Sunday, 6 September 2015

Clima de medo volta a antigas zonas de confrontos entre Governo moçambicano e Renamo


*** Por André Catueira, da agência Lusa ***
Gorongosa, Moçambique, 06 set (Lusa) - Habitantes de Gorongosa e Muxúnguè, centro de Moçambique, consideram que os desencontros entre o Governo moçambicano e a Renamo são "potenciais focos de instabilidade" e estão a provocar um clima de insegurança naquelas zonas atingidas por recentes confrontos militares.
Em declarações à Lusa, Feliciano Matchisso, deslocado nas últimas confrontações, entre 2013 e 2014, na Gorongosa, província de Sofala, disse que esperava "um 2015 apaziguado" mas que o agravamento da tensão política entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, "alimentam incertezas" a centenas de pessoas que ainda se mantêm longe das suas casas.
"Há muitos que saíram do campo de deslocados para o interior, mas mantêm casas em bairros de reassentamentos, porque ainda não há garantias de cessar-fogo completo. Aqui [na Gorongosa] são mantidos os militares de ambas partes e, com o aumento das divergências, o medo voltou", declarou Feliciano Matchisso.
Centenas de pessoas, dos cerca de seis mil deslocados de guerra na Gorongosa, recusam-se a regressar às suas zonas de origem, por considerarem que as condições de segurança permanecem instáveis um ano após Acordo de Cessação de Hostilidades, que encerrou, a 05 de setembro do ano passado, um conflito na região centro de 17 meses, entre as forças governamentais e o braço armado da Renamo.
"Nós continuamos capim dos dois elefantes em luta. Infelizmente estão a acontecer todas as divergências político-militares sem se interessarem pelo nosso sofrimento. Dormimos atentos todo o tempo, sem sossego, pois o dia que rebenta de novo não sabemos", lamentou à Lusa outro deslocado, Chico Tantofaz, falando em chiduma, a língua local da Gorongosa.
Também em Muxúnguè, no sul da província de Sofala, voltou a ser assunto de conversa o receio de uma nova instabilidade, com o rompimento do diálogo entre o Governo e a Renamo, e a recusa do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, para se avistar com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.
Durante 17 meses, até ao acordo de 05 de setembro, assinado por Dhlakama e pelo ex-presidente moçambicano Armando Guebuza, a Renamo condicionou o troço Save-Muxúnguè da única estrada que liga o sul ao centro do país, cujo trânsito passou a ser feito com escoltas militares obrigatórias do exército, ainda assim atacadas em emboscadas sistemáticas dos homens armados da oposição, em confrontações que deixaram um número desconhecidos de mortos e feridos, entre combatentes dos dois lados e também civis.
"As pessoas ainda vivem um clima de medo, com as frescas memórias dos ataques aqui [em Muxúnguè]. Apesar de a vida parecer normal, as pessoas assustam-se muito com certas posições dos líderes políticos. Nunca sabemos o dia de amanhã", declarou Abdul Ismael, um morador local.
Também em declarações à Lusa, José Luís, pároco de Muxúnguè, descreveu que o clima de insegurança ainda "não se sente muito" ao nível da vila, mas alerta que a ameaça do retorno dos confrontos pode voltar a paralisar a economia da região.
Moçambique vive momentos de incerteza, devido às ameaças de Afonso Dhlakama de governar à força nas seis províncias em que reivindica vitória nas eleições gerais de 15 de outubro do ano passado, depois de ver o seu projeto de criação de autarquias provinciais rejeitado pela maioria da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), partido no poder, na Assembleia da República.
No final de agosto, Afonso Dhlakama rejeitou um convite do chefe de Estado para se encontrarem e discutirem a paz, acusando o executivo de movimentar as forças de defesa e segurança, em violação do Acordo Geral de Paz de 1992 e o Acordo de Cessação das Hostilidades Militares.
Também em agosto, o líder da Renamo ordenou à delegação do seu partido para suspender a participação nas negociações de longo-prazo com o Governo, argumentando com falta de seriedade por parte do executivo, que, por sua vez, lamenta que nem um homem da oposição tenha sido desarmado no âmbito do processo de diálogo.




Friday, 4 September 2015

Quartel-general do partido Renamo, onde vai formar a sua polícia e exército, já funciona em Morrumbala




O partido Renamo anunciou o início do funcionamento, nesta terça-feira (02), de um quartel no distrito de Morrumbala, na província da Zambézia, onde pretende formar a sua polícia e mais guerrilheiros para o seu exército que irá defender, em caso de necessidade, a soberania das cinco províncias onde pretende governar. Esta posição de força acontece nas vésperas da passagem do primeiro ano, no próximo sábado (05), da assinatura do acordo de Cessação das Hostilidades Militares pelo então Presidente de Moçambique, Armando Guebuza, e o presidente do maior partido da oposição, Afonso Dhlakama.
O acto simbólico, que culminou com abraços e apertos de mãos de Guebuza e Dhlakama, acabou por não trazer a paz ansiada pelos moçambicanos. Se, por um lado os confrontos militares, que duraram mais de um ano e meio, terminaram o outro grande objectivo do acordo não chegou a ser materializado, não se iniciou até hoje o processo de desmilitarização, imobilização e reintegração das forças residuais do partido Renamo, seja na vida civil em actividades económicas e sociais, seja nas Forças Armadas de Moçambique e na Polícia da República de Moçambique.
Entretanto, Filipe Nyusi substituiu Guebuza na Presidência de Moçambique, após as eleições gerais de Outubro de 2014, que o partido Renamo nunca reconheceu, devido às várias irregularidades que aconteceram durante o pleito.
Depois de recuar da proposta de um “governo de gestão”, para ultrapassar a crise eleitoral, o maior partido na oposição em Moçambique avançou com a solução de gerir de forma autónoma as províncias de Sofala, Manica, Tete, Nampula, e Zambézia, onde conquistou a maioria dos votos nas últimas eleições gerais.
A proposta de autarquias provinciais foi chumbada no Parlamento, pelos deputados do partido Frelimo, depois de o Presidente Nyusi se ter reunido duas vezes com Afonso Dhlakama em Fevereiro de 2015, na capital do país.

