Wednesday, 13 January 2010

O salvador da Gorongosa


Um homem louro, de faces rosadas e estatura média, calcorreava o aeroporto da cidade da Beira de T-shirt desajeitada e calções. Quanto a nós, procurávamos um multimilionário, de que só sabíamos o nome. Surpresa: aquele quarentão descontraidíssimo era mesmo Gregory Carr, o filantropo que se propõe gastar 36 milhões de dólares (24,7 milhões de euros) na reabilitação do Parque da Gorongosa, 3 770 quilómetros quadrados na província de Sofala, no centro de Moçambique, que noutros tempos acolheram a maior densidade de animais em África. Ali ocorreram dos mais encarniçados combates entre as tropas do Governo da Frelimo e os guerrilheiros da Renamo, ao longo dos 16 anos de guerra civil (que terminou em 1992), a que se juntaram a caça furtiva e a fome. Resultado: grandes mamíferos dizimados em mais de 95%, e os 54 diferentes ecossistemas largamente afectados.

Quando demos por ela, já estávamos a voar no helicóptero, com cinco lugares, de Greg Carr, 47 anos. Com o seu computador portátil ao colo e aberto, ao lado do piloto, ele aproveitou a breve viagem, de menos de meia-hora, para desfiar uma torrente de assuntos a dois colaboradores, através do circuito interno de som. Não escondeu a sua insatisfação quanto ao que nos pareceu ser o planeamento financeiro do projecto. Mas, chegados à Gorongosa, distribuiu alegremente guloseimas por um magote de miúdos. Naquele dia, faltou-lhe tempo para levar alguns dos catraios numa volta de "heli", como, asseguraram-nos, faz com frequência. Imagine-se aqueles filhos da pobreza extrema a sobrevoar o parque, quando, muito provavelmente, nem sequer de automóvel ainda andaram!... Puro marketing? Arriscamos a negativa.

Empurrão dos Kennedy

"Não é dos que põem cá um dólar, para levar um dólar e meio", acredita um moçambicano do seu staff. A verdade é que Greg Carr ganhou a confiança de figuras como o escritor Mia Couto, 51 anos, que trabalha no projecto enquanto biólogo. Em 2004, o então Presidente da República, Joaquim Chissano, abriu as portas da Gorongosa à Fundação Carr (instituição sem fins lucrativos que Greg criou em 1999), para uma gestão a 30 anos do parque, em conjunto com o Ministério moçambicano do Turismo. Por detrás, estiveram os Kennedy. Expliquemo-nos: foi num encontro promovido pela mítica família de JFK que Greg Carr conversou com Carlos dos Santos, à época embaixador de Moçambique na ONU e um dos diplomatas africanos mais ouvidos em Nova Iorque e em Washington. "Pediu-me para ajudar na luta contra a pobreza", conta o multimilionário.

Quando chegou à Gorongosa, com a sua majestosa serra, onde nascem os rios que irrigam a reserva, ficou boquiaberto: "É isto", lembra-se de ter dito. "Não preciso de ver mais nada." No acampamento de Chitengo, Greg Carr parece o homem mais convicto do mundo. "Este parque tem potencial suficiente para ser a máquina económica impulsionadora do desenvolvimento do centro de Moçambique." É de crer no veredicto, quando vem de alguém que, acerca do seu enriquecimento precoce, singelamente nos diz: "Tive uma ideia que se chama voice mail." Já iremos à explicação do jackpot. Só para reforçar a nossa negativa quanto ao "puro marketing", diga-se já que o multimilionário vive numa tenda (os bungalows destinam-se aos turistas que começam a aparecer), com uma cama e uma casa-de-banho, e o seu duche, ao contrário do dos clientes, é de água fria e fraca pressão. Ao ritmo do sol africano, levanta-se às cinco/seis da manhã e deita-se pelas oito/nove da noite.

No dia seguinte à nossa chegada, cruzámo-nos com ele em Chitengo, a caminhar de computador portátil numa mão. Demos-lhe conta do principal resultado do safari madrugador - tínhamos visto sete leoas, certamente já saciadas, porque deixaram em sossego antílopes que circulavam por perto. Ergueu os braços, a vitoriar o avistamento. Fonte de regozijo é também o progressivo regresso de elefantes ao parque. Búfalos, há-os igualmente. Recentemente, Greg Carr comprou 54 ao sul-africano Kruger Park, gastando na operação 100 mil euros.

Mas a reintrodução de bichos vai continuar, pelo menos, até 2015, obrigando ao dispêndio de muito, muito dinheiro pela Fundação Carr na aquisição de animais - mais búfalos e elefantes, zebras, gnus, hipopótamos, cudos, elandes, rinocerontes... [Com os pássaros, não tem de se preocupar: existem mais de 400 espécies na reserva.] A isto somam-se 14 milhões de dólares (9,6 milhões de euros) destinados à construção de estradas, pontes, edifícios (incluindo um centro de investigação científica) e uma nova pista de aviação. Serão quatro anos a todo o vapor, até 2010, quando se realiza o Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul, motor de que Greg quer tirar partido para que a Gorongosa atinja, no mínimo, 50 mil visitantes/ano.

De Harvard para o mundo

O nosso homem é oriundo de um quase obscuro Estado no Noroeste dos EUA, Idaho, sobretudo conhecido como "terra das batatas". Na Universidade estadual do Utah, ao invés de dois dos seus seis irmãos, que ali cursaram Direito, de estatuto mais comparável ao do pai, cirurgião em Idaho Falls (cidade-natal da família), Greg tirou História, em busca dos "ideais nobres do passado". Dispensou o apoio familiar, arranjou um quarto emprestado na casa de uma velhota parcialmente cega, contra a promessa de lhe ler alto os jornais, e conseguiu um emprego nocturno num resort local. Depois, para seu próprio espanto ("Sou do Idaho, santo Deus", comenta, a propósito), foi admitido na Escola Kennedy de Governação, na Universidade de Harvard, no curso de Relações Internacionais.

A sua vida deu, então, uma grande volta. Em Harvard, criou um clube de empresários com estudantes da universidade e do também mítico MIT (Massachusetts Institute of Technology). As reuniões semanais prolongavam-se pela madrugada, e as ideias para novas firmas nasciam como cogumelos. Greg Carr acabou por se aproximar mais de Scott Jones, um cérebro made in MIT. O jovem de Idaho (estamos na década de 1980), que guiava um Datsun a cair de podre, anteviu suculentas oportunidades a partir do momento em que o Governo federal quebrou o monopólio telefónico da AT&T e, do mesmo passo, pôs fim à proibição de novos serviços para os clientes.

Entrou em campo a tal "ideia que se chama voice mail", a que rapidamente se seguiram o fax e o reencaminhamento de chamadas. Greg e Scott formaram a Boston Technology, e gastaram todo o Outono de 1988 a inventar um sistema de correio de voz com uma capacidade 20 vezes superior à dos então existentes. Melhor explicado: Greg arranjava investidores entre familiares, amigos e quem estivesse interessado em arriscar num produto nunca concebido; Scott tratava do software, acompanhado de uma trupe do MIT. Clientes: a Bell Atlantic e os seus 50 mil telefones residenciais.

O sistema e o negócio não podiam ter corrido melhor. No momento seguinte, a Boston Technology já trabalhava para 12 das 20 maiores companhias telefónicas do mundo - dominava os mercados norte-americano e japonês, e entrava na América Latina. Num ano, as receitas passaram de 2,5 para 25 milhões de dólares (17,2 milhões de euros), e a companhia ingressou na bolsa. Greg Carr era, desde o princípio, presidente do conselho de administração e um dos principais accionistas. Até que, em 1998, a israelita Comverse comprou a Boston Technology por 800 milhões de dólares (mais de 550 milhões de euros). Aos 39 anos, o filho mais novo do cirurgião Carr, de Idaho Falls, tornava-se multimilionário. Mas quanto ganhou, exactamente? "Muito mais do que precisava", responde o felizardo, na noite de Chitengo. Okay.

Dois anos antes do jackpot, Greg tivera outro golpe de asa. Com a Internet ainda na idade medieval, convenceu investidores a comprar, à IBM e à Sears, um moribundo fornecedor de serviços virtuais - a Prodigy. Esteve à frente da empresa apenas o tempo suficiente para a ressuscitar e rendibilizar. E que solução inventou ele? Virou-se para África, que a concorrência olimpicamente ignorava, e pôs o continente negro on-line. Simples.

