Monday, 8 August 2016

Frelimo é força de bloqueio

Um politólogo moçambicano disse, criticando o ANC da África do Sul pelo desaire que teve nas recentes eleições eleições municipais de Agosto de 2016, que, diferentemente do partido Frelimo que percebeu que poderia perder as eleições se não adaptasse indo buscar um candidato do norte, o ANC deixou-se ficar e agora tem aí os frutos.
Esta dissertação é, completamente, falsa, nula e pode fazer cair muita gente em análise sócio-política errada. Quem anda atento aos acontecimentos do país entende que a Frelimo socorre-se de malabarismos para alcançar o poder e não se dará ao prazer de atribuir mérito a quem não o merece.
Este domingo, 07.08.2016, estive a escutar o programa ESTA SEMANA ACONTECEU, da Rádio Moçambique, em que dois dos propagandistas do regime, Gustavo Mavie e Alexandre Chivale, apelavam à ilegalização da Renamo. Apercebi-me que do outro lado, estavam uns indivíduos sem consciência do assunto que estavam a falar, num monólogo de vendidos ao diabo.
O que faz a Frelimo continuar no poder, ao longo dos pesados 41 anos, não é por se adapta a alguma coisa, mas se deve à fraudes tais como enchimento de urnas com votos falsos, violência contra os adversários, o domínio que tem sobre todos os órgãos eleitorais, o uso indevido de fundos e bens públicos a seu favor, tanto em épocas eleitorais como em outros momentos. Se, para a Frelimo, a simples mudança da etnia do seu candidato tivesse sido suficiente para vencer uma eleição, então, não se teria socorrido da violência, em Gaza, Tete e Cabo Delgado, contra o candidato do MDM.
Porquê continua a destruir símbolos e a queimar sedes do MDM? É por temer ser suplantado. O povo está muito cansado. Se a Frelimo tem um candidato de uma região diferente da habitual da origem dos seus candidatos e uma máquina eleitoral bem montada, não se entende a razão de continuar a postar na guerra para manter o país submisso aos ditames dos que promovem a guerra e medo. A guerra, ora em curso no nosso país, visa, essencialmente, encher os bolsos das elites do partido governamental porque dela tiram fabulosos lucros na compra de armamentos.
Com a guerra, não se justificam os gastos, na maioria claramente ilícitos, porque tudo será feito em nome da suposta defesa da pátria ameaçada. Os roubos e a corrupção serão feitos em nome de defender o país dos inimigos da pátria, fazendo da mentira em verdade. Um partido inserido no povo não precisa de usar os meios públicos de comunicação social para denegrir a oposição nem mesmo necessita de apoio de mercenários de consciência (G40 – um grupo de intelectuais moçambicanos vendidos ao regime da Frelimo para fazerem propaganda barata a favor do governo e do partido que o sustenta) para mostrar que faz bem ao povo.
Se a Frelimo não tivesse medo das eleições, não estaria a raptar e a assassinar os seus adversários políticos em que nem mesmo académicos e magistrados sem apego ao partidão escapam à chantagem e chacina dos seus bandidos - os perigosos esquadrões da morte que semeiam luto no seio das famílias moçambicanas. Não escapam às balas dos esquadrões da morte até membros do Conselho de Estado e do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, desde que sejam da oposição.
Na África do Sul, o ANC não tem as mesmas manobras que a Frelimo tem a Frelimo. As possibilidades que a ZANU de Robert Mugabe, do Zimbabwe, MPLA de José Eduardo dos Santos, de Angola, de Chama Cha Mapunduzi, de Tanzânia, têm não existem na terra de Nelson Mandela.
Na África do Sul, a consciência dos seus cidadãos é bastante elevada, o nível de escolarização é alto, a sociedade civil está bastante evoluída e as leis permitem uma maior abertura democrática. Em Moçambique, as eleições, conforme mostra a prática da Frelimo, são um motim que deve ser monitorado por soldados e polícias em carros blindados e cães de guerra. As leis sul-africanas não permitem a tais barbaridades, por isso, uma eleição é uma verdadeira luta de igual para igual e não uma encenação. Jacob Zuma, presidente sul-africano, não é pior que Armando Guebuza, antigo presidente moçambicano, que laçou o nosso país na sarjeta da vergonha por dívidas ocultas e inconstitucionais.
Zuma aceitou a derrota, nem lançou blindados nem cães para rasgar os seus adversários, como tem acontecido entre nós, em Moçambique.
A Frelimo é uma força de bloqueio cuja remoção se torna, cada vez mais, um imperativo histórico e nacional, para que o país volte a caminhar pelos carris da normalidade.

Edwin Hounnou, no Facebook

TPC ( Trabalho para casa )






Rescaldo das eleiçoes autarquicas na Africa do Sul



1 - Ninguem questiona a transparencia do processo e dos resultados finais.
2 - Nenhuma " vitoria foi arrancada a força"
3 - Nao houve "reviravoltas".
4 - Nao desapareceram Editais
5 - Todos os incidentes e reclamaçoes foram resolvidos imediatamente.
6 - A Comissao Eleitoral demonstrou competencia. e independencia
7 - Os resultados finais foram divulgados 72 horas ( 3 dias ) depois do fecho das urnas.
8 - A Policia nao teve protagonismo nem esteve em nenhuma assembleia de voto

Iraê Lundi considera que ANC precisa mudar de políticas





Académica reagia aos resultados das eleições municipais na RSA





A pesquisadora do Centro dos Estudos Estratégicos Internacionais, Iraê Lundi, defende que o ANC, assim como os outros partidos que surgiram dos movimentos de libertação, devem mudar de políticas para melhor posicionarem-se nos processos eleitorais. De acordo com Lundi, o ANC ficou agarrado ao passado pelo facto de ter sido um partido que lutou contra o Apartheid em vez de apostar na boa governação para garantirem o apoio da população.
A investigadora diz que a crise económica é outro factor a não ignorar, pois teve fortes influências nos resultados eleitorais na terra do rand.