Também em Maputo o apelidado “diálogo político”, entre o Governo e o partido Renamo, continua a arrastar-se, foram 114 rondas durante mais de dois anos, e não há forma de haver entendimento sobre os assuntos económicos e a desmilitarização das forças residuais do partido de Afonso Dhlakama. Alguns confrontos militares voltaram a registar-se agora na província de Tete.




Quartel para formar polícia e mais guerrilheiros




Na semana passada, e paralelamente a um novo convite do Chefe de Estado para um encontro a dois, Dhlakama anunciou em comício popular na Zambézia o fim do “diálogo político”, por falta de seriedade do Governo do partido Frelimo, e o início da governação nas cinco províncias onde obteve maior número de votos.

“A decisão de montagem do quartel de Morrumbala não é do presidente Dhlakama mas dos próprios veteranos da luta pela democracia”, enfatizou em conferência de imprensa o porta-voz do principal partido da oposição em Moçambique, António Muchanga, nesta quarta-feira (03), que não quis revelar quantos guerrilheiros estão no local, se existem armas e que infra-estruturas há; porém, acrescentou que Afonso Dhlakama, que visitou o quartel na tarde de terça-feira, teve de concordar com a decisão “como forma de evitar que houvesse cisão no seio do partido, o que seria muito perigoso para a democracia que pretendemos consolidar, tendo em conta que qualquer combatente poderia tomar a decisão pessoal de pegar em armas sem um comando seguro”.

Segundo o porta-voz, este quartel “(...) é um local onde os combatentes da democracia se vão juntar, vão poder planificar como é que será feita a formação da polícia da Renamo que vai defender o governo da Renamo nas províncias conquistadas (Sofala, Manica, Tete, Nampula, e Zambézia) pela Renamo. Tem que se formar um exército que deverá defender a soberania dessas zonas, se as negociações falharem”.
Questionado sobre quando será retomado o “diálogo político” Muchanga afirmou que “tudo depende do Governo. Se o Governo começar a cumprir com as exigências detalhadas na carta enviada ao Governo no dia 25 (de Agosto) a Renamo está disponível a voltar à mesa de negociações”.
Na missiva, o partido Renamo recusa o convite (re)formulado pelo Presidente de Moçambique, para se encontrar com Dhlakama, pois considera que o Governo não tem cumprido o Acordo de Cessação de Hostilidades Militares por haver extinto unilateralmente a Equipa Militar de Observação da Cessação das Hostilidades Militares e ter atacado as suas forças militares que deveriam ser reintegradas.
O maior partido da oposição acusa também o Executivo de Nyusi de se recusar a reintegrar os seus homens, pois “manifestou e continua com vontade de arrancar as armas da Renamo não interessando o futuro daqueles homens”, pode-se ler ainda na carta que o Governo “usa o aliciamento para que os homens da Renamo abandonem os termos acordados nas negociações e se apresentem no Comando Geral da Polícia e no Estado Maior General das Forças de Defesa de Moçambique como voluntários da Frelimo, para daí serem recebidos como heróis, onde são consequentemente promovidos e patenteados”.
“Quanto ao segundo ponto da Agenda, avaliação do decurso do diálogo político entre o Governo e o partido Renamo, achamos que o momento é extemporâneo tendo em conta que houve tempo suficiente e não houve boa vontade pela parte do Governo de resolver de boa maneira os assuntos importantes que afectam a democracia e a paz em Moçambique”, refere também a carta enviada em resposta ao convite do Chefe de Estado que cita como exemplo da falta de vontade o facto de já se haver alcançado um entendimento sobre a despartidarização do Estado, uma das questões económicas em negociação, mas o Executivo recusa-se a homologá-la através do Parlamento.

De acordo com o porta-voz do partido Renamo, “(...)Se o Governo continuar com manobras dilatórias cada qual vai ocupar o seu espaço”.


Thursday, 3 September 2015

Ex-número dois da Renamo diz que Moçambique está sobre um barril de pólvora


O ex-número dois da Renamo Raúl Domingos considera que, um ano após a assinatura do Acordo de Cessação das Hostilidades Militares entre o Governo e o principal partido de oposição, Moçambique está sobre um barril de pólvora.



"Não é preciso ter uma lupa ou ser analista para ver o que está claro: a paz em Moçambique não é um dado adquirido, o país está sentado num barril de pólvora", afirmou, em entrevista à Lusa, Raul Domingos, atual presidente do extraparlamentar Partido para a Paz Democracia e Desenvolvimento (PDD).

Para o político, as negociações que levaram à assinatura entre o Governo e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) do Acordo de Cessação das Hostilidades Militares, em 05 de Setembro, e as que se seguiram ao entendimento foram uma oportunidade perdida para um entendimento de paz duradouro no país.
"Foram negociações infrutíferas, porque as razões que levaram ao conflito entre 2013 e 2014 prevalecem, principalmente a falta de legitimidade eleitoral das instituições políticas, o facto de termos um Estado partidarizado e dois partidos armados", realçou Raul Domingos, referindo-se à Renamo e à Frelimo, partido no poder.
As negociações entre o Governo e a Renamo e o actual contexto, defendeu Raúl Domingos, deviam ter sido aproveitados para se repensar o sistema político, aprofundando o processo autárquico, como forma de distensão da situação política.
"As eleições têm mostrado que há um importante sector do eleitorado que vota na oposição, mas que não se sente representado nas instituições políticas, porque o actual sistema político moçambicano assenta no princípio de que ´o vencedor fica com tudo` e essa situação podia ser resolvida com a devolução do poder às províncias", destacou.
Na opinião de Raúl Domingos, a estabilização definitiva de Moçambique é também dificultada pelo facto de o actual chefe de Estado, Filipe Nyusi, andar "à deriva" por ter de gerir vários grupos que se "digladiam" pelo poder dentro da Frelimo.
"É um chefe de Estado novo numa máquina da Frelimo com mais de 40 anos de vícios de partido único e com dois ou três grupos a digladiar-se pelo poder, ele está à deriva e isso se vê na inconstância das suas posições", considerou.
Para o presidente do PDD, o Acordo de Cessação das Hostilidades Militares foi alcançado por conveniência, porque o Presidente da República da altura, Armando Guebuza, queria vincar a ideia de que deixou o poder com o país em paz.
"Muitos avanços que estavam emperrados durante meses de negociações, foram alcançados a uma velocidade meteórica, por pressão de um Presidente que estava de saída e pela necessidade de dar legitimidade às eleições que já estavam nas vésperas", defendeu Raúl Domingos.
O Acordo de Cessação das Hostilidades Militares completa no próximo sábado um ano de vigência, marcando o fim de mais de um ano de confrontos entre as Forças de Defesa e Seguranças moçambicanas e o braço armado da Renamo, mas falhando o seu principal objetivo, a desmilitarização do principal partido de oposição.
Ao abrigo do acordo, foi formalizada a Lei de Amnistia para autores de crimes contra a segurança do Estado, cometidos durante o período da tensão política vigente na altura, formada uma Equipa da Missão de Observadores da Cessação das Hostilidades Militares (EMOCHM), entretanto dissolvida, e alcançado um acordo sobre a despartidarização do Estado, que ainda não foi viabilizado, devido à recusa do Governo de submeter o documento ao parlamento juntamente com a Renamo.
Raul Domingos fez parte da Renamo durante a guerra civil de 16 anos que opôs o movimento e o Governo da Frelimo e chefiou a delegação do principal partido de oposição nas negociações que puseram fim ao conflito a 04 de Outubro de 1992.