Só lhe falta procriar

Moçambique ainda estava longe. Antes do país de Samora Machel, a Fundação Carr gastou fundos num Centro de Direitos Humanos, em Harvard (18 milhões de dólares/12 milhões de euros), e num museu em Idaho (2 milhões de dólares/1,3 milhões de euros). Na Gorongosa, Greg quer chegar, em 2010, a 39 milhões de euros de receitas anuais, pelo menos. Mas tem um compromisso com as populações que vivem nos limites e dentro da reserva - no mínimo, 100 mil pessoas: 20% do encaixe é para melhoramentos nas suas aldeias. Pretende criar mil empregos directos; os indirectos são incalculáveis. Também não esquece a componente de luxo, que considera essencial para a rendibilização do projecto. E, claro, leva o assunto tão a sério quanto isto: "Os objectivos que tinha anteriormente são os mesmos de agora - erguer uma organização, trabalhar com as pessoas. Gerir um parque como este é um negócio. Penso muitas vezes, aliás, em como é similar com os que tive." Telefonicamente, o secretário de Estado português dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho, 42 anos, amacia-lhe a farda de executivo puro e duro. "Greg Carr reúne uma configuração muito rara: é um idealista prático e pragmático, e, ainda por cima, está disponível para usar o seu próprio dinheiro." Por isso, ao conhecê-lo, o governante de imediato arranjou maneira de o ajudar: pô-lo em contacto com o Instituto de Investigação Científica e Tropical, que possui um património único de estudos geográficos e geológicos da Gorongosa, e ainda desencantou cerca de 300 mil euros, do erário nacional, para apoiar iniciativas portuguesas adequadas ao projecto educativo que o norte-americano tem para a região.

Greg Carr já conhece como poucos a Gorongosa. Quando é surpreendido por algum recanto desconhecido, manda o "heli" poisar e ordena: "Venham buscar-me daqui a três horas." E embrenha-se na selva, sempre acompanhado pelo seu inseparável braço-direito, o português Vasco Galante, 50 anos. Ao descobrir as quedas de água do rio Mussapassa, por exemplo, Vasco apanhou um enorme susto: de surpresa, o multimilionário mergulhou, vestido, sem pensar em crocodilos ou em cobras. Quanto aos régulos, os chefes das aldeias, trata-os a quase todos pelo nome.Solteiro sem "tempo para a vida pessoal", falta-lhe contribuir, como a sua mãe não se cansa de lhe lembrar, para a legião de netos - e são já 15. Quem sabe se Moçambique resolverá esse problema a Greg?

Nota: Link para o site do Parque da Gorongosa, onde encontra o trailer do documentário "Africa's Lost Éden", que começará a ser exibido nas televisões de todo o mundo a partir do próximo mês e, posteriormente, lançado em DVD: http://gorongosa.net/

VEJA A GALERIA DE FOTOS DESTA REPORTAGEM

FONTE: Revista Visão. Confira aqui.

Tuesday, 12 January 2010

Moçambique evita revés na estreia


BENIN ESTEVE A VENCER POR 2-0 EM BENGUELA


A seleção de Moçambique empatou a dois golos com o Benin, esta terça-feira, na cidade de Benguela, no jogo que completou a 1.ª jornada do Grupo C da CAN'2010.
No duelo entre as equipas mais fracas do agrupamento, o Benin começou melhor e rapidamente aproveitou os erros defensivos de Moçambique para abrir uma vantagem de dois golos. O primeiro tento surgiu aos 15 minutos, por Omotoyossi, na transformação de uma grande penalidade, e o segundo aos 21', num autogolo caricatural de Khan.
A seleção lusófona, sem outra alternativa, acabou por encontrar o seu ritmo e, aos 29', reduziu a desvantagem, golo de Miro. O 2-2 chegou aos 55', quando o extremo Fumo (que passou por 10 clubes portugueses em diferentes escalões) aproveitou da melhor forma um incrível erro do guarda-redes do Benin.
Na próxima jornada do Grupo C, marcada para o dia 16, Moçambique irá defrontar o forte Egito, enquanto Benin vai medir forças com a Nigéria.

FONTE: Record, 12/01/10. Foto do Notícias.

Nota do José: No outro jogo do Grupo C, o Egipto derrotou a Nigéria por 3-1.

Desenvolver Moçambique! A quem interessa?

SR. DIRECTOR!

Agradeço antecipadamente a publicação deste ponto de vista no matutino que dirige. Recentemente realizaram-se as quartas eleições gerais do país. Paralelamente, testemunhou-se o ‘pontapé de saída’ das eleições provinciais. Ao todo foram três processos eleitorais (legislativas, presidenciais e provinciais) antecedidos pelas eleições autárquicas de 2008.
Apesar de todas as sinuosidades e contestações, como sempre, o país é considerado um exemplo de sucesso no desenvolvimento da democracia. A condução de processos eleitorais e o ritmo de crescimento (e desenvolvimento???) têm sido referenciados como exemplos.
Como um ‘país democrático’, apesar da (pré) dominância de um partido – Frelimo, muitos partidos concorreram nestas eleições. As promessas não faltaram. A partir da velha cantiga de “acabar com a pobreza”, aos “mais empregos”, “mais oportunidades para juventude” até a “repartição equitativa de poder”.
Com os prós e contras, méritos e fraudes, venceram os que se comprometeram em acabar com a pobreza. Este slogan, “o acabar com a pobreza”, irá parametrizar as ‘estratégias de desenvolvimento’ do país nos próximos cinco anos, daí o interesse em me debruçar sobre ele e, sobretudo, sobre as estratégias de desenvolvimento do país e alguns males que flagelam a nossa sociedade.
Se antes da assinatura dos Acordos de Paz de Roma (em 1992) a guerra dos dezasseis anos (ou guerra civil) foi usada como um dos principais argumentos para o fracasso dalgumas estratégias (como o PPI) e, consequentemente, para justificar a prevalência de altos índices de pobreza no país (o mais pobre do mundo em 1992), o que justifica que, dezoito anos depois, o país continue tão pobre?
Se exploram-se as nossas praias e parques, constroem-se ‘Mozais’, descobrem-se areias pesadas de Moma, gazes de Pande (e ignoram-se as pedras preciosas de Namanhumbir), porque somos pobres?
Para Guebuza, os moçambicanos são pobres porque falta-lhes atitude. Para ele, “tem que se acabar com a mentalidade miserabilista de continuar a ser pobre […] é uma mentalidade ultrapassada, é uma mentalidade a combater. Deve ser varrida das nossas cabeças […] temos que cultivar a auto-estima” (Domingo, 28 de Novembro de 2004, págs. 20-21).
Se o problema está identificado (falta de atitude), o que é feito para colmatá-lo? As estratégias são consistentes?
Apesar de se enfatizar o combate a pobreza nos discursos de Guebuza, pouco ou nada se diz sobre as estratégias (Brito, 2009). Fala-se de falta de atitude, os moçambicanos tem que abandonar a mentalidade miserabilista e cultivar auto-estima mas não se diz como, que estratégias o Governo adopta para fazer face a este problema que constitui o seu “inimigo número um”.
Autores que, como Guebuza, defenderam que a pobreza é uma questão de atitude também advogam que só a educação, a cultura e a informação podem desenvolver um povo (Pigou, 1982; Schumpeter, 1972). Só com informação é que o povo pode estar consciente de que a sua condição não é uma dádiva ou castigo divino, mas é uma conquista e, para tal, o esforço é tanto individual como colectivo.
Embora tenhamos que nos engajar todos, sem que haja um real comprometimento político, nenhuma estratégia seria eficaz. Da mesma forma que a pobreza é uma questão de atitude, é também uma questão de acção de todos e de cada um individualmente. Tem que haver um guia (o Governo) e uma estratégia concreta; Pigou já nos dá: educação, cultura e consciencialização.
Não basta a retórica sobre “acabar com a pobreza” e “desenvolver Moçambique”, não bastam as estratégias que são quinquenal, anual, semestral e até mensalmente desenhadas. Precisa-se de comprometimento e acções concretas e consistentes.
No combate a criminalidade em Moçambique, por exemplo. É comum ouvir o Ministro do Interior, Pacheco e com maior intensidade o seu vice, Mandra, a dizerem: “os criminosos, os assassinos que se cuidem. Estamos a aumentar o efectivo, vamos intensificar as nossas acções, seremos mais duros, vamos despojá-los…” (Notícias, 2005). Advoga-se que “sendo mais duro”, aumentando o efectivo acaba-se com a criminalidade.
Por mais que se aumente o efectivo de Polícias, aumentem-se armas, as patrulhas, etc, jamais poderá se acabar com a criminalidade. Os criminosos estão na sociedade. São filhos, irmãos, país, primos, maridos, etc. A sociedade é que os cria e os alberga. Ela é que pode combatê-los mas, para o efeito, precisa-se de consciencialização. Os pais, filhos, esposas, … tem que perceber que os criminosos são um mal para eles próprios e para o país como um todo e que cabe a eles, como cidadãos, como país, como filhos, como esposas, … combatê-los.
Por mais que a Polícia seja mais agressiva e que haja um polícia para cada cidadão, o que é quase impossível, os criminosos terão sempre subterfúgios. Irão existir e coabitar sempre connosco.
A questão do lixo que é quase que endémico nas nossas cidades. Embora seja da responsabilidade dos Governos Municipais, traz-nos algumas lições sobre a importância da atitude, da consciencialização dos cidadãos. Na Inglaterra, França e outros países ocidentais e não só (EUA) a consciência cidadã é forte e tem sido decisiva no combate a estes e outros problemas. Quem chupa um pequeno rebuçado sabe e sente, por si mesmo, que tem que procurar uma lata de lixo para depositar o resíduo e fá-lo. Não precisa de alguém que o controle e coaja, embora exista indivíduos destacados para o efeito.
Por mais que se aumentem contentores de lixo, de que tanto carecem as nossas cidades, aumente-se o efectivo de varredores de rua e de todo o pessoal de limpeza, o lixo, tal como a criminalidade anteriormente referida, jamais acabará.
A estratégia básica e fundamental é o reforço da cidadania e da consciência cidadã e isto só é possível com educação e cultura. É importante que isto esteja bem claro e patente nos curricula desde os primeiros anos de escolaridade. Importa reforçar as campanhas de educação cívica e esta deve ser constante e não em períodos eleitorais.
Tem que se abandonar “estratégias de bombeiro”. Tem que se deixar de ser reactivo e agir antes que os problemas aconteçam. Tem que haver maior comprometimento político e disso, o país carece.

