há falta de alimentação adequada ou básica, e um deficiente sistema de saneamento que aumenta o risco de infecções que impedem o crescimento das crianças.
A pesquisa revela ainda que mais de 70 porcento da população continuam “multidimensionalmente pobre” e o resto encontra-se igualmente perto da pobreza multidimensional, isto é, vive com pouco mais de 1 dólar por dia.
De acordo com o documento, o IDH de Moçambique é inferior ao IDH médio dos países do grupo de Desenvolvimento Humano Baixo, que é de 0.493.
Ao nível de grupos regionais e blocos económicos/ linguísticos, o nosso país está igualmente na cauda. É que os índices de crescimento económico que o país regista não se reflectem, ainda, na vida da esmagadora maioria da população. A pobreza ainda desfila no seio da grande família moçambicana. E ao nível do continente africano, a lista é liderada pela Tunísia na posição 90, seguida da Argélia (93), o Botsuana (109), Egipto (110) e a África do Sul (118).


Áreas vulneráveis

Em Moçambique, os sectores da educação, saúde, género, gravidez precoce, acesso ao emprego, desastres naturais, entre outros, são os apontados como os mais vulneráveis.
"Moçambique deve diminuir a vulnerabilidade permitindo maior acesso à saúde e educação e investir atempadamente no desenvolvimento das capacidades dos cidadãos, desde a infância, por forma a criar melhores perspectivas para o indivíduo ao longo da vida. Acções concretas para lidar com as fragilidades de modo a preservar e garantir os ganhos realizados no progresso humano são urgentes", diz o relatório.
O documento recomenda que haja provisão universal de serviços de “protecção social robusta” e políticas de emprego para a juventude.






“Em Moçambique para cada 100 mil nascimentos, 490 mulheres morrem de causas relacionadas com a gravidez e a taxa de natalidade em adolescentes é de 138 nascimentos por cada mil crianças nascidas vivas e a participação feminina no mercado do trabalho é inferior em comparação com os homens, sagrando-se numa diferença de 26 porcento para mulheres e 75 porcento para homens, respectivamente”.
Segundo a representante da Organização das Nações Unidas em Moçambique, Jennifer Topping, as ameaças tais como a crise financeira, a inflação dos preços dos alimentos e os conflitos violentos fazem com que se percam vidas e fontes de sustento e desenvolvimento, por isso é fundamental que se procurem meios de se superar tais situações, “pois os obstáculos que aparecem nos primeiros três anos de vida de uma pessoa são difíceis de ultrapassar e podem ter repercussões mais graves ao longo do tempo”.
Topping realçou a necessidade e a importância de se ampliar programas como Acção Social do Género, da Pessoa Idosa com Deficiência, da Criança e os sistemas produtivos de protecção social.
O Índice de Desigualdade de Género é interpretado pelo relatório como a perda no desenvolvimento humano devido à desigualdade entre as realizações femininas e masculinas, em três dimensões: saúde reprodutiva, empoderamento e em actividades económicas. Lembre-se que o empoderamento é medido pela proporção de assentos parlamentares ocupados por mulheres. No nosso país essa taxa é de 39 porcento.



A Verdade

MDM exige fim da perseguição a opositores em Moçambique

"Não se pode fazer um acordo com a RENAMO para estabelecer a paz e haver uma perseguição maciça aos membros do MDM", diz Lutero Simango, chefe da bancada parlamentar do segundo maior partido da oposição.
Após meses de impasse, o Governo e Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) chegaram a um consenso na segunda-feira (29.07) sobre o acordo base para o fim da tensão político-militar no país, ainda por assinar.
Segundo os dados avançados até agora à imprensa, o documento prevê a integração do braço armado da RENAMO nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique e na Polícia da República de Moçambique. Além disso, deverá haver uma amnistia para todos os envolvidos nos confrontos que, há mais de um ano, opõem o braço armado da RENAMO e o exército moçambicano, na região centro do país.
Lutero Simango, o líder da bancada parlamentar da terceira força política do país, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), aplaude o consenso alcançado. Mas deixa um recado: para que haja realmente paz é preciso acabar com a "perseguição" a todos os membros de partidos da oposição.
Lutero Simango, chefe da bancada parlamentar do MDM

DW África: Qual a posição do MDM sobre o consenso alcançado na segunda-feira entre o Governo moçambicano e a RENAMO?