Domingos foi expulso da Renamo em Julho de 2000 por divergências com o presidente do movimento, Afonso Dhlakama, quando era considerado o número dois do partido e potencial sucessor na liderança do partido.




“Constituí um esfaqueamento da constituição da república” Nenane

“É no mínimo ridículo, se não mesmo patético que a nossa justiça tenha dedicado o seu tempo a procurar pistas indícios, elementos e provas de que estes nossos colegas jornalistas possam ter cometido um crime publicando a opinião de um cidadão”.
MAPUTO-O discurso acima, é da pertença do jornalista, Armando Nenane da Associação Moçambicana de Jornalismo Judiciário (AMJJ), no qual deixa transparecer o seu repúdio pelo julgamento dos seus colegas de profissão, Fernando Veloso e Fernando Mbanze, sem esquecer o professor Carlos Nuno Castelo Branco, acusados de crime contra a Segurança do Estado.
Nenane, falava, hoje, durante a conferência de imprensa que teve lugar no Hotel Moçambicano, que tinha em vista informar a comunicação social e a sociedade em geral acerca da manifestação que as organizações da sociedade civil, de defesa e proteção dos direitos humanos e cidadania, esta a organizar para, a próxima segunda-feira, como forma de mostrar o seu descontentamento.
Na ocasião Nenane, disse se sentir violentado pelo sistema de justiça moçambicano, que segundo ele, provou mais uma vez com este processo, que “ se trata de uma justiça instrumentalizada pelo poder politico para promover a perseguição de jornalistas e de cidadãos jurados desse mesmo poder politico”.
Ainda no seu discurso o jornalista afirmou, que este não é um caso isolado dado que ao longo dos últimos 10 anos se instalou um clima de terror na imprensa moçambicana e na sociedade em geral que se caracteriza pela perseguição de todos os discursos que são críticos a governação.
“É asqueroso, desolador e a todos os títulos repugnante, que uma justiça possa considerar um crime contra a segurança do estado, uma opinião tão verdadeira, tão nua, tao crua como esta que foi emitida pelo professor, Carlos Nuno Castelo Branco. Para além de atentar com a liberdade de imprensa e de expressão. Este processo enfadonho, disparatado e de pendor fascista, atenta flagrantemente contra a nossa dignidade colectiva”.
Para Nenane, a prossecução desse processo constituí, “um esfaqueamento da constituição da república, é um aniquilamento do estado de direito e democrático”. 
Para o jornalista da AMJJ resta apenas esperar que “alguma luz se acenda na cabeça do juiz que vai julgar este processo”, a fim de que possa em nome da justiça e da liberdade absolver os jornalistas que estão no banco dos réus.
Em jeito de fecho o jornalista pediu que seja feita a justiça e que os acusados sejam ilibados.
Os três homens no banco de réus são acusados de crime contra a Segurança do Estado por, um deles, o professor Carlos Castelo Branco, ter publicado uma carta de opinião critica sobre o então Presidente da República na sua página pessoal da rede social Facebook e os dois jornalistas Fernando Mbanze e Fernando Veloso terem publicado a mesma nos órgãos que trabalham.



Folha de Maputo

Wednesday, 2 September 2015

PAI TENTA VENDER FILHO ALBINO

Pai tenta vender filho albino
Um cidadão encontra-se detido e deverá responder em juízo, acusado de tentar vender o próprio filho, portador de  albinismo.

Este progenitor começou por fazer desaparecer o menor, de dez anos, mantendo-o num esconderijo, à espera de possíveis compradores.
Dias depois, o indiciado foi ao posto policial de Praia de Bilene, para, alegadamente alertar a polícia sobre o desaparecimento do filho.
O Porta-voz da Polícia, em Gaza, Jeremias Langa, disse que um trabalho de investigação culminou com a localização do menor, e este revelou ter sido o próprio pai a levá-lo a esse esconderijo.
A propósito do assunto, o governo moçambicano acaba de criar, esta terça-feira, uma comissão multi-sectorial para propor medidas de contenção dos actos criminais praticados contra pessoas portadoras de albinismo e de protecção a esta camada social.
A decisão foi tomada em Maputo, na Trigésima Sessão do Conselho de Ministros.
O porta-voz do Conselho de Ministros, Mouzinho Saíde, disse que a comissão será liderada pelo Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos.
A província de Nampula lidera a lista de casos criminais contra pessoas portadoras de albinismo, com oito casos de ofensas corporais e dois assassinatos.