Até breve!

* EGÍDIO ESTÊVÃO CHAIMITE, Maputo, Notícias, 12/01/10


NOTA: Este leitor do Notícias aborda de forma muito lúcida e concreta algumas questões que nos preocupam.Penso que esta carta também pode servir de contributo para um debate interessante no blog do presidente Armando Guebuza. Confira aqui.

Monday, 11 January 2010

Entrevistas a não perder






Recentemente foram publicadas excelentes entrevistas a Daviz Simango, Luísa Diogo e Manuel de Araújo. Pela sua importancia, aconselho a leitura das três entrevistas.

Leia a entrevista de Daviz Simango aqui, a de Luísa Diogo aqui e a de Manuel de Araújo aqui.

Município de Maputo - Muralha na marginal continua degradada e abandonada

Maputo (Canalmoz) - A muralha na Av. Marginal, entre o viaduto que desce da Ponta Vermelha a zona do Clube Naval está num estado de degradação avançada. Está um caos e o Município não dá a mínima atenção ao caos a que chegou uma das mais agradáveis áreas da cidade. Em alguns locais a muralha já não existe. É constante o perigo para quem frequenta a Avenida da Marginal, especialmente nesta época quente. E na avenida também não há sinalização de perigo.
A degradação na marginal é em quase todos os aspectos: a muralha está destruída em quase toda a sua extensão; os bancos foram quase totalmente retirados e onde estes ainda existem não estão devidamente conservados. Os espaços onde estão plantadas árvores estão repletos de capim. As bermas da avenida junto ao passeio estão cheias de lixo.
No próprio viaduto que desce da Ponta Vermelha, na Av. Alcântara Santos, o corrimão de metal, encontra-se totalmente enferrujado e a cair de podre. E nas juntas da “ponte” com a estrada há falta de grelhas que podem um dia destes provocar um acidente grave.
Por baixo do viaduto já não existe iluminação pública.
O matagal das barreiras é agora o traço dominante das imediações do Ministério das Defesa e da Presidência da República. A auto-estima parece estar a passar ao lado pelo exemplo que é dado. E a ajudar à ridicularização do chefe de Estado quando fala de auto-estima, as barreiras viraram lixeira e albergue de indivíduos de conduta duvidosa.
Mas o mais preocupante é o estado de destruição da muralha. Em alguns pontos deixou de haver protecção entre o passeio da berma da Marginal e o mar. Há zonas entre dez a vinte metros sem muralha.
A intenção de se construir uma nova muralha em substituição da que foi construída no tempo colonial vem desde 1999 e já se passaram mais de dez anos sem que as promessas sejam cumpridas. Desde o tempo em que o presidente do Município de Maputo era Artur Canana que se prometem obras na Marginal. Passou o tempo de Eneias Comiche e actualmente é David Simango o edil da capital do País. A reconstrução continua a ser uma miragem. Promete-se sem pensar e depois vem as desculpas. Diz-se agora que há falta de fundos. A auto-estima é tanta que se está mais uma vez à espefra que os fundos venham dos estrangeiros. Para festas despropositadas, com o fito nas comissões, nunca há falta de fundos…
A Avenida da Marginal é tida como uma zona aprazível mas como a tratam tornou-se uma zona deprimente, onde a morte de automobilistas já tem ocorrido por despiste. Não há sinalização rodoviária. É uma zona de veraneio e de visita quase que obrigatória para quem visita Maputo, mas nem assim as autoridades dão atenção à poça vergonha que é hoje a Av. Marginal.

Há anos sem reabilitação

A nossa reportagem percorreu a Avenida da Marginal e viu a dramática situação. Falamos com Zitha, um automobilista, sobre o estado crítico que caracteriza o local. “O Governo devia se preocupar com a reabilitação deste espaço que dignifica a cidade de Maputo. Não vou falar sobre os acidentes que por aqui ocorrem e das viaturas que se precipitam no mar. Mas a estética do local é que está em causa. Deve-se devolver a beleza a este local que era muito frequentado devido a sua natureza”, disse este munícipe.
Na nossa caminhada encontrámos António Nhampule, pescador, sentado num dos pedaços do muralha. “ A muralha em cada dia que passa está a degradar-se cada vez mais. As partes partidas são da responsabilidade de certos automobilistas irresponsáveis. Porém, existe a degradação provocada pela acção do mar”.
Álvaro Ernesto, um outro pescador que nos disse frequentar o local “desde 1980”, informou-nos que quando começou a ir para ali “a marginal estava bonita”.
Camal Issufo Jalá de 52 anos disse dedicar-se à pesca naquele local desde os seus 12 anos de idade. Contou-nos que em outros tempos a marginal era assistida constantemente. “Muitos endinheirados que frequentavam o local quando vissem o estado de degradação do local, colectavam dinheiro e iam entregar à câmara para a sua reabilitação”, refere.

Vereador não quer falar

Procurámos Mário Macaringue - Vereador das Infra-estruturas no Município de Maputo - para nos falar do plano do município para a reabilitação da marginal da capital do país. Não tendo sido possível localizá-lo no seu gabinete, fomos ao Gabinete de Comunicação e Imagem daquela instituição e falámos com Mário Fonseca, um dos funcionários a quem apresentámos esta nossa preocupação. Este remeteu-nos ao Director de Comunicação do Município, Narciso Faduco que também não se encontrou disponível. Enfim… figuras que existem mas que no fim de contas nunca estão para servir os propósitos que suscitaram a criação dos postos que ocupam. Entretanto as mais belas zonas da capital vão andando como andam e assim se explica melhor. É a auto-estima no seu melhor nível e um gozo ao chefe de Estado que passa a vida a falar disso…

(Alexandre Luís, Canalmoz, 11/01/09)


NOTA: O professor Carlos Serra postou no seu blog um texto intitulado "Marginal de Maputo gravemente doente", texto esse acompanhado de fotos chocantes da Marginal. Confira aqui.

Sunday, 10 January 2010

Boletim sobre o Processo Político em Moçambique

J á está disponível o Número 44 doBoletim sobre o processo político em Moçambique com data de 11 de Janeiro de 2010, com os seguintes títulos:

1063 editais rejeitados

CC dá OK aos resultados e ataca CNE, leis e partidos

CNE: obscura e illegal

Cortar na burocracia

Acções criminosas pelos partidos e funcionários

O processo da Lei de Terras pode servir de modelo para fazer um Código Eleitoral?

CNE admite erro em documento secreto

CC de facto diz que o protesto é impossível

Observatório Eleitoral acusa CNE de grosseira discriminação

Commonwealth avalia eleição com altos e baixos

Porque funcionou a paz moçambicana?


Confira aqui.


( Fonte: www.macua.blogs.com )

Sapatos sujos



( Os sete sapatos sujos, Mia Couto)

LIGUE O SOM!


O texto do Mia Couto, apesar de não ser recente, continua a retratar fielmente alguns problemas da sociedade moçambicana. Este resumo é um convite à reflexão!

Thursday, 7 January 2010

O MDM surgiu para evitar os dois terços da Frelimo na AR




O presidente do Movimento Democrático de Moçambique, Daviz Simango, aceitou abrir as portas da sua casa para explicar ao jornal “O País” algumas situações da sua vida e do seu percurso político. Simango assume que enfrentou dificuldades para estudar por ser filho de Urias Simango, que concorreu à presidência da República para puxar o MDM que pretendia travar a maioria absoluta da Frelimo.

Quem é Daviz Simango?

Daviz Simango é moçambicano. Hoje, exerce várias funções, com destaque para as de presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e presidente do Conselho Municipal da Cidade da Beira. Pai de dois filhos, sendo o mais velho Urias Simango e o mais novo Luís Simango. Sou casado com Clara Simango, que terminou o curso de Direito na universidade Jean peaget. Vou fazendo a minha vida feliz com a minha família.

Como caracteriza a sua infância?

A minha infância é igual à de toda a criança moçambicana, mas com a particularidade de ter sido filho de Urias Simango e da Celina Simango, pessoas que participararam e estiveram envolvidas no processo de luta de libertação nacional, a luta armada, e cujo destino quis que nós nascéssemos em terras alheias.
O meu irmão mais velho nasceu no Zimbabwe, eu, em Dar-es-salam, quando ainda se estava a preparar a luta de libertação nacional, e o mais novo, que foi assassinado em portugal, nasceu em Goa.
Portanto, o destino dos nossos pais de se movimentar de um lado para o outro, à procura da liberdade e a libertação do país, bem como a sua indepedência, fez-nos nascer em diferentes frentes.
Para mim, foi uma infância de patriotismo, pois viámos aquelas movimentações todas, convivendo com pessoas que hoje são ministros, algumas já presidiram à República. Trata-se de pessoas compatriotas, que tinham a tarefa de libertar o país. Era normal conviver com elas, tendo em conta que eram muito mais velhas.