Lutero Simango (LS):
Naturalmente aplaudimos, porque é uma forma de devolver a paz aos moçambicanos. O consenso enquadra-se no espírito daquilo que foi acordado em Roma. São assuntos pendentes que nunca foram resolvidos e agora se tenta resolver.
O MDM defende que já chegou a hora de o país ter uma política nacional de defesa e segurança em que não se alimente a continuidade de um exército nacional na base de cores partidárias, mas sim na base de profissionalismo e participação voluntária.


DW África: Na sua opinião, a polícia e o exército estão, neste momento, partidarizados?

LS:
Verifica-se uma tendência de querer partidarizar o exército e a polícia, mas queremos acreditar que a nossa Constituição da República é bem clara: que o exército e a polícia são apartidários e existem para a defesa da soberania nacional.


DW África: Como é que o MDM vê a possibilidade de amnistia dos homens armados da RENAMO no âmbito de um possível acordo?

LS:
Depois de termos acesso ao teor deste documento estaremos em melhores condições para comentar. Mas não se esqueça que, neste momento, membros do MDM estão a ser perseguidos em alguns distritos do país. Para falar na amnistia, temos de perceber claramente o que irá acontecer no futuro. Porque não se pode fazer um acordo com a RENAMO para estabelecer a paz, por um lado, e, por outro, haver uma perseguição maciça aos membros do MDM


DW África: Como e em que circunstâncias é que decorre essa perseguição?

LS:
Os membros do MDM estão a ser proibidos de realizar as suas actividades políticas. Há vandalização de sedes do partido e, em alguns distritos, as residências de alguns membros do MDM chegam a ser queimadas.
Por isso é que digo: não se pode estabelecer um acordo, por um lado, e, por outro, haver uma violação sistemática da Constituição da República, ao proibir os partidos políticos de realizar os seus trabalhos. Ainda na semana passada tomámos conhecimento que um dos nossos membros, o António Jorge Frangoulis [que saiu recentemente do partido no poder, a FRELIMO, e integra agora o MDM], está a ser perseguido e há quem tente assassiná-lo.


DW África: Ou seja, apesar do Governo e da RENAMO chegarem a um consenso, Moçambique ainda está longe da estabilidade?


LS:
Ainda estamos longe do cumprimento dos direitos políticos. O MDM está a ser impedido de realizar os seus trabalhos políticos em alguns distritos do país. E essa campanha está a ser encabeçada por alguns administradores de distritos que perseguem e violentam os membros do MDM.


DW África: Teme que essa violência aumente à medida que nos aproximamos das eleições gerais, marcadas para 15 de outubro?

LS:
Sim, vai aumentando. Também temos provas evidentes de que os agentes da polícia estão a ser manipulados: as queixas são ignoradas, ninguém as toma em consideração



DW

Protocolo internacional contra a tortura entra em vigor em Moçambique

Moçambique aderiu a um protocolo internacional contra a tortura, que entra em vigor esta quinta-feira (31.07). A Liga dos Direitos Humanos saúda a adesão, porque o protocolo ajudará muito no seu trabalho.
A adesão de Moçambique ao protocolo contra a tortura "vai ajudar muito", conclui a presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, Alice Mabota. Pelo menos, para ter acesso a locais que lhe eram vedados até agora, como a cadeia do Comando da cidade de Maputo, onde segundo Mabota, se registam tratamentos desumanos.
"Não temos acesso. Nem sequer os juízes lhe têm acesso. E com este protocolo vamos passar a ter", disse a responsável.
O chamado "Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes" estabelece um sistema de visitas regulares de organismos independentes internacionais e nacionais a lugares onde pessoas estão privadas da sua liberdade, precisamente para evitar a ocorrência desse tipo de violações. O Protocolo Facultativo cria também um subcomité de prevenção da tortura, que dispõe de mandato para visitar locais de detenção nos Estados Partes.