(RM)

VÃO ORAR HOJE NA PRAÇA DA PAZ EM MAPUTO: Mães exigem solução imediata do clima de instabilidade no país




























O MOVIMENTO cívico “Mães, esposas e filhas pela reconciliação nacional, paz plena e duradoira” realiza hoje, na Praça da Paz, em Maputo, uma jornada de oração na qual pretende exigir uma solução imediata do clima de instabilidade que se vive no país.
Trata-se de um movimento cívico constituído por mulheres moçambicanas preocupadas com o ambiente de falta de paz e ausência de consenso entre o Governo e a Renamo. As mães, que se juntaram e formaram o movimento, mostram-se preocupadas com o facto de, por razões políticas, vidas humanas estarem a ser destroçadas e relembram os horrores da guerra dos 16 anos, que se saldou em milhares de mortes, destruição de infra-estruturas escolares e de saúde e apelam ao bom senso de todos os que detêm o poder das armas e recomendam a escolha de palavras que induzam e conduzam à reconciliação e entendimento.
O movimento foi constituído num encontro realizado no dia 11 de Julho último, que juntou mais de 180 mulheres, como forma de manifestação e engajamento nos esforços para o amainamento dos ânimos e a escolha do diálogo aberto, constante e permanente como forma de resolução de diferendos. O Bispo Emérito da Igreja Anglicana em Moçambique e um dos mediadores do diálogo entre o Governo e a Renamo, em curso no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, é o patrono da iniciativa.
Na ocasião, as 180 mães, esposas, irmãs e filhas de moçambicanas e de moçambicanos produziram uma declaração na qual consideram que não existe causa alguma e coisa nenhuma que justifique a perda de vidas humanas, por elas geradas, e disseram basta ao clima de instabilidade que se vive no país.
“Não queremos enterrar os nossos filhos e as nossas filhas. Não nos queremos tornar mães dos nossos netos. Não permitimos que em nosso nome coisifiquem a vida das nossas filhas e dos nossos filhos e os tornem números anónimos de mortes, baixas, feridos, traumatizados. Cada um e cada uma dos que morre em consequência desta falta de paz deixa uma mãe dilacerada, um cônjuge sem companheiro, uma criança sem pais e sem futuro. Basta!”, expressam na declaração final.

DESENTENDIMENTO QUE NUNCA ACABA


O movimento cívico “Mães, esposas e filhas pela reconciliação nacional, paz plena e duradoira” questiona o desentendimento que nunca acaba entre o Governo e a Renamo. Para esta organização, o país é uma única e grande família, sendo todos filhos e filhas de uma mesma mãe que gerou cerca de 24 milhões de vidas. Todos, sem excepção ou exclusão, pertencem a uma única e grande família.
“Como em todas as famílias, temos formas de ser, estar e pensar diferentes. Quando as diferenças entre os nossos filhos parecem ser irreconciliáveis, nós, mães, sentamo-nos e dialogamos juntos, oramos para que o espírito e a vontade de ouvir com toda a mente e vontade genuína esteja entre eles, apelamos aos nossos filhos que expressem as suas percepções com verdade, franqueza, honestidade e, acima de tudo, humildade e que a primeira verdade de entre todas seja o reconhecimento mútuo e de todos do erro, da ofensa, da desinteligência que precipitou os ânimos. Rogamos que ao falarem uns com os outros se lembrem que são primeiro, e acima de tudo, irmãos, gerados por nós, e, por isso, se tratem com amenidade e ao falar escolham palavras que induzam e conduzam à reconciliação e entendimento”, afirma a declaração.
As mães, esposas e filhas de Moçambique exigem que o país trilhe pelo diálogo permanente, com verdade, honestidade, franqueza, humildade e temperança, que começa com o reconhecimento de todos os erros e faltas cometidas pelas partes dialogantes, para que se produza o fruto da reconciliação e paz plena e duradoira na família moçambicana.


VOZ QUE DEVE SER OUVIDA


AS mães, esposas e filhas reunidas no movimento pela reconciliação nacional, paz plena e duradoira afirmam que a nossa cultura e os nossos princípios como moçambicanos ditam que quando os seus filhos não chegam a entendimento, procuram-nas porque respeitam e valorizam o seu papel de geradoras de vidas, para os ajudar a fazer a ponte que faz ultrapassar o que os divide.
“Nós, mães de Moçambique, temos o dever e o direito de assumir a nossa quota-parte da responsabilidade de semear a reconciliação e paz plena e duradoira em Moçambique e na sociedade moçambicana. Assim, exigimos que a nossa face esteja presente e a nossa voz seja ouvida em todos os esforços de construção da paz no nosso país”, sublinham na declaração.
Lembram que, como mães, ao gerarem filhos fazem-no desejando que as suas vidas sejam sempre melhor do que as suas. Assim, apelam para que o futuro seja construído a partir das suas vitórias. Expressam o desejo de que o legado e herança que deixam às filhas e filhos de Moçambique seja a paz plena e duradoira.
Sublinham que têm memória de um passado que se faz sentir ainda no presente, reflectido nas centenas de escolas destruídas e, por isso, as centenas de crianças com o futuro coarctado por falta de uma educação de qualidade, milhares de filhas e filhos que morrem por falta de assistência devido aos hospitais destruídos, a sociedade cada vez mais violenta, sem respeito pela vida e dignidade do próximo.
“Não queremos voltar a ser ensombrados e nem reviver estes momentos que foram dos mais difíceis da vida de todos os moçambicanos e moçambicanas. Todos e cada um de nós, filhas e filhos de Moçambique, temos a obrigação e o direito de ser semeadores da paz. Devemos cultivar o espírito de reconciliação, iniciando na nossa casa, no nosso bairro, local de trabalho e no local de oração. Os nossos actos, as nossas palavras, a nossa atitude, o nosso comportamento, uns com os outros, devem emanar o perfume da reconciliação e da paz plena. Para isso, devemos ser todos incluídos nos esforços de construção da paz. Exigimos que o diálogo seja inclusivo e assente na diversidade. Ouvir mulheres e homens de todo o país, independentemente da região, religião, cor, raça, etnia, da língua falada, do partido político e dos seus ideais”, declaram.
Pretende-se que o movimento “Mães, esposas e filhas pela reconciliação nacional e paz plena e duradoira” se multiplique pelo país, numa verdadeira iniciativa permanente de reflexão, acção e manutenção da paz como bem comum, segundo deu ontem a conhecer em conferência de imprensa Eduarda Cipriano, integrante do movimento.