Sunday, 7 August 2016

Falta vontade política para a paz em Moçambique





Observadores independentes acusam a RENAMO e o Governo de assumirem comportamentos e posicionamentos incompatíveis com o objetivo de paz.




Os analistas acusam as duas partes de estarem determinadas em resolver este conflito com o recurso às armas. Consideram ainda que o ódio e a intolerância política estão a eternizar o conflito armado em Moçambique e que diálogo tarda a acontecer.
A ver dos observadores, as posições do Governo e do maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana, (RENAMO) são difíceis de conciliar. Acresce que o conflito em Moçambique se está a alastrar para outras regiões. O politólogo João Pereira diz que o cenário é comparável com aquele que dividiu o Sudão: “O Sudão era um Estado unificado, que a partir desse tipo de conflitos acabou por degenerar num conflito étnico, regional e tudo isso. Aqui há indicação clara por exemplo, por parte da RENAMO e do Governo de que não estão criadas condições necessárias para uma reconciliação”.



Critica do discurso positivista


Em entrevista ao canal privado de televisão moçambicana STV, Pereira critica o Governo por fazer um discurso positivista, quando no mato a realidade é outra. A suspensão da circulação dos comboios no corredor da Beira, no centro do país, reduziu ainda mais a credibilidade de Moçambique junto dos parceiros: “Quer dizer, praticamente os centros de poder a nível internacional começam a avisar grande parte dos investidores de que o país não é viável para o investimento”.
A repentina expansão dos ataques da RENAMO para outras províncias mais a norte, como nos últimos dias em Mopeia, na Zambézia e Maúa, no Niassa, mostram desinteresse pelo diálogo, defende o analista político Tomás Vieira Mário: “Eu penso claramente que isto é uma demonstração que a RENAMO quer mostrar de força porque os processos de diálogo ainda estão extremados. E é essa mensagem muito triste que nos dá esses ataques”.



Motivo de preocupação



Aliás, acrescenta, as duas partes deixaram uma má imagem diante dos mediadores ao provarem que estão a apostar na força das armas: “O diálogo com os mediadores não permitiu qualquer suavização das posições. E essa falta de posições suavizada exprime-se no aumento de ataques até em zonas não previsíveis como era o Niassa”.
Nesta situação, o Governo esforça-se por tranquilizar a população. O que para Tomás Vieira Mário é um erro: “Eu acho que não há como não se preocupar. A situação está tão dramática que todo o mundo hoje está um pouco expetante sem saber bem qual é a visão de amanhã”.




O injustificável acordo orto(?)gráfico


A questão do chamado “acordo ortográfico” consiste, essencialmente, no facto de ele ser uma completa inutilidade.



Reabriu, porventura com redobrada intensidade, a (felizmente) nunca fechada querela acerca do chamado “acordo ortográfico”.Importa começar por dizer que a alteração às normas da escrita do português que dá por esse nome é uma aberração injustificável, assente em equívocos provenientes de uma notória falta de ponderação e de uma gritante insensibilidade linguística.É, evidentemente, por isso que tantos escritores recusam ter em conta o rol de incongruências que compromete e invalida essa proposta nova forma de escrever português.Chamando as coisas pelos seus nomes, é uma completa irresponsabilidade que os políticos (de vários sectores) persistam em defender tamanha aberração, ou, como fez, há dias, numa entrevista, o meu velho amigo e excelente poeta Luís Filipe Castro Mendes, assumam uma atitude de ligeireza e quase indiferença perante a medonha agressão que o “Acordo” representa.A questão do chamado “acordo ortográfico” consiste, essencialmente, no facto de ele ser uma completa inutilidade, que desfigura desnecessariamente o português escrito, em nome de um suposto objectivo cujo ponto de partida não passa do erro gerado por um entendimento absurdo do que faz divergir os diferentes usos da língua.A que se destinariam, então, as alterações agora introduzidas na nossa grafia, tal como ela tem existido desde 1945?O “objectivo” seria, segundo se afirma, “a unificação da ortografia do português em todo o espaço lusófono”.A pretensa necessidade de aproximação colocar-se-ia, sobretudo, entre as duas variantes ortográficas principais, as utilizadas em Portugal e no Brasil.O que foi feito assenta na suposição errónea de que as diferenças entre o português europeu e o sul-americano são fundamentalmente ortográficas, quando sabemos bem que a separação maior dessas duas vertentes não reside no domínio da ortografia, e sim nos planos vocabular e sintáctico.Nenhum brasileiro, alguma vez, deixou de entender um texto oriundo de Portugal, por causa da grafia usada até há pouco (e que continua a ser utilizada por muitos, entre os quais me incluo), assim como nenhum português jamais encontrou qualquer especial dificuldade, por causa das diferenças gráficas, em apreender o que tenha sido escrito de acordo com as normas vigentes em terras brasileiras.Poderei, a simples título de exemplo, citar um caso que me parece representativo de diferenças de outra ordem, que não a ortográfica, entre as duas vertentes da língua.Encontrei, em dado momento, uma notícia publicada no jornal O Globo, com o curioso título “Jornalista preso por grampos”.Era na altura em que muito se falava dos escândalos do jornal britânico The Sun, quando vários jornalistas foram acusados de fazer escutas telefónicas, ilegítimas, evidentemente. Lendo o artigo, percebia-se facilmente o que a frase “jornalista preso por grampos” significava: é claro que os “grampos” eram as tais “escutas telefónicas”, que teriam levado à prisão do jornalista em causa. Mostrei esta frase a várias pessoas, que, sem conhecerem o texto da notícia, não conseguiram interpretá-la, imaginando talvez que o jornalista teria sido pendurado com molas, numa corda, como roupa a secar.Na verdade, nenhum acordo ortográfico poderá impedir estas barreiras semânticas, assim como, no domínio da construção frásica, nenhum brasileiro deixará de dizer “Me diga”, onde os portugueses dizem “Diga-me”; e também não vale a pena supor que, algum dia, algum brasileiro escreva ou, menos ainda, diga “Dar-te-ei”, “Far-me-ás” e outras conjugações pronominais como estas.Tanto no plano vocabular como no da construção frásica, as diferenças são, como se sabe, múltiplas e enormes. Alguém já se preocupou em fazer um “acordo” para essas áreas?É claro que não: toda a gente sabe que isso seria estúpido e inútil, tão estúpido e tão inútil como o chamado “acordo ortográfico”, que não se entende como não foi ainda completamente e definitivamente afastado das nossas vidas, continuando, pelo contrário, a espreitar-nos e a assombrar-nos, em cada esquina televisiva e em vários periódicos de estimação (e saúdo, naturalmente, os que não se submeteram a essa prática aberrante).As alterações que o acordo estipula vão, em geral, contra a etimologia das palavras: são, evidentemente, entre muitos outros, os casos de “actor” ou de “espectador”, que, perdendo-o agora em português, conservam o “c” em várias das línguas de origem latina, o mesmo acontecendo com “espectro”, por exemplo – o que sucede até em inglês, que tem, como sabemos, uma ampla raiz latina. Para os escritores, em particular, essas mudanças implicam também uma perda de sensibilidade linguística, já que descaracterizam as palavras, despojando-as de traços inalienáveis da sua natureza filológica, com tanto peso na imagem gráfica respectiva.É óbvio que, para dar como exemplo um caso frequentemente referido, a aberrante grafia “espetador”, aproximando o vocábulo do verbo “espetar”, é uma monstruosidade que choca quem tiver um mínimo daquela sensibilidade linguística que mencionei.Não posso deixar de referir, muito rapidamente, o facto de, entre muitos outros casos semelhantes, “espectador”, “recepção”, “óptico”, manterem, na grafia brasileira, respectivamente, o “c” e os “p”, enquanto em Portugal eles são absurdamente eliminados. Não se destinava o acordo a “unificar a ortografia em todo o espaço lusófono”?! É assim que a unificação é feita? O que justifica a supressão dessas consoantes, se, em vez de aproximar, ela afasta as duas grafias?Terminarei com mais um significativo caso, elucidativo, a meu ver, da insensatez, ou, talvez mais exactamente, da incompetência linguística, dos responsáveis pela elaboração do “acordo”: ao abolirem o “p” nas palavras “óptica” e “óptico”, relacionadas com a visão, estabelecem uma confusão absoluta entre esse fenómeno e o fenómeno acústico, uma vez que o vocábulo “ótico”, que, obviamente, já tinha esta grafia, se tornou indistinto do outro “óptico”, o visual.Em Outubro de 1958, o número 3 dos Cadernos do Meio-Dia, dirigidos por António Ramos Rosa e Casimiro de Brito e publicados em Faro, abria com um poema de Emiliano da Costa, intitulado “Quiasmas”, cuja base era, precisamente, um jogo entre o “óptico” visual e o “ótico” auditivo.
Eis o curto poema: “Num cruzamento fibrilar, neurótico, / Feito de som e luz, de luz e som, / Ouvi-me, dentro, vi-me um orfeom, / Eu, todo sensorial – um ótico-óptico. // Como é belo ouvir, / Ouvir tua voz, / Depois teu olhar / Ver dentro de nós! // Tecidas por mim, / Tecidas em cruz, / Fibras sensoriais / De ver e de ouvir. / – Óticas de som. / – Ópticas de luz.”
Com o chamado “acordo ortográfico”, este poema não poderia existir.Termino, apelando ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, ao Ministro da Cultura, para que reabram este processo, no cumprimento do dever cultural que é a defesa das raízes e das características linguísticas e filológicas do português.