Sair com vida "é muita sorte"
"Na grande cadeia da tortura, a cadeia do Comando, as pessoas ou enlouquecem ou morrem", diz a presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, Alice Mabota. "Geralmente não o deixam sair. Se você sair com vida é muita sorte."
Mabota disse que a sua organização está a monitorizar desde 2013 a situação das execuções no país. Sem adiantar números, ela avançou que o cenário é preocupante, assumindo proporções alarmantes.
"As execuções em Moçambique são o pão de cada dia", diz a responsável. "E não são feitas somente nas cadeias. Agora são também levadas a cabo por polícias especiais. Quando se ouve dizer 'abatemos um cadastrado', muitas das vezes não é o cadastrado como tal. Além disso, o cadastrado não se abate, prende-se! Tem de haver medidas técnicas, especiais dos polícias, para eles lidarem com o mundo do crime."
A União Europeia emitiu, em Maputo, um comunicado em que considera a recente adesão de Moçambique ao Protocolo Facultativo como uma medida importante no sentido do reforço do respeito dos direitos humanos dos detidos e uma contribuição para o Estado de direito em Moçambique.
Tanto a União Europeia como a Liga Moçambicana dos Direitos Humanos manifestaram a sua disponibilidade para apoiar o país a implementar o novo protocol.


DW

Membros da Renamo estão em perigo de vida nas celas da Polícia em Nampula

Vinte e um membros da Renamo, o maior partido da oposição, definham nas celas do Comando Provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Nampula, na sequência das constantes torturas a que estão sujeitos, por parte da corporação. Os visados fazem parte do grupo de ex-guerrilheiros do partido de Afonso Dhlakama encarcerados em Outubro do ano passado, indiciados de promoverem desmandos na localidade de Napome, distrito de Nampula-Rapale.
Dentre os detidos, figuram José Cadeira, delegado político da Renamo, em Namaita, e um antigo comandante daquele movimento político, radicado em Mutivaze.
Segundo Pinoca Luxo, chefe da bancada da Renamo na Assembleia Provincial e chefe do gabinete eleitoral daquela formação política, a nível da cidade de Nampula, para além das constantes torturas, os membros da Renamo foram privados de todas as suas liberdades, facto que os impossibilita de manterem qualquer tipo de comunicação com as respectivas famílias.
Pinoca esteve detido cerca de dois meses e uma semana nas celas do Comando Provincial da PRM, em conexão com o mesmo caso, tendo sido solto a 31 de Dezembro passado. Durante o tempo em que esteve sob custódia policial, aquele dirigente político diz ter vivido situações dramáticas e atentatórias à vida humana, na companhia dos colegas que ainda permanecem nas celas.
“Na minha vida nunca teria vivido situações como aquelas por que passei nas celas da polícia. Eu e os meus colegas que continuam detidos fomos sempre objecto de humilhação, perpetradas pelos agentes da Lei e Ordem. Alguns não resistiram e perderam a vida”, denunciou Pinoca.
A este grupo de indivíduos, de acordo com o nosso entrevistado, juntam-se outros seis que se encontram na Cadeia Civil de Nampula, transferidos das celas do Comando da Polícia naquela província. Pinoca Luxo conta que, desde que foram encarcerados, nunca foram ouvidos e nem sequer se conhece a data do seu provável julgamento.
Não obstante ter sido solto a 31 de Dezembro, o nosso entrevistado diz que continua a ser alvo de perseguições, por parte das autoridades policiais, ligadas à investigação criminal, depois que viu o seu processo devolvido do Ministério Público, supostamente, para mais depoimentos, tendo a última audição ocorrido na semana passada.
Em relação a esta matéria, a Polícia confirma a detenção de alguns membros da Renamo que supostamente desestabilizavam algumas regiões de Mutivaze e Gazuzo, nos distritos de Nampula/Rapale e Murrupula, mas escusa-se a entrar em detalhes.



A Verdade