FÉ NA ESTABILIDADE DO PAÍS














Eduarda Cipriano disse ter fé nos resultados positivos do diálogo em curso entre o Governo e a Renamo para a estabilidade do país. Segundo afirmou, as brigas que acontecem nas famílias envolvendo irmãos do mesmo sangue são sempre dirimidas, com sucesso, pela mãe.
“Acima das diferenças, vem o laço de irmandade. Nós temos fé e temos de ter consciência de que somos todos filhos da mesma mãe, que é Moçambique. Mas se não acreditamos nisto, temos de acreditar noutro lado da irmandade. Somos irmãos em Cristo, Deus fez-nos irmãos. Quando estamos a discutir, devemos, primeiro, identificar o que nos une. As coisas que nos dividem são pequenas, muito menores do que aquilo que nos une. Acreditamos que se genuinamente nós formos à conversa e ouvirmos atentamente o outro primeiro, no lugar de colocarmos e fincarmos pé naquilo que são os nossos sentimentos e pontos de vista, podemos ultrapassar as nossas diferenças”, disse.
Afirmou que o diálogo no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano deve ser franco e aberto, cada parte tem de procurar ouvir e compreender a outra, caso contrário será um “diálogo entre surdos”. Eduarda Cipriano disse mesmo que as delegações do Governo e da Renamo no diálogo precisam de observar uma pausa para “respirar fundo e orar a Deus”.
“Acreditamos que isso aconteceu na segunda-feira. Uns não foram porque estavam a orar, a pedir a Deus bênção para um diálogo construtivo. Aqueles que foram também estavam à espera dos outros em oração. Não foi a primeira segunda-feira em que não se encontraram. Mas esta segunda-feira, porque nós, as mães, estamos a orar, sabemos que uns não foram (ao diálogo) porque estavam a orar”, disse, clarificando que as mães, esposas e filhas do movimento não estão a reclamar espaço ou inclusão no diálogo político, mas somente apelar para que membros das duas delegações falem nas suas famílias, pedindo conselhos às mães.


NÃO DEITAR ABAIXO O ESFORÇO INVESTIDO












Para Eulália Lucas Bembele, uma mãe que igualmente integra o movimento, todo o esforço deve ser feito no sentido de não se deitar abaixo todo o investimento feito até agora, passados mais de 20 anos do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, em todos os domínios, incluindo na preservação da própria paz.
Segundo afirmou, a tensão político-militar que se vive serve apenas os interesses pessoais e não do povo moçambicano, no geral.
“Perguntamos: essa guerra é para quê? A quem serve? Querem lutar com quem? Os nossos filhos são recolhidos para receberem ensinamentos sobre como matar, como roubar. Onde está o amor pela vida? Porque não os ensinam a construir hospitais, agricultura, construir escolas? Alguém diz que vai construir um quartel-general, mas nós perguntamos: porque é que não constrói uma faculdade, para formar aquelas crianças? Dizemos em voz alta: não à guerra! Não queremos os nossos filhos a sofrer, não queremos ver o derramamento de sangue em Moçambique”, suplicou.



Not
ícias

“Queremos que o tribunal diga aos moçambicanos e ao mundo em que país é que nós vivemos”, numa Democracia ou numa Ditadura









 Liberdade de Expressão e de Imprensa em Moçambique começou a ser julgada nesta segunda-feira (31), no Tribunal Judicial do Distrito de Kampfumo, na cidade de Maputo. Contrariando vários juristas, organizações da Sociedade Civil e até a Amnistia Internacional, que apelaram para o arquivamento do processo que o Estado move contra o cidadão Carlos Nuno Castel-Branco, o advogado de defesa afirmou que “os réus querem provar que nenhum crime cometeram” e enfatizou que em julgamento está a “fronteira que é preciso traçar, entre vivermos num país em democracia, vivermos num país onde os direitos dos cidadãos e as suas opiniões são respeitados, ou vivemos num ditadura,(...) onde as pessoas vivem amordaçadas e não podem exprimir as suas opiniões”.
“(...) Nós concluímos que queríamos vir a julgamento. Porque é diferente os réus serem mandados embora porque uma excepção, ou uma questão prévia põe fim ao processo, do que ser julgado e ser absolvido porque nenhum crime foi cometido. É essa a nossa convicção”, começou por declarar nas suas alegações finais o advogado do réu Carlos Nuno Castel-Branco acrescentando ainda que o “réu não invocou a Lei da Amnistia, o réu não quer ser amnistiado porque amnistia significa aceitar que se cometeu o crime e que depois, por uma ficção legal, os efeitos desse crime não são tidos em conta”.
Segundo João Carlos Trindade, os réus querem provar a sua inocência e que nenhum crime contra a Segurança do Estado, como alega o Ministério Público, foi cometido. “O único "crime" que cometeram foi exprimir a sua opinião, foi exprimir a sua indignação para com a forma como este país estava a ser governado. E isso é um direito que a Constituição e todas os instrumentos de direito internacional garantem aos cidadãos; por isso, Meritíssimos senhores juízes eleitos, aquilo que está aqui em jogo não é o que disse o Ministério Público, não está aqui em jogo a forma como o réu usou as palavras para exprimir a sua opinião, não é isso que está em jogo. O que está em jogo neste processo é uma fronteira que é preciso traçar, entre vivermos num país em democracia, vivermos num país onde os direitos dos cidadãos e as suas opiniões são respeitadas, ou vivemos numa ditadura, vivemos num país onde as liberdades são coarctadas, onde as pessoas vivem amordaçadas e não podem exprimir as suas opiniões. Essa é que é a verdadeira linha que separa e que vai determinar a decisão deste tribunal.”
Trindade, que já foi juiz do Tribunal Supremo, fez questão de recordar ao juiz presidente do Tribunal Judicial do Distrito de Kampfumo, João Guilherme, assim como aos juízes eleitos Amélia Fumo e Ernesto Miuquessene, que o Judiciário é um poder do Estado que “fiscaliza e que faz a aplicação das leis aos casos concretos e cujas decisões prevalecem sobre as demais autoridades”.
“Por isso nós queremos que o tribunal, um órgão de soberania deste país, diga aos moçambicanos e ao mundo em que país é que nós vivemos”, exigiu o advogado de Castel-Branco que ainda desafiou o Tribunal a aplicar a Lei Mãe neste julgamento: “A Constituição é um instrumento bonito e encadernado para ficar nas estantes ou é algo que é vivo e tem que ser aplicado?”.