GASTÃO CRUZ 
Poeta, crítico literário e encenador


Publico

Saturday, 6 August 2016

Moçambicanos entre os mais bem vestidos na abertura dos Jogos Olimpicos





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Moçambique está preso a uma tradição de administração centralizada, afirma historiador

O historiador alemão radicado em Moçambique Gerhard Liesegang defende que o país está refém da tradição de um modelo de governação centralizado, apontando a falta de vontade política como o principal problema nas negociações para a paz.

"Estamos presos a uma tradição de administração centralizada em Moçambique", disse à Lusa Gerhard Liesegang, considerando que o modelo de administração actual não respeita as novas dinâmicas socais e beneficia a elite no poder.
O pesquisador alemão entende que a causa da crise política em Moçambique está na incapacidade de ceder entre as partes, Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e alerta para as consequências da intensificação das actuais confrontações militares.
O recente envolvimento de mediadores internacionais nas negociações entre Governo e Renamo, maior partido de oposição, é visto pelo historiador como um "passo promissor", mas, alerta, "se não for criada uma base negocial séria e isenta", o país não encontrará uma solução para o fim de uma crise que já deixou um número desconhecido de mortos.
"Não há negociações possíveis sem cedências", declarou, salientando que este foi o motivo do fracasso das últimas negociações, que tiveram mais de cem rondas mas não apresentaram soluções até serem suspensas devido à retirada da Renamo, que alegou "falta de seriedade" do Governo.
Embora entenda que o país não possui uma estrutura económica capaz de sustentar as autarquias provinciais, proposta da Renamo e entretanto chumbada pela Assembleia da República em 2015, Gerhard Liesegang defende que a ideia do maior partido de oposição em Moçambique abre espaço para uma reflexão sobre a necessidade de descentralização, lembrando que os níveis de insatisfação tendem a crescer.
"A população em algumas zonas já não aceita esta situação", alertou o académico, sustentando que o país já viveu um episódio similar, durante uma guerra civil que causou a morte de mais de um milhão de pessoas.
O historiador, que trabalha em Moçambique desde 1969, reiterou que o país está a desenvolver uma "tendência unilateral", típica de ditaduras de alguns países africanos, considerando a militarização do Estado como uma das principais ameaças para paz.
A Renamo contesta os resultados das eleições gerais de 2014, acusando a Frente de Libertação em Moçambique (Frelimo), partido no poder há mais de 40 anos, de ter cometido fraude e exige governar em seis províncias do centro e norte do país onde reivindica vitória no escrutínio.
A região centro de Moçambique tem sido atingida por episódios de confrontos entre o braço armado da Renamo e as Forças de Defesa e Segurança, além de denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.
As autoridades atribuem à Renamo ataques a unidades de saúde nas últimas semanas e emboscadas nas principais estradas do centro do país, onde foram montadas escoltas militares obrigatórias em três troços de duas vias.
Apesar da frequência de casos de violência política, as duas partes voltaram ao diálogo em Maputo, mas o processo negocial foi suspenso até ao regresso dos mediadores internacionais, previsto para 08 de Agosto.