E com a família, como é que viviam?

Na família, vivemos muito bem. o nosso pai era alguém que pouco parava em casa, aliás, quando eu nasci, ele não estava em casa e a minha disse que eu seria Daviz Mbepo Simango, um nome que vem da minha língua materna, uma coincidência com o nome do meu bisavô.

Qual era a relação entre o seu pai e os outros membros da Frelimo?

Como deve saber, o meu pai era vice-presidente da Frente de Libertação Nacional. Portanto, a relação era profissional, eles iam visitar-nos. Era uma relação de amizade, de trabalho e, de certeza, nós aparecíamos lá como os filhos do vice- presidente e, quando batíamos a porta, cumprimentavamo-nos. Era uma vida de compatriotas.
Infelizmente, muitos deles morreram. Refiro-me, por exemplo, a Silvestre Nungo, que morreu assassinado; ao próprio Eduardo Mondlane, que gostava de passear com Lutero, meu irmão mais velho; Covane; ao próprio ex-presidente Joaquim Chissano, que gostava de conviver connosco.

Perdeu os seus pais quando tinha 20 anos. Como é que encarou essa situação?

Não, eu perdi os meus pais quando tinha 10 anos. Até que, quando vivíamos na Tanzania, o meu pai fez uma coisa muito interessante: preparou-nos politicamente. Lembro-me perfeitamente que, muitas vezes, ele nos chamava e dizia: meus filhos, isto é uma pistola e mata. E, esta pistola é manejada desta forma.
Começou a ensinar-nos como usar uma pistola e, depois, dizia: nunca devem fazer aquilo que vos ensinei, senão matam-se entre vocês, ou matam pessoas inocentes.Qualquer dia que apanharem uma pistola, por favor, não a manobrem. Portanto, estávamos treinados politicamente para manejar a arma e para a convivência política no mundo.
Relativamente à situação política da altura, lembro-me que o nosso pai conversava muito connosco e ensinava-nos, de facto, o que era ser comandante e como liderar, pois isso era muito importante para os comandantes. Depois, explicava-nos ainda a respeitar as diferenças política da altura.

Depois da morte de Eduardo Mondlane, o seu pai viveu momentos difíceis na Frelimo. Chegou a explicar o que estava a acontecer?

Bom, Eduardo Mondlane morreu numa altura muito turbulenta. Certa vez, quando fomos a Cairo, o nosso pai explicou-nos o que estava a acontecer, na altura. Infelizmente, há muita informação que ainda não foi revelada neste país. Entretanto, penso que à altura própria muitos terão que contar.
Seja como for, sentimo-nos amparados por ele e vimos nele um homem com muita coragem, determinação. Vimos, enfim, um homem que tinha os seus ideiais. Ele achava que tinha de defender os seus ideiais, não concordava com muitas situações negras que aconteciam na altura, desde os assassinatos que tinham lugar nas frentes às mortes de pessoas inocentes. A morte de eduardo mondlane não nos agradou, mas ele fazia parte da lista, pois havia uma encomenda também para si. Eram situações da época.

Havia mesmo uma encomenda para ele?

Sim, havia! Na altura, ele não estava em casa e não foi possível fazer essa encomenda. Seja como for, na altura, nós tinhamos de dizer que ninguém tinha de tirar a vida ao outro. Independemente daquilo que as pessoas pensam ou têm na mente, é importante que se respeite e que haja amor pelo próximo. E, sobretudo eu sou de cariz relegiosa e defendo essa posição.

DEPUTADOS TOMAM POSSE

Deputados do MDM vão tomar posse ou vão seguir o caminho da Renamo?

Sou presidente e o que nós fizemos em três meses demonstrou ao mundo que é possível alcançar a vitória em Moçambique, e é isso o que vamos fazer. Todos aqueles que votaram no MDM tinham a consciência de que este iria criar roturas e que iria estar na Assembleia da república evitando qualquer tipo de conflito. Avançamos para que todos apostassem no MDM como uma alternativa. Estamos na ARAR e demonstraremos que estamos lá.

Olhando para as ambições do MDM, vai concorrer às eleições autárquicas de 2013 e gerais de 2014?

Vamos avançar com este próposito de concorrer, pois o MDM existe exactamente para concorrer e responder aos desafios do país. Devemos ter a consciência de estar nas assembleias provinciais e nas autárquias de modo a criar uma representatividade ainda maior do MDM.


MDM vai avançar com iniciativas empresariais para sustentar seus projectos

Daviz Simango em discurso directo

Agora como adulto, que interpretação faz dos argumentos usados para condenar os seus pais à pena capital?

Hoje, certamente que as pessoas que assinaram as sentenças não o podiam fazer. Tivemos o caso da África do Sul sob o regime do apartheid e vimos Mandela, Mbeki e outros que, na altura, tinham sido condenados naquele país, mas não foram assassinados. E, hoje, a África do Sul vive um momento de reconciliação, onde todos podem participar no desenvolvimento do país. Se isso tivesse acontecido em Moçambique, não teríamos tido a situação da luta pela democracia, pois já teríamos compreendido que era necessário e possível conviver entre todos os moçambicanos, apesar das diferenças ideológicas.

Será que, alguma vez, um membro do regime pediu-vos desculpas?

Antes, nós compreendemos que a justiça deve ser feita pelo tribunal e a sentença deve ser feita nos órgão apropriados. Não é uma regra aceitável condenar os outros, visto que nenhuma pessoa por iniciativa própria pode matar. Nós tivemos um país, na altura, com campos de concentração, onde as pessoas eram assassinadas. Chamava-se a população para assistir ao fuzilamento. Trata-se de situações que, hoje, julgo eu, não se iam admitir. Houve moçambicanos que não queriam acreditar no que estava a acontecer e não concordavam com a forma de governar o país. Por conseguinte, decidiram entrar para as matas e lutar para a democracia, para a liberdade de expressão, de organização e de todos os demais direitos fundamentais do homem.

Ora, indo especificamente à sua questão, a resposta é “não”. Talvez alguns farão um dia. E, as pessoas que assinaram para que isso acontecesse devem evitar abrir esses dossiers. Contudo, a forma como algumas pessoas têm encarado esse assunto acaba pondo em perigo as nossas crianças, que poderão começar a interpretar isso como algo normal. Alguns aparecem a dizer, por exemplo, que foi uma cultura da época ou porque na altura era justicável. São coisas que podem pôr em perigo a consciência das nossa crianças.

Como é que encararam a morte dos vossos pais?

Como disse, nós fomos bem formados politicamente, mas deve imaginar como é que uma criança fica quando vê seus pais serem assassinados. Em todo o caso, nós fomos pessoas maduras, pessoas que sabem que devem construir a nação moçambicana e que essa contrução da nação moçambicana é um processo. Portanto, o importante, neste momento, é que temos de ter a consciência de que não devemos matar os outros por divergência políticas ou ideológicas, pois há uma necessidade de reconcialiação.

Nos manuais de história de Moçambique, diz-se que Urias Simango foi reaccionário e que, por conta disso, lhe foi aplicada a pena capital. Como encarou essa matéria na escola? Qual era a reacção do professor e dos seus colegas?

Eu não passei por essa altura, mas também quando nós estávamos a estudar, os professores sabiam quem éramos e evitavam falar, tendencialmente, dessas coisas. Tivemos muito amor dos professores. Sempre nos diziam que a nossa preocupação deviam ser os estudos e não aquilo que estava a acontecer. Diziam também que eles eram somente professores, funcionários que estavam a cumprir às ordens e que nunca nos iriam ofender, porque sabiam o que estava a acontecer. E, fomos estudando. Ora, quem passou por isto foi o meu filho mais novo.

Não teve receio de dar nome do seu pai ao seu filho?

Bem, nós tivemos familiares que não deixavam o apelido Simango aparecer nos documentos, porque naquela altura era motivo de prisão e até para ir ao campo de reeducação. E, no nosso caso, nós dissemos que não havia nenhum problema em usarmos o nosso apelido, pois era aquilo e é isso o que nós herdámos. Pensamos que isso não nos afecta em nada.

Terão recebido apoio de algumas figuras proeminentes da Frelimo, naquele momento, ou foram abandonados à vossa sorte?

Olha, naquela altura, reinava medo no seio deles porque havia interesses eventuais que cada um tinha. Outros tinham medo de ser fuzilados, de ir ao campo de reeducação. E, nós pensamos que muitos escondiam-se. Portanto, vivemos à custa dos familiares, que foram muito fortes, pois sofreram perseguições e passaram por várias situações.

E, hoje?