“Ele (Armando Guebuza) mandou-me para a universidade”




Esta sessão de julgamento ficou também marcada pelo relato emocionado do réu sobre as motivações que o levaram a fazer o post na rede social Facebook em Novembro de 2012.
Anteriormente, Carlos Nuno Castel-Branco contou ter conhecido o antigo Presidente de Moçambique em 1977, “quando eu entrei para as Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM). Ele era na altura comissário político nacional das FPLM e eu fui incorporado nas Forças e depois fui chamado a trabalhar no comissariado político como jornalista. (...) Durante o tempo em que eu estive no comissariado político nacional entre outras actividades também fui chamado muitas vezes a escrever os discursos do comissário político nacional, o Tenente General Armando Emílio Guebuza”.
Castel-Branco acredita que se o jovem político Guebuza lhe confiava a redacção de alguns dos seus discursos era porque havia alguma confiança até porque foi por incentivo deste que ingressou na universidade, tornando-se no académico que é hoje. “Em 1980 o comissário político nacional (Armando Guebuza) chamou-me e mandou-me estudar na universidade porque, disse ele, o país precisava de jovens revolucionários com potencialidade para poderem estudar e assumir as novas tarefas do país”.




“Eu permaneci com os meus ideais revolucionários, ele(Armando Guebuza) não”




Porém, quando questionado sobre como esta identidade revolucionária se perdeu o réu usou as palavras do antigo ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, que depois de sair do Governo justificou-se desta forma: “Eu não mudei, o barco é que mudou de rumo”.
“(…) Eu com o Presidente Guebuza, quando ele era comissário político nacional, aprendi o Marxismo-Leninismo, aprendi sobre o socialismo” entretanto o académico começou a emocionar-se ao lembrar-se do período da revolução. Com a voz embargada e com lágrimas nos olhos Castel-Branco acrescentou: “aprendi os valores da revolução, aprendi a superioridades dos sistemas sociais que servem os povos e que estão ao serviço do desenvolvimento dos povos. Aprendi isso com ele, aprendi isso com Samora, aprendi isso com Marcelino, aprendi isso com o povo moçambicano. Quando esses princípios são violados eu tenho duas opções: ou me mantenho no barco ou violo-os”.

Visivelmente emocionado, o economista, prestigiado nacional e internacionalmente, pegou na garrafa com a água que bebia e leu no rótulo uma conhecida frase do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel: “Não façamos da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumulação. Quem disse isso? A minha opção está clara”.
O juiz João Guilherme acalmou o réu, que na altura estava a ser inquirido pelo seu advogado que procurava esclarecer se a motivação do post que fez para os seus amigos na rede social Facebook seria a de “enxovalhar a honra do Presidente”.
“Eu não tenho nenhum assunto pessoal ou particular com o cidadão Armando Emílio Guebuza, com quem eu não privo”. Ainda emocionado, Castel-Branco explicou que pessoalmente não tem nem nunca teve nenhum conflito com o antigo Chefe de Estado; contudo, enquanto ele permaneceu com os seus ideais revolucionários, com os seus ideais socialistas e com os seus ideais comunistas, Armando Guebuza, por sua vez, tornou-se um capitalista; por isso, o réu achou “que seria não só meu direito mas seria minha obrigação, como cidadão deste país, manifestar o que é que eu penso, o que é a minha opinião sobre o que estava acontecer com a governação”.



Fernando Veloso vai ser julgado em processo autónomo




Seguiu-se a audição do réu Fernando Mbanze, acusado pelo Ministério Público de abuso da Liberdade de Imprensa por publicar o post no jornal MediaFAX, sabendo que o texto atentava, alegadamente, contra a honra e o bom nome do ex-Presidente Guebuza.
Mbanze esclareceu que a relevância da publicação deveu-se ao interesse público do texto que reflectia sobre os temais que na altura eram actuais como a situação de guerra entre forças governamentais e do partido Renamo, ou o pico da onda de raptos na cidade de Maputo e na Beira.
O editor do MediaFAX explicou ainda que a idoneidade de quem havia escrito o post também pesou na decisão de o publicar, após consultar o autor que não foi favorável ou contrário ao seu uso, deixando a decisão ao critério dos jornalistas da Mediacoop que não encontraram nada de calunioso ou difamatório e, por isso, o publicaram.
O réu Fernando Veloso, editor do jornal Canal de Moçambique não esteve presente nesta audiência, por se encontrar em tratamento médico fora do país. A Procuradora Sheila Matavele explicou que, devido à impossibilidade de notificar este réu, “o Ministério Público exarou um despacho onde mandou extrair cópias dos autos para se instaurar um processo autónomo”.




“Ele (Castel-Branco) escreveu o que muitos de nós sentimos e que não podemos dizer”




João Carlos Trindade arrolou quatro testemunhas para corroborarem a veracidade dos factos constantes na publicação do réu, tal como manifestarem a sua opinião sobre a existência ou não de difamação ao antigo Chefe de Estado.
Abdul Carimo Issa, membro do partido Frelimo, jurista, antigo magistrado, ex-deputado e membro da sociedade civil, recorda-se de que nos primeiros anos da revolução um dos princípios fundamentais era “unidade, crítica, unidade” e para ele este texto é de alguém que acredita nesse princípio, pelo que “para sermos mais unidos é preciso criticarmos, é preciso respeitarmos as ideias uns dos outros”.
João Carrilho, também membro do partido no poder, engenheiro e antigo governante, afirmou que Castel-Branco é um patriota e que “se há uma coisa que ele não gosta é que se ponha em causa o país”.
“Eu quando li o texto admirei a coragem que o Dr. Castel-Branco teve e pensei que ele escreveu o que muitos de nós sentem e que não podem dizer por várias razões” declarou Teresinha da Silva, reformada do Estado e activista de Direitos Humanos.
O também académico, José Jaime Macuane, testemunhou afirmando não concordar na íntegra com o post mas que se reviu na sua essencial e considerou o texto “um desabafo”.
Depois, dois jornalistas, Francisco Chirindza e Armando Nenane, testemunharam a favor de Fernando Mbanze e, sem interrupção, o julgamento seguiu para as alegações finais.




“O interesse público não se confunde com o interesse do público”




Como seria de esperar, o Ministério Público pediu a condenação dos réus. “Liberdade de Expressão e opinião não é um direito absoluto, ele encontra limites noutros direitos igualmente legitimados e constitucionalmente protegidos, razão por que deve ser exercido com grande ponderação cívica e com respeito das pessoas sobre as quais recai a opinião emitida”, começou por argumentar a Procuradora Sheila Matavele.