Friday, 5 August 2016

Um partido-Estado dirigia as FPLM


Quando é que se desarmou? 

Inegável que havia legitimidade ou que, por questões de soberania, as FPLM existiam. Que eram dirigidas pelo partido-Estado também não há dúvidas. Que este partido que era força dirigente do Estado, é por todos reconhecido.
Que o comando destas FPLM sempre foi ocupado e exercido por militares da confiança política da Frelimo, também é sabido.
Que, aquando da criação das FADM, a estrutura de comando ficou nas mãos dos mesmos de sempre, é claro e cristalino.
Tudo tem a sua génese, e um regresso ao passado mostra que tudo começa quando alguém se intitula único representante do povo moçambicano. Essa apropriação em exclusivo do país e dos seus recursos deixou as suas marcas e também marcou a mentalidade de governantes e governados.
A democracia emperrada que se vive, embrulhada de legalismos convenientes ao nível de um Parlamento dispendioso e na maioria das vezes incapaz de fiscalizar o executivo governamental, um sistema judicial dependente e subserviente do executivo, um aparato de defesa e segurança orientado para garantir a manutenção do poder pelo partido Frelimo, herdeiro, senão continuador, das lógicas e procedimentos do anteriormente partido-Estado produziram a crise político-militar actual.
Os que falam e defendem que se avance para o desarmamento da Renamo jamais se devem esquecer de que a as FADM são essencialmente uma cópia das FPLM na sua composição e actuação. A PRM e o SISE obedecem ao Governo, e este obedece ao que a Comissão Política da Frelimo decide.
A disseminação de células do partido Frelimo em tudo o que é aparelho de Estado e empresas públicas consubstancia uma estratégia de regresso ao partido- Estado, ao partido único.
É neste quadro que decorrem as hostilidades militares ao mesmo tempo que se ensaiam passos para negociar algo já atacado e discutido exaustivamente aquando do AGP de Roma.
Não é preciso ser mágico ou perito em alguma coisa para descobrir que não existe confiança entre os que negoceiam alegadamente para o restabelecimento da paz.
Há uma persistente intenção e estratégia desenhada para impor e impedir que os moçambicanos disfrutem de seus direitos constitucionais.
Sem dúvidas que a situação vivida no país mostra que existem moçambicanos superiores à maioria dos seus concidadãos. Que possuem direitos diferentes e que são tratados como seres especiais, intocáveis e revestidos de prerrogativas especiais. O que estes poucos moçambicanos querem torna-se lei. Assim, independentemente daquilo que está escrito na CRM, o Estado e todas as suas instituições funcionam com base naquilo que senhores especiais e poderosos da Comissão Política da Frelimo desejam, determinam e mandam publicar através do executivo.
Não se pode negar a história e o percurso nacional. Mas não se pode restringir tudo ao que um determinado partido quer, ou pretender que tudo se limite ao que os políticos querem.
Existe Moçambique fora dos partidos políticos.
Existe Moçambique superior a “libertadores” ou “combatentes pela democracia”.
Existe Moçambique acima do que um determinado executivo entenda e interprete.
O imobilismo negocial de hoje resulta de uma visão política centrada num prisma antigo de monopolização da agenda política e domínio exclusivo dos instrumentos e instituições.
Há uma tendência perniciosa de impor que vem de longe. Os que antes dirigiam o país através de orientações e que se impunham pelo seu carácter de única força política legal estão tendo dificuldades acrescidas em situar-se Moçambique pluralista.
Falam de pluralismo e de democracia, mas implementam complexos esquemas de engenharia eleitoral que asseguram vitórias “retumbantes ou arrancadas”. Desenham e implementam esquemas legalistas apoiados na composição dos órgãos de administração da Justiça. PGR, Tribunal Supremo, Tribunal Administrativo e Conselho Constitucional actuam conjugados e garantem que nada aconteça que ameace a manutenção do poder pelos actuais detentores.
A aparente regressão político- -militar resulta da incapacidade de os políticos assumirem que houve transgressão e objectivo desvio do preconizado no AGP. Sem que as partes reconheçam que se deve recomeçar com base no que todos sabem constituírem as razões da crise, será improvável que a paz regresse e os moçambicanos se reconciliem.
Uma questão pertinente é que se ultrapasse a apatia  participativa dos cidadãos. Há que abandonar uma matriz de funcionamento do país com base naquilo que os pseudo-gurus disto e daquilo decidam o que Moçambique deve ser.
O impasse negocial registado em Maputo está na esteira de uma forma de fazer política antiga: nós queremos, e só isso conta e deve ser tido em conta.
Colocar Moçambique nos carris requer reformulação da maneira como os moçambicanos se vêem e revêem.
Olhar para estas negociações como mais um passo para a construção daquele Moçambique pelo qual os nossos heróis se sacrificaram ganha sentido se formos capazes de repensar e decidir abandonar manobras dilatórias visivelmente destinadas a ganhar tempo e arrastar tudo para depois. Não se pode governar Moçambique com base em subterfúgios constitucionais ou com base em teses de que só tem valor e sentido de necessidade aquilo nos conforta.
Viabilizar Moçambique e impedir que se torne em mais um “falhado Estado africano” deve ser responsabilidade das partes e de todos os moçambicanos.
Repetir argumentos contrários à concórdia e insistir que os outros não têm razão é manifestamente insuficiente e ineficiente.
Algo está a falhar em termos de visão estratégica de alguns dos nossos proeminentes políticos.
Parece que o Conselho de Estado e o Conselho Nacional de Defesa e Segurança, num momento oportuno para se fazerem sentir, optam por agir como as avestruzes, enterrando a cabeça na areia. Pode estar a pesar contra aqueles “conselhos” a sua composição essencialmente monocromática.
Há que desarmar a Frelimo, desarmar a Renamo e desarmar as nossas mentes.
Ceder nas nossas “prerrogativas” de forma inteligente, flexível e visionária vai ajudar ao regresso da PAZ.
Os signatários do AGP estão vivos, e com honestidade se poderia acelerar todo este emaranhado assunto, consultando-os.
Mais do que ninguém, eles sabem o que falhou.
JAC e AEG, AMMD e RD conhecem- se e sabem quais foram os contornos que levaram ao falhanço do AGP de Roma.
A situação evoluiu, e existem novos actores e factores que devem ser considerados, mas não há que inventar a roda ou a pólvora. Exercícios semântico-constitucionais e exigências pueris de ong’s ou de outros actores vão continuar a atrasar discussões fundamentais.
Porque já existe agenda, os negociadores deveriam cingir-se a ela e rapidamente trazerem a única solução que os moçambicanos querem: PAZ, RESPEITO, DEMOCRACIA.
E só com inclusão política, económica, militar, policial se pode alcançar o que queremos.
Por mais debates e comentários que se teçam sobre a nossa situação, importa reter que o povo não come palavras nem gás.
A estagnação e os impasses vão favorecer os lobistas da guerra que estão à espreita e desejando um desenlace que lhes seja favorável.
Basta de sermos um país de “fingidores e de mentirosos profissionais”.
Moçambique está doente e precisa de terapia urgente.