Bem, hoje já conversámos abertamente com muitos deles. Mesmo quando Chissano era presidente, conversávamos e sentavámo-nos à mesma mesa para convivermos. Mesmo com Guebuza e com vários outros antigos combatentes temos conversado. Esses antigos combatentes a que me refiro dizem desconhecer as reais causas do aconteceu. Mais: dizem que não tinham voz para reclamar e negar e, se o fizessem, entravam no mesmo saco. Seja como for, as coisas tem melhorado.

Quantas figuras lhe fazem recordar os antigos momentos? Joaquim Chissano, Guebuza...

Bom, é preciso dizer que não éramos tão crianças, éramos crianças adultas. Como dizia, éramos crianças muito bem formadas, sabíamos de muita coisa que estava a acontecer ali, inclusive escondíamos muitos guerrilheiros em nossa casa. Éramos crianças muito bem informadas. No fundo, todos recordam-me, mas de diferentes formas.

Como é que Daviz Simango aparece na arena política?

É uma situação que vem de há anos. só para lembrar, o meu bisavô paterno, Mbepo, estava associado ao regulado, pois ele era o ancião da igreja. Mais tarde, foi-lhe dada a oportunidade de ser régulo e ele aceitou. posteriormente, o regulado passou para a família Cumbaza, que são nossos primos. Meu avô já caminhava com Ngungunhane e, em casa, existem fotografias onde ele aparece com Ngungunhane.

Ainda é preciso compreender que a primeira revolta contra os portugueses aconteceu em Machanga e o meu avô estava envolvido nessa revolta. Foi por isso que parou em São Tomé, deportado no âmbito de trabalho forçado. Mesmo cá, ele foi vítima de trabalho forçado.

A minha mãe foi a primeira mulher que liderou as mulheres na luta de libertação nacional. Uma mulher muito combatente e era descedente dos Muchangas, que eram guerrilheiros.

Portanto, esse sangue todo criou em nós uma vontade política, mas a nossa mãe advertiam-nos que nos formássemos, primeiro e, só depois, passássemos para a política. E, de facto, acatámos esse comamdo. Era preciso estudar. Quando fui à faculdade de engenharia, indicaram-me para o curso de Engenharia Química, mas eu queria engenharia civil. Quando pedia para mudar de curso, não me deixavam e diziam que eu era miúdo. Só depois, quando o reitor era o Dr. Ganhão, consegui mudar de curso. E, durante o percurso estudantil, no “Self”, a vida era difícil, comia-se mal e acabamos fazendo aquela primeira manifestação de estudantes. Fui uma das pessoas que estavam a liderar o grupo. Tratou-se da primeira manifestação na universidade. E, assim, continuámos a fazer política, embora não de forma tão activa.

Voltaria à Renamo?

Não!

Nem que Afonso Dhlakama e o partido Renamo lhe peçam desculpas?

Não, não voltaria à Renamo.

Porquê?

É preciso compreender que o que estamos a fazer hoje, como MDM, é um chamamento de uma parte de moçambicanos. Esse chamamento puxa-nos às responsabilidades que nos exigem uma formação política séria. Nós precisamos de um partido que possa ser alternativa nesse país, daí que avancemos com o MDM, com o galo. É isso o que estamos a fazer, cumprir com aquilo que é o anseio de muitos moçambicanos.

De quem veio o conselho de concorrer à presidência da República?

Quando nós criámos o MDM, a nossa intenção era evitarmos os dois terços do partido Frelimo, mas depois dos resultados das eleições autárquicas apercebemo-nos que estavam criadas as condições para que a Frelimo conseguisse os tais dois terços. Nós achámos que isso era mau para a democracia em Moçambique.

A candidatura de Daviz Simango à presidência, à partida, era para puxar o galo. Se verificar bem, vai notar que entre o MDM e Daviz Simango há pessoas diferentes, e era necessária a força de Daviz Simango para conseguir introduzir o máximo possível de deputados na Assembleia da República.

Não esperava algo melhor do que conseguiu?

Em quatro meses, Daviz Simango não podia concorrer como tal, mas era preciso puxar o partido, era preciso criar condições para que o próprio Daviz Simango e MDM façam um exercício a nível nacional. O que fizemos foi um muito bom exercício de aquecimento. Era preciso conhecer bem o país, porque não o conhecia tão bem assim. era preciso entrar no país, lançar Daviz Simango e preparar a semente para o futuro.

Quanto é que o MDM investiu nestas eleições?

Nós investimos muito. Através das quotas dos membros, colocámos uma viatura em cada província. Mantemos algumas sedes operacionais até hoje. temos algumas dívidas de sedes e ainda temos que pagar algumas viaturas. O dinheiro da CNE não foi nada. O MDM a nível nacional lançou só 50 mil camisetas, que custaram de 1.4 milhão de meticais. Se formos a falar de material de propaganda, todo o dinheiro que recebemos foi para este efeito.

Não tem outras fontes de rendimento?

Nós gostaríamos de ter doadores, amigos estrangeiros, milionários a apoiar o partido mas, infelizmente, não temos. Lembro-me que alguém me perguntava se recebiamos dinheiro da Europa, não recebemos dinheiro de nenhum lado, o que temos é boa-fé, temos a nossa capacidade de gestão.

Qual vai ser a sustentabilidade do MDM nos próximos tempos para penetrar no país real?

Nós temos a consciência de que estámos a fazer política, e isso vai precisar de muitos recursos quer financeiros quer humanos e, sobretudo, a nossa disponibilidade como membros seniores do partido para levar avante aquilo que são as nossas pretensões. O MDM não vai olhar muito para os meios provenientes da Assembleia da República, para poder organizar-se e trabalhar. Vai, sim, olhar para uma possibilidade de uma filosofia empresarial. Portanto, o que nós queremos é que o MDM a partir dos seus quadros possa identificar algo, no âmbito duma filosofia empresarial, que possa garantir que haja recursos financeiros provenientes do trabalho e do suor dos próprios membros.

Quais vão ser as áreas?

Já temos, pelo menos, quatro áreas identificadas, mas por questões de ética partidária não convém falar neste momento.

Os resultados das eleições passadas mostram que o MDM tem força nas zonas urbanas do que nas rurais, onde a Frelimo está cada vez mais forte. Como pensam em penetrar nessas zonas?

Temos agora cinco anos de trabalho nas zonas rurais. A estratégia do partido faz questão de ser uma coisa interna, mas terão a oportunidade de ver os quadros do MDM a circular de lés-a-lés nas zonas rurais. Nós vamos trabalhar e vamos conseguir conquistar as zonas rurais e vamos conseguir consolidar a zona urbana.


Vai concorrer na Beira?

São tipos de perguntas que sempre relego aos órgãos do partido. Quando chegar a vez, os órgão do partido vão decidir quem é que vai concorrer. O tempo dirá o que vai acontecer, é uma questão de esperarmos. Há quem diga que uma das soluções para o actual cenário político é a união dos partidos de oposição, Renamo, MDM e PDD (...). Unificar para fazer o quê? O importante é que cada partido trabalhe arduamente e que cada partido conquiste espaço. Cada organização política terá de fazer o máximo de si, buscar confiança das e nas pessoas. O MDM não vê uma vantagem clara em se unir aos outros partidos. Uma coisa é os partidos defenderem lugares na AR, outra é apresentar um projecto de dimensão nacional, uma tese que convença os moçambicanos. Isto é que é mais importante. Sempre apresentaremos argumentos que levem os moçambicanos a reflectir.



( O País, 07/01/10)



Tuesday, 5 January 2010

Machado da Graça na berlinda


O texto escrito por Machado da Graça intitulado “Os patrioteiros” continua a causar polémica e isso seria óptimo num ambiente de tolerancia onde as ideias sejam discutidas com respeito. A julgar pelas reações negativas provocadas pelo texto, o Machado da Graça incomoda muita gente.
O Machado da Graça é um reputado analista que tem liberdade e autoridade para emitir opiniões pessoais. De igual modo, os leitores são livres de aceitar ou não essas opiniões. O que é inaceitável é que se recorra ao ataque pessoal quando as opiniões são divergentes.
Machado da Graça revelou aquilo que todos sabemos, há na verdade diferenças entre patriotas e patrioteiros e isso perturba muita gente que se sente melindrada quando as suas ideias são confrontadas.
Todos conhecemos o passado de Machado da Graça como frelimista convicto e para mim essa sua fase foi muito negativa. Enquanto ele dançava ao som da música frelimista, ele era um herói para os frelimistas, o problema é quando as pessoas começam a questionar. Isso já aconteceu com outros que foram criticados e ostracizados por ousarem questionar.
Possivelmente Machado da Graça ainda é simpatizante da Frelimo mas como cidadão responsável questiona seriamente situações que flagelam a sociedade moçambicana. A corrupção, os abusos, as fraudes, a falta de transparencia, etc., etc., não podem ser assuntos debatidos à luz das simpatias partidárias. Nos círculos afectos à Frelimo, incluindo os blogues de pessoas conotadas com a Frelimo, estes assuntos não são abordados, são tabu, e isso preocupa-me seriamente porque na verdade patriotismo é pôr sempre os interesses nacionais à frente dos interesses partidários.

Confira o referido texto aqui.