“Na verdade, tais acusações e afirmações extravasam os limites toleráveis no exercício do direito à Liberdade de Expressão e de opinião e consubstanciam a prática do crime de difamação. (…) No caso em análise, o réu usou a escrita e ao escrever o referido post teve tempo suficiente para escolher as palavras que pretendia usar e fazer um exame das palavras e não ignorava o conteúdo ofensivo das mesmas”, acrescentou a representante do Ministério Público que entende ainda que o que está em causa é “a forma que o réu usou para poder exprimir essa sua opinião sobre a forma de governação do Presidente da República na altura”.
Relativamente ao réu Fernando Mbanze a Procuradora Sheila Matavele afirmou que “o interesse público não se confunde com o interesse do público em possuir mais ampla informação sobre o tema. Na verdade o interesse do público não conhece qualquer limite representando quase sempre a expressão de uma insatisfeita curiosidade que explica a existência de um amplo sector da Imprensa dedicada precisamente à concretização desse interesse mas não justifica penalmente a conduta no caso de lesões típicas da honra ou consideração de uma pessoa por muito grande que seja o interesse do público naquela informação”.
“O réu, ao publicar o referido texto, mesmo não sendo da sua autoria, tinha conhecimento perfeito que o mesmo imputava factos e princípios à honra e consideração do Presidente, pôde obstar à publicação do mesmo mas não o fez nem mesmo censurar e publicou o texto na sua íntegra”; por isso, o Ministério Público entendeu estarem reunidos os elementos da prática do crime e requereu que ambos sejam condenados nas penas previstas”.




“Nunca em momento algum Sua Excelência o ex-Presidente foi ouvido”




Naturalmente o entendimento da defesa é divergente. “O que foi produzido nesta audiência que possa levar à condenação dos réus? Nada. Absolutamente nada. O que aqui foi trazido pelo Ministério Público é a sua interpretação de que dizer ao Chefe de Estado "você está fora de controlo" é uma coisa que atinge a honra dele; portanto, é um problema de palavras”, afirmou ainda João Carlos Trindade nas suas alegações e pediu, obviamente, a absolvição do réu Carlos Nuno Castel-Branco.
Já o advogado de defesa do editor do MediaFAX lembrou que para um político, agindo na qualidade de figura pública, os “limites da crítica são muito mais alargados do que aqueles limites quando referentes a um particular anónimo. Inevitavelmente e de forma consciente um político expõe-se a um controlo atento, mais apertado dos seus actos, quer por parte dos jornalistas, quer por parte da massa abstracta e indeterminada dos cidadãos que constituem o povo (...)”
O advogado Álvaro Bastos argumentou ainda afirmando que o Ministério Público sustentou a acusação “sob o ponto de vista de imputar a responsabilidade criminal dentro de um crime particular, à pessoa do particular cidadão Armando Emílio Guebuza, e depois na sua vertente pública a Sua Excelência o Presidente da República, na altura”.
O defensor de Mbanze chamou a atenção para o facto de “nunca em momento algum Sua Excelência o ex-Presidente foi ouvido relativamente ao teor do texto que estava aqui a ser colocado em causa” e explicou a relevância no facto de “se é relativamente ao particular há naturalmente uma omissão nítida de formalidade processuais porque o próprio não produziu nenhuma acusação nem tomou posição sobre o conteúdo desse texto, e sob essa matéria não pode um terceiro, neste caso o Ministério Público, vir dizer que aquelas expressões são atentatórias à honra de alguém que não se manifestou (publicamente).”



A Verdade

Tuesday, 1 September 2015

Marco do correio, por Machado da Graça

Olá, Felizberto
Como estás, meu bom amigo? Do meu lado tudo bem, felizmente.
Mas profundamente chocado com o assassinato do meu colega Paulo Machava.
Não faço a menor ideia das razões por que mataram o Paulo. Há muitos anos que não tinha contacto com ele e nada sei da sua vida, nem sequer sou leitor do jornal que editava, mas uma coisa eu sei: ninguém deve ter a morte que o Paulo teve. Que o Gilles Cistac teve. Que tantos outros tiveram desde o Carlos Cardoso para cá.
E o fenómeno, em vez de estar a melhorar, está cada vez pior. Este ano vai a meio e já tivemos Gilles Cistac, Ali Mussa e agora o Paulo Machava. Em anos recentes tivemos o juiz Silica, Vicente Ramaya e o alfandegário Orlando José. E a lista vai crescendo, de ano para ano, até chegarmos a Siba Siba Macuácua e Carlos Cardoso.
E todos com uma coisa em comum: os mandantes dos crimes nunca foram encontrados. No caso Cardoso foram punidos os executantes e os financiadores mas nunca o(s) mandante(s). Nos outros casos nem sequer isso. A PRM afirma sempre estar a trabalhar para encontrar os culpados, mas tanto trabalho nunca desemboca na solução dos casos mas sim no esquecimento.
Entretanto, os mortos acumulam-se e os criminosos, animados com a sua impunidade, não deixarão de continuar as suas actividades.
Recentemente foram feitas alterações no comando da estrutura policial. Talvez seja agora o momento de os novos empossados mostrarem que
são de outra estirpe em relação aos que saíram. Se a oportunidade não for aproveitada saberemos que mudaram as moscas mas o resto está na mesma.
A verdade é que, enquanto os verdadeiros criminosos deste país gozam a vida impunes e serenos, as autoridades gastam tempo e dinheiro a perseguir académicos e jornalistas. Sem repararem que o que mais estão a gastar é o prestígio que essas estruturas deviam gozar junto dos cidadãos. Prestígio que se afunda de dia para dia.
E a sensação que dá é que o partido que se afirma como a força da mudança é quem mais se esforça para que nada disto mude. Eles lá saberão porquê...
 