 (Noé Nhantumbo)

Canalmoz, 4 de Agosto de 2016

Thursday, 4 August 2016

“A paz em Moçambique depende de uma reconciliação séria”, defende Dom Claúdio Dalla

Arcebispo da Beira falava hoje na cerimónia de inauguração do pavilhão de Economia e Gestão da UCM

A paz ainda é um assunto que preocupa os moçambicanos. Por isso, várias entidades continuam a apelar para a necessidade de todos se unirem na pacificação do país. Tal é o caso do Arcebispo da Beira, Dom Claúdio Dalla Zuanna, quem defende que o alcance de uma paz efectiva em Moçambique depende de uma reconciliação séria isenta de interesses particulares.
Para o Arcebispo da Beira, os moçambicanos não devem ficar à espera que alguém traga as soluções de que o povo necessita, juntos, todos devem trabalhar.
O líder da igreja católica na Beira acredita que o diálogo entre o Governo e a Renamo retomado recentemente na presença de mediadores irá, certamente, construir os caminhos da tão almejada paz.
Claúdio Dalla Zuanna intervinha, hoje, durante a cerimónia de inauguração de um pavilhão de Economia e Gestão, na Universidade Católica de Moçambique (UCM), na cidade da Beira.

A UCM foi criada logo após a assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma, em 1992, com objectivo fundamental de formar quadros nacionais que pudessem ajudar a reconstruir o país.




O País

Governo moçambicano e Renamo aceitam participação da sociedade civil em negociações de paz


As delegações do Governo moçambicano e da Renamo aceitaram a participação de personalidades da sociedade civil nas negociações de paz em Moçambique, informaram hoje membros de organizações não-governamentais reunidas no Painel de Monitoria do Diálogo Político.
Uma carta do chefe da delegação do Governo nas negociações, citada hoje em conferência de imprensa pelo Painel de Monitoria do Diálogo Político, manifesta "toda a simpatia e global concordância com os propósitos do Parlamento Juvenil", referindo-se a uma das organizações envolvida nesta plataforma civil que exige a participação nas conversações.
De acordo com o Painel de Monitoria do Diálogo Político, a mesma abertura foi manifestada pelo chefe do gabinete do presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Augusto Mateus, que considerou a intenção positiva, observando, no entanto, que dependerá do bom senso e de um entendimento com o Governo.
A exigência do envolvimento de membros de organizações da sociedade civil nas negociações para a paz surgiu no âmbito da conferência Pensar Moçambique, organizada pelo Parlamento Juvenil no mês passado.
O encontro culminou com a emissão de quatro cartas, destinadas ao Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, ao líder da Renamo, Afonso Dhlakama, e aos chefes das delegações das duas partes nas negociações, Jacinto Veloso, do Governo, e José Manteigas, do maior partido de oposição.
Observando que a exclusão da sociedade civil no processo negocial revelaria que as partes estão a defender interesses próprios, o ativista social moçambicano Erik Charas, que faz parte do Painel de Monitoria do Diálogo Político, disse hoje, à margem da conferência de imprensa, que "é difícil monitorar o processo à distância" e que as pessoas da sociedade civil escolhidas devem "lutar pelos interesses dos moçambicanos".
"Se há espaço para trazer atores internacionais, porque é que a sociedade civil não pode [participar nas negociações?", questionou.
O grupo exige o envolvimento de oito personalidades da sociedade civil no processo negocial, observando que a cessação imediata das confrontações militares deve ser a prioridade na agenda das conversações.
"O nível gravoso do abuso e violação dos direitos humanos nesta tensão político-militar está a transformar mais de 25 milhões de vidas humanas em meras estatísticas aterrorizadoras", refere o documento, acrescentando que Moçambique vive uma situação em que o direito à vida é atribuído a partir da cor partidária.
A Renamo não reconhece os resultados das eleições gerais de 2014 e exige governar nas províncias de Sofala, Tete, Manica e Zambézia, centro de Moçambique, e também em Niassa e Nampula, no norte.
A região centro de Moçambique tem sido atingida por episódios de confrontos entre o braço armado da Renamo e as Forças de Defesa e Segurança, além de denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.
As autoridades atribuem à Renamo ataques a unidades de saúde nas últimas semanas e emboscadas nas principais estradas do centro do país, onde foram montadas escoltas militares obrigatórias em três troços de duas vias.
Apesar da frequência de casos de violência política, as duas partes voltaram ao diálogo em Maputo, mas o processo negocial foi suspenso até ao regresso dos mediadores internacionais, previsto para 08 de agosto.
Os mediadores internacionais apontados pela Renamo são representantes indicados pela União Europeia, Igreja Católica e África do Sul, enquanto o Governo nomeou o ex-Presidente do Botsuana Quett Masire, pela Fundação Global Leadership (do ex-secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos Chester Crocker), a Fundação Faith, liderada pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o antigo Presidente da Tanzânia Jakaya Kikwete.