Dhlakama ainda dá medo

“Por isso, a Renamo pode manifestar, mas com Dhlakama em frente, não”-diz uma fonte da Segurança do Estado

Quelimane (DZ)- As possíveis manifestações do partido Renamo, parecem estar a ser muito debatidas, quer pelos políticos, académicos assim como pela sociedade civil. Enquanto uns defendem que as mesmas não terão impacto, há outros que dizem que vale a pena.
Do lado do governo moçambicano, neste caso daqueles que garantem ordem e tranquilidade pública, apelos não faltam para que as populações não adiram as estas manifestações da Renamo.
Para além de apelos, as autoridades moçambicanas, posicionam agentes da Polícia, do SISE e outro tipo de forças especiais para estancar qualquer que seja a acção dos manifestantes. Vide a edição do DZ edição 717, sobre o envio de forças militares aos distritos.
Mas indo concretamente as manifestações que a Renamo pretende organizar, estas são de lei, visto que a Constituição da República de Moçambique, consagra que as monifestações podem ter lugar desde que sejam pacíficas.
Ora, olhando este dispositivo legal, a Renamo, partido organizador, vê-se coberto de razão. Só que pela maneira como estas manifestações são popularizadas, o governo moçambicano, as vê com outros olhos.
Não há nenhum problema que a Renamoorganizemanifestações,só que o medo está no seu lider, Afonso Dhlakama, que pelo seu passado histórico, ainda dá medo.
Uma fonte do ministério do Interior (MINT), que reputamos idoniedade, disse ao nosso jornal que o grande receio das autoridades é que estas manifestações sejam violentas. A mesma fonte disse que não haveria nenhum problema que a Renamo organiza-se alguma manifestação, só que com Dhlakama a liderar, as mesmas podem não ser pacíficas como se diz por ai.
Num outro desenvolvimento, aquela fonte avançou também que as manifestações serão prontamente anuladas em todos pontos do país e na Zambézia em particular, onde estão posicionados homens da FIR e SISE incluindo até Polícia Militar, que dia e noite vigiam as residências dos membros da perdiz. “Se me perguntares os nomes dos membros da Renamo, posso não ter, mas da localização das suas casas, ai dou-te”-disse a nossa fonte.
Lembre-se que estas manifestações da Renamo, já foram motivo de conferência de imprensa, que foi organizada pelo partido, na pessoa de Armindo Milaco, membro senior da perdiz, mas que até agora nem água vem e nem água vai.


(Diário da Zambézia, 05/01/10, postado por Carlos Serra em www.oficinadesociologia.blogspot.com)

Monday, 4 January 2010

Fracassada transformação do “Continental” em banco


A intenção de transformar o edifício da encerrada Pastelaria e Café Continental, na baixa da cidade de Maputo, em instituição bancária acaba de fracassar com a recusa por parte do Governo da urbe de um pedido para tal, endereçado pela gerência daquela casa de pasto.
O pedido fora apresentado à Direcção de Turismo da Cidade de Maputo a 19 de Junho do ano passado, nove dias após o encerramento do estabelecimento por ordem do Tribunal Judicial, que deu luz verde para a penhora dos seus bens na sequência de um imbróglio com um antigo trabalhador.
Segundo informações tornadas públicas na Imprensa em Agosto, a gerência solicitava autorização para que o edifício fosse repartido em dois, passando a parte maior a acolher um balcão do African Banking Corporation (ABC). A outra continuaria a funcionar como pastelaria, embora em miniatura.
Entretanto, informações há dias avançadas ao nosso Jornal por David Cângua, director do Turismo na urbe, garantem que o pedido foi recusado e actualmente, há movimentações por parte dos proprietários do “Continental” com vista à sua reabertura em breve.
“A ideia da transformação do Café Continental em banco foi indeferida. Pedro Pinto, dono daquele estabelecimento, já fez uma procuração autorizando um dos seus irmãos a reabrir o empreendimento. Esperamos para breve a reabertura da firma com a mesma actividade”, disse David Cângua.
De salientar que o “Continental”, uma das referências entre as casas de pasto na baixa da cidade, foi forçado a fechar as suas portas ao público a 10 de Junho do ano passado em consequência da penhora de parte dos seus bens a favor de um ex-empregado daquela casa, de nome Obadias Langa, expulso injustamente em 2002. A penhora foi decidida pelo Tribunal Supremo, que validou a decisão do Tribunal Judicial da urbe, pela incapacidade de o estabelecimento pagar uma indemnização ao antigo trabalhador, cujo valor, entretanto, não foi revelado.
Entretanto, no dia seguinte ao do encerramento houve garantia de que o “Continental” abriria 60 dias depois, ou seja, a 10 de Agosto, facto que não aconteceu.
Nesse sentido, o pronunciamento do director do Turismo reaviva a esperança de milhares de moçambicanos e não só, que viam no “Continental” como o último emblema da cidade no que diz respeito aos locais de lazer e de uma conversa rápida, depois do “Scala” e do “Djambu”, passando pelo “Criador”, que já não emprestam requinte nenhum.


Maputo, Terça-Feira, 5 de Janeiro de 2010

Notícias

Ultrapassar disputas eleitorais


O Conselho Constitucional acaba de validar e proclamar os resultados eleitorais, apontando Armando Emílio Guebuza e o seu partido, a Frelimo, como os vencedores do pleito do passado 28 de Outubro, tal como já havia sido anunciado pela Comissão Nacional de Eleições no mês passado.
Aliás, a vitória da Frelimo e do candidato já se tornara evidente, logo após o início da contagem dos votos, nas próprias mesas de votação, já, mesmo, na noite do próprio dia 28 de Outubro, quando, através dos órgãos de comunicação social, os resultados começaram a ser transmitidos a todo o País.
O Conselho Constitucional reconheceu ter havido “várias irregularidades” no processo eleitoral ora em análise, mas chegou à óbvia conclusão de que tais “irregularidades não influenciaram o resultado final”, linguagem da qual discor- damos abertamente, pois entendemos nós que todas e quaisquer irregularidades têm o seu peso relativo no resultado final; isto é, não é possível que enchimento massivo de urnas em percentagem largamente superior ao número de eleitores inscritos numa determinada mesa de votação não venha a ter influência relativa no resultado final de uma eleição.
Mais grave quando esse enchimento, como foi no caso vertente, não se verificou apenas em uma ou em duas mesas, mas em várias centenas de mesas, como foi largamente referido por várias equipas de observadores nacionais e internacionais.
P o r o u t r o l a d o , o Co n s e l h o Constitucional censurou a forma como a CNE geriu o processo de admissão e rejeição de listas de partidos políticos, sobretudo por não lhes ter dado a oportunidade de impugnar as deliberações daquele órgão, pois nem, sequer, divulgou, na devida altura, as listas rejeitadas e, muito menos, as razões da rejeição. Antes pelo contrário, a CNE avançou para etapas ulteriores do processo, nomeadamente a realização atabalhoada de um sorteio de credibilidade duvidosa, tudo feito como se os partidos rejeitados não tivessem direitos nenhuns a reclamar, face àquela actuação claramente ilegal, mas acusada de legal pela própria CNE. Vem agora o Conselho Constitucional concordar com os que afirmaram, em devida altura, que aquela actuação da CNE coarctava o direito constitucional que assiste a todos os cida- dãos de serem informados pela administração pública das razões existentes por detrás da negação de quaisquer direitos a que se achem. E tal informação das razões de negação de direitos dos cidadãos deve ser facultada em moldes que permitam ao cidadão exercer o seu direito de impugna- ção, nos termos da Lei, o que a CNE nunca se preocupou em fazê-lo, já que nem produziu, na hora da rejeição das candidaturas, qualquer deliberação passível de impugnação. Só andou a falar, tipo Grupo Dinamizador, que daria explicações particulares a cada partido interessado, o que não possui cobertura legal em nenhum dispositivo do pacote eleitoral.
O mais estranho disso tudo é que o que o Conselho Constitucional diz hoje, no seu acórdão, é contrário à sua postura de Setembro passado, quando negou provimento aos partidos excluídos pela CNE, nos mesmos moldes agora considerados i l e g a i s p e l o mesmo C o n s e l h o Constitucional. Ou seja, os excluídos de Setembro passado apontaram, exactamente, as mesmas razões e ilegalidades da CNE que, agora, o CC também aponta no seu acórdão de validação e proclamação dos resultados finais.
Quando os partidos recorreram ao Conselho Constitucional contra a falta da forma escrita das razões de rejeição de listas partidárias, o que não lhes possibilitava atacar tais razões em sede de impugnação; quando os partidos recorreram ao CC contra a realização do sorteio antes de transcorrido o período de reclamação, a postura do Conselho Constitucional foi a de negar provimento a tais recursos. Só que hoje, o mesmo CC censura a CNE pelas mesmas razões que os partidos apresentavam nos seus recursos, então chumbados pelo CC.
É caso para pensar que o Conselho Constitucional precisa, bastante, de encontrar uma postura de estabilidade emocional, imparcialidade e independên- cia no julgamento dos casos que lhe são submetidos, sob pena de deitar abaixo algum prestígio de que granjeara num actual.passado recente, porventura mercê da verticalidade da sua anterior composição,que é, substancialmente, diferente da actual.
Para a segurança jurídica dos cidadãos e das instituições, é fundamental que o
a Conselho Constitucional seja um órgão. justo, imparcial, coerente e politicamente independente. Sobretudo, porque os acórdãos e outras decisões do Conselho Constitucional não são passíveis de recurso e são de cumprimento obrigatório para todos os cidadãos, instituições e demais pessoas jurídicas, nos termos do artigo 248 da Constituição da República.
Assim, apesar de não estarmos satisfei-tos com a falta de coerência e justiça na actuação dos órgãos eleitorais, nós apelamos a todos os cidadãos moçambicanos, particularmente aos dirigentes de partidos políticos, para que ultrapassem os problemas eleitorais e comecem, hoje mesmo, a preparar o próximo processo eleitoral, que desejamos seja muito melhor do que este, em termos organizativos e, sobretudo, em termos de justiça eleitoral.
Não se justifica que, até hoje, Moçambique tenha problemas graves de organização e de justiça eleitoral, pelo que apelamos ao novo Parlamento e à sociedade civil a que encontrem um modelo eleitoral mais justo e mais transparente, para que a paz, a justiça e a estabilidade política prevaleçam entre nós.
Apelamos a que todos trabalhemos, agora, para o futuro e não percamos mais tempo a ruminar as irregularidades e as injustiças já verificadas.
Apelamos, sobretudo, aos partidos que se querem manifestar contra os resultados eleitorais, para que abandonem essa ideia e olhem para frente, ajudando a construir um processo eleitoral que minimize a ocorrência de fraudes e irregularidades da estirpe das que aconteceram recentemente.
Não vale a pena manifestar-se contra o passado, é fundamental que nos manifeste mos por um futuro diferente do presente. O passado, por muito injusto que tenha sido, já não se pode mudar.
Mas, nós podemos e devemos controlar o presente, para mudarmos o futuro!
Isso está bem ao nosso alcance!