Um abraço para ti do

Machado da Graça, Correio da manhã

Tempos tenebrosos


Mais uma vez estamos à beira do desastre. A reunião dos combatentes da Renamo, em Quelimane, e as suas decisões, vieram, mais uma vez, dizer-nos que, desta vez, o partido de Afonso Dhlakama não quer voltar a engolir sapos. E as cinco emboscadas seguidas a uma coluna policial, em Moatize, serviram apenas para tornar essa ideia mais credível.
Qualquer pessoa de bom senso teria percebido que fazer uma fraude eleitoral de grande dimensão, em Outubro de 2014, poderia acarretar o risco de uma nova guerra. Infelizmente, no partido que controlava o Governo da época parece que não havia pessoas de bom senso. Apenas se vislumbravam “clarividentes” e “visionários”. E o resultado é este que temos agora.
Os tais achavam que se, no passado, Dhlakama tinha engolido os sapos todos, agora iria engolir mais um.
Só que observadores mais atentos deviam ter percebido que, desta vez, a coisa parecia diferente. A gota tinha feito transbordar o copo e, agora, já era impossível voltar as coisas para trás.
Mas, pelo contrário, tudo continuou a ser tratado da mesma forma, esperando que o passer do tempo e os constantes apelos à Paz e unidade nacional iriam resolver o problema.
Só que a Renamo já não está aí. Tácticas que, levadas a sério, poderiam ter tido sucesso no passado, hoje já não têm credibilidade. Embora eu acredite que Dhlakama é um homem que quer a Paz, a intransigência total do Governo do partido Frelimo está a atirá- lo para os braços dos radicais da Renamo. E os resultados só podem ser péssimos para todos nós.
Estas propostas de encontro Nyusi/Dhlakama com agenda vaga não vão resolver nada. A Frelimo e o seu Governo têm de se convencer de que é preciso fazerem cedências reais e significativas à Renamo para poderem manter a Paz no país. Mais truques, cambalhotas e flic-flacs já não adiam os acontecimentos.
Não sei se Filipe Nyusi tem poder real para responder a este tipo de situação.
Se não tiver, esperam-nos tempos tenebrosos...







Machado da Graça, Savana,  28-08-2015

Carlos Nuno Castel-Branco: “Estou calmo e relaxado”

“Não me arrependo de ter escrito a carta. Não escrevi para ter protagonismo ou para enxovalhar a ninguém. Naquela altura havia um excesso do culto da personalidade do Chefe do Estado. Saio com o mesmo sentimento com que entrei no tribunal: calmo e relaxado. Penso que a sessão decorreu conforme os procedimentos e é com muita pena que teremos de aguardar para conhecer a sentença”, comentou após o julgamento que teve lugar nesta segunda-feira (31), no Tribunal Judicial de KaMpfumo,  o réu Carlos Nuno Castel-Branco acusado de crime contra a segurança do Estado por ter publicado, na rede social Facebook, uma carta aberta e crítica dirigida ao então Presidente da República, Armando Guebuza.Carlos Nuno Castel-Branco
São co-réus deste processo os jornalistas Fernando Mbanze e Fernando Veloso, ambos acusados de abuso de liberdade de imprensa por terem difundido a referida carta no jornais MediaFax e Canal de Moçambique.
A leitura da sentença deste caso que na manhã desta segunda-feira (31) juntou dezenas de pessoas nas artérias da cidade de Maputo numa marcha pacífica que visava repudiar este julgamento, está agendada para o próximo dia 16 de Setembro.
“Estou calmo e relaxado. Na conjuntura actual, o discurso político melhorou bastante, ou seja, sofreu uma grande transformação. Olho para o actual Presidente da República como um homem simples e humilde”, comentou Carlos Nuno Castel-Branco, minutos depois de ter abandonado a sala de julgamento.
“Não está em causa a liberdade de opinião”, Ministério Público
JulgamentoA representante do Ministério Público, Sheila Matavele, reiterou que o economista Castel-Branco abusou da liberdade de expressão para injuriar a figura máxima da República. A acusação entendeu, outrossim, que o acusado usou expressões que atentam contra a honra de um Chefe de Estado tendo, na alegação final, pedido uma condenação exemplar.
“O réu ao escrever a carta teve tempo suficiente para escolher os termos adequados para se dirigir ao Presidente da República. Não está em causa a liberdade de opinião. Está, porque sim, as expressões usadas,” disse a representante da acusação.
“O contexto político impulsionou a existência da carta”, Armando Nenane
Os advogados de defesa, por sua vez, solicitaram a presença de testemunhas de Carlos Nuno Castel-Branco. Abdul Issa, que já foi director da Unidade Técnica de Reforma Legal, procurador e juiz, foi o primeiro a apresentar o rosto nessa qualidade de “padrinho de um duelista”.
Disse, em sede do tribunal, que não viu na polémica carta qualquer intenção de se ofender a dignidade e a honra do então estadista moçambicano Armando Guebuza.
Seguidamente, Armando Nenane, jornalista e director executivo da Associação Moçambicana do Jornalismo Judiciário, apresentou-se diante do juiz em defesa de Carlos Nuno Castel-Branco. Com palavras contundentes afirmou que o economista e docente universitário fez um crítica mordaz e severa, lamentando o facto de não ter sido mais profundo na medida em que o contexto político caracterizado por uma tensão política assim permitia.
“Estávamos praticamente numa situação de ingovernabilidade. De forma alguma o artigo de opinião atenta contra a honra do Presidente da República. A carta segue alguns princípios de uma boa sátira e de bom humor”, afirmou Nenane.Julgamento
Foram igualmente ouvidos João Carrilho, engenheiro e antigo vice-ministro da Agricultura, Terezinha da Silva, membro fundadora do Instituto dos Estudos Sociais e Económicos (IESE), Jaime Macuane e Francisco Chirindza. De uma forma geral, estas testemunhas coincidiram na ideia de que não houve e não há nada de anormal na carta pública endereçada a Armando Guebuza, enquanto Chefe de Estado, por Nuno Castel-Branco. Para estes, “ela não passa de um artigo de opinião e do interesse de todos visto que descobre os reais problemas do país”.
A defesa pediu a absolvição dos réus
Satisfeito pelos depoimentos das testemunhas, o advogado de defesa, João Trindade, pediu ao juiz a absolvição dos réus pois, no seu entender, não cometeram nenhum crime na esteira da liberdade de expressão.11221696_1638057606433208_3186815496229490159_n
A mesma opinião teve Simão Tila, director executivo da Liga das Organizações Não-Governamentais, que a seu ver este julgamento encerra um acto repudiável. Ou seja, a ter de haver um condenado, esse que seja este exercício de levar alguém que simplesmente fez uma opinião para o banco de réus.
“O meu desejo é de ver todos os acusados absolvidos. Entendo que não há matéria suficiente para a condenação. Quero acreditar que o juiz da causa vai dar um melhor desfecho a este julgamento, sobretudo um que possa devolver a confiança a todos os cidadãos moçambicanos face a esta grande ameaça de liberdade de imprensa no país. Estaremos aqui no dia 16 para testemunhar o encerramento deste caso.”