Wednesday, 3 August 2016

Dhlakama descarta integração da Renamo no Governo moçambicano

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, afastou hoje a hipótese de membros do maior partido de oposição integrarem o Governo moçambicano e insistiu que não vai abandonar a reivindicação de assumir o poder nas províncias onde reclama vitória eleitoral.
"Nós não precisamos nem queremos entrar no Governo da Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique, partido no poder]. Não pensem que vamos aceitar o que se fez no Quénia ou no Zimbabué com Tsvangirai. Não queremos governo de unidade nacional", afirmou Dhlakama em entrevista hoje publicada no semanário Canal de Moçambique.
O líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) reiterou que defende uma revisão pontual da Constituição e que um acordo a ser alcançado com o Governo deve ser submetido ao parlamento para que o seu partido comece a exercer o poder nas seis províncias do centro e norte do país.
"Vamos governar as nossas províncias com as nossas políticas. Não queremos dividir o país, só queremos que transfiram os poderes dos governadores da Frelimo para os da Renamo", disse Dhlakama, referindo que, ao fim de cinco anos, haverá novas eleições.
A Renamo não aceita os resultados das eleições gerais de 2014, alegando fraude, e exige governar as províncias de Sofala, Manica, Tete e Zambézia, centro do país, e Niassa e Nampula, no norte, onde reclama vitória no escrutínio.
Quando a Renamo contestou as eleições, no final de 2014, Dhlakama propôs a criação de um governo de gestão com a Frelimo, mas a sugestão foi rejeitada pelo partido no poder e depois abandonada pela própria força da oposição.
Nos últimos meses, a região centro de Moçambique tem sido atingida por confrontos entre o braço armado da Renamo e as Forças de Defesa e Segurança, além de denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.
Na entrevista ao Canal de Moçambique, Dhlakama admitiu a autoria de ataques da Renamo no passado fim de semana à vila sede de Mopeia, província da Zambézia, e a abertura de uma nova frente de confrontação na província de Niassa.
"Foi atacada uma esquadra em Maúa, no Niassa, pois abrimos uma frente lá na semana passada", disse o líder da oposição, aludindo a uma província onde eram raros os episódios de violência política.
As negociações de paz foram suspensas no final de julho, após a partida dos mediadores internacionais, mas Dhlakama diz ter garantias de que vão voltar para a retoma das negociações a 08 de agosto.
"Os mediadores, quando vinham, estavam com aquela expetativa de que em três dias as coisas estariam resolvidas. Acredito que voltaram para se preparar", declarou, comentando igualmente as questões logísticas apontadas pelo chefe dos mediadores, Mario Raffaelli, no momento em que anunciou a suspensão.
Para o líder da oposição, a suposta falta de condições logísticas, nomeadamente pagamento de despesas, revela "má-fé do Governo", e, desde a partida dos mediadores, avançou, não há contactos entre as delegações, apesar de ter ficado um assunto pendente.
Esse assunto, segundo Dhlakama, está relacionado com a criação de condições de segurança para um encontro pessoal com os mediadores na serra da Gorongosa, centro do país, onde presumivelmente se encontra desde o final do ano passado.
"Havia uma ideia que foi explorada, que é a possibilidade de darmos tréguas ao nível da Gorongosa, onde eu moro, como forma de permitir a circulação dos mediadores", afirmou.
Um cessar-fogo generalizado depende, porém, de os "irmãos do outro lado mostrarem interesse e boa-fé", recusando uma trégua com um adversário que lhe aponta um canhão.
"É o que eles têm feito aqui na Gorongosa. Quando nos atacam, pensam que estão a pressionar-nos e que Dhlakama vai levantar as mãos. Se o inimigo nos ataca, temos de responder para dispersa-lo", declarou o líder da Renamo, que abordou ainda a sua imagem junto dos simpatizantes do partido.
"Olha, meu irmão Matias [jornalista], não brinques com essas coisas. A imagem do Dhlakama é brilhante, a sua reputação é brilhante. Não digo que sou Deus, mas sou brilhante", descreveu-se.


Acordos (efémeros) de paz em Moçambique só são possíveis à pressão armada, segundo antigo braço direito do líder da Renamo



O político e antigo braço direito do líder da Renamo, Raúl Domingos, considera que as negociações de paz em Moçambique só têm sido possíveis com recurso à pressão armada, o que se consubstancia no facto de os acordos de 1992 e 2014 terem sido rubricados por essa via. Para evitar tal situação, ele é a favor da alteração do sistema político vigente, porque propicia sucessivas crises militares resultantes do facto de os vencedores das eleições gerais governarem até os locais onde não foram eleitos à custa de outros partidos.
"Eu sei que a verdade dói, mas a experiência do Acordo Geral de Paz (1992) mostra que só se negociou porque havia pressão militar", afirmou o ex-chefe da delegação da Renamo nas negociações de paz para Moçambique naquele ano, em Roma, e que foi expulso do partido em 2000, por alegada facilitação da vitória da Frelimo nas eleições gerais de 1999.
Raúl Domingos, que falava num encontro de reflexão com os partidos políticos, subordinado ao tema “Soluções para a Paz e Estabilidade Politica em Moçambique: Contribuição dos Partidos para o Dialogo Politico”, na terça-feira (02), em Maputo, disse ainda que no país há um “défice de reconhecimento mútuo”.
E o mesmo problema, que dificulta o diálogo político entre o Governo e a Renamo, aconteceu aquando das negociações que levaram à assinatura do Acordo Geral de Paz. “Tivemos de trabalhar na confiança para poder fazer avançar o acordo".
De acordo com o político, ora presidente Partido para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (PDD), o sistema político que “nós adoptámos, em que o vencedor das eleições gerais fica com tudo, incluindo no nível local”, mostra-se pouco adequado, uma vez que os eleitores que votam sempre determinado num partido, são ao fim e ao cabo, “dirigidos por um outro partido", o que “não se compreende”.
A alternativa a este modelo, que segundo vários políticos é parte dos problemas pós-eleitorais em Moçambique, é o exemplo da vizinha África do Sul, onde cada partido governa a província onde vence. Não interessa o partido que ganha em todo o país.
À semelhança das queixas do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) nos que diz respeito à sua alegada dificuldade de inserção política no país, o ex-número dois da “Perdiz” considera que a intolerância e exclusão políticas e o fiasco na despartidarização do Estado estão na origem da actual tensão político-militar.
No evento a que nos referimos, promovido pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), os partidos extra-parlamentares, que reivindicam participação no diálogo político entre as partes beligerantes, disseram que os acordos de 1992 e 2014 não capazes de assegurar a paz e nunca foram “acompanhados de acções claras de reconciliação. Ainda existe um longo caminho a percorrer para a sua consolidação”.
Na sua comunicação, apresentada Miguel Mabote, presidente do Partido Trabalhista, os extra-parlamentares sugeriram a criação de condições para o reaparecimento público do presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, pois as negociações não podem ser feitas com ele no mato.
Eles exigiram igualmente a eliminação da intolerância política, a restituição das liberdades políticas, a aceitação mútua e a ponderação de pontos de cada uma das partes para a reconciliação.