Salomão Moyana no Magazine Independente de 30/12/09


Nota do José: Concordo que o País deve avançar mas ao mesmo tempo devemos exigir mudanças radicais na situação política, principalmente no que diz respeito à revisão e aplicação da Lei Eleitoral e ao desempenho da CNE.

Sobre a conspiração ocidental em África


Tornou-se recorrente nos dias que correm, entre alguns analistas, tentar fazer passar a ideia de que existe uma conspiração ocidental para derrubar os governos africanos representados por partidos que tenham ascendido ao poder pela via da luta armada. Muito francamente, penso que nada disso estará tão distante da verdade.
Esse discurso é muito conveniente para aqueles que pretendem furtar-se à responsabilidade de primar pelos princípios da boa governação, prestação de contas e de respeito pelos seus povos. É também um discurso que pretende transmitir a ideia de que os governos surgidos dos movimentos de libertação têm o direito natural de governar os seus países para a eternidade, e de fazerem tudo o que quiserem, mesmo quando tal não corresponde aos interesses nacionais. Confunde-se o interesse nacional com o interesse do partido libertador em se manter no poder a todo o custo.
A luta de libertação é um dever patriótico que cabe a todos os cidadãos, e não deve haver outros que se considerem donos de uma nação só pelo facto de terem participado nessa luta. Há homens e mulheres hoje que se tivessem sido maiores na altura em que decorreu a luta de libertação poderiam ter participado, movidos pelo mesmo espírito por que foram movidos os jovens que militaram para a libertação do país. E nem todos os moçambicanos poderiam ter participado na luta, e isso não reduz a sua condição de serem moçambicanos. A luta foi feita de várias formas, não necessariamente pelo facto de alguém ter estado em Nachingweya.
E não podemos ser obrigados a fechar os olhos e ficar calados quando um determinado ex-movimento de libertação comete as mais hediondas violações aos direitos do seu próprio povo, gere mal o bem público e vale-se da corrupção para manter o seu controlo sobre o poder do Estado. Porque um movimento de libertação que age dessa maneira está a trair o espírito da própria libertação, que era o de libertar a terra e os Homens.
E não vale a pena encontrar subterfúgios para evitar confrontar os problemas. É importante notar que muitos, se não todos estes movimentos de libertação que se transformaram em partidos governantes beneficiaram muito da ajuda do mesmo Ocidente que hoje dizem que os pretende derrubar. A narrativa de vítima não é mais nada do que um argumento para se escudar de críticas que são feitas a certos aspectos relacionados com a governação, críticas essas que convêm, na óptica dos defensores desses regimes, atribuí-las apenas aos países ocidentais, mas que na verdade são críticas que provêm também de certos sectores da sua própria população.
Culpar o Ocidente por todos os males que nos afligem é uma estratégia que nos iliba da nossa responsabilidade como governantes responsáveis, e que visa por outro lado fragilizar a posição dos parceiros ocidentais que, cientes do seu passado como potências colonizadoras, tentarão actuar de forma a evitar ferir quaisquer susceptibilidades. Não admira, por isso, que os parceiros mais críticos sejam exactamente aqueles que nunca tiveram colónias em África, e ironicamente aqueles que no seio dos países ocidentais também mais apoio prestaram aos movimentos de libertação em África.
Que o seu posicionamento em relação a um determinado assunto não seja unânime, não significa necessariamente que tal assunto deixe de ter relevância. E não significa que as preocupações sejam apenas externas. Ninguém me pode convencer que o 5 de Fevereiro de 2007 foi parte de uma conspiração externa. E por aquilo que se tem dito, até parece ter sido uma operação engendrada a partir de dentro do próprio partido no poder.
Temos que ter a coragem de olhar para os assuntos na sua verdadeira dimensão e mérito, e deixar de levantar a fumaça apenas para entreter o povo. A propaganda não resolve problemas; apenas adia a sua solução.

PS: para aqueles patriotas a quem as criticas à CNE eram parte deste grande complot ocidental para derrubar o movimento de libertação, precisam de reflectir sobre a passagem do Acórdão do Conselho Constitucional que diz o seguinte: “A experiência do processo eleitoral em apreço aponta para a necessidade de os órgãos de administração eleitoral fundamentarem cada vez melhor as suas decisões e sempre utilizarem os meios legalmente estabelecidos para notificar das mesmas decisões os interessados directos e imediatos.
“Além disso, é desejável que os órgãos de administração eleitoral desenvolvam e aperfeiçoem, no quadro da lei, mecanismos práticos complementares que, por um lado, permitam maior publicidade à sua actuação, por outro, melhorem a comunicação e o diálogo com os partidos políticos, coligações de partidos, grupos de cidadãos e candidatos concorrentes às eleições”.
Foi simplesmente isto o que andamos a dizer durante todo este tempo. Alegra-nos que tenhamos sido vindicados ao mais alto nível da estrutura judicial deste país. Finalmente, também somos patriotas.


Fernando Gonçalves, Savana, 01/01/10

Sunday, 3 January 2010

Mário Wilson de luto


Mário Wilson está de luto pelo falecimento de sua esposa, Dulce.
Mário Wilson nasceu em Moçambique e representou em Portugal o Sporting e a Académica. Como treinador, treinou várias equipas, tendo sido Campeão com o Benfica.
Leia uma interessante entrevista aqui.

Figuras do Ano 2009 – Escolhas curiosas

Fonte: Scaneada pelo autor desse blog a partir do jornal impresso.

Fonte: Scaneada pelo autor desse blog a partir do jornal impresso.



Fonte dessa imagem: http://www.oficinadesociologia.blogspot.com/


Não deixa de ser curiosa a escolha feita por vários meios de imprensa escrita sobre as figuras do ano 2009. Algo a salientar é a escolha por vários jornais de Daviz Simango, presidente do MDM e do Municipio da Beira como uma das mais destacadas figuras de 2009. O Savana escolheu o MDM.

Não é de admirar essa escolha. Daviz é homem de créditos firmados, lider carismático incontestável. Troçado por alguns, amado e acarinhado por muitos moçambicano que vem nele a esperança de um Moçambique Melhor.
O Jornal Noti cias e Domingo escolheram outras figuras. Cada Jornal é livre de o fazer. Mas nalguns é pecado mortal escolher uma figura da oposição como figura do ano. Entendemos. É a imprensa ao serviço do “Povo”. Não tive acesso ao Público, Escorpião e o País.
Parabéns Daviz e o MDM. Avante! Que saiba valorizar as escolhas feitas a si e ao MDM no ano 2010 e nos posteriores.

.leoiuris.blogspot.com. Confira aqui!