Participação de mediadores no processo de paz em Moçambique devia ser suspensa - analista


Maputo, 02 ago (Lusa) - O comentador político Salomão Moyana defendeu hoje a suspensão da participação dos mediadores das negociações de paz em Moçambique por tempo indeterminado até que Governo e Renamo se entendam sobre a forma como pretendem avançar o processo.
"Nós devíamos suspender os mediadores por um tempo indeterminado até que as partes cheguem a um acordo sobre como querem levar o este processo", defendeu o jornalista e comentador Salomão Moyana, falando durante uma conferência sobre a situação política em Moçambique promovida pela organização não-governamental Instituto para a Democracia Multipartidária.
Alertando para as consequências de uma burocratização do processo negocial, Salomão Moyana disse que a agenda das conversações, que inclui a proposta da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) de governar seis províncias onde revindica vitória eleitoral e a exigência do Governo do desarmamento do braço armado do maior partido de oposição, revela que o processo vai levar muito tempo para apresentar resultados.
"Só o número das delegações dos mediadores já revela que este processo, que devia ser rápido, está a ser muito burocratizado e vai ser longo", lamentou, observando que a cessação imediata das hostilidades militares deve ser a prioridade da agenda.
Para Salomão Moyana, caso o Governo moçambicano e a Renamo não mudem a sua postura, a crise política em Moçambique só será resolvida nas vésperas das próximas eleições, o que vai resultar numa solução ineficaz e que, posteriormente, será questionada por uma das partes em função dos resultados do escrutínio.
Juntando-se às vozes que defendem uma revisão da legislação, como forma de criar condições práticas para uma democracia representativa, o também vogal do Conselho Nacional de Eleições (CNE) disse que Moçambique precisa de encontrar mecanismos para acomodar os interesses de todos atores políticos do país, num processo descentralizado e transparente.
"A lei foi feita pelas pessoas e se for necessário mexer na Constituição para encontrarmos o caminho, então, que assim seja", declarou Moyana, concluindo que ignorar a descentralização em Moçambique é "arrastar um problema".
A Renamo não reconhece os resultados das eleições gerais de 2014 e exige governar nas províncias de Sofala, Tete, Manica e Zambézia, centro de Moçambique, e também em Niassa e Nampula, no norte.
A região centro de Moçambique tem sido atingida por episódios de confrontos entre o braço armado da Renamo e as Forças de Defesa e Segurança, além de denúncias mútuas de raptos e assassínios de dirigentes políticos das duas partes.
As autoridades atribuem à Renamo ataques a unidades de saúde nas últimas semanas e emboscadas nas principais estradas do centro do país, onde foram montadas escoltas militares obrigatórias em três troços de duas vias.
Apesar da frequência de casos de violência política, as duas partes voltaram ao diálogo em Maputo, mas o processo negocial foi suspenso até ao regresso dos mediadores internacionais, previsto para 08 de agosto.
As negociações de paz em Moçambique foram suspensas a 27 de julho, anunciou Mario Raffaeli, coordenador da equipa de mediação internacional, que deixou uma proposta a ser analisada pelas delegações do Governo e da Renamo.
"Não é uma interrupção por um motivo particular, é uma interrupção logística", afirmou aos jornalistas Mario Raffaelli, mediador indicado pela União Europeia (UE), dando conta de que os membros da equipa internacional iam voltar aos seus países.
Os mediadores internacionais apontados pela Renamo são representantes indicados pela União Europeia, Igreja Católica e África do Sul, enquanto o Governo nomeou o ex-Presidente do Botsuana Quett Masire, pela Fundação Global Leadership (do ex-secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos Chester Crocker), a Fundação Faith, liderada pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o antigo Presidente da Tanzânia Jakaya Kikwete.


Tomás Vieira Mário diz que “o grito” das armas mostra que o diálogo está longe de acontecer

Tensão político-militar


O clima de instabilidade político-militar está cada vez mais intenso. Além do Centro do país, espaço em que era habitual se testemunhar ataques, Niassa - já no Norte - foi um dos pontos escalados pela ofensiva atribuída às forças armadas da Renamo. Analisando o recrudescimento dos ataques nas últimas horas, Tomás Vieira Mário é da opinião que o fenómeno é mostra que o diálogo ainda está longe de amadurecer e de que as partes (Governo e Renamo) ainda têm as posições difíceis de conciliar.
“A forma de exprimir essa discrepância de posições nos é dada por via das armas”, o jornalista defende a sua posição tendo como exemplo a repentina expansão da Renamo a distritos longínquos como Maúa, Mopeia e outras. Para o analista, o partido de Afonso Dhlakama está a fazer uma declaração de força, porque os processos de diálogo estão extremados. “E agora, no intervalo para a próxima sessão, há uma espécie de musculatura em cada parte para preparar o diálogo”, lamenta.
Tomás Vieira Mário vê esses conflitos como um “grande vilão” para a economia. “Só o pânico que cria nas pessoas é um factor de retracção, as pessoas não viajam e não circulam, para muita força económica do país para não falar de destruição de infraestruturas”, frisa, e acrescenta que a tensão vem agudizar a crise económica que já lá vem há algum tempo.
O analista critica também os discursos dos políticos que dizem não haver motivos de preocupação pela ida dos mediadores. “Não há como não se preocupar, a situação está tão dramática que todos estão espectantes sem saber qual é a visão de amanhã”.
Ainda na sua locução, Tomás Vieira Mário é da opinião de que o país está a precisar de um fôlego novo, rápido e imediato, senão, “continuaremos a ter graves situações económicas porque a guerra é um factor de inibição da economia”, como os exemplos que avança são disso prova: “os camiões não vão mais ao distrito, portanto não circula a economia; os comerciantes que traziam produtos de Sul a Norte e vice-versa não mais vão viajar (não viajam a bastante tempo).
Sobre o diálogo-político, Tomás Vieira Mário diz que os mediadores estrangeiros não encontraram na mesa as partes com os argumentos apurados e composições que dão espaço para medição. Portanto, neste intervalo, o trabalho que ficou é de “cada uma apurar melhor a sua linguagem e seu argumento, mas, sobretudo, encontrar espaço para acomodar e acolher de algum modo o que outro quer, ambas as partes têm esse dever”.



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Monday, 1 August 2016

Porquê Nyusi é um Presidente de “Faz de conta”?

O Professor João Pereira deu uma extensa entrevista ao semanário SAVANAdo dia 15 de Julho em curso na qual afirmou que Filipe Nyusi era um “Presidente de faz de conta”, porque  ele é apenas “um Presidente que está lá, mas não tem um punho pessoal.” Dito de outra forma, é um Presidente controlado e teleguiado pelas forças internas com mais poderes do que  ele dentro do partido. Um Presidente cujos poderes foram sequestrados pela elite interna da geração 25 de Setembro (de luta de libertação nacional).
Na mesma edição do jornal SAVANA, há um artigo da África Confidencial no qual se pode ler que “Nyusi ainda não percebeu a gravidade da situação”, porque “está a ser incapaz de compreender que o seu país enfrenta uma grande emergência económica e tenta responder à calamidade com medidas cosméticas”.
Concordo com o Professor João Pereira, mas já não concordo a África Confidencial. Não há dúvidas que Nyusi é um Presidente de “Faz de conta”, que está a “fazer de conta” que ainda não está a perceber a dimensão do buraco do barco que está a conduzir no alto mar. Digo que está a “fazer de conta” que ainda não percebeu, porque tenho impressão que ele, na verdade, sabe e percebe, profundamente, a gravidade da situação do país, mas ele é incapaz de esboçar qualquer medida séria, dado que medidas sérias afectariam, substancialmente, os interesses da elite armada dos antigos combatentes, a mesma que o colocou no poder para “fazer de conta” que ele é Presidente. Nunca houve vontade da elite dos antigos combatentes em passar o poder a quem não tenha participado na libertação do país. Porém, a falta de consenso e o desentendimento interno em torno de quem seria, entre eles, o próximo candidato do partido, fez com que optassem por uma aparente ruptura: indicar uma figura que não fosse da tradição militar, da luta de libertação nacional, mas também uma figura que não iria ameaçar os seus interesses. E essa figura era Filipe Nyusi.
O primeiro sinal de que esta elite não estava disposta a afastar-se do poder é que Nyusi, como candidato, foi eleito quando faltam sensivelmente sete meses das eleições, tempo insuficiente para que ele tentasse perceber e reestruturar as máquinas partidária e do Estado. Ao contrário, Guebuza foi eleito em Junho de 2002 como candidato às eleições de Dezembro de 2004, ou seja, com o mínimo de dois anos e meio, o que o permitiu reestruturar o partido e montar uma máquina que fosse ele a conduzir. Igualmente, teve tempo de fazer a revisão da máquina do Estado que ele conhecia muito bem. 
Ao não dar tempo a Nyusi para, no mínimo entrar no partido e no Estado, estava claro que esta elite queria que entrasse e conduzisse as máquinas por ela minadas, sem que tivesse tempo de as testar. Na verdade, Nyusi entrou nos dois Leviatãs que desconhecia por completo. Foi como dar camião-cavalo manual de 16 velocidades a um condutor que aprendeu a condução com uma carinha de caixa automática, de quatro lugares. 
Nyusi está num dilema. Não tem poder, não conhece o Estado nem o partido que ele dirige por dentro. O resultado é a sua incoerência e contradição discursiva. Hoje diz uma coisa e amanhã diz outra que contradiz o que disse anteriormente. O seu discurso de tomada de posse é hoje antítese do que vem afirmando em comícios populares e em entrevistas. Os resultados da sua governação são também antítese das suas promessas eleitorais.
Há uma grande diferença entre Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi. Enquanto Chissano tinha conhecimento profundo do Estado que ele próprio participou activamente na sua construção e consolidação, conhecia e detinha influência considerável no partido, Guebuza conhecia perfeitamente o partido, que desde 1965 se encarregou de  montá-lo como comissário político. Igualmente conhecia profundamente o Estado no qual foi ministro dos sectores de defesa e segurança, além de ter sido ministro dos Transportes  e Comunicações, Governador provincial, etc.. Nyusi não conhece nem detém influência em nenhum dos dois monstros. É por isso que é um Presidente de “faz de conta”. 
Pessoalmente, sinto que ele tem vontade, mas a sua vontade esbarra-se nos interesses desta elite gerontocrática. 
O seu discurso de tomada de posse espelha a vontade que ele tem. Porém, é medroso, impotente e incapaz de avançar para uma ruptura.




Lázaro Mabunda, no Savana de 29.07.2016