Saturday, 2 January 2010

Caiu o pano

Caiu o pano sobre mais um episódio eleitoral. Pano roto e sujo mas, enfim, é o que temos...
Como toda a gente estava à espera, o fim do espectáculo tentou ser uma consagração apoteótica dos vencedores.
Tentou, sem o conseguir. Demasiada gente está consciente de todas as trafulhices que foram feitas para se conseguirem estes resultados e isso não permite festas a sério.
No momento em que escrevo também não tenho informação de nenhuma reacção da direcção da Renamo, para além das declarações feitas à Rádio Moçambique logo após a validação dos resultados.
E, se uns não têm muito a festejar, pela forma como conseguiram a vitória, os outros também não têm muito de que se queixar. Foram tantos os tiros nos seus próprios pés que, nem que fossem centopeias, teriam ainda algum pé sem buraco.
Quer isto tudo dizer que eu penso que, sem as sujeiras a que assistimos, a Frelimo e Armando Guebuza não teriam ganho as eleições?
Não. Estou perfeitamente convencido que as teriam ganho de qualquer forma. Os números e as percentagens seriam, sem dúvida, mais baixos mas a vitória seria sempre deles.
Mas os discursos e o culto da personalidade exigiam uma “vitória esmagadora”. E tiveram. Só que é uma vitória esmagadora e suja, em vez de uma vitória confortável e limpa.
Creio, no entanto, que isso pouco preocupa quem não dá muita atenção a essas coisas da higiene política.
E o Conselho Constitucional cumpriu a sua parte.
Elaborou um longo acórdão cheio de citações legais onde juntou, mutatis mutandis, tudo o que já tinha sido dito
anteriormente nas várias etapas do percurso eleitoral. Como se diz hoje em termos informáticos foi copy and paste.
Lá pelo meio roçou, uma vez ou outra, por algumas das questões mais sensíveis mas acabou sempre por sair de fininho sem colocar nada em causa.
Sobre os numerosos ilícitos eleitorais, alguns graves, correspondendo a vários anos de cadeia, que se registaram,o Conselho Constitucional sacudiu a água das suas togas doutorais, chutando a bola para o Dr. Augusto Paulino no Ministério Público.
A recomendação de que essas pessoas sejam julgadas e punidas esbarra com um facto incómodo. É que, nessas como em outras coisas, a Frelimo é que fez. A Frelimo é que faz.
E se, no passado, não foi punido nenhum dos que cometeram crimes eleitorais (o famoso sr. Albuquerque, ao que me dizem, até foi promovido), estamos aqui para ver o que vai acontecer desta vez. Ou não vai acontecer, mais uma vez...
Um aspecto muito curioso é que o acórdão do Conselho Constitucional foi aprovado por unanimidade. Isto é, mesmo os juízes indicados pela Renamo, assinaram por baixo.
O que isto quer dizer, venham outros comentadores melhor informados do que eu dizer-nos. Mas não parece indicar saúde no que continua a ser o maior partido da oposição.
De resto, a forma como a Renamo tem vindo a emagrecer, ao longo dos anos, indica problemas muito graves de saúde. Talvez tuberculose e/ou mesmo SIDA. As bactérias que surgem, à vista desarmada, sempre que se fazem análises (políticas) à Renamo não indicam nada de bom para o seu futuro. Não parecem dispostas a largar o corpo daquele partido e não sei se haverá anti-rectrovirais com força suficiente para os acantonar em sítio onde não prejudiquem o resto do organismo.
Por fim sobra o MDM que, como se diz na publicidade de uma conhecida marca de leite, mostra sinais de imunidade às bactérias, é alegre e inteligente e tem um peso equilibrado com a altura, tudo isto sinais de um crescimento saudável, diz o tal leite.
Se evitar os tiros nos pés, à maneira do tio Afonso, e souber fazer uma oposição inteligente e acutilante, pode chegar às próximas eleições com uma posição totalmente diferente no panorama político nacional.
Não pode é esquecer que, com o fim deste processo eleitoral, não chegou o fim da tentativa de dar cabo dele. Essa, tal como a luta, continua.
Não sendo as decisões do Conselho Constitucional sujeitas a contestação, são elas que vão vingar nos próximos 5 anos, sem apelo nem agravo.
E, por isso, dou também por encerrado este assunto. Se não acontecer nada de muito extraordinário a ele não voltarei, a partir de agora.
Até porque, tenho a desagradável sensação, assuntos para crónicas não vão faltar no próximo ano....

Por Machado da Graça, SAVANA, 01/01/10

Renovados votos de um maravilhoso 2010

Um dos rituais da quadra festiva é a degustação das iguarias preparadas para a ocasião e a minha esposa, como é habitual, esmerou-se na confecção de um verdadeiro festival culinário.
Na minha mesa, o produto final é a combinação da culinária moçambicana,portuguesa e goesa. Assim, tivemos camarões com arroz de coco, bacalhau, sarapatel e bebinca. Estava tudo uma verdadeira delícia!
Como seria de esperar, eu também dei uma ajuda na cozinha, como prova esta foto.



Ok, está bem, a foto não tem nada a ver com a minha quadra festiva.

Para todos, deixo os renovados votos de um maravilhoso 2010!

Muita alegria e calma na transição para 2010


A MÚSICA previamente seleccionada ao gosto de cada um e o multicolor fogo de artifício, tal como tem sido pratica nos últimos anos, voltaram a associar-se de maneira marcante na passagem de 2009 para 2010, numa festa caracterizada por muita alegria e euforia popular em que o civismo se impôs como nota dominante. Esta terá sido, certamente, a transição mais calma dos últimos anos, à excepção da ocorrência de um outro caso criminal próprio de momentos de grande festa.
Entre os que optaram pelos espaços comuns dos bairros residenciais e os que escolheram lugares de pasto para testemunhar a chegada do ano novo, ficam indicações de terem sabido responder positivamente aos insistentes apelos lançados pelas autoridades policiais no sentido de privilegiarem celebrações comedidas e como tradicionalmente, a valorização da unidade, paz e solidariedade entre os homens, aliás um dos propósitos do Dia Mundial da Paz ontem assinalado.
Relatos que nos chegam das províncias reafirmam a prevalência de um ambiente calmo e tranquilo, com a excepção de Inhambane que registou um óbito por afogamento no último dia de 2009, para além de dois incêndios, cujas causas se desconhecem, que consumiram onze casas de construção precária nos arredores da cidade e de três chalés do Complexo Seta em Inhassoro. Em Nampula a irregularidade no abastecimento de água acabou comprometendo as aspirações dos citadinos.
Na capital do país, a transição para 2010 marcou diferença em relação a outros anos. O tradicional convívio intrafamiliar acabou sendo valorizado em detrimento das ruidosas e nalgumas vezes excessivas celebrações de rua. Os lugares de pasto ou até barracas foram visitados de forma tímida. No caso concreto das barracas, prevaleceu o aviso que tinha sido previamente anunciado para que fechassem as portas às 21.00 horas. Outras houve que violaram a imposição e funcionaram sem interrupção, mas com muito poucos clientes e sem incidentes de que se receava.
A forte e efectiva presença policial, particularmente na cidade de Maputo, teve o condão de inibir a ocorrência dos habituais desacatos caracterizados pelo lançamento de garrafas e queima de pneus em estradas pavimentadas. Os esporádicos casos que se registaram neste aspecto não chegaram a ter expressão suficiente para manchar a festa.
O uso de objectos pirotécnicos, comum nestas ocasiões, acabou sendo, pelo mesmo motivo, a níveis tolerados, contrariando a situação doutros anos em que se repetem cenários de uso indevido e indiscriminado. Aliás, muitos revendedores de rua, que podiam ser vistos nos semáforos à procura de clientes, acabaram ficando com “stocks” daqueles produtos.
A música destilada a partir de potentes colunas de diferentes feitios e tamanhos, montadas timidamente à porta das residências acabou sendo o atractivo para muita criançada e adolescentes que parecem ter despertado para a festa pouco depois da uma, altura em que abandonaram o ambiente em família.
Gente há que preferiu testemunhar a transição fora de casa, longe do ambiente do bairro. Com efeito, a zona da Marginal, vulgo “Calçadão”, foi uma das eleitas por outro segmento de cidadãos jovens da classe média/alta, alguns dos quais se fizeram ao local transportados pelos seus carros, para viverem uma transição diferente. Estes também acolheram 2010 de forma serena. Dentre os que preferiram a Marginal para a transição, também podia-se ver vários grupos de turistas estrangeiros que acabaram se misturando com os moçambicanos na festa que se prolongou até ao raiar do sol.
Depois das 23.00 horas, quando praticamente já não havia transporte público disponível, continuava muita gente concentrada nas paragens à espera de conseguir um meio que o levasse de volta aos seus bairros residenciais. Outros tantos ainda procuravam um transporte para deixar Maputo.
Como é habitual nestas ocasiões, muitos casais não quiseram perder a oportunidade para usar a noite da passagem do ano como pretexto para renovar antigas amizades, ou mesmo para iniciar novas relações que, por estas alturas, vale a pena retomar para melhor se enfrentar o novo ano acabado de nascer. Neste mesmo quadro milhares de mensagens telefónicas cruzaram espaços levando conteúdos de felicitação, paz, solidariedade e esperança para a prosperidade da nação moçambicana e dos seus filhos. E tudo isto não era coisa. Era a secular celebração da chagada do Ano Novo!



Maputo, Sábado, 2 de Janeiro de 2010 - Notícias

Friday, 1 January 2010

Naturalidade


Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provaável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando."




Rui Knopfli no seu livro "O país dos outros", 1959
Foto do Notícias

FELIZ 